Injúria racial: condenável dentro e fora do futebol

bazar
Fotos: Lucas Uebel (Grêmio) e Lucas Moraes (Ceará)

Sei que depois da importante vitória sobre a Ponte Preta não faltarão torcedores dizendo que estou tentando ofuscar o resultado, “criando uma crise” no Grêmio. Obviamente, não é o caso. Independente do placar, o debate precisava ser reacendido. O goleiro Aranha foi infeliz ao generalizar, alegando que o povo da região sul tem o racismo como “conceito de vida“. Mas ele não procurou o repórter para dar aquela declaração, não foi de graça, de cabeça fria e para “reviver” de maneira consciente algo que lhe fez mal. Não se pode minimizar o que ele sofre cada vez que pisa na Arena e que neste domingo mais uma vez se repetiu. Bastou seu nome ser anunciado no telão do estádio para que fosse muito vaiado. Era uma vaia simples contra um adversário qualquer? Não. Emerson Sheik, por exemplo, que é a principal referência técnica do time paulista, não recebeu nem a metade dos apupos. Aliás, só vi duas pessoas tornarem-se alvo semelhante ao entrarem no estádio gremista recentemente: D’Alessandro e Ronaldinho Gaúcho. Acontece que Aranha não é ídolo do clube rival, nem tampouco jogou no Grêmio e traiu a confiança do seu antigo torcedor – caso dos outros dois citados. Aranha foi vítima de injúria racial. Graças àquele episódio, o Tricolor acabou punido nos tribunais e eliminado da Copa do Brasil de 2014. Mas não foi o goleiro quem julgou o caso (nem eu!). Por que então ele sofre com vaias anormais cada vez que pisa na Arena? E não me venha com a justificativa de que esse é um comportamento típico do sul ou exclusivo do torcedor gremista. O futebol como um todo permite que isso aconteça!

Há uma semana foi a vez da torcida do Inter usar as mesmas desculpas lidas e ouvidas neste domingo. Ao ver seu zagueiro Victor Cuesta ser acusado de ter chamado de macaco o atacante Elton, do Ceará, o torcedor colorado (em sua maioria) atirou-se cegamente para defendê-lo nas redes sociais. Escrevi no Twitter e falei no microfone que esperava uma apuração severa do clube que se orgulha de ter a inclusão racial em sua história e, se comprovado, o argentino fosse punido. A resposta que recebi é de que não havia provas de vídeo e por isso a acusação era inverídica, que Elton quis aparecer na mídia, e claro: que por ser gremista, eu quis “criar crise” para ofuscar a vitória do Inter. O incidente não deve ter nenhum desenrolar desportivo – como teve o do Grêmio há três anos. Talvez criminal, contra o atleta colorado, sim, por conta da lavratura de um boletim de ocorrência. Mas alguém duvida que, se causar alguma punição, Elton será transformado em vilão no Beira-Rio? O curioso é que, quando o volante Tinga foi vítima de injúrias em um jogo contra os peruanos do Real Garcilaso, todos nós condenamos e nos solidarizamos com o jogador. Ninguém disse que Tinga quis ganhar holofotes com aquilo, por exemplo. Sabe por quê? Simplesmente porque não envolveu nenhum clube gaúcho ou brasileiro. Os “criminosos” eram outros. Ou seja, com distanciamento, a injúria racial é condenável. Mas basta envolver o time do seu coração para surgir o “veja bem…

