Segundo turno entre Lula e Bolsonaro faria Brasil retroceder 50 anos

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O Ibope divulgou neste domingo sua primeira pesquisa eleitoral para 2018, e o resultado é estarrecedor! Lula (PT), com 35% das intenções de voto, teria Jair Bolsonaro (saindo do PSC para o Patriotas) como opositor no segundo turno – o ex-militar aparece com 13%. Sei que pesquisas nem sempre acertam. Nas últimas eleições municipais em Porto Alegre, por exemplo, a primeira pesquisa divulgada projetava um segundo turno entre Manuela D’Ávila (PCdoB) e Luciana Genro (PSOL). Para a tranquilidade dos liberais, ocorreu exatamente o oposto. Manuela sequer concorreu e Nelson Marchezan Jr (PSDB), que estava em quarto lugar, venceu no segundo turno contra Sebastião Melo (PMDB), que estava em terceiro. Luciana acabaria a eleição sendo a quinta mais votada. Ainda há casos em que a pesquisa influencia o eleitorado a trocar o voto. Sei de amigos que, em 2014, votaram em José Ivo Sartori (PMDB) para tirar Ana Amélia Lemos (PP) do segundo turno e fortalecer a candidatura de Tarso Genro (PT). Resultado: foi o peemedebista quem acabou eleito. Mas não é a perícia da pesquisa que me preocupa, e sim a falta de opção e retrocesso a galope que o povo brasileiro irá se submeter.

Se, de fato, nenhum dos dois sair do páreo (por decisão jurídica ou partidária), “Lula versus Bolsonaro” será a reedição do embate entre Getúlio Vargas (PTB) e Carlos Lacerda (UDN) que se desenhava no imaginário brasileiro na década de 50! Isso, por si só, explicaria o retrocesso que estamos fazendo. A disputa jamais aconteceu nas urnas, mas ficou marcada pela enxurrada de ataques pessoais, tentativa de assassinato, suicídio e ‘fake news‘ produzidas pelos jornais da época – Tribuna da Imprensa, do próprio Lacerda, e Última Hora, mantido pelo governo Vargas. Os ânimos ficaram tão acirrados que nenhum debate profundo foi possível, desencadeando no golpe militar de 1964 (adiado em 10 anos graças ao suicídio de Vargas, mas que teve em João Goulart o herdeiro frágil do mesmo ódio). Lula representa hoje o que foi Vargas: ex-presidente, acusado de se utilizar da máquina pública para enriquecer a si e aos seus, apoiado no discurso de apoio à classe mais baixa e aos trabalhadores, e que foi praticamente convencido a voltar ao poder por falta de opção no partido e pescado pelo ego. Bolsonaro é a reencarnação política de Lacerda: admirador do militarismo, usa os meios de comunicação para vociferar contra a corrupção, se autoproclamando o representante da família, da moral e dos bons costumes. Por isso, um segundo turno entre ambos faria o Brasil retroceder quase meio século. Além disso, há a ausência de projeto.

Com o debate raso e baseado no ódio ao adversário, Lula e Bolsonaro não apresentam ideias e muito menos soluções para os problemas a longo prazo. Lula não representa mais o pensamento da esquerda, do Estado desenvolvimentista e de bem estar social. Está ali simplesmente para dar o troco contra quem lhe ataca. E, mesmo que tenha a intenção de dar continuidade a projetos implementados pelo seu governo – como ‘Bolsa Família’, ‘ProUni’, ‘Luz Para Todos’ -, não teria maioria na Câmara e Senado, e assim como sua pupila Dilma Rousseff estaria à mercê de um impeachment. Já Bolsonaro é tão raso quanto um pires. Rei das frases prontas, do “bandido bom é bandido morto” ao “vai para Cuba“, o ex-militar cresce nas pesquisas justamente pelo temor comunista que foi implantado no imaginário popular (exatamente como em 64). Ele nem sequer representa o pensamento liberal, já que defende abertamente o período militar. Enfim, não há um projeto de desenvolvimento em nenhum dos lados. Pode-se debater ideologicamente os outros nomes apresentados na pesquisa do Ibope, mas todos eles representam melhor o espectro político: Ciro Gomes, Marina Silva, Geraldo Alckmin… O resto é disputa cega pelo trono e crença em um ser messiânico que não virá!

 

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Separatismo: a linha tênue entre o orgulho regional e a xenofobia

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Nos últimos dias, os olhos do mundo voltaram-se à Espanha – mais precisamente a Barcelona. Isso porque a população vive um grande debate, culminando com uma grave repressão policial após a instauração de um referendo que propõe a separação da Catalunha do território espanhol. O assunto injetou gasolina à proposta do movimento “O Sul é Meu País“, que tem como intenção algo semelhante: separar os Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná do restante do Brasil. No próximo sábado, o grupo distribuirá urnas para um plebiscito informal que pretende saber qual o tamanho do apoio popular para esta ideia. Confesso, já fui simpatizante. Impulsionado pela cultura gaúcha de exaltação à Revolução Farroupilha (com hino, bandeira e vestimenta tradicionalista), cheguei a acreditar que o separatismo seria uma boa saída. Aos poucos, fui mudando minha percepção. Hoje, correndo os olhos pelo que se passa no planeta, admito não ter uma opinião tão formada assim. Até que ponto este “regionalismo” não é xenofobia?

Primeiro é preciso diferenciar o caso do separatismo catalão do gaúcho. Enquanto a República Rio-Grandense teve vida curta de 10 anos em meio ao Brasil Império (de 1835 a 1845) – jamais contando com total apoio popular -, os catalães, de fato, foram reconhecidos como nação, exercendo um governo autônomo com legislação e língua próprias, embora ainda anexado à coroa espanhola. A exceção fica pelo período em que vigorou a ditadura fascista de Franco (de 1939 a 1975), em que a cultura catalã (hino, bandeiras e língua) foi censurada. Além disso, após a redemocratização, Barcelona sempre viveu o sentimento separatista de maneira latente, insuflada pelos partidos políticos que ganharam as últimas eleições ao formarem o movimento “Juntos pelo Sí”: os sociais-democratas da ERC (Esquerra Republicana de Catalunya), os liberais do CDC (Convergência Democrática da Catalunha) e os Democratas da Catalunha, representantes da democracia-cristã. Contra eles aparece o PP (Partido Popular), do presidente espanhol Mariano Rajoy e de origem consevadora. Convenhamos, uma situação bem diferente à do sul brasileiro, que vive em total sinergia com a ideologia em voga atualmente no país governado por Michel Temer (PMDB), e que vê cada vez mais Jair Bolsonaro subir nas pesquisas para 2018. Traduzindo: aqui, os governadores gaúcho, catarinense e paranaense falam a “mesma língua” do presidente.

Além das questões cultural e política, outro argumento utilizado pelos catalães está na tributação: mais de 20% dos impostos arrecadados por Madri vieram daquela região, sem que o retorno em serviços públicos fosse exatamente o mesmo. Este ponto também é levantado pelos “sulistas” – tal qual a grita sobre a tributação do charque pelos farrapos de 1835. Meu medo, sinceramente, é que este seja o pano de fundo para a questão maior e talvez até inconsciente: a xenofobia. Quanto à Catalunha, não posso ser definitivo pois não estou inserido naquele contexto. Mas aqui, no Rio Grande do Sul, não é raro ouvir a exaltação ao povo gaúcho como culto, honesto, trabalhador, etc – como se as demais localidades do Brasil não estivessem à altura de nós, gaúchos: “Nordestino não sabe votar!“, “Carioca é tudo malandro e gosta de passar os outros para trás!“, “Povo que não tem virtude acaba por ser escravo!“. Brada-se estes lugares comuns regados a preconceito como se neste Estado também não tivéssemos políticos citados em mais de um caso de corrupção, contrabandistas (desde drogas a carne de gado), analfabetos, racistas que torcem o nariz para estrangeiros (principalmente se estes forem negros) e etc. Não há nada que me orgulhe na criação e reprodução deste mito de uma raça superior, que muito se assemelha ao nazismo. O orgulho das raízes, o conhecimento da história de seus antepassados, em nada tem a ver com a exaltação exacerbada do localismo, e a antipatia ao ‘forasteiro’. Mas enfim, andar sobre a linha tênue do regionalismo/nacionalismo é isso: uma hora, inevitavelmente, se cai para o lado errado.

Por que encerrarei minha conta no Facebook

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Hoje decidi excluir minha conta do Facebook. O Twitter e o Instagram por pouco não foram junto, mas minha relação com as redes sociais não será mais igual. A partir de agora, nada de vida pessoal publicada por aí! Até porque, digamos que mais de 70% das pessoas que me adicionaram eu não conhecia pessoalmente. Apenas me seguem para consumir o meu trabalho. E não há problema nisso! Pelo contrário, é motivo de alegria. Então, para satisfazê-los, criei uma página com o perfil do jornalista Filipe Duarte, não do cidadão comum. Ali divulgarei minhas matérias, opiniões e fotos durante eventos profissionais. Por que fiz isso? Bom, é uma longa história…

Já venho maturando essa ideia há um tempo. Desde que criei meu perfil no Facebook, passei a aceitar qualquer pessoa que me adicionava. Pensava que era uma maneira de interagir com quem, de alguma forma, gostava do meu trabalho. De um ano para cá, quando passei a fazer telejornalismo, o número de “convites” triplicou. Perdi o controle! Toda e qualquer coisa que eu postava, gerava ‘likes’ e comentários. Como eu postava muita coisa sobre minha vida particular, fora do horário de trabalho, a situação passou a se confundir. Quem não era tão próximo, passou a ser. Li desde palpites sobre a roupa que eu vestia, às músicas que eu escutava, até discordâncias sobre posicionamentos políticos. Seria natural, afinal de contas, me tornei uma pessoa pública. Por favor, que não soe pretensioso! Não, eu não escolhi ser “famoso”. É o bônus do pacote que comprei quando decidi ter a profissão que tenho – e gosto! Acontece que há uma grande diferença entre a crítica e a ofensa, a humilhação. Portanto, não que eu não saiba lidar com críticas ou não saiba sustentar um debate. Óbvio que sim! E acho salutar inclusive. Cada vez que tenho uma ideia confrontada, me vejo obrigado a pensar, pesquisar, ler mais sobre aquilo que eu falo. Muitas vezes, intimamente, acabo questionando a mim mesmo. É um ótimo exercício! Além disso, interpretei que (em tempos do avanço do conservadorismo social) meu papel seria difundir a desconstrução dos símbolos, estimular o pensamento dos outros até reconstruir conceitos sobre o convívio humano. Fracassei – ou melhor, subestimei o cenário ao meu redor.

Ser xingado, ofendido e subestimado não é novidade pra mim. Lido com isso desde que comecei a trabalhar com a paixão futebolística. O que me assustou foi me dar conta que naquele mesmo espaço frequentado pelos fiscais de comportamento alheio, posto fotos com minha família, amigos, nos lugares que frequento regularmente. Ou seja, viraria um alvo fácil não só nas redes sociais, mas no cotidiano. Estava sujeito à perseguição real! Mais de uma vez, li o seguinte comentário em tom de ameaça: “Fica no comentário de futebol que é o que tu sabe fazer“. Parece uma afirmação despretensiosa, mas é regada de ódio. É, no mínimo, censura! É a total incapacidade de conviver com o pensamento contraditório. E eles venceram. Pelo menos, parcialmente. Vou seguir com meu olhar crítico sobre política, religião e futebol (a tríplice aliança que, dizem, não deve ser tocada). Mas vou me limitar a debater com pessoas que tenham maior proximidade comigo, a ponto de discordar sem precisar me agredir. Entrego em troca um espaço aos outros, aos brutos que não conseguem sair da caixa do conservadorismo e do senso comum: aqui está o Filipe que só fala de futebol. Bom proveito!

20 de setembro: a festa dos vikings brasileiros

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Desculpem-me os amigos tradicionalistas. Sem querer ofender, mas já tocando na ferida: a Semana Farroupilha é uma ode ao retrocesso. Para quem não sabe, 20 de setembro é feriado no Rio Grande do Sul. Por quê? Foi neste dia que, em 1835, generais-estancieiros insatisfeitos com o valor do imposto pago para exportar o charque (carne salgada) invadiram Porto Alegre, renderam as tropas imperiais e deram início a uma revolução contra o governo de Dom Pedro II. O ápice veio no ano posterior quando, em 11 de setembro de 1836, estes mesmos revoltosos declararam independência do Brasil. Estava proclamada a República Rio-Grandense, que duraria mais 9 anos! Depois de uma árdua batalha contra o restante do país, o Rio Grande foi anexado novamente e assinado um tratado de paz. Curiosamente, Porto Alegre nunca foi a capital da tal república dos gaúchos. Logo depois de invadida, ela foi reconquistada pelo exército do Imperador – fato que lhe rendeu o título de leal e valorosa, ostentado até hoje na bandeira da cidade. Mesmo assim, os porto-alegrenses (assim como em todo o território sul-riograndense) comemoram o 20 de setembro. Na capital, há inclusive o Acampamento Farroupilha, onde as pessoas vivem por mais de uma semana como na época da Guerra dos Farrapos: em casebres de madeira, andando a cavalo, com vestimentas do tataravô e assando carne cravada em espetos no chão. Ou seja, tiram alguns dias para viver como se estivéssemos em 1830 outra vez.

Já ouvi mais de uma vez que sou um ‘gauchinho’ de apartamento. “Como pode um guri que veio do interior, ainda mais da fronteira, não saber assar um churrasco?” Vou em uma churrascaria. “Como não sabe andar a cavalo?!” Não faço equitação e, além disso, já inventaram o carro. “Por que não honra a tradição?!” Porque não quero participar desta festa do retrocesso! O povo gaúcho tem suas virtudes, mas o tradicionalismo nos estagnou. Por que não posso viver como um uruguaio de Montevidéu, ou um argentino de Buenos Aires, que segue tomando o seu mate e comendo o seu assado, mas sem fechar as portas para a modernidade? Por que preciso me enfurnar em um casebre de madeira cercado de lama, vestir bombacha com uma adaga na cintura, botas cheias de esterco e um lenço no pescoço? Os argentinos e uruguaios são tão gaúchos quanto nós, mas não ficaram presos nos anos de suas independências! Nós – principalmente os homens – somos quase que obrigados a agir como se agia há mais de 100 anos (ou se criou, através do mito ‘gaúcho’): com palavreado rude, movimentos brutos e fala alta. Qualquer um que fuja deste padrão é “afrescalhado” ou “nem parece gaúcho, tchê!“.

Imagine você um escandinavo do mundo atual. Escolha a nacionalidade que preferir: sueco, norueguês ou dinamarquês. Qual a imagem que lhe vem à cabeça? Agora imagine uma festa em que durante quase um mês eles deixassem a barba ruiva crescer, com um chapéu de chifres pontiagudos, roupas sujas, uma espada na mão e a outra segurando um escudo e brincando em barcos de madeira. Sim, os antepassados deles eram os vikings! Não lhe parece um tanto quanto caricata se eles fizessem isso? Para mim soa até patético. Então por que aqui no Rio Grande do Sul chamamos a festa à fantasia de setembro de tradicionalismo? Uso bombacha, sim! Porque gosto de como o tecido da calça deixa minhas pernas mais à vontade. E se eu quiser calçar um tênis junto com elas? “Não, fere a tradição!” Uso alpargatas, sim! Mas quando quero e porque gosto. Também gosto de ar condicionado, internet wi-fi, TV a cabo, spotify. Sou tão gaúcho quanto os que fazem de conta que são Bento Gonçalves durante a Semana Farroupilha e que vivem 1835 em pleno 2017.

 

Cuidado, Porto Alegre! Os nazistas ridicularizaram a arte moderna

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O cancelamento da ‘Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira’ é um verdadeiro escândalo. “Pedofilia!“, “Só tem putaria, só tem sacanagem!“, “zoofilia!“, gritavam os homens que gravaram um vídeo dentro do Santander Cultural, onde as obras de mais de 80 artistas estavam expostas – como Cândido Portinari, por exemplo. Após o protesto, a empresa resolveu fechar a exposição. Mas cuidado: ridicularizar obras de arte, transformá-las em ‘show do grotesco’, até tirá-las de circulação não será uma ação inédita na história mundial. Os membros do MBL (Movimento Brasil Livre) que apoiaram o protesto não têm do que se orgulhar. Há muito do nazismo nesta atitude! E ninguém quer se parecer com os nazistas (a quem até se imputou nos últimos tempos o carimbo de “esquerda”). Não é mesmo?

Acontece que, em 1937, Munique recebeu uma exposição intitulada “entartete Kunst” – ou arte degenerada, em alemão. A intenção do governo de Adolf Hitler era, ao mesmo tempo que expunha as obras, ridicularizá-las com frases escritas nas paredes, logo acima dos quadros: “insulto às mulheres alemãs“, “revelação da alma racial judia“, etc. Ou seja, incluíam-se aí todos os movimentos artísticos que fugiam da realidade e do tradicional, como o cubismo, dadaísmo ou surrealismo (arte moderna). Entre os artistas ‘censurados’ estavam: Pablo Picasso, Paul Gauguin, Lasar Segall, Wassily Kandinsky, Piet Mondrian. Sobrou até para a música! O jazz, por exemplo, passou a ser música negro-judaica e por isso foi proibida na Alemanha. Isso está nos livros de história! Não, não é corrente de Twitter ou Facebook.

Assim como está registrado em fotos o desespero do governo francês para locomover e esconder as obras de arte do Museu do Louvre antes da invasão alemã a Paris. Se encontrada pelos nazistas, o que restaria da Vênus de Milo, uma mulher sem os braços e com os seios de fora? Deformada e desavergonhada ainda por cima! E a estátua do Hermafrodita Dormindo, uma clara propaganda à sodomia? E se ‘A Bela Jardineira‘ de Rafael fosse interpretada como pedofilia? E ‘Gabrielle de Estrées e sua irmã‘, não seria incesto aliado à lesbianidade? Ainda bem que os nazistas não encontraram estas obras de arte. E se tivessem as encontrado, será que gravariam vídeos ridicularizando-as e bradando pela moral e bons costumes arianos? Pois é, melhor nem pensar. Afinal de contas, ninguém quer se parecer com os nazistas. Logo, aproveite as obras de arte. E as que você não apreciar, simplesmente não visite.

O ovo do fascismo também atinge Dória

bazarPara quem não acompanhou o caso, o prefeito de São Paulo, João Dória Jr (PSDB), foi atingido por uma ovada em Salvador na última segunda-feira. Justo ele, trazido na capa da Revista IstoÉ sob o título “Nasce o Anti-Lula“. A revista em si ignorou o maior acontecimento da semana, que foi o arquivamento da investigação sobre Michel Temer, para escancarar sua propaganda política a um pré-candidato à presidência. Pouco jornalístico, mas enfim, não é este o debate! Acontece que logo após secar a clara e gema que lhe escorriam pela cabeça, o “tucano” gravou um vídeo para suas redes sociais e, sabiamente, inflou ainda mais sua imagem de anti-Lula: “Esse é o caminho do Lula, do PT, das esquerdas, que querem isso. A intransigência, a agressividade, a tentativa de amedrontar e intimidar (…). Não há intimidação em parte nenhuma do Brasil. Os esquerdistas que querem o mal do Brasil, vão lá defender o Maduro e jogar ovo na Venezuela.” É, meu amigo, ele teve o que queria. O ovo na cara? Não, o combustível para crescer nas pesquisas eleitorais. Mas este não foi o maior mal que os manifestantes baianos fizeram.

Vi muitas pessoas que gosto e admiro – algumas mais próximas, outras não – comemorando e achando graça na ovada levada por Dória. Pergunto-lhes: e se fosse Lula, chamado para receber um prêmio, mas recebendo uma ovada na cabeça? “Raivosos! Antidemocratas! Fascistas!” Assim iriam vociferar os simpatizantes do ex-presidente. E sabe porquê? Porque teriam razão. Discordar das ações do governo paulistano – como a alegação de que mandou demolir prédios abandonados com pessoas dentro ou molhar moradores de rua enquanto dormiam -, não lhe dá o direito de agredir o político. Cercá-lo e hostilizá-lo já seria demais. Mas ovada?! A mesma truculência de que acusam membros do MBL, simpatizantes de Bolsonaro e etc, também se reflete às vezes em manifestantes da CUT, UNE e petistas. Por que apenas um lado é fascista e antidemocrata?! O que os difere? Nada, além da ideologia política. Ambos não suportam o diferente.

Não adianta levantar a bandeira da igualdade se você não consegue conviver com quem pensa diferente. A democracia está aí para que o debate de ideias aconteça de maneira republicana. Não no grito, ou na violência! E antes que surja o argumento da desobediência civil após o impeachment (ou golpe), desarme-se! Essa é apenas uma justificativa de momento. Reconheça que há muito tempo a esquerda usa de artifícios intimidadores contra adversários políticos. Ok, foi só uma bolinha de papel em José Serra (PSDB) durante a campanha de 2010 (e não uma pedra como apontou a perícia contratada por ele), mas não parece hostil demais – para não dizer infantilóide? Por exemplo, você deve ter achado falta de respeito quando houve protesto em frente ao prédio de Dilma Rousseff (PT), em Porto Alegre. Mas lembra de quando a ex-governadora Yeda Crusius (PSDB) foi hostilizada no portão de casa, ou de quando jogaram um coquetel molotov no prédio de José Fortunati (PDT), prefeito porto-alegrense? E aí, o fascismo é só quando ocorre contra os meus? Desculpa, mas não estou nessa! O ovo do fascismo também atinge João Dória. E amanhã pode atingir você também.

Não é não

 

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Esta noite me senti no Chile em 1988, quando o povo chileno foi às urnas votar em um plebiscito que decidiria se o ditador Augusto Pinochet, que havia assumido a presidência por um golpe de Estado, continuaria no poder pela próxima década, ou voltaria a democracia. A campanha publicitária que seguiu pelo “sim” e pelo “não” virou inclusive tema de filme, com o mexicano Gael García Bernal no papel principal (*foto acima). Estiveram ao lado de Pinochet, o ‘Partido Democrático de Chile’, ‘Partido Liberal Democrata’, ‘Partido Nacional’, ‘Partido Socialdemócrata’, ‘Renovación Nacional’, entre outros, além de 44% da população. Os outros 56% abraçaram a causa do ‘Partido Comunista de Chile’, ‘Partido Democrata Cristiano’, ‘Partido Democrático Nacional’, ‘Partido Humanista de Chile’, ‘Partido Liberal’, ‘Partido Radical’ e ‘Partido Socialista’. Portanto, o povo chileno votou NÃO. Sinceramente, fiquei curioso para o caso de termos um plebiscito no Brasil atualmente pela permanência de Michel Temer. Talvez o resultado fosse bem diferente do visto nesta quarta-feira, na Câmara em Brasília, quando 263 deputados (ou seja, 51,46%) decidiram pelo arquivamento das investigações contra o presidente. No voto indireto, venceu o SIM.

Todos nós sabemos que a queda do presidente hoje seria a volta do PT e da esquerda. Que as viúvas do PT chorem para lá!“, justificou Marco Feliciano (PSC) o fato de se abraçar em Temer. Ele não pensa sozinho dessa forma. Muitos transformaram a política brasileira num nocivo petismo versus antipetismo, sendo que Rodrigo Maia (DEM) seria o responsável por herdar o trono em caso de afastamento do atual presidente. Desconhecimento ou manobra? Pior são os teoricamente mais esclarecidos, que justificam a permanência de Temer por conta da estabilidade econômica – alguns deles, gaúchos como José Fogaça (PMDB), José Otávio Germano (PP) e Yeda Crusius (PSDB). Seria o novo “rouba, mas faz“? Aliás, o dono da frase também esteve ao lado deles: Paulo Maluf (PP). Comecei a sorrir tranquilo, vendo que tinha escolhido a trincheira contrária destes. De repente, dei de ombros com Jair Bolsonaro e seu filho e me assustei. Mas ao ouvir o discurso do pai, notei que fazia do microfone seu próprio palanque para 2018: “Para ser uma grande Nação, o Brasil precisa de um presidente honesto, cristão e patriota“, em uma auto-descrição. Só não entendi o porquê do cristão, já que Temer é católico apostólico romano. Aquele papo de ‘anticristo’ e ‘vampiro’ era só uma brincadeira, viu?! Assim como foi uma brincadeira elegerem Sérgio Reis e Tiririca, que votaram pelo não e fizeram eu começar a questionar meu posicionamento. Será que estou ficando louco? Não. Assim se faz a democracia, com pensamentos opostos condenando a corrupção. Com pessoas tão diferentes, como Onyx Lorenzoni (DEM) e Mária do Rosário (PT) dividindo a mesma bancada.

Não precisamos concordar em tudo, apenas precisamos ter coerência. Michel Temer foi gravado pelo empresário da JBS, Joesley Batista, sendo no mínimo complacente com confissões de crimes de obstrução e corrupção. Ele não merece ser investigado? Era isso que estava sendo votado na Câmara dos Deputados. Ninguém estava pedindo a volta de Lula. Tampouco decidiu-se pelas ‘Diretas Já‘ (embora fossem necessárias). Nem pedia-se o fuzilamento do atual presidente aos moldes de Che Guevara. Queria-se apenas a autorização para investigá-lo. Lembra do “não temos corruptos de estimação“? Lembra do “primeiro tiramos a Dilma e depois tiramos os outros“? O discurso agora é deixar que ele termine o mandato para investigá-lo depois. Sério que você acredita? Não há problema em ser de direita (adepto do pensamento liberal, Estado mínimo e tal), mas você votaria não hoje, né? Assim os liberais e cristãos chilenos votaram em 1988. Queremos a investigação de todos, independente do lado. Não? Os deputados brasileiros mostraram que não.

Até quando será proibido ser liberal sem ser conservador no Brasil?

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É sempre difícil elogiar um político. Isso porque, mesmo que ele venha a falecer e sua obra ser dada como encerrada, ainda pode surgir uma denúncia passada capaz de manchar seu currículo. Se ele estiver durante o mandato, o risco de elogiá-lo é ainda maior, pois até o final da sua gestão pode cometer um erro crasso. Mesmo assim, vou me arriscar: falta um Justin Trudeau (leia-se Trudô) no Brasil! O jovem primeiro-ministro canadense tem me chamado a atenção por seus atos e declarações – mesmo sendo ele do Partido Liberal. Opa, então eu estou traindo a causa da esquerda, ou será que é ele um mau representante da direita? Nenhum dos dois. O que falta aos liberais brasileiros é a capacidade de se desligar do conservadorismo. Ainda mais em um momento de polarização como vivemos, parece ser proibido ser de direita e ao mesmo tempo progressista. O que vemos é uma geração de jovens de 20 ou 30 anos com discursos retrógrados, que mais parecem de seus avós, ou de um viajante no tempo recém chegado da Guerra Fria. Muitas vezes usei deste espaço para convocar a esquerda a se reinventar, agora farei o mesmo com a direita brasileira.

Com 44 anos, Trudeau assumiu o cargo máximo do Canadá com promessas progressistas e que aos poucos foram colocadas em prática: nomeação igualitária de ministros de ambos os sexos (15 mulheres e 15 homens), políticas sociais favoráveis aos povos indígenas nativos do país, aumento da tributação para os mais ricos, livre recebimento de refugiados e regulamentação da maconha. Suas ideias não vieram do nada. Seu pai, Pierre Trudeau, já havia sido premiê canadense em duas oportunidades (1968 a 1979 e 1980 a 1984), quando defendeu entre outras causas uma sociedade multicultural, reconhecendo como oficial o bilinguismo (inglês e francês), por exemplo. Enfim, ao longo do tempo, seu partido – o Partido Liberal – ainda aprovou outros projetos, como a abolição da pena de morte, a permissão do casamento gay e a implantação de um sistema nacional de saúde (algo como o SUS brasileiro). Tal comportamento faria seus correligionários serem posicionados no espectro político como centro-esquerda – da mesma forma que os sociais-democratas do leste europeu. Entretanto, vá você aplicar tais ideais no Brasil e seria taxado como “radical de esquerda“, “comunista” e “populista”. Por quê? Porque se criou no imaginário popular brasileiro que a política de bem estar social é cara aos cofres do Estado, e que para ser liberal é preciso ser conservador. Em tempos de Trump, Le Pen e Bolsonaro, Trudeau é um sopro de vitalidade a quem é a favor da propriedade privada, do livre mercado, do capitalismo na sua essência, “pero sin perder la ternura“.

E se alguém ainda pensa que Trudeau estaria no Brasil equivalente aos petistas, engana-se. No país norte-americano, este espaço é ocupado pelo Novo Partido Democrático, que ficou em terceiro lugar nas últimas eleições. Aliás, você pode até quebrar a cabeça para achar um Trudeau na política brasileira. Não há! Alguém que defenda o liberalismo sem cair na falsa austeridade de cortes de políticas públicas e sem promover a falsa meritocracia que só escancara as desigualdades sociais existentes. Acontece que até chegar a Justin Trudeau, o Canadá passou quase dez anos (de 2006 a 2015) sob a batuta de Stephen Harper, do Partido Conservador, que entre outros atos rompeu com o Protocolo de Kyoto (tratado internacional para reduzir a emissão de gases que causam o efeito estufa). Ligado às refinarias de petróleo, o ex-premiê promoveu a política de direita que estamos acostumados a ver no Brasil: austeridade econômica e permissividade tributária com grandes empresários. Mesmo assim, o que se viu foi uma lenta recuperação econômica e uma queda abrupta na sua popularidade, que culminaram com a derrota no pleito de 2015. Entretanto, foi quase uma década vivendo sob tais preceitos. Quem sabe é isso que falta aos brasileiros: mais alguns aninhos de conservadorismo para perceberem o quanto isso faz mal e beneficia sempre a casta mais alta da sociedade. Talvez até lá surja alguém dentro dos partidos da dita direita brasileira capaz de parar para pensar: opa, eu não preciso ter preconceito racial, sexual ou de classes para ser liberal!

Injúria racial: condenável dentro e fora do futebol

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Fotos: Lucas Uebel (Grêmio) e Lucas Moraes (Ceará)

Sei que depois da importante vitória sobre a Ponte Preta não faltarão torcedores dizendo que estou tentando ofuscar o resultado, “criando uma crise” no Grêmio. Obviamente, não é o caso. Independente do placar, o debate precisava ser reacendido. O goleiro Aranha foi infeliz ao generalizar, alegando que o povo da região sul tem o racismo como “conceito de vida“. Mas ele não procurou o repórter para dar aquela declaração, não foi de graça, de cabeça fria e para “reviver” de maneira consciente algo que lhe fez mal. Não se pode minimizar o que ele sofre cada vez que pisa na Arena e que neste domingo mais uma vez se repetiu. Bastou seu nome ser anunciado no telão do estádio para que fosse muito vaiado. Era uma vaia simples contra um adversário qualquer? Não. Emerson Sheik, por exemplo, que é a principal referência técnica do time paulista, não recebeu nem a metade dos apupos. Aliás, só vi duas pessoas tornarem-se alvo semelhante ao entrarem no estádio gremista recentemente: D’Alessandro e Ronaldinho Gaúcho. Acontece que Aranha não é ídolo do clube rival, nem tampouco jogou no Grêmio e traiu a confiança do seu antigo torcedor – caso dos outros dois citados. Aranha foi vítima de injúria racial. Graças àquele episódio, o Tricolor acabou punido nos tribunais e eliminado da Copa do Brasil de 2014. Mas não foi o goleiro quem julgou o caso (nem eu!). Por que então ele sofre com vaias anormais cada vez que pisa na Arena? E não me venha com a justificativa de que esse é um comportamento típico do sul ou exclusivo do torcedor gremista. O futebol como um todo permite que isso aconteça!

Há uma semana foi a vez da torcida do Inter usar as mesmas desculpas lidas e ouvidas neste domingo. Ao ver seu zagueiro Victor Cuesta ser acusado de ter chamado de macaco o atacante Elton, do Ceará, o torcedor colorado (em sua maioria) atirou-se cegamente para defendê-lo nas redes sociais. Escrevi no Twitter e falei no microfone que esperava uma apuração severa do clube que se orgulha de ter a inclusão racial em sua história e, se comprovado, o argentino fosse punido. A resposta que recebi é de que não havia provas de vídeo e por isso a acusação era inverídica, que Elton quis aparecer na mídia, e claro: que por ser gremista, eu quis “criar crise” para ofuscar a vitória do Inter. O incidente não deve ter nenhum desenrolar desportivo – como teve o do Grêmio há três anos. Talvez criminal, contra o atleta colorado, sim, por conta da lavratura de um boletim de ocorrência. Mas alguém duvida que, se causar alguma punição, Elton será transformado em vilão no Beira-Rio? O curioso é que, quando o volante Tinga foi vítima de injúrias em um jogo contra os peruanos do Real Garcilaso, todos nós condenamos e nos solidarizamos com o jogador. Ninguém disse que Tinga quis ganhar holofotes com aquilo, por exemplo. Sabe por quê? Simplesmente porque não envolveu nenhum clube gaúcho ou brasileiro. Os “criminosos” eram outros. Ou seja, com distanciamento, a injúria racial é condenável. Mas basta envolver o time do seu coração para surgir o “veja bem…

Ah, no futebol é assim!“. Sim, infelizmente eu sei que o futebol permite o racismo. Assim como permite outros preconceitos, como a homofobia, o machismo, etc – o que não quer dizer que eu concorde com isso. Meu objetivo justamente é propor o debate a fim de mudar o olhar das pessoas. E o cenário já foi pior! Até a década de 1920, muitos clubes sequer permitiam a presença de atletas negros, ou pintavam-os com pó de arroz para disfarçar a melanina do rosto. Alguém deve ter proposto o mesmo debate lá atrás para que a situação melhorasse, não? O escritor Lima Barreto foi talvez o principal denunciante. Admiro-o por isso. Não posso me omitir do debate, por mais antipático que seja. Não concordo com a tese de que a melhor arma para combater o racismo é não falar sobre ele. O fato de não ter ocorrido denúncias de corrupção na época da ditadura militar não faz daquele um período ilibado da política brasileira – mas um período em que não se permitia debater. Não discutir o problema seria só atirar a sujeira para baixo do tapete. Não quero é ser condescendente com o fato de a vítima de injúria racial ser transformada em alvo de vaias. Há um crime ali e precisamos condenar quem o comete. Discordar da punição imposta ao Grêmio é uma coisa, vaiar o Aranha é outra completamente diferente. Se a vítima for se transformar em culpada, cuide-se! Algum dia você pode ser assaltado na arquibancada de um estádio de futebol e, caso denuncie o crime, correrá o risco de ser vaiado por “criar crise no clube” ou “querer aparecer na mídia“. E se a moda pegar na sociedade comum, veremos familiares de criminosos perseguindo as vítimas de seus parentes que acabaram sendo presas por “culpa” delas. Tire a camisa do clube do seu coração, pare e pense. Estamos fazendo certo? Se ainda assim você achar que está com a razão e quiser me incluir no pacote de vaiados ao lado de Aranha, Elton e Tinga, fique à vontade. Só posso lamentar. Mas não vou ser condescendente com a inversão de papeis que vivemos no futebol.

Lula fará mal às eleições de 2018

bazarPor favor, não fique apenas no título para tirar suas impressões sobre este texto. Acompanhe minha lógica e reflita – mesmo que vá discordar depois. Se você se considera de direita, ainda não atire rojões. Concordamos que Lula não pode ser o próximo presidente do Brasil, mas isso não quer dizer que estamos do mesmo lado da trincheira. Se és de esquerda, espere um pouco antes de xingar minha quinta geração. Ainda não somos tão antagônicos. Se concorrer nas eleições de 2018, Lula irá polarizar de vez o país, extremar posicionamentos e dizimar qualquer possibilidade de debate político. Estaremos à beira de uma guerra civil ou de nervos.

Não é mais uma questão de foi ou não golpe. A candidatura de Lula pelo PT é puramente uma questão de ego. Não há projeto envolvido. E mesmo que haja, não terá a mínima condição de ser colocado em prática. O pleito de 2014 mostrou que, mesmo colocando Dilma Rousseff no posto majoritário, o brasileiro médio é conservador e continuará alimentando a “bancada da bala”, evangélica, dos empresários, e etc. Ou seja, caso confirme as pesquisas e seja eleito, Lula não terá maioria no Congresso. Não terá governabilidade, não poderá repetir os programas sociais implantados a partir de 2002 e talvez até sofra impeachment. Vimos esse filme, não? Logo, para que gastar saliva em um debate infrutífero? Você poderá argumentar que essa é a única chance do PT (ou da esquerda) eleger um presidente. Eu respondo: que se lance qualquer outro e se perca a eleição! Dos males, o menor.

As pesquisas mostram que, sem Lula no páreo, crescem nomes como de Marina Silva (REDE). É o ideal? Para mim, não. Mas bem mais distante do que pode vir. Tenho acompanhado uma tentativa desesperada de descolar o PSDB da direita. Embora ostente o nome da social-democracia, este partido nada mais foi desde seu princípio do que o representante máximo do neoliberalismo no Brasil – a favor das privatizações e do livre mercado. Aliás, os nomes dos partidos brasileiros são apenas uma questão de semântica. O Partido Progressista, por exemplo, não tem nada de progressista e há tempos elege políticos liberais e conservadores (no Rio Grande do Sul ainda representa a classe dos estancieiros). O Partido Comunista do Brasil não tem nada de comunista, sendo no máximo trabalhista. O Democratas é o antigo PFL, uma dissidência do PDS, que na época da ditadura foi a ARENA, braço político dos militares. Logo, na sua origem, não foi democrata. Enfim, tudo isso para dizer que, ao passo que Aécio Neves – principal representante da direita em 2014 – aparece ligado a esquemas de corrupção, já é descartado como um opositor a Lula. O processo respinga, obviamente, no partido, a ponto de ter quem veja no governo paulistano de João Dória Júnior aspectos de centro-esquerda. Ok, para quem está localizado nas extremidades do espectro político, PT e PSDB são basicamente irmãos siameses – o que é claramente um absurdo. E isso é culpa de Lula! Sim, é ele quem promove no inconsciente popular estas reações polarizadas. Com ele nas urnas, a tendência é o brasileiro buscar sua oposição mais gritante: Jair Bolsonaro.

Não há problema em ser liberal. Não sou um adepto deste pensamento, sou a favor do Estado de Bem-Estar Social, mas reconheço e respeito o liberalismo. Acontece que, muitos dos votos que seriam depositados em candidatos liberais, com a presença de Lula no pleito, irão parar em Bolsonaro. Embora sejam opostos, os dois pré-candidatos tem uma semelhança: ambos despertam ódios e paixões. Para seus adeptos, é como se não existisse mais ninguém ao meio. É 8 ou 80! Quando na verdade, não é bem assim. “Bolsonaro não é corrupto!“, dizem os que o defendem. Minha avó também não é, e isso não faz dela uma potencial presidenciável. Falta ao deputado carioca conhecimento político, econômico e histórico. Ex-militar, defende abertamente o governo ditatorial das décadas de 60 a 80 (o que é um contrassenso para os liberais, uma vez que qualquer ditadura se utiliza do Estado para privar o cidadão da liberdade tão defendida por Mises). Quando confrontado por ideias contrárias às suas, Bolsonaro parte para o confronto pessoal. Além disso, solta frases tão rasas como um pires: “se tem pena de bandido, leva para a casa“, “você (mulher) é feia e não merece ser estuprada“, “tive 4 filhos homens, a quinta eu dei uma fraquejada e veio uma mulher“, “a pessoa não pode ter privilégio porque faz sexo com o órgão excretor“, “fui num quilombo e o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Nem pra procriador ele serve mais.” Convenhamos, se Lula não pode ser presidente – e eu concordo -, temos que ter uma solução melhor do que aquele que nos apresentam como seu principal opositor.