Quem herdará os votos de Lula?

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FOTO: Ricardo Stuckert (Divulgação PT)

Parece-me mais do que óbvio que Lula não concorrerá às eleições em 2018. Mesmo que deixe a cela da Polícia Federal, em Curitiba, a Lei da Ficha Limpa impossibilitaria qualquer candidatura do ex-presidente. Por isso, seguir insuflando o retorno do petista ao páreo não é bravata. O partido realmente não deve saber o que fazer. Sem ter formado outras lideranças, o PT está prestes a ver seu eleitorado se dissipar entre sete candidatos diferentes de outras siglas. E o mais curioso disso tudo é: quem subiu no palanque com Lula, em São Bernardo do Campo, não necessariamente herdará os votos em outubro. Pelo menos é isso o que aponta a pesquisa do Datafolha divulgada neste domingo – a primeira depois da prisão do ex-presidente.

Mesmo detido, Lula é detentor de 31% das intenções de voto em um cenário que tem Henrique Meirelles como candidato à sucessão do governo Temer e do MDB. Seu opositor em um eventual segundo turno seria Jair Bolsonaro (PSL), com 15%. E aí entra em cena a esquizofrenia política brasileira. Caso o PT lance Fernando Haddad como Plano B, 29% dos votos migrariam. O ex-prefeito de São Paulo conseguiu pontuar apenas 2% na referida pesquisa. Quem herdou os outros? Simplesmente, 10% dos eleitores de Lula votariam branco ou nulo – o que já dá uma ideia de que esta pode ser a eleição com o maior número de votos invalidados e abstenções da história do país. Entre os candidatos, Marina Silva (REDE) é a principal beneficiária, aumentando de 10% para 15% seu eleitorado. Logo atrás, vem Ciro Gomes (PDT), que deixaria os 5% para alcançar os 9%. Depois, o principal opositor petista, Bolsonaro, herdaria 2% para chegar a 17% – com os mesmos 2%, Álvaro Dias (Podemos) alcançaria 5%. E, por fim, outros 1% seriam distribuídos entre Joaquim Barbosa (PSB), que iria aos 9%; Geraldo Alckmin (PSDB), chegando aos 7%; Fernando Collor de Mello (PTC), subindo para 2%; e João Amoêdo (NOVO), que teria seu primeiro ponto percentual. O mais incrível nisso tudo é que Manuela D’Ávila (PCdoB) e Guilherme Boulos (PSOL), que subiram ao palanque e defenderam Lula publicamente, seguiriam com seus quadros inalterados – com 2% e zero vírgula alguma coisa.

Obviamente, o argumento de que é cedo e muita água ainda vai rolar por debaixo desta ponte é convincente. Ainda virão à tona muitas denúncias, “outsiders” de última hora podem ingressar no páreo, candidatos podem sair e formar alianças… Os debates e os tempos de propaganda também irão influenciar muito na intenção de voto. No entanto, uma constatação já pode ser feita: a de que Lula não terá um herdeiro direto e seu aglomerado de votos será pulverizado.

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Queria ter a certeza de um manifestante

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Não tenho dúvidas de que vivemos um momento histórico no Brasil. Não é todo dia que se vê um ex-presidente da República sendo condenado à prisão. Mas, no momento em que o país eclode em manifestações pró e contra Lula, não consigo tomar partido. Sou acusado de omisso e antipatriota pelos dois lados e, mesmo assim, não consigo descer do muro. Se pudesse me direcionar a ambos os manifestantes, eu diria: juro que gostaria de ter as certezas que vocês têm.

Gostaria de ir à Esquina Democrática, em Porto Alegre, acreditando piamente que Lula é inocente. Que realmente não existe nenhuma prova cabal e nenhum indício sobre o triplex do Guarujá ser dele. É mais do que claro que há uma motivação política, a ponto de acelerar o julgamento e o pedido de prisão – que noutros casos se arrastam por anos (vide Paulo Maluf). Mesmo assim, não creio que a intenção seja puramente tirar Lula da corrida eleitoral – até porque, suspeito que sua motivação seja eleger-se para conseguir foro privilegiado a fim de escapar da justiça. Não vejo um projeto de governo, e mesmo que visse, penso que ele não teria a tão falada governabilidade (o cenário político nacional de 2019 é bem diferente de 2003). Logo, se eu me somasse às vozes que ecoam desde São Bernardo do Campo, estaria me sentindo uma marionete nas mãos de um hábil político que poderia estar me usando para fins pessoais.

Adoraria ir ao Parcão, no bairro porto-alegrense Moinhos de Vento, mas também não teria a certeza de estar fazendo o certo. Custo a acreditar que, com a prisão de Lula, a impunidade terá fim no Brasil, que todos os outros políticos envolvidos em casos de corrupção também terão o mesmo destino. Desconfio de perseguição a um político, a um partido. Desculpem, mas não chamo de herói um juiz que se permite ser fotografado com políticos que já foram gravados instruindo terceiros a como receber propina e/ou como era preciso escolher um receptor possível de ser morto em caso de delação. Também custo a crer em um procurador da República que promete fazer orações e greve de fome ao invés de se ater às provas jurídicas. Por mais que eu queira acreditar em Lula vilão, teimo em dividir a rua com quem defende o militarismo como principal proposta para a saúde pública ou educação, saudando inclusive a memória de torturadores. Sou um democrata acima de tudo!

Podem me chamar de coxinha ou mortadela; comunista ou neoliberal. É a esse radicalismo que não me somo. Vou continuar em cima do muro, até segundo aviso.

Que tiro foi esse, cidadão de bem?

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Calma! Não sou fã de Jojo Todynho e sua música “Que tiro foi esse“. Também não aprecio os conchavos escusos que fez o PT e nem quero ver Lula presidente em 2019. Se ambos vierem na minha cidade – seja para um show musical ou político -, eu simplesmente não vou. O fato de eu não ser simpatizante de um ou outro não me obriga a impedir que outros também compareçam. Ou pior: não me dá o direito de recepcionar a qualquer um deles e seus simpatizantes a balas ou pedradas. Se eu o fizer, mesmo que não acerte ninguém, estarei atentando contra a vida alheia. Logo, se estou contra a lei, não estarei sendo um “cidadão de bem“. Não é mesmo?

Acontece que este pensamento lógico não foi seguido à risca pelas pessoas que resolveram recepcionar a “caravana de Lula” pelas cidades do sul do país. No Rio Grande do Sul, já ocorreram incidências de pedras contra a comitiva que levava o ex-presidente (contando, inclusive, com o apoio explícito de políticos contrários ao petista). Em Curitiba, atingiu-se o ápice. Foram registrados tiros até mesmo contra um ônibus que transportava jornalistas. Antes que alguém me prometa de morte por supostamente estar defendendo o “lulopetismo“, deixo aqui um texto antigo, em que defendi João Dória, alvo de ovadas em Salvador. Minha lógica para este caso é a mesma: se cada um quiser agredir um candidato ou simpatizante contrário ao seu voto e à sua ideologia, estaremos em uma guerra civil! Já vai um tempo, vivemos um período assim. Certamente você, gaúcho, já ouviu falar em “chimangos” e “maragatos”. A Revolução Federalista, de 1893-1895, fez exatamente isso: fazendeiros de lenços vermelhos degolavam fazendeiros de lenços brancos; civis que queriam mudar o governo, trocavam tiros com soldados da Brigada Militar. É isso que queremos para hoje?

Há uma semana, a vereadora Marielle Franco (PSOL) era executada no Rio de Janeiro. Em seguida, levantou-se um debate nas redes sociais do quanto ela provocou ou não o que lhe aconteceu. Agora, com Lula, o mesmo ocorre. O fato de ele ter sido condenado pelo TRF-4 não me dá o direito de atentar contra sua vida – ou daqueles que o acompanham. Que seja preso, se torne inelegível, ou qualquer coisa que o valha. O que mais me assusta é que, ao mesmo tempo em que esse acirramento de ânimos ocorre, há um número grande de pessoas que defende o fim do estatuto do desarmamento. Imagine você viver em um país onde qualquer um pode adquirir uma arma, julgar-se um “cidadão de bem” e atirar contra aqueles que não lhe agradam. Definitivamente, não importa que tiro foi esse! A pergunta para o momento é: que democracia é essa?

 

Rio de Janeiro: o tubo de ensaio do Brasil

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Foto: Mídia Ninja

 

Para quem se importa apenas com números, foi apenas mais uma vítima para a estatística. Para quem consegue entender as entrelinhas, a morte de Marielle Franco não foi acaso. Mulher, negra, vereadora por um partido de esquerda (PSOL), engajada na luta pelos direitos humanos e crítica da intervenção militar no Rio de Janeiro. Esta pessoa foi assassinada a tiros no centro da cidade que sofre a tal intervenção. Não foi um assalto. Mas há claras evidências de que houve uma execução de motivação política.

O Rio é um grande exemplo de péssima administração pública, onde a corrupção foge do senso comum engravatado e sob o ar condicionado. Nas últimas eleições municipais, o povo carioca tinha a chance de colocar o dedo na verdadeira ferida, elegendo o relator da CPI das milícias. Ou seja, quem escancarou a relação promíscua entre policiais militares, políticos e traficantes (para quem não sabe, o deputado retratado no filme “Tropa de Elite” é inspirado em Marcelo Freixo). Mesmo assim, preferiu eleger o pastor evangélico Marcelo Crivella. Talvez, aos poucos, se dê conta de que para esses assuntos não adianta rezar.

O mais assustador é que, atualmente, o principal expoente político do Estado é Jair Bolsonaro (PSL), que lidera pesquisas pela presidência do Brasil. Pois este carioca, que podia ter uma real noção dos problemas do seu povo, apresenta-se como um boçal que não cansa de repetir: “A minha especialidade é matar, sou capitão de artilharia“. Para se ter uma ideia, sua principal proposta para resolver o problema do tráfico no Rio é sobrevoar os morros com um helicóptero, atirando panfletos que convoquem os traficantes a se entregarem à polícia. Se não se entregarem, passará metralhando todos. Qual a idade mental de uma pessoa que propõe isso? Cinco? E quem aplaude, já sabe ler? Se souber, volte ao início deste texto. Com propostas como essa postas em prática, execuções como as que ocorreram na noite desta quarta-feira serão ainda mais comuns. E aí, o gelo continuaria sendo enxugado enquanto o real problema se expande, matando quem quer aprofundar investigações. E pensar que Michel Temer, através do seu interventor federal, usa a experiência carioca como tubo de ensaio para o plano de segurança pública nacional. Amigos, o Rio neste momento não serve como exemplo para nada! O Rio de Janeiro só continua lindo na música mesmo.

A saída de Lula fará bem à corrida eleitoral

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Simpatizantes de Lula, acalmem-se e leiam com atenção! Liberais de plantão, guardem os rojões e sentem na cadeira. Eleitores de Bolsonaro, vocês sim, podem se retirar: este texto irá irritar vocês! Não vou discorrer sobre a validade do julgamento ocorrido no TRF-4 nesta quarta-feira, que condenou o petista. Quero é tentar analisar o contexto que se desenhará a partir da impugnação da candidatura do ex-presidente para o pleito de 2018. E minha conclusão é: a saída de Lula fará bem à corrida eleitoral. Já expliquei meu posicionamento noutro post em julho do ano passado, mas agora que está mais cristalino, faço novamente.

A simples presença de Lula bipolarizaria o pleito, tornando qualquer debate político pobre e raso. A proposição de ideias já é deixada em segundo plano naturalmente, imagine só a quantidade de acusações pessoais e a troca de ofensas que iríamos ouvir em outubro. Seria uma verdadeira briga de bugios! Isso aconteceria graças à rejeição atrelada ao candidato do PT. Conforme pesquisa da Datafolha divulgada em dezembro, Lula é o pré-candidato com maior índice: 39%. Com sua saída do cenário eleitoral, Jair Bolsonaro (PSL) torna-se o escolhido – com 28% de rejeição. Meu único temor é que os votos que eventualmente seriam destinados a Lula acabem pulverizados em diferentes campanhas – entre outro candidato petista como Fernando Haddad ou Jaques Wagner, Marina Silva (REDE), Ciro Gomes (PDT) e Manuela D’Ávila (PCdoB). Mesmo assim, tal pesquisa não apresenta capacidade para Bolsonaro vencer a eleição no primeiro turno, ou seja alcançar mais que 50% dos votos nacionais (graças a esta alta rejeição que tem). Portanto, candidatos de centro-esquerda ganhariam força para alcançar e/ou ultrapassar o ex-militar reacionário num eventual segundo turno.

Por fim, me direciono a você, caro leitor autoproclamado de esquerda. Não resta dúvidas de que, se Lula tivesse sido absolvido na tarde de hoje, possivelmente venceria as eleições de 2018. Mas e aí, se não tivéssemos nenhuma guerra civil ou golpe de Estado até dezembro, ele governaria como? Seria questão de tempo até sofrer um impeachment, prolongando ainda mais a crise institucional em que o Brasil se meteu. Por favor, não seja birrento! Conscientize-se de uma vez por todas que o mar não está para peixe! Ou pior: a onda conservadora é mundial e você está fora de moda. Esquerdistas franceses e alemães já se dobraram a candidaturas de centro e direita (Macron e Merkel, respectivamente) para não entregar o país aos nacionalistas de extrema-direita. Norte-americanos e chilenos que ironizaram o crescimento conservador acabaram sobrepujados por Trump e Piñera (que angariou para si apoiadores da ditadura de Pinochet). E aí, qual destino você quer: um governo de centro, centro-esquerda ou uma aliança da direita conservadora que bate continência a torturador?

Eleição sem Lula é fraude?

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Com helicópteros sobrevoando nossas cabeças, sentamos dois amigos e eu em uma mesa de bar. Porto Alegre respira o julgamento do ex-presidente Lula. Por nós, passam algumas pessoas portando bandeiras do PT, camisas vermelhas com o rosto do ex-presidente e os seguintes dizeres: “Eleição sem Lula é fraude”. Leio a frase em voz alta.

Petista! – salta o primeiro amigo.
– Mas eu só li o que estava escrito na camisa daquele cara, meu! – tento contemporizar.
– Golpista! – rebate o segundo amigo, do outro lado da mesa.
– Não, pelo contrário! Sou contra este governo Temer. E penso que até tenho muitos pensamentos em comum com a esquerda. Sou a favor das cotas nas universidades públicas, do SUS, do Bolsa Família, da seguridade social, dos direitos trabalhistas, de uma melhor distribuição de renda…
– Comunista!
– Não! Pelo que estudei, creio que sou um social-democrata.
– Vendido!
– Que nada! Não me vejo votando no PSDB, DEM, PP… Não quero o Bolsonaro, por exemplo.
– Apoiador de corrupto!
– Cara, vi muitos avanços sociais nos governos petistas, mas não consigo ignorar o ‘Mensalão’, ‘Petrolão’… Isso me afasta da possiblidade de defender o Lula de olhos fechados!
– Manipulado!
– Meu, só estou analisando o contexto! Vamos imaginar que o Lula seja absolvido no TRF-4 nesta quarta-feira. E consideremos que ele vença as eleições em outubro. Ele conseguiria governar sem as alianças que construiu para 2002? Conseguiria fazer o quê sem apoio do Senado e da Câmara? Só se ele dissolvesse tudo e desse um golpe de Estado!
– Bolivariano!
– Eu não estou apoiando isso que eu acabei de dizer! Sou um democrata, poxa vida. E justamente por não ver poder de governabilidade, nem projeto de governo a não ser uma tentativa desesperada de se agarrar ao poder, não votaria no Lula.
– Imperialista!
– Até parece que tu não me conhece! Sou contra a privatização de estatais, como a Petrobrás.
– Mamador das tetas do Estado!
– Cara, me respeita! Eu até trabalho para uma empresa privada.
– Pelego de patrão!
– Gente, o que quero dizer é que sou a favor do Estado de Bem Estar Social. Não de um Estado inchado, com mil ministérios e CC’s, mas um Estado justo que beneficie a quem realmente precisa. Olha o quanto a gente paga em impostos…
– Imposto é roubo!
– Não, calma! Sou a favor dos impostos. E justamente por isso cobro um melhor retorno em serviços públicos.
– A culpa é da sonegação!
– Até pode ser, mas nem sempre. Olha o quanto se desviou para comprar deputados, senadores…
– Admite que o PT é corrupto então?
– Alguns membros do partido, sim, foram. Assim como todos outros partidos têm alguém com o rabo preso, seja como corruptor ou corruptível.
– Estão perseguindo o Lula! Por isso, eleição sem ele é fraude. Concorda?
– Não. Preferia uma eleição sem ele. Mas que deixasse de concorrer por vontade própria. Já deu o que tinha que dar.
– Boa! Então, concorda comigo que ele é culpado?
– Não sei. Sou leigo em advocacia, mas pelo que tenho acompanhado, o Ministério Público tem tido dificuldade de apresentar provas. Isso é grave!
– Cadê a democracia?!
– Calma!
– Vocês é que querem implantar uma ditadura!
– Chega! Vamos embora. Garçom, traz a conta! – a mesa ficou em silêncio absoluto.

– Aqui, senhor! – chegou a nota fiscal em uma bandeja.
– Divide por três, por favor!
– O senhor está esperando mais alguém? Está sozinho na mesa desde que chegou.

A experiência antropológica que é correr

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Moro em Porto Alegre há quase 8 anos e, desde que vim pra cá, passei a ter uma vida mais sedentária. Tentei inúmeras vezes me readaptar a jogar futebol, correr, me exercitar. Mas sempre acabo voltando a uma vida mais boêmia. De um mês para cá, voltei a me exercitar. Passei a correr no Parque da Redenção, fazer exercícios em casa e etc. Hoje resolvi fazer diferente, ir além: prestar atenção no meu corpo e ver como ele fala comigo, ser mais sensível e compreender como ele vem se adaptando a essa nova rotina.

Comecei a correr na esquina da Av. Loureiro da Silva com José do Patrocínio, e ali já percebi o quanto a roupa que se usa faz diferença na hora de correr. Eu estava com uma camisa mais colada, dessas de ginástica, e não as mais largas de algodão que costumo vestir no dia a dia. Então, quanto mais eu corria, mais a camisa colava no meu corpo e me fazia pesar além do normal. Além disso, antes mesmo de chegar à Redenção, reparei no ar que eu respirava, que era muito mais poluído, devido à fumaça dos carros e ônibus que ali passavam. E para piorar, ao atravessar as ruas, notei que a tensão do trânsito ao redor aumentava minha pulsação a cada esquina. E isso me atrapalhou bastante, porque meu coração batia mais forte e forçava minha respiração.

Ao adentrar a Redenção, passei a notar o choque dos meus ossos com o solo – o movimento do meu joelho a cada impacto, assim como meu tornozelo. Percebi a maneira como meus músculos passaram a enrijecer e notei que estava mais cansado do que o normal, como se já estivesse no final da corrida. E eu apenas estava começando! Ao ficar prestando atenção nas minhas pernas, notei também como meu pé pisava no chão. Como choveu hoje, o terreno estava mais escorregadio. Meu pé deu pequenas escorregadas pela terra algumas vezes, e eu passei a temer que viesse a perder o equilíbrio. Completamente aterrorizado por essa possibilidade de cair e me machucar, desacelerei o passo e caminhei. Estava na altura do Teatro Araújo Viana e não estava exatamente cansado, mas o terror me aumentou a adrenalina e fez respirar errado. Enquanto eu caminhava, desviei minha atenção para a música que estava ouvindo. Geralmente, escolho bandas de rock para me movimentar com vontade. Dessa vez eu havia colocado Jorge Drexler, que é um pouco mais lento, introspectivo, e estava tirando o meu pique. Então, concluí que a música também influencia na maneira de correr. Ainda mais quando notei que gostava da música e começava a cantar, o que me fazia respirar errado outra vez. Foi interessante perceber o quanto a música pode me desviar a atenção. Reduzi o volume do fone de ouvido e voltei a correr, passando o Parquinho da Redenção. Até que senti escorrer uma gota de suor pela nuca. Meus cabelos já estavam molhados e aquele choque do corpo quente com a gota gelada que escorria pescoço abaixo também me desconcentrou. Todas as zonas suadas passaram a pulsar.

Voltei a caminhar, fazendo o trajeto onde costumeiramente se instala o Brique da Redenção. Foi quando ouvi alguns passos se aproximando de minhas costas, dando a impressão de que alguém iria me ultrapassar em instantes. Isso me injetou uma adrenalina tremenda, e o senso de competitividade foi despertado. Pensei que não podia deixar que ninguém me ultrapassasse e acelerei numa corrida. Quando estava quase chegando à curva da praça, entrando na Av. João Pessoa, olhei para trás e não vi ninguém. Foram três segundos, no máximo, onde concluí que eu estava sozinho, na verdade competindo comigo mesmo. Ao realmente fazer a curva, quando consegui virar meu corpo, olhei para o lado e vi que de fato havia alguém lá atrás. Ou seja, eu disparei e tirei uma boa distância daquele competidor imaginário. Mas foi muito estúpido da minha parte, porque forcei demais e estava exausto, cansado, sentindo quentes os músculos da perna, que puxavam. Logo seria ultrapassado por ele, já que desacelerei até voltar a caminhar. Dei mais uns passos até um banco de madeira, onde fiz alongamentos e deitei para algumas abdominais.

Assim como antes, resolvi prestar atenção no meu corpo de maneira mais sensível. Geralmente, faço de 4 a 6 séries de 20 abdominais. Dessa vez, consegui fazer só uma série. Era como se meus músculos da barriga fossem saltar para fora. Sentia algumas câimbras na panturrilha e parei. Resolvi que ali eu iria retornar para casa. Não aguentei metade ou um terço do tempo que eu tenho feito ultimamente. Além disso, a sede foi muito maior também. Não pensava noutra coisa que não chegar de uma vez para beber água. Foi muito interessante. No caminho de volta, concluí que tive uma experiência “huxleyiana”. Concluí o quanto o nosso corpo fala diariamente conosco e mesmo assim o ignoramos. O quanto forçamos nossa carcaça. Foi realmente uma experiência antropológica! De certo, daqui uns dois dias vou voltar a correr de novo. Mas dessa vez, aprendi: se quiser ser mais duradouro na tarefa, é melhor desviar o foco de mim mesmo.

A linha nada tênue entre paquera e assédio

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Eu ia deixar passar, já que as mulheres estavam travando um bom debate. Eis que meus camaradas de cromossomos se infiltraram e então me senti chamado ao ringue! Para quem não acompanhou, atrizes e atores vestiram a cor preta no Globo de Ouro 2018 como uma forma de protesto contra as acusações de assédio sexual em Hollywood. Mas veio o contragolpe! Na França, artistas e intelectuais (entre elas, a atriz Catherine Deneuve) assinaram uma carta no jornal Le Monde condenando o protesto: “Nós defendemos a liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual“. No Brasil, em entrevista ao jornal O Globo, onde é colunista, a escritora Danuza Leão foi ainda mais longe: “É ótimo passar em frente a uma obra e receber um elogio. Sou desse tempo. Acho que toda mulher deveria ser assediada pelo menos três vezes por semana para ser feliz“. Pronto! Estava inaugurada a contagem regressiva para a bomba. Não vou me meter na discussão das moças. Quero me ater aos urros e socos na mesa dos marmanjos que bradaram felizes porque finalmente alguém botou o dedo na cara dessas “tais feministas”.

Não sou nenhum Martinho da Vila, mas já paquerei muito. Muitas vezes fui correspondido e noutras tantas não. Evidentemente, nas minhas abordagens amorosas, jamais toquei sem consentimento em alguém. Um assunto puxado na parada do ônibus, no balcão do bar e lá vamos nós. Na era das redes sociais, a tarefa ficou até mais fácil. Basta uma mensagem correspondida e ali temos uma conversa inaugurada. E quando não há o retorno esperado? A ausência de uma resposta, ou uma resposta mais seca, ou ainda uma negativa para um encontro significa o fim do papo. É do jogo! Aí está a paquera. Qualquer insistência além disso – um deslizar de mãos pelo corpo alheio, uma tentativa de beijo à força, uma enxurrada de pedidos para sair – deixou de ser. Não é difícil de perceber quando a paquera ultrapassa o seu limite. Não é uma linha tênue em que, num piscar de olhos, se escorrega para o outro lado. Há mais dois ou três terrenos separando a paquera do assédio. Primeiro vem a inconveniência, depois o desconforto e por fim a repulsa. E o pior tipo de assediador é o dissimulado. Aquele que faz e não reconhece. É inclusive capaz de inverter os papeis e dizer que a mulher (de mente suja) pensou bobagem!

Ah, mas se não fosse meu pai assediar minha mãe, eu não estaria aqui!” Este argumento só serve se você foi concebido em um estupro. A época em que o homem catava a mulher com um tacape e arrastava pelos cabelos para procriar ficou na Era das Cavernas. Se buscar na minha árvore genealógica, talvez encontre este comportamento no meu tatatatatataravô. Mas ainda assim vai existir alguém para dizer que o mundo está chato e que o politicamente correto está ferrando com as relações humanas. Perceba que não! Aqui vos escreve um cidadão que, quando o assunto é liberdade sexual, está mais do que de acordo – desde que, obviamente, haja consentimento mútuo. Por fim, pergunto aos homens que acham ‘mimimi’ a reação das mulheres aos assobios e abordagens grosseiras, de que forma reagiriam caso recebessem o mesmo tratamento de homossexuais. Se é uma simples paquera, por que a maioria reage como se estivesse sofrendo um atentado violento ao pudor?

Devia ser proibido morrer jovem

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Em menos de um ano, a segunda paulada: o segundo amigo do peito que se vai precocemente! E pensar que em uma das últimas vezes que saímos juntos, um me consolava pela morte do outro. Devia ser proibido morrer jovem, com pouco mais de 30 anos. Assim se foi o Robson. Tão inteligente, de humor tão perspicaz, que fazia eu me sentir lisonjeado por simplesmente estar ali, dividindo a mesa do bar, a mesma garrafa de cerveja, ou por ter me convidado a ir na casa dele, cantar a mesma música enquanto ele tocava violão. Daqueles caras que a gente lamenta por não ter convivido mais, aceitado mais convites para churrascadas, peladas no fim de semana, uma bebida na esquina. Mas também, quem iria imaginar que passaria assim, feito um foguete por este planeta?!

Nem deu tempo de se despedir, de pedir a “saideira”. Queria ouvir a última piada, cantar uma última música do Legião Urbana antes da síndica lembrar que é domingo e amanhã todo mundo trabalha cedo. Queria poder ter dito que adorei ser chamado para palestrar para a turma de jornalismo dele. Que mesmo achando uma péssima ideia no início (quando fui convidado), saí de lá cheio de tesão pelos olhares interessados dos alunos e com um orgulho danado do amigo que eu tinha. Assim como na vez em que comprei a Revista Superinteressante e vi o nome dele assinando uma das matérias. Aquele cara era meu chapa! E aquelas entrevistas que ele fez para a BBC?! Que crânio, velho! Que orgulho… Que dor!

Na verdade, minha dor é uma dor envergonhada. Nem deveria estar sentindo tanto. Se eu estou assim, o que resta para os pais dele? E a namorada? Cara, queria tanto te dar um abraço, dizer que vai ficar tudo bem, e que logo vai passar. Obrigado por me apresentar a ele. Obrigado por me fazer tão presente, mesmo sem eu estar. “Amado. Te quero mais na nossa vida“, dizia uma das mensagens que trocamos. Eu também queria (e agora percebo, deveria) ter aproveitado bem mais a companhia de vocês! Fica bem. Ele foi muito amado. E isso é cada vez mais difícil nos dias de hoje.

Maria do Rosário: a que merece ser assaltada

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De uns tempos para cá, tornou-se convencional entre as pessoas de bem odiar a deputada federal Maria do Rosário (PT). Sinceramente, não sei se é um fenômeno que se detém apenas ao território gaúcho, ou se estende pelo restante do país. Ela ganhou destaque na imprensa nacional quando bateu de frente com Jair Bolsonaro (então do PP) e ouviu a seguinte sentença do deputado carioca: “Jamais iria estuprar você, porque você não merece!” A declaração foi interpretada como ofensiva pelo STF e rendeu uma indenização de R$ 10 mil. Mesmo que o sentido tenha sido outro, trata-se de uma verdade: Maria do Rosário (assim como qualquer outra mulher) não merece ser estuprada. Talvez se Bolsonaro tivesse dito que a deputada merecesse ser assaltada, aí sim, receberia o aval de inúmeros brasileiros. Afinal de contas, foi o que se viu nesta quinta-feira.

Ela foi mais uma vítima do alto grau de violência gratuita deste país – fruto da desigualdade social latente. Maria do Rosário teve o carro roubado na zona norte de Porto Alegre, quando chegava em casa. E daí, justo três dias depois de comemorarem o Natal com muito amor no coração, gaúchos de diversas cidades do Rio Grande do Sul manifestaram sua ojeriza à deputada via redes sociais. Em tempos onde os direitos humanos viraram sinônimo de “defesa de bandido”, a ex-Ministra da Secretaria dos Direitos Humanos no governo Dilma Rousseff transformou-se na rainha dos assaltantes e homicidas. Não aos olhos dos ocupantes dos presídios, óbvio. Mas sim aos olhos dos cidadãos de bem. Justo ela (como salientou o colega Vinícius Brito em seu Facebook), “autora/relatora de lei que:
– Aumentou a pena para crimes de lesão corporal e homicídio contra policiais;
– Definiu a exploração sexual de crianças como crime hediondo.
– Também tornou crime hediondo o assassinato de mulheres motivado por questões de gênero.
– Garantiu a escuta protegida para crianças vítimas ou testemunhas de violência.
– Ainda foi relatora da CPI que investigou as redes de exploração da prostituição infantil no Brasil.”

Aqui não faço juízo de valor sobre ela ser boa ou má legisladora, ser corrupta ou não, estar num bom ou mau partido, etc. Apenas rebato o rótulo de “defensora de bandido” colado em sua testa, e a comemoração que se seguiu com sua tragédia. Mas sei que, para os detratores da Maria do Rosário, virei alvo da mesma raiva que nela é despejada. Em contrapartida, você  que chegou até o fim deste texto com o coração palpitando, emocionado pela defesa à deputada, leia um trecho da matéria do dia 5 de julho de 1995, publicada no jornal fluminense A Tribuna da Imprensa (na imagem ao lado está na íntegra): “O deputado federal Jair Bolsonaro (PPR-RJ) foi assaltado ontem, quando seguia para panfletear junto a seus eleitores, na Zona Norte do Rio. […] Os criminosos levaram a motocicleta do parlamentar, a Honda Sahara 350, ano 94, placa LAG-0656, e a sua arma, uma pistola Glock 380. […] ‘Mesmo armado me senti indefeso’, comentou o parlamentar“. Se você soltou um sorriso de canto de boca, ou praguejou alto contra Bolsonaro, cuidado! Está fazendo igual ou pior que aqueles aos quais condena. Nenhum homem ou mulher merece ser assaltado(a) ou estuprado(a), lembra? Nem Marias, nem Jaires.