Ah, no futebol é assim!“. Sim, infelizmente eu sei que o futebol permite o racismo. Assim como permite outros preconceitos, como a homofobia, o machismo, etc – o que não quer dizer que eu concorde com isso. Meu objetivo justamente é propor o debate a fim de mudar o olhar das pessoas. E o cenário já foi pior! Até a década de 1920, muitos clubes sequer permitiam a presença de atletas negros, ou pintavam-os com pó de arroz para disfarçar a melanina do rosto. Alguém deve ter proposto o mesmo debate lá atrás para que a situação melhorasse, não? O escritor Lima Barreto foi talvez o principal denunciante. Admiro-o por isso. Não posso me omitir do debate, por mais antipático que seja. Não concordo com a tese de que a melhor arma para combater o racismo é não falar sobre ele. O fato de não ter ocorrido denúncias de corrupção na época da ditadura militar não faz daquele um período ilibado da política brasileira – mas um período em que não se permitia debater. Não discutir o problema seria só atirar a sujeira para baixo do tapete. Não quero é ser condescendente com o fato de a vítima de injúria racial ser transformada em alvo de vaias. Há um crime ali e precisamos condenar quem o comete. Discordar da punição imposta ao Grêmio é uma coisa, vaiar o Aranha é outra completamente diferente. Se a vítima for se transformar em culpada, cuide-se! Algum dia você pode ser assaltado na arquibancada de um estádio de futebol e, caso denuncie o crime, correrá o risco de ser vaiado por “criar crise no clube” ou “querer aparecer na mídia“. E se a moda pegar na sociedade comum, veremos familiares de criminosos perseguindo as vítimas de seus parentes que acabaram sendo presas por “culpa” delas. Tire a camisa do clube do seu coração, pare e pense. Estamos fazendo certo? Se ainda assim você achar que está com a razão e quiser me incluir no pacote de vaiados ao lado de Aranha, Elton e Tinga, fique à vontade. Só posso lamentar. Mas não vou ser condescendente com a inversão de papeis que vivemos no futebol.

Lula fará mal às eleições de 2018

bazarPor favor, não fique apenas no título para tirar suas impressões sobre este texto. Acompanhe minha lógica e reflita – mesmo que vá discordar depois. Se você se considera de direita, ainda não atire rojões. Concordamos que Lula não pode ser o próximo presidente do Brasil, mas isso não quer dizer que estamos do mesmo lado da trincheira. Se és de esquerda, espere um pouco antes de xingar minha quinta geração. Ainda não somos tão antagônicos. Se concorrer nas eleições de 2018, Lula irá polarizar de vez o país, extremar posicionamentos e dizimar qualquer possibilidade de debate político. Estaremos à beira de uma guerra civil ou de nervos.

Não é mais uma questão de foi ou não golpe. A candidatura de Lula pelo PT é puramente uma questão de ego. Não há projeto envolvido. E mesmo que haja, não terá a mínima condição de ser colocado em prática. O pleito de 2014 mostrou que, mesmo colocando Dilma Rousseff no posto majoritário, o brasileiro médio é conservador e continuará alimentando a “bancada da bala”, evangélica, dos empresários, e etc. Ou seja, caso confirme as pesquisas e seja eleito, Lula não terá maioria no Congresso. Não terá governabilidade, não poderá repetir os programas sociais implantados a partir de 2002 e talvez até sofra impeachment. Vimos esse filme, não? Logo, para que gastar saliva em um debate infrutífero? Você poderá argumentar que essa é a única chance do PT (ou da esquerda) eleger um presidente. Eu respondo: que se lance qualquer outro e se perca a eleição! Dos males, o menor.

As pesquisas mostram que, sem Lula no páreo, crescem nomes como de Marina Silva (REDE). É o ideal? Para mim, não. Mas bem mais distante do que pode vir. Tenho acompanhado uma tentativa desesperada de descolar o PSDB da direita. Embora ostente o nome da social-democracia, este partido nada mais foi desde seu princípio do que o representante máximo do neoliberalismo no Brasil – a favor das privatizações e do livre mercado. Aliás, os nomes dos partidos brasileiros são apenas uma questão de semântica. O Partido Progressista, por exemplo, não tem nada de progressista e há tempos elege políticos liberais e conservadores (no Rio Grande do Sul ainda representa a classe dos estancieiros). O Partido Comunista do Brasil não tem nada de comunista, sendo no máximo trabalhista. O Democratas é o antigo PFL, uma dissidência do PDS, que na época da ditadura foi a ARENA, braço político dos militares. Logo, na sua origem, não foi democrata. Enfim, tudo isso para dizer que, ao passo que Aécio Neves – principal representante da direita em 2014 – aparece ligado a esquemas de corrupção, já é descartado como um opositor a Lula. O processo respinga, obviamente, no partido, a ponto de ter quem veja no governo paulistano de João Dória Júnior aspectos de centro-esquerda. Ok, para quem está localizado nas extremidades do espectro político, PT e PSDB são basicamente irmãos siameses – o que é claramente um absurdo. E isso é culpa de Lula! Sim, é ele quem promove no inconsciente popular estas reações polarizadas. Com ele nas urnas, a tendência é o brasileiro buscar sua oposição mais gritante: Jair Bolsonaro.

Não há problema em ser liberal. Não sou um adepto deste pensamento, sou a favor do Estado de Bem-Estar Social, mas reconheço e respeito o liberalismo. Acontece que, muitos dos votos que seriam depositados em candidatos liberais, com a presença de Lula no pleito, irão parar em Bolsonaro. Embora sejam opostos, os dois pré-candidatos tem uma semelhança: ambos despertam ódios e paixões. Para seus adeptos, é como se não existisse mais ninguém ao meio. É 8 ou 80! Quando na verdade, não é bem assim. “Bolsonaro não é corrupto!“, dizem os que o defendem. Minha avó também não é, e isso não faz dela uma potencial presidenciável. Falta ao deputado carioca conhecimento político, econômico e histórico. Ex-militar, defende abertamente o governo ditatorial das décadas de 60 a 80 (o que é um contrassenso para os liberais, uma vez que qualquer ditadura se utiliza do Estado para privar o cidadão da liberdade tão defendida por Mises). Quando confrontado por ideias contrárias às suas, Bolsonaro parte para o confronto pessoal. Além disso, solta frases tão rasas como um pires: “se tem pena de bandido, leva para a casa“, “você (mulher) é feia e não merece ser estuprada“, “tive 4 filhos homens, a quinta eu dei uma fraquejada e veio uma mulher“, “a pessoa não pode ter privilégio porque faz sexo com o órgão excretor“, “fui num quilombo e o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Nem pra procriador ele serve mais.” Convenhamos, se Lula não pode ser presidente – e eu concordo -, temos que ter uma solução melhor do que aquele que nos apresentam como seu principal opositor.

Diretas! Independente de endireitar ou não

bazar
Se compararmos à cobertura feita da manifestação de março de 2015, que pedia o impeachment da então presidente Dilma Rousseff, o protesto do último domingo em Copacabana (a favor de eleições diretas) não recebeu nem a metade da repercussão na mídia. Nem mesmo a presença de inúmeros atores, ou shows de alguns dos maiores nomes da música – do passado e do presente, como Caetano Veloso, Milton Nascimento, Mart’nália e Criolo – sensibilizaram a grande imprensa brasileira. Jornalisticamente falando, há uma grande diferença de tratamento numa transmissão ao vivo para uma matéria de 2 minutos. Nem flashes ao vivo? Mas ok, entende-se! A pauta simplesmente não interessa. Por que ‘Diretas Já‘ é inconstitucional? Não! Porque o voto direto neste momento poderia eleger alguém que brecaria as reformas previdenciária e trabalhista. Por isso, mesmo que Michel Temer seja derrubado, é preciso garantir que o sistema vá se proteger através de uma eleição indireta como manda a Constituição Federal (agora convém respeitá-la!). Nem todos os jornalistas pensam assim, mas esta é a linha editorial a que eles estão submetidos. É a lógica patronal – desde a fábrica de automóveis, à fábrica de notícias.

Lula. Este é o nome citado em qualquer debate proposto sobre Diretas Já! Que o TSE retire o candidato petista da corrida eleitoral então. E que o argumento que lhe impediria (o fato de ser um dos principais investigados da Operação Lava-Jato) também impeça outros nomes de entrarem no páreo. Não me importo. Não votaria em Lula pelo fato de ser ele um potencializador da polaridade atual. Prefiro alguém que soe mais conciliador ao ambiente político e mercado econômico – desde que este também não dê as costas para o bem estar social. Se você é contrário às “Diretas” pelo fato de que Lula lidera as pesquisas atuais, não é o oposto que me faz acreditar nas “Diretas” como a solução plausível. Não votaria também em Jair Bolsonaro ou João Dória Jr, outros possíveis candidatos. Mesmo assim, se for a vontade da maioria, aceitaria a vitória de um deles.

Acima das minhas ideologias, entendo que o Brasil precisa ter um presidente com legitimidade popular. Neste período de descrédito, é preciso devolver ao povo o direito de escolher seu governante, e não terceirizar a decisão a um colegiado (putrefato, diga-se de passagem). Aceitaria a eleição de qualquer um, nem que seja alguém que eu não concorde. Nem que fosse o próprio Temer! Alguém que, assim como ele, daria continuidade às reformas das quais sou contrário nesta maneira que se propõem. As mesmas reformas que os grandes empresários têm medo que não aconteçam. Os grandes empresários de todos os ramos – inclusive das grandes empresas de comunicação. As mesmas empresas de comunicação que omitiram (ou minimizaram) vergonhosamente o pedido por Diretas Já do noticiário jornalístico.

Um mês sem a ficha cair

bazar

Hoje faz um mês. Dizem que a ficha um dia vai cair. Mas o que isso significa? Ouvi teu nome completo nas rádios, vi tuas fotos no jornal e até um vídeo em que tu aparece na televisão. Parece mentira! Às vezes cruzo em frente ao teu prédio, achando que vou te abanar no portão e receber um convite: “E aí, bugrinho, quando é que vamos fazer um churras?!“. No último protesto parei na esquina, com uma garrafa de cerveja na mão, acendi um cigarro em tua homenagem e fiquei te esperando passar. Não vieste! Cheguei a ouvir tua voz perfeitamente gritando junto com todo mundo: “Fora Temer! Fora Temer!“.

Não te culpo pela ingenuidade. A vítima nunca é a culpada! Nem sinto raiva de quem te arrancou à força do mundo. Aliás, consigo te imaginar sentado na mesa de um bar, às risadas (e ouço a tua gargalhada), contando como foi que escapaste dessa enrascada. Seu louquinho! Por isso, não brado pela pena de morte – sei que tu também era contrário a ela. Queria que o M.S.M (25 anos) – conforme a polícia divulgou – entendesse a bobagem que ele fez. Que se arrependesse de ter nos privado de conviver mais um pouco contigo. Quem sabe ele próprio, se tivesse ficado mais algumas horas, dias, semanas e meses ao teu lado, iria aprender como a vida merece ser plenamente vivida. Este é o ensinamento que me passaste, mesmo sem querer. Deu vontade de ir à praia? Vamos! Está de folga no final de semana? Vamos ao Uruguai! Ou ao Rio de Janeiro! E nem adianta marcar hora, porque tu sempre chegaste atrasado. Dorminhoco! Sou uma pessoa melhor graças ao tempo em que pude conviver contigo. Uma pessoa mais tolerante, feliz, com a mente aberta…

Não adianta! Por mais que eu tente imaginar como seria o último mês contigo ainda presente, penso que estarias menos alegre. Aconteceram algumas coisas por aqui que tu não concordas. O cerco está se fechando! As pessoas estão cada vez menos parecidas contigo – menos ingênuas, mais intolerantes, odiosas, caretas… Falei para tua mãe e repito: não pertencias a este mundo! E como era bom quando tu me convidava para entrar neste teu mundo diferente, nem que fosse por algumas horas. Uma cervejinha gelada no congelador, uma música de fundo no radinho ao lado da cama, a televisão no mudo e a porta da sacada aberta para entrar um vento. Assim te imagino descansando para sempre. Mas se quiseres reaparecer e contar que tudo foi mentira, fique à vontade: tem Comitê Latino-Americano nesse final de semana!

 

 

 

Empresários pagadores de propina ou povo trabalhador?

bazar
Foto: Alan Santos/PR

Imagina que louco seria se, num país onde se “descobriu” que grandes empresários pagavam propina e cobravam favores de políticos (e onde também se “descobriu” que o presidente se reunia às escondidas, à noite, com um destes grandes empresários), o presidente da República – com vários pedidos de impeachment -, juntasse os líderes das bancadas partidárias, pedindo pra acelerar votações na Câmara dos Deputados?

Agora imagine que, coincidentemente, até estourar o último escândalo de corrupção, a principal meta deste presidente era votar as reformas previdenciária e trabalhista. E que o presidente da Comissão da reforma da Previdência, indicado pelo partido do presidente, é o mesmo deputado que foi à Ordem dos Advogados defender o tal presidente de um pedido de impeachment.

Considerando tudo isso, eu faria uma única pergunta: as reformas trabalhista e previdenciária interessam realmente ao povo trabalhador ou aos empresários que financiam estes políticos?

Atenção! A implosão de Temer não pode ser a implosão da democracia

bazar.jpgNão há motivos para festejar. A bomba que caiu sobre Brasília neste 17 de maio de 2017 é motivo de preocupação para todos nós, coxinhas, mortadelas ou o que seja. Não quero dizer com isso que devamos ignorar a crise política e manter Michel Temer na presidência da República pelo bem da recuperação econômica – como já sugeriram alguns anteriormente. O mais novo escândalo (agora com direito à gravação) merece ser tratado com rigor, sim: saída imediata do presidente, seja por renúncia ou por impeachment. Mas e aí, o que será feito depois? É preciso atenção! O momento delicado que vive o Brasil é um prato cheio para quem odeia a democracia. Não faltarão adeptos do velho pensamento mágico: “ah, se os militares estivessem no poder…“. De fato, se os militares estivessem no poder, a imprensa jamais teria publicado a notícia desta noite. Não por que a corrupção estivesse findada. Não! Simplesmente porque estaríamos todos de olhos vendados e com mordaças sobre a boca (talvez literalmente!). Ou você acha que as empreiteiras agiram licitamente na construção de obras faraônicas, como a Rodovia Transamazônica, nas décadas de 60 e 70?

Pela legislação nacional, com um possível afastamento do presidente, Rodrigo Maia (do DEM, presidente da Câmara dos Deputados, e pertencente à base governista de Temer) assumiria a cadeira e convocaria eleições indiretas. Ou seja, deputados e senadores escolheriam o novo presidente. Não eu ou você! Mais ou menos como colocar um grupo de raposas a cuidar da porta do galinheiro. Por exemplo, o que os impediria de um grande conchavo, como os já feitos atualmente? Ou pior: mudar as regras do jogo e esta pessoa eleita ficar por mais 4 anos, adiando o pleito agendado para 2018. Mas enfim, se é para ser inconstitucional, digamos que a melhor saída seja eleições gerais e diretas. Pois bem, neste caso, as últimas eleições municipais já deram pequenas amostras do que pode vir pela frente: uma grande desilusão com a classe política e a famosa frase de que são todos “farinha do mesmo saco“.

Dos consagrados, Aécio Neves (PSDB) é carta fora do baralho até no próprio partido depois de também ter sido gravado. Para Lula (PT), seria questão de tempo até o próximo pedido de impeachment. Marina Silva (REDE) mudaria de opinião quantas vezes sob a batuta dos líderes religiosos? E então voltemos aos saudosistas verde-oliva: aqui entra Jair Bolsonaro (hoje PSC). O “mito” dos preconceituosos e truculentos – que parece engraçado quando retratado por programas humorísticos – tem sérios problemas em lidar com o contraditório. Seria este o apaziguador da democracia brasileira? Óbvio que não! Aí entram os “outsiders“, aqueles fora do bojo político. Alguém que você nem imagina, talvez alguém que você nem conhece, pode ser o novo presidente da República daqui alguns meses. Esta pessoa pode estar sentada ao seu lado agora. Ou apresentando o programa de TV que você sabe que existe, mas nem assiste. Pode ter dado entrevistas durante o programa esportivo do final de semana e até feito um gol importante de repente. Pode ter sido cirurgião plástico, juiz federal ou palhaço de circo. Por isso, não se pode nem brindar a queda iminente de Michel Temer. Tempos difíceis ainda estão por vir!

Brasil, a pátria de luvas de boxe

bazar
Por muito tempo se pensou o seguinte: “ah, se o brasileiro se importasse tanto com político como se importa com futebol, o país não estava desse jeito“. Ledo engano! De uns tempos para cá, os botecos deixaram o Fla-Flu de lado para discutir se Lula sabia ou não da corrupção na Petrobrás. No ponto de táxi, o assunto não é mais o gol perdido pelo atacante, mas a mais nova delação premiada. Ninguém mais critica tanto o juiz que validou um gol com a mão, mas espuma ao ler sobre a última decisão do STF. Arrisco dizer que, desde a reabertura política, o brasileiro nunca se preocupou tanto com política como agora. Acontece que a maneira com que se acompanha o noticiário político é idêntica a como acompanhava o noticiário esportivo: como mero torcedor, cego de raiva ou paixão, sedento pela vitória a qualquer custo. E sei do que estou falando! Como cronista esportivo, sofro cada vez que tento fazer uma análise, tecer uma crítica/elogio a algum jogador, técnico ou clube de futebol. Mesmo que me poste de maneira respeitosa, soa como ofensa ao ouvido do torcedor. Por quê? Porque ele não assiste/lê/ouve, ele digere com o estômago.

Nelson Rodrigues estava errado. O Brasil não é e nunca foi a pátria de chuteiras, mas a pátria das luvas de boxe. Não porque gosta mais deste esporte que do outro, mas porque prefere o embate em si – seja sobre o que for. E tal pensamento não se resume somente ao brasileiro médio. Há jornalistas que também gostam de ver o circo pegar fogo, da discussão rasa. E cito a profissão de jornalista pressupondo que são pessoas com ensino superior completo, portanto capazes de escrever e interpretar textos que fujam do senso comum. Outro engano! Nosso esporte preferido nos impede de colocarmos a razão à frente da emoção, e nos impele a este maniqueísmo pobre que separa um em cada canto do ringue. Exatamente como fizeram na última semana as capas das revistas Veja e IstoÉ (duas das maiores do país). Queria eu ter a segurança de muitos brasileiros e me posicionar contrário/a favor de Lula/Sérgio Moro. Não consigo ver tão somente uma perseguição política na investigação sobre desvios de dinheiro público e influência de poder no mandato do ex-presidente, assim como não consigo aplaudir as ações do juiz que ultrapassam a linha constitucional – como vazamento seletivo de conversas telefônicas. Isso me faz alguém medroso, que fica em cima do muro? É, no mundo raso do futebol costuma se chamar de “muraldino” aquele que não se posiciona sobre um determinado assunto. Logo, como o debate político ganhou ares futebolísticos, virei “muraldino” por não escolher nenhum dos lados.

Mas, como já escrevi antes, o próprio papel da imprensa está enviesado. Como sou jornalista, sei: a isenção é uma mentira. Isso, porém, não quer dizer que vou me comportar como um torcedor de clube de futebol ou como um filiado a partido político. Posso tranquilamente gostar de ver um time jogar em uma determinada temporada por causa de tal metodologia de trabalho, assim como acabo votando em um determinado candidato pela conjuntura ou projetos apresentados. Entretanto, no papel de repórter, não tomo partido. Apenas ouço as partes. Como comentarista, aí sim, devo me posicionar (sem cegueira ou raiva). O problema está no conceito editorial. Como puderam as duas revistas acima citadas colocarem um pré-candidato à presidência prestes a lutar contra um juiz federal? Para facilitar o processo, te convoco a imaginar o seguinte cenário. Teremos a final de um campeonato no final de semana, e o caderno de esportes de um determinado jornal traz o ídolo de um dos times desafiando o árbitro do jogo. Algo como: “D’Alessandro versus Leandro Vuaden” ou “Danrlei contra Carlos Simon“. E o representante do outro time, o outro finalista, está aonde? Este deveria ser o enfoque! Enfim, seria louco (para não dizer parcial) até para os padrões do jornalismo esportivo ver uma capa dessas. Mas, como o futebol já é passado, vamos fazê-lo com a política. E que se rale o noticiário e a análise fria das informações. Queremos mesmo é urrar do lado de fora do ringue até que um dos boxeadores desabe na lona!

A dívida que eu não paguei no Rio de Janeiro

 

20170415_115130.jpg

Resolvi passar parte das minhas férias no Rio de Janeiro. Paguei tudo à vista – desde as passagens compradas com meses de antecedência, quanto a reserva do hotel, quanto a bebida ou os almoços que consumi durante esses dias de estadia. O que não consegui pagar foi a dívida que a cidade tem (o Brasil tem, de um modo geral). E talvez nunca se pague por isso: o povo negro segue em condições subumanas e a distância de tratamento e de condições de vida é abissal.

Como turista, visitei a Praça Mauá e o Porto Maravilha, no Centro Histórico do Rio, que foram revitalizados para receber os Jogos Olímpicos em 2016. Eis que fui saber que este mesmo local, que hoje ostenta a frase “RIO_TEAMO“, serviu como porta de entrada para os negros que eram trazidos à força da África e vendidos como escravos na então capital federal brasileira. Foi o maior porto negreiro das Américas! Isso já serviria para deixar qualquer consciência pesada – mesmo de não cariocas, como eu. Contudo, basta seguir caminhando pela cidade para concluir que 1888 só fez cócegas na realidade nacional. A escravidão ainda deixa suas marcas expostas, em uma dívida gigantesca que, para ser paga, será preciso zerar a conta praticamente. Onde a meritocracia demorará a chegar. Segundo o censo do IBGE de 2010, 48% da população do Rio de Janeiro (capital) é de negros ou miscigenados. Na zona sul, nos bairros de Copacabana, Leme, Ipanema, Leblon, etc, esta conta cai para 17%. Ou seja, eles estão concentrados na zona norte e, principalmente, na região dos morros. Literalmente, foram marginalizados – estão à margem da sociedade (ou do Centro, das zonas onde o dinheiro se concentra). Acontece que, mesmo que alforriados há mais de um século, os negros não são aceitos de imediato no meio social. Ainda são quem mais é abordado pela polícia, quem mais rende olhares de desconfiança na praia, quem mais tem de trabalhar e ao mesmo tempo quem menos recebe.

Dei-me conta disso quando, dando continuidade às minhas férias, deitado nas areias do Leblon, percebi que eu era uma das pessoas de tom de pele mais escuro naquele perímetro. Enquanto que, o cálculo se invertia quando observava os vendedores ambulantes, ou o pessoal das barraquinhas de aluguel de cadeiras e guarda-sol. Acontece que, mesmo depois de 1888, o negro ainda é quem ocupa o lugar de serviçal. Ainda é quem, em pleno feriado, caminha no sol para que o branco se divirta na beira do mar. Ainda perambula nas ruas sem ter o que comer. E, quando pede esmola, é enxovalhado. Mas se, por fome, ataca, é preso ou morto. No restaurante, vi babás negras almoçando com os filhos brancos dos patrões – tal qual amas de leite. No hotel, quando a porta do elevador se abriu, foi um negro quem pediu para segurar minha mala enquanto eu rumava para fechar a conta no guichê. Mas essa conta eu não vou conseguir pagar. É uma realidade triste e que talvez não mude tão cedo – ainda mais se você continuar fazendo de conta que não acontece, empurrando essa dívida para outras gerações pagarem.

Como foi bom nós dois!

bazar01.jpg

Talvez eu não tenha a mesma habilidade da Milly Lacombe em comparar o término de um relacionamento com a morte de uma estrela. Mesmo assim, precisava externar (e tentar mostrar para nós mesmos) o quanto a concepção de casamento está errada. O “viveram felizes para sempre” é o que nos fode. Não somos os príncipes e princesas da Disney. Ninguém é. Somos apenas as crianças que cresceram lendo estes livros. E os leitores sofrem, se apaixonam, caem no marasmo e sentem vontade de se apaixonar de novo. Quem disse que nosso relacionamento deu errado? Demos foi muito certo! Curtimo-nos durante sete anos. Sete! Número cabalístico, ainda por cima. E como escreveu Vinícius de Moraes – que viveu ao pé da letra tudo isso nos seus tantos amores -, fomos eternos enquanto duramos.

Quando olho para trás, lembro do quanto me fizeste evoluir como homem e ser humano. Dos ‘papos-cabeça’ que tivemos nas mesas dos bares – nem sempre concordando um com o outro. Aliás, debater contigo foi meu melhor exercício para aceitar o quanto o outro pode ser diferente. E algumas vezes até me convenceste a ser um pouco mais como tu. Quero levar comigo a recordação dos grandes porres, das comilanças, dos filmes que tu dormiste no meio, das gargalhadas sem sentido, das semanas intensas de sexo, das aventuras pelo mundo, dos amigos que conquistamos, dos inimigos que praguejamos. Teus medos foram meus, minhas raivas foram tuas, minhas camisas te serviram como pijama e as tuas saias foram minha fantasia de Carnaval. E pensar que começamos pelo avesso, né?! Conhecemo-nos prometendo que era proibido se apaixonar – quando eu cheguei no primeiro encontro carregando cerveja e tu me esperavas com vinho, parecia que seria fácil. Mas eu fui fisgado pelo teu gosto musical e ouvi tu balbuciando que me amavas durante o sono. Fiquei feliz por não estar sozinho nesse sentimento e meses depois fomos morar juntos. A pior escolha! Ali quase nos matamos. Brigávamos tanto, eu era tão ciumento e tínhamos um contrato de aluguel a cumprir. Mudamos de casa, adotamos um casal de cachorros na rua, fizemos planos de ter um filho (ou filha), estourei a champagne da tua formatura, me orgulhei da profissional que te tornasse e sei que tens orgulho de mim também. Quando pensaram que éramos o “casal 20”, nos reinventamos! Saíste de casa para morar sozinha, eu concordei e nosso fogo reacendeu! Voltamos a namorar. Permitimo-nos tantas coisas e nos conhecíamos barbaramente. Quando pensaste em outra pessoa, eu descobri quem era porque também achava-o bonito. Quando foi minha vez de querer alguém, tu também descobriste. Estávamos quase um no cérebro do outro, tamanha nossa cumplicidade. Esse foi o nosso fim? Não, só fez parte do processo lindo que nos tornou quase uma pessoa só.

Então como podemos acabar? Simplesmente porque todas as coisas acabam. Lembra do que a Cássia Eller cantou: “que o pra sempre sempre acaba“? Eu não conseguiria viver ao teu lado sendo uma sombra do que fomos. Seria desrespeito com nós mesmos. É como manter um girassol morto no canto da sala só porque um dia ele foi bonito. Dá pena, mas o ciclo da vida é esse: brotamos, florescemos e caímos por terra. E sabe o que é mais incrível? Eu ainda te amo. Vou seguir comemorando tuas conquistas, sorrindo com tua felicidade e sofrendo quando chorares. Nossa saúde mental é que vai dizer o quanto seremos próximos a partir de agora. E é desse jeito que tem que ser. Quantos casais seguem juntos até a morte e não têm a metade do que nós temos? Cruzam pela casa como desconhecidos, se insultam, não trocam carinhos. Eu não queria ficar assim, acomodado numa relação doente, mas cheia de charme para quem vê de fora. Agora dói, eu sei, mas um dia sentaremos para rir disso tudo e concluir sem tristeza: como foi bom nós dois! Não é que quase chegamos lá, nós chegamos e sobrevivemos para contar a história.

Nacionalismo xenófobo é tendência mundial

bazar

Antigamente, ao me deparar nos livros de história com a figura de Hitler e o nazismo na Alemanha, sempre me questionava: como os alemães deixaram que isso acontecesse? Causa-me espanto como um povo civilizado pode referendar um governo que se guia pelo ódio a uma raça diferente da sua. Devo não ser o único com esta reflexão. Mas hoje, aprofundando-me na leitura, entendo que aquele não foi um fato isolado. Primeiro houve o fascismo de Mussolini na Itália. Depois, veio Salazar em Portugal. Por fim, após Hitler se tornar chanceler alemão, veio Franco na Espanha. Todos eles extremamente nacionalistas e xenófobos. Convenhamos, algo não muito diferente do que começa a se viver no mundo atualmente.

O que é a xenofobia? Vem do grego: xénos (estrangeiro) + phóbos (medo). A eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, por exemplo, já foi guiada por essa corrente – suas principais promessas são deportar os muçulmanos e construir um muro na fronteira com o México. Ou seja, medo (ou aversão) ao estrangeiro. Nesta quarta-feira, foi a vez dos holandeses ouvirem o “canto da sereia”. Geert Wilders, do Partido da Liberdade (??), apresentou-se com ideias contrárias à imigração principalmente de muçulmanos aos Países Baixos. Liderava as pesquisas, mas na eleição que renovou as cadeiras do Parlamento, acabou sendo derrotado pelo Volkspartij voor Vrijheid en Democratie (VVD), ou Partido Popular para a Liberdade e Democracia, do atual premeiro-ministro. O curioso é que este não é necessariamente um partido de esquerda. Não, é um partido conservador liberal que, só subiu nas pesquisas até alcançar a vitória após ações do premiê Mark Rutte, que criou uma crise internacional com a Turquia após barrar ministros turcos de participarem de comícios em Roterdã. Ou seja, deu à população o que ela queria: a aversão a estrangeiros. É óbvio que não houve uma vitória neste caso.

E assim deverá seguir na Alemanha, onde Frauke Petry (do Alternative für Deutschland – Alternativa para a Alemanha) defende ideias semelhantes: fechamento das fronteiras e restrição à entrada de muçulmanos. Igualmente na França, onde Marine Le Pen (da Front National – Frente Nacional) concorrerá à presidência. A ordem para barrá-los é expressa: absorver parte de suas ideias para cair no gosto popular. No Brasil, ainda não sofremos com o temor pelo terrorismo, portanto nossas “causas” são outras. Mesmo assim, não é difícil ver semelhanças entre os discursos acima citados com os de Jair Bolsonaro, Levy Fidelix e outros fanáticos que já deixaram há tempos de ser uma caricatura engraçada. Surfam na crista da onda mundial, isso sim. Que os livros de história nos perdoem!