Nós, homens, temos de deixar de ser gaiolas

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O filme não é de agora (na verdade, 2006), mas só fui assistir hoje. Falo de ‘Les Amants Du Flore‘, ou “Os Amantes do Café Flore“. A história é conhecida e verídica: trata do romance entre Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre. E embebido do clima filosófico, peguei-me refletindo sobre o quanto os homens tratam as mulheres como passarinhos. Primeiro, escolhem entre os mais bonitos. Apaixonam-se por suas plumagens, cantos, estilo de voo. E em seguida, aprisionam-os em gaiolas. Às vezes, cortam-lