O machismo grenalizado

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Quem não é do Rio Grande do Sul talvez não entenda – ou talvez entenda se trocar os clubes daqui pelos de sua região. Aqui, todas as causas estão abaixo do futebol. Racismo, machismo, homofobia, xenofobia, preconceitos em geral… Nada mais indigna um gaúcho do que supor que seu time (ou alguém ligado a ele) esteja sendo vítima de uma jutiça seletiva. Eis a chamada “grenalização”. Debochamos diariamente de homossexuais, mas se alguém chama um jogador do meu clube de “viado” (assim mesmo, com i), eu denuncio aos quatro ventos que há um caso de homofobia ocorrendo. Somos todos contrários ao racismo, mas se um cara que torce para o mesmo time que eu chamar um jogador rival de “macaco”, certamente ele teve um motivo plausível. Afinal de contas, por que diabos aquele goleiro demorou para chutar o tiro de meta? Ou por que aquele zagueiro falhou bisonhamente na hora do gol deles? O mesmo se passa com o machismo. Esse “mimimi”, coisa de feminista lésbica e esquerdopata, vira motivo pra eu reivindicar a demissão de um jornalista – desde que esse cara não torça para meu clube. Se ele for meu companheiro de arquibancada, relembro outros casos de machismo explícito que nunca deram em nada para absolvê-lo.

Este último exemplo ocorreu recentemente no rádio pampeano. Tenho apreço pela inteligência e capacidade de comunicação do historiador Eduardo Bueno, o “Peninha”. Já comprei alguns de seus livros, vejo seus vídeos no YouTube e o considero um monstro no que faz! Recentemente, conheci-o pessoalmente no Mundial de Clubes em que o Grêmio participou. Vi um fanático torcedor, muitas vezes inconveniente em nome de sua paixão. Mas quem sou eu para julgar qual tamanho deve ter sua paixão, né? Enfim, não tenho procuração para atacá-lo ou defendê-lo. No episódio com a jornalista Eduarda Streb, a Duda, penso que ele fez uma brincadeira ao dizer “volta para a cozinha”. Quis justamente fazer uma caricatura de um velho machistão que perdia o argumento contra uma mulher em um debate futebolístico. Porém, este tiro saiu pela culatra. Nem todos sabem que se trata de uma brincadeira. O machistão imitado por ele, sorri ao ouvir e pensar que a frase referenda o seu comportamento diário. A menina que sonha em ser jornalista esportiva toma um pontapé no queixo porque vê surgir a barreira invisível que lhe afasta do mundo futebolístico – aquele universo frequentado por brigões e beberrões. Portanto, foi uma brincadeira machista, de mau gosto e que reforça preconceitos. Com ou sem pedido de desculpas, o estrago estava feito. Duda chorou.

O choro dela tem motivo. As mulheres são minoria no futebol, no jornalismo, no mercado de trabalho… mas ao mesmo tempo, são maioria na sociedade brasileira. Felizmente, essa realidade vem mudando nos últimos anos, mas ainda é injusta. Por isso, mandar uma jornalista voltar para a cozinha, para cuidar do lar, é dizer que ela não é capacitada para estar no estúdio de rádio por conta de seu gênero. É tão ofensivo quanto dizer que um negro não está capacitado para discutir política, já que os negros são minoria nas prefeituras, câmaras municipais, assembleias, no Congresso ou Senado – como se o fato de não estarem lá fosse culpa da melanina, e não da própria sociedade que lhe nega espaços justamente pelo tom da pele.
Mas nós, gaúchos, não nos importamos com esses preconceitos quando acontecem no âmbito futebolístico. O gremista fanático como Peninha viu nele um injustiçado, já que tantas outras barbaridades são ditas diariamente nas ondas do rádio, mas só ele foi repreendido. O torcedor do Inter, por sua vez, quer o linchamento digital de Peninha. Afinal, ele é um gremista chato e fez uma colorada chorar. Os poucos que já leram sobre Simone de Beauvoir, que foram picados pelo mosquitinho chamado feminismo, entenderam que se tratou de uma agressão. Tarde demais! Foram tragados pela grenalização e são intimados a responder por que não se indignaram quando, em casos anteriores, um jogador do clube Y foi vítima de racismo, xenofobia ou homofobia. E os casos são muitos realmente! O ambiente do futebol é este: conservador e preconceituoso. E quem luta para combatê-lo é hostilizado, chamado de gremista ou colorado – dependendo da camisa da vítima e do agressor em questão.

Sou homem e já fui muito machista. Hoje sou menos, mas ainda sou – e não me orgulho disso, mas admito. Resquícios da minha formação, inserido neste mundo, que me ensinou a repetir comportamentos. Peninha também passou pelo mesmo. E como ele é um cara com inteligência acima da média, espero que tenha se dado conta da mancada que deu e passe a, assim como eu, se autopoliciar. Não merece ser linchado. Para acabar (ou diminuir os preconceitos), o primeiro passo é dar-se conta dos seus próprios preconceitos. O segundo é controlar-se para não repetí-los. O terceiro (e final) é repreender quem o faz – mesmo por brincadeira. Independente da cor da camisa!

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2018 pode ser a eleição dos votos em branco, nulos e abstenções

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Causou-me surpresa uma pesquisa eleitoral encomendada pela Band e divulgada nesta terça-feira. Nela, o Ibope apresentou em quem os paulistas votariam. Não foi surpreendente ver o tucano João Dória (PSDB) e o ‘homem do pato amarelo’, Paulo Skaf (MDB), empatados tecnicamente para o governo do Estado de São Paulo, com 24% e 19% – embora seja desanimador. Tampouco fiquei boquiaberto com o fato do petista Eduardo Suplicy aparecer atrás – 32% contra 33% – do apresentador José Luiz Datena (DEM) na corrida ao Senado. O Rio Grande do Sul, onde vivo, também elegeu jornalistas nas duas últimas eleições: Ana Amélia Lemos (PP) e Lasier Martins (PDT). Quanto à presidência, também não causou estranheza ver Lula (PT) liderando com 22%. Muito menos, no cenário sem o ex-presidente, constatar que Jair Bolsonaro (PSL) é o preferido de 16% – à frente de Geraldo Alckmin, com 15%. Então, afinal de contas, o que me causou a tal surpresa?

Acontece que na disputa por todos os quadros, a porcentagem de votos em branco e nulos era maior que a dos candidatos citados. Na pesquisa para o Governo do Estado, foi 37% – 13 a mais que o líder Dória. Para o Senado, 46% – 13 a mais que Datena. E para
presidente, no cenário sem Lula (o mais provável), são 26% – 10 a mais que Bolsonaro. Embora seja uma pesquisa limitada ao território paulista, não deixa de expressar a onda de insatisfação e falta de crédito que atinge a política nacional. Já foi possível perceber este fenômeno já no pleito municipal de 2016, quando os principais candidatos apareceram atrás dos votos brancos, nulos e abstenções somados. Isso aconteceu no Rio de Janeiro (42,54%), Belo Horizonte (43,14%) e Porto Alegre (38,4%), por exemplo, quando os dois candidatos que passaram ao segundo turno apareceram atrás do voto em ninguém. Seria um indício de que em 2018 essa conta pode se tornar ainda maior?

Até hoje, nenhuma eleição presidencial apresentou o maior índice da trinca branco/nulo/abstenção do que o pleito em que Fernando Henrique Cardoso (PSDB) se reelegeu – foram 40,19% do eleitorado brasileiro em 1998. Nos outros anos, o resultado foi o seguinte:
– 1989: 17,76%
– 1994: 36,56%
– 2002: 28,13%
– 2006: 25,16%
– 2010: 26,76%
– 2014: 29,03%

Confirmando-se minha suspeita de que em 2018 bateremos o recorde nacional, será um atestado sobre a enfermidade que assola a democracia brasileira. Não que seja proibido anular o voto, votar em branco ou simplesmente se abster; mas demonstra o descrédito na classe governante, além da raquítica educação política da população brasileira que pensa estar exercendo o ‘voto de protesto’. O desinteresse pelo sufrágio universal é perigoso! Afinal de contas, como já sentenciou o economista britânico Arnold Tonybee, “o maior castigo para aqueles que não se interessam por política é que serão governados pelos que se interessam.

Quem herdará os votos de Lula?

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FOTO: Ricardo Stuckert (Divulgação PT)

Parece-me mais do que óbvio que Lula não concorrerá às eleições em 2018. Mesmo que deixe a cela da Polícia Federal, em Curitiba, a Lei da Ficha Limpa impossibilitaria qualquer candidatura do ex-presidente. Por isso, seguir insuflando o retorno do petista ao páreo não é bravata. O partido realmente não deve saber o que fazer. Sem ter formado outras lideranças, o PT está prestes a ver seu eleitorado se dissipar entre sete candidatos diferentes de outras siglas. E o mais curioso disso tudo é: quem subiu no palanque com Lula, em São Bernardo do Campo, não necessariamente herdará os votos em outubro. Pelo menos é isso o que aponta a pesquisa do Datafolha divulgada neste domingo – a primeira depois da prisão do ex-presidente.

Mesmo detido, Lula é detentor de 31% das intenções de voto em um cenário que tem Henrique Meirelles como candidato à sucessão do governo Temer e do MDB. Seu opositor em um eventual segundo turno seria Jair Bolsonaro (PSL), com 15%. E aí entra em cena a esquizofrenia política brasileira. Caso o PT lance Fernando Haddad como Plano B, 29% dos votos migrariam. O ex-prefeito de São Paulo conseguiu pontuar apenas 2% na referida pesquisa. Quem herdou os outros? Simplesmente, 10% dos eleitores de Lula votariam branco ou nulo – o que já dá uma ideia de que esta pode ser a eleição com o maior número de votos invalidados e abstenções da história do país. Entre os candidatos, Marina Silva (REDE) é a principal beneficiária, aumentando de 10% para 15% seu eleitorado. Logo atrás, vem Ciro Gomes (PDT), que deixaria os 5% para alcançar os 9%. Depois, o principal opositor petista, Bolsonaro, herdaria 2% para chegar a 17% – com os mesmos 2%, Álvaro Dias (Podemos) alcançaria 5%. E, por fim, outros 1% seriam distribuídos entre Joaquim Barbosa (PSB), que iria aos 9%; Geraldo Alckmin (PSDB), chegando aos 7%; Fernando Collor de Mello (PTC), subindo para 2%; e João Amoêdo (NOVO), que teria seu primeiro ponto percentual. O mais incrível nisso tudo é que Manuela D’Ávila (PCdoB) e Guilherme Boulos (PSOL), que subiram ao palanque e defenderam Lula publicamente, seguiriam com seus quadros inalterados – com 2% e zero vírgula alguma coisa.

Obviamente, o argumento de que é cedo e muita água ainda vai rolar por debaixo desta ponte é convincente. Ainda virão à tona muitas denúncias, “outsiders” de última hora podem ingressar no páreo, candidatos podem sair e formar alianças… Os debates e os tempos de propaganda também irão influenciar muito na intenção de voto. No entanto, uma constatação já pode ser feita: a de que Lula não terá um herdeiro direto e seu aglomerado de votos será pulverizado.

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Queria ter a certeza de um manifestante

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Não tenho dúvidas de que vivemos um momento histórico no Brasil. Não é todo dia que se vê um ex-presidente da República sendo condenado à prisão. Mas, no momento em que o país eclode em manifestações pró e contra Lula, não consigo tomar partido. Sou acusado de omisso e antipatriota pelos dois lados e, mesmo assim, não consigo descer do muro. Se pudesse me direcionar a ambos os manifestantes, eu diria: juro que gostaria de ter as certezas que vocês têm.

Gostaria de ir à Esquina Democrática, em Porto Alegre, acreditando piamente que Lula é inocente. Que realmente não existe nenhuma prova cabal e nenhum indício sobre o triplex do Guarujá ser dele. É mais do que claro que há uma motivação política, a ponto de acelerar o julgamento e o pedido de prisão – que noutros casos se arrastam por anos (vide Paulo Maluf). Mesmo assim, não creio que a intenção seja puramente tirar Lula da corrida eleitoral – até porque, suspeito que sua motivação seja eleger-se para conseguir foro privilegiado a fim de escapar da justiça. Não vejo um projeto de governo, e mesmo que visse, penso que ele não teria a tão falada governabilidade (o cenário político nacional de 2019 é bem diferente de 2003). Logo, se eu me somasse às vozes que ecoam desde São Bernardo do Campo, estaria me sentindo uma marionete nas mãos de um hábil político que poderia estar me usando para fins pessoais.

Adoraria ir ao Parcão, no bairro porto-alegrense Moinhos de Vento, mas também não teria a certeza de estar fazendo o certo. Custo a acreditar que, com a prisão de Lula, a impunidade terá fim no Brasil, que todos os outros políticos envolvidos em casos de corrupção também terão o mesmo destino. Desconfio de perseguição a um político, a um partido. Desculpem, mas não chamo de herói um juiz que se permite ser fotografado com políticos que já foram gravados instruindo terceiros a como receber propina e/ou como era preciso escolher um receptor possível de ser morto em caso de delação. Também custo a crer em um procurador da República que promete fazer orações e greve de fome ao invés de se ater às provas jurídicas. Por mais que eu queira acreditar em Lula vilão, teimo em dividir a rua com quem defende o militarismo como principal proposta para a saúde pública ou educação, saudando inclusive a memória de torturadores. Sou um democrata acima de tudo!

Podem me chamar de coxinha ou mortadela; comunista ou neoliberal. É a esse radicalismo que não me somo. Vou continuar em cima do muro, até segundo aviso.

Que tiro foi esse, cidadão de bem?

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Calma! Não sou fã de Jojo Todynho e sua música “Que tiro foi esse“. Também não aprecio os conchavos escusos que fez o PT e nem quero ver Lula presidente em 2019. Se ambos vierem na minha cidade – seja para um show musical ou político -, eu simplesmente não vou. O fato de eu não ser simpatizante de um ou outro não me obriga a impedir que outros também compareçam. Ou pior: não me dá o direito de recepcionar a qualquer um deles e seus simpatizantes a balas ou pedradas. Se eu o fizer, mesmo que não acerte ninguém, estarei atentando contra a vida alheia. Logo, se estou contra a lei, não estarei sendo um “cidadão de bem“. Não é mesmo?

Acontece que este pensamento lógico não foi seguido à risca pelas pessoas que resolveram recepcionar a “caravana de Lula” pelas cidades do sul do país. No Rio Grande do Sul, já ocorreram incidências de pedras contra a comitiva que levava o ex-presidente (contando, inclusive, com o apoio explícito de políticos contrários ao petista). Em Curitiba, atingiu-se o ápice. Foram registrados tiros até mesmo contra um ônibus que transportava jornalistas. Antes que alguém me prometa de morte por supostamente estar defendendo o “lulopetismo“, deixo aqui um texto antigo, em que defendi João Dória, alvo de ovadas em Salvador. Minha lógica para este caso é a mesma: se cada um quiser agredir um candidato ou simpatizante contrário ao seu voto e à sua ideologia, estaremos em uma guerra civil! Já vai um tempo, vivemos um período assim. Certamente você, gaúcho, já ouviu falar em “chimangos” e “maragatos”. A Revolução Federalista, de 1893-1895, fez exatamente isso: fazendeiros de lenços vermelhos degolavam fazendeiros de lenços brancos; civis que queriam mudar o governo, trocavam tiros com soldados da Brigada Militar. É isso que queremos para hoje?

Há uma semana, a vereadora Marielle Franco (PSOL) era executada no Rio de Janeiro. Em seguida, levantou-se um debate nas redes sociais do quanto ela provocou ou não o que lhe aconteceu. Agora, com Lula, o mesmo ocorre. O fato de ele ter sido condenado pelo TRF-4 não me dá o direito de atentar contra sua vida – ou daqueles que o acompanham. Que seja preso, se torne inelegível, ou qualquer coisa que o valha. O que mais me assusta é que, ao mesmo tempo em que esse acirramento de ânimos ocorre, há um número grande de pessoas que defende o fim do estatuto do desarmamento. Imagine você viver em um país onde qualquer um pode adquirir uma arma, julgar-se um “cidadão de bem” e atirar contra aqueles que não lhe agradam. Definitivamente, não importa que tiro foi esse! A pergunta para o momento é: que democracia é essa?

 

Rio de Janeiro: o tubo de ensaio do Brasil

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Foto: Mídia Ninja

 

Para quem se importa apenas com números, foi apenas mais uma vítima para a estatística. Para quem consegue entender as entrelinhas, a morte de Marielle Franco não foi acaso. Mulher, negra, vereadora por um partido de esquerda (PSOL), engajada na luta pelos direitos humanos e crítica da intervenção militar no Rio de Janeiro. Esta pessoa foi assassinada a tiros no centro da cidade que sofre a tal intervenção. Não foi um assalto. Mas há claras evidências de que houve uma execução de motivação política.

O Rio é um grande exemplo de péssima administração pública, onde a corrupção foge do senso comum engravatado e sob o ar condicionado. Nas últimas eleições municipais, o povo carioca tinha a chance de colocar o dedo na verdadeira ferida, elegendo o relator da CPI das milícias. Ou seja, quem escancarou a relação promíscua entre policiais militares, políticos e traficantes (para quem não sabe, o deputado retratado no filme “Tropa de Elite” é inspirado em Marcelo Freixo). Mesmo assim, preferiu eleger o pastor evangélico Marcelo Crivella. Talvez, aos poucos, se dê conta de que para esses assuntos não adianta rezar.

O mais assustador é que, atualmente, o principal expoente político do Estado é Jair Bolsonaro (PSL), que lidera pesquisas pela presidência do Brasil. Pois este carioca, que podia ter uma real noção dos problemas do seu povo, apresenta-se como um boçal que não cansa de repetir: “A minha especialidade é matar, sou capitão de artilharia“. Para se ter uma ideia, sua principal proposta para resolver o problema do tráfico no Rio é sobrevoar os morros com um helicóptero, atirando panfletos que convoquem os traficantes a se entregarem à polícia. Se não se entregarem, passará metralhando todos. Qual a idade mental de uma pessoa que propõe isso? Cinco? E quem aplaude, já sabe ler? Se souber, volte ao início deste texto. Com propostas como essa postas em prática, execuções como as que ocorreram na noite desta quarta-feira serão ainda mais comuns. E aí, o gelo continuaria sendo enxugado enquanto o real problema se expande, matando quem quer aprofundar investigações. E pensar que Michel Temer, através do seu interventor federal, usa a experiência carioca como tubo de ensaio para o plano de segurança pública nacional. Amigos, o Rio neste momento não serve como exemplo para nada! O Rio de Janeiro só continua lindo na música mesmo.

A saída de Lula fará bem à corrida eleitoral

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Simpatizantes de Lula, acalmem-se e leiam com atenção! Liberais de plantão, guardem os rojões e sentem na cadeira. Eleitores de Bolsonaro, vocês sim, podem se retirar: este texto irá irritar vocês! Não vou discorrer sobre a validade do julgamento ocorrido no TRF-4 nesta quarta-feira, que condenou o petista. Quero é tentar analisar o contexto que se desenhará a partir da impugnação da candidatura do ex-presidente para o pleito de 2018. E minha conclusão é: a saída de Lula fará bem à corrida eleitoral. Já expliquei meu posicionamento noutro post em julho do ano passado, mas agora que está mais cristalino, faço novamente.

A simples presença de Lula bipolarizaria o pleito, tornando qualquer debate político pobre e raso. A proposição de ideias já é deixada em segundo plano naturalmente, imagine só a quantidade de acusações pessoais e a troca de ofensas que iríamos ouvir em outubro. Seria uma verdadeira briga de bugios! Isso aconteceria graças à rejeição atrelada ao candidato do PT. Conforme pesquisa da Datafolha divulgada em dezembro, Lula é o pré-candidato com maior índice: 39%. Com sua saída do cenário eleitoral, Jair Bolsonaro (PSL) torna-se o escolhido – com 28% de rejeição. Meu único temor é que os votos que eventualmente seriam destinados a Lula acabem pulverizados em diferentes campanhas – entre outro candidato petista como Fernando Haddad ou Jaques Wagner, Marina Silva (REDE), Ciro Gomes (PDT) e Manuela D’Ávila (PCdoB). Mesmo assim, tal pesquisa não apresenta capacidade para Bolsonaro vencer a eleição no primeiro turno, ou seja alcançar mais que 50% dos votos nacionais (graças a esta alta rejeição que tem). Portanto, candidatos de centro-esquerda ganhariam força para alcançar e/ou ultrapassar o ex-militar reacionário num eventual segundo turno.

Por fim, me direciono a você, caro leitor autoproclamado de esquerda. Não resta dúvidas de que, se Lula tivesse sido absolvido na tarde de hoje, possivelmente venceria as eleições de 2018. Mas e aí, se não tivéssemos nenhuma guerra civil ou golpe de Estado até dezembro, ele governaria como? Seria questão de tempo até sofrer um impeachment, prolongando ainda mais a crise institucional em que o Brasil se meteu. Por favor, não seja birrento! Conscientize-se de uma vez por todas que o mar não está para peixe! Ou pior: a onda conservadora é mundial e você está fora de moda. Esquerdistas franceses e alemães já se dobraram a candidaturas de centro e direita (Macron e Merkel, respectivamente) para não entregar o país aos nacionalistas de extrema-direita. Norte-americanos e chilenos que ironizaram o crescimento conservador acabaram sobrepujados por Trump e Piñera (que angariou para si apoiadores da ditadura de Pinochet). E aí, qual destino você quer: um governo de centro, centro-esquerda ou uma aliança da direita conservadora que bate continência a torturador?

Eleição sem Lula é fraude?

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Com helicópteros sobrevoando nossas cabeças, sentamos dois amigos e eu em uma mesa de bar. Porto Alegre respira o julgamento do ex-presidente Lula. Por nós, passam algumas pessoas portando bandeiras do PT, camisas vermelhas com o rosto do ex-presidente e os seguintes dizeres: “Eleição sem Lula é fraude”. Leio a frase em voz alta.

Petista! – salta o primeiro amigo.
– Mas eu só li o que estava escrito na camisa daquele cara, meu! – tento contemporizar.
– Golpista! – rebate o segundo amigo, do outro lado da mesa.
– Não, pelo contrário! Sou contra este governo Temer. E penso que até tenho muitos pensamentos em comum com a esquerda. Sou a favor das cotas nas universidades públicas, do SUS, do Bolsa Família, da seguridade social, dos direitos trabalhistas, de uma melhor distribuição de renda…
– Comunista!
– Não! Pelo que estudei, creio que sou um social-democrata.
– Vendido!
– Que nada! Não me vejo votando no PSDB, DEM, PP… Não quero o Bolsonaro, por exemplo.
– Apoiador de corrupto!
– Cara, vi muitos avanços sociais nos governos petistas, mas não consigo ignorar o ‘Mensalão’, ‘Petrolão’… Isso me afasta da possiblidade de defender o Lula de olhos fechados!
– Manipulado!
– Meu, só estou analisando o contexto! Vamos imaginar que o Lula seja absolvido no TRF-4 nesta quarta-feira. E consideremos que ele vença as eleições em outubro. Ele conseguiria governar sem as alianças que construiu para 2002? Conseguiria fazer o quê sem apoio do Senado e da Câmara? Só se ele dissolvesse tudo e desse um golpe de Estado!
– Bolivariano!
– Eu não estou apoiando isso que eu acabei de dizer! Sou um democrata, poxa vida. E justamente por não ver poder de governabilidade, nem projeto de governo a não ser uma tentativa desesperada de se agarrar ao poder, não votaria no Lula.
– Imperialista!
– Até parece que tu não me conhece! Sou contra a privatização de estatais, como a Petrobrás.
– Mamador das tetas do Estado!
– Cara, me respeita! Eu até trabalho para uma empresa privada.
– Pelego de patrão!
– Gente, o que quero dizer é que sou a favor do Estado de Bem Estar Social. Não de um Estado inchado, com mil ministérios e CC’s, mas um Estado justo que beneficie a quem realmente precisa. Olha o quanto a gente paga em impostos…
– Imposto é roubo!
– Não, calma! Sou a favor dos impostos. E justamente por isso cobro um melhor retorno em serviços públicos.
– A culpa é da sonegação!
– Até pode ser, mas nem sempre. Olha o quanto se desviou para comprar deputados, senadores…
– Admite que o PT é corrupto então?
– Alguns membros do partido, sim, foram. Assim como todos outros partidos têm alguém com o rabo preso, seja como corruptor ou corruptível.
– Estão perseguindo o Lula! Por isso, eleição sem ele é fraude. Concorda?
– Não. Preferia uma eleição sem ele. Mas que deixasse de concorrer por vontade própria. Já deu o que tinha que dar.
– Boa! Então, concorda comigo que ele é culpado?
– Não sei. Sou leigo em advocacia, mas pelo que tenho acompanhado, o Ministério Público tem tido dificuldade de apresentar provas. Isso é grave!
– Cadê a democracia?!
– Calma!
– Vocês é que querem implantar uma ditadura!
– Chega! Vamos embora. Garçom, traz a conta! – a mesa ficou em silêncio absoluto.

– Aqui, senhor! – chegou a nota fiscal em uma bandeja.
– Divide por três, por favor!
– O senhor está esperando mais alguém? Está sozinho na mesa desde que chegou.

A experiência antropológica que é correr

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Moro em Porto Alegre há quase 8 anos e, desde que vim pra cá, passei a ter uma vida mais sedentária. Tentei inúmeras vezes me readaptar a jogar futebol, correr, me exercitar. Mas sempre acabo voltando a uma vida mais boêmia. De um mês para cá, voltei a me exercitar. Passei a correr no Parque da Redenção, fazer exercícios em casa e etc. Hoje resolvi fazer diferente, ir além: prestar atenção no meu corpo e ver como ele fala comigo, ser mais sensível e compreender como ele vem se adaptando a essa nova rotina.

Comecei a correr na esquina da Av. Loureiro da Silva com José do Patrocínio, e ali já percebi o quanto a roupa que se usa faz diferença na hora de correr. Eu estava com uma camisa mais colada, dessas de ginástica, e não as mais largas de algodão que costumo vestir no dia a dia. Então, quanto mais eu corria, mais a camisa colava no meu corpo e me fazia pesar além do normal. Além disso, antes mesmo de chegar à Redenção, reparei no ar que eu respirava, que era muito mais poluído, devido à fumaça dos carros e ônibus que ali passavam. E para piorar, ao atravessar as ruas, notei que a tensão do trânsito ao redor aumentava minha pulsação a cada esquina. E isso me atrapalhou bastante, porque meu coração batia mais forte e forçava minha respiração.

Ao adentrar a Redenção, passei a notar o choque dos meus ossos com o solo – o movimento do meu joelho a cada impacto, assim como meu tornozelo. Percebi a maneira como meus músculos passaram a enrijecer e notei que estava mais cansado do que o normal, como se já estivesse no final da corrida. E eu apenas estava começando! Ao ficar prestando atenção nas minhas pernas, notei também como meu pé pisava no chão. Como choveu hoje, o terreno estava mais escorregadio. Meu pé deu pequenas escorregadas pela terra algumas vezes, e eu passei a temer que viesse a perder o equilíbrio. Completamente aterrorizado por essa possibilidade de cair e me machucar, desacelerei o passo e caminhei. Estava na altura do Teatro Araújo Viana e não estava exatamente cansado, mas o terror me aumentou a adrenalina e fez respirar errado. Enquanto eu caminhava, desviei minha atenção para a música que estava ouvindo. Geralmente, escolho bandas de rock para me movimentar com vontade. Dessa vez eu havia colocado Jorge Drexler, que é um pouco mais lento, introspectivo, e estava tirando o meu pique. Então, concluí que a música também influencia na maneira de correr. Ainda mais quando notei que gostava da música e começava a cantar, o que me fazia respirar errado outra vez. Foi interessante perceber o quanto a música pode me desviar a atenção. Reduzi o volume do fone de ouvido e voltei a correr, passando o Parquinho da Redenção. Até que senti escorrer uma gota de suor pela nuca. Meus cabelos já estavam molhados e aquele choque do corpo quente com a gota gelada que escorria pescoço abaixo também me desconcentrou. Todas as zonas suadas passaram a pulsar.

Voltei a caminhar, fazendo o trajeto onde costumeiramente se instala o Brique da Redenção. Foi quando ouvi alguns passos se aproximando de minhas costas, dando a impressão de que alguém iria me ultrapassar em instantes. Isso me injetou uma adrenalina tremenda, e o senso de competitividade foi despertado. Pensei que não podia deixar que ninguém me ultrapassasse e acelerei numa corrida. Quando estava quase chegando à curva da praça, entrando na Av. João Pessoa, olhei para trás e não vi ninguém. Foram três segundos, no máximo, onde concluí que eu estava sozinho, na verdade competindo comigo mesmo. Ao realmente fazer a curva, quando consegui virar meu corpo, olhei para o lado e vi que de fato havia alguém lá atrás. Ou seja, eu disparei e tirei uma boa distância daquele competidor imaginário. Mas foi muito estúpido da minha parte, porque forcei demais e estava exausto, cansado, sentindo quentes os músculos da perna, que puxavam. Logo seria ultrapassado por ele, já que desacelerei até voltar a caminhar. Dei mais uns passos até um banco de madeira, onde fiz alongamentos e deitei para algumas abdominais.

Assim como antes, resolvi prestar atenção no meu corpo de maneira mais sensível. Geralmente, faço de 4 a 6 séries de 20 abdominais. Dessa vez, consegui fazer só uma série. Era como se meus músculos da barriga fossem saltar para fora. Sentia algumas câimbras na panturrilha e parei. Resolvi que ali eu iria retornar para casa. Não aguentei metade ou um terço do tempo que eu tenho feito ultimamente. Além disso, a sede foi muito maior também. Não pensava noutra coisa que não chegar de uma vez para beber água. Foi muito interessante. No caminho de volta, concluí que tive uma experiência “huxleyiana”. Concluí o quanto o nosso corpo fala diariamente conosco e mesmo assim o ignoramos. O quanto forçamos nossa carcaça. Foi realmente uma experiência antropológica! De certo, daqui uns dois dias vou voltar a correr de novo. Mas dessa vez, aprendi: se quiser ser mais duradouro na tarefa, é melhor desviar o foco de mim mesmo.

A linha nada tênue entre paquera e assédio

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Eu ia deixar passar, já que as mulheres estavam travando um bom debate. Eis que meus camaradas de cromossomos se infiltraram e então me senti chamado ao ringue! Para quem não acompanhou, atrizes e atores vestiram a cor preta no Globo de Ouro 2018 como uma forma de protesto contra as acusações de assédio sexual em Hollywood. Mas veio o contragolpe! Na França, artistas e intelectuais (entre elas, a atriz Catherine Deneuve) assinaram uma carta no jornal Le Monde condenando o protesto: “Nós defendemos a liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual“. No Brasil, em entrevista ao jornal O Globo, onde é colunista, a escritora Danuza Leão foi ainda mais longe: “É ótimo passar em frente a uma obra e receber um elogio. Sou desse tempo. Acho que toda mulher deveria ser assediada pelo menos três vezes por semana para ser feliz“. Pronto! Estava inaugurada a contagem regressiva para a bomba. Não vou me meter na discussão das moças. Quero me ater aos urros e socos na mesa dos marmanjos que bradaram felizes porque finalmente alguém botou o dedo na cara dessas “tais feministas”.

Não sou nenhum Martinho da Vila, mas já paquerei muito. Muitas vezes fui correspondido e noutras tantas não. Evidentemente, nas minhas abordagens amorosas, jamais toquei sem consentimento em alguém. Um assunto puxado na parada do ônibus, no balcão do bar e lá vamos nós. Na era das redes sociais, a tarefa ficou até mais fácil. Basta uma mensagem correspondida e ali temos uma conversa inaugurada. E quando não há o retorno esperado? A ausência de uma resposta, ou uma resposta mais seca, ou ainda uma negativa para um encontro significa o fim do papo. É do jogo! Aí está a paquera. Qualquer insistência além disso – um deslizar de mãos pelo corpo alheio, uma tentativa de beijo à força, uma enxurrada de pedidos para sair – deixou de ser. Não é difícil de perceber quando a paquera ultrapassa o seu limite. Não é uma linha tênue em que, num piscar de olhos, se escorrega para o outro lado. Há mais dois ou três terrenos separando a paquera do assédio. Primeiro vem a inconveniência, depois o desconforto e por fim a repulsa. E o pior tipo de assediador é o dissimulado. Aquele que faz e não reconhece. É inclusive capaz de inverter os papeis e dizer que a mulher (de mente suja) pensou bobagem!

Ah, mas se não fosse meu pai assediar minha mãe, eu não estaria aqui!” Este argumento só serve se você foi concebido em um estupro. A época em que o homem catava a mulher com um tacape e arrastava pelos cabelos para procriar ficou na Era das Cavernas. Se buscar na minha árvore genealógica, talvez encontre este comportamento no meu tatatatatataravô. Mas ainda assim vai existir alguém para dizer que o mundo está chato e que o politicamente correto está ferrando com as relações humanas. Perceba que não! Aqui vos escreve um cidadão que, quando o assunto é liberdade sexual, está mais do que de acordo – desde que, obviamente, haja consentimento mútuo. Por fim, pergunto aos homens que acham ‘mimimi’ a reação das mulheres aos assobios e abordagens grosseiras, de que forma reagiriam caso recebessem o mesmo tratamento de homossexuais. Se é uma simples paquera, por que a maioria reage como se estivesse sofrendo um atentado violento ao pudor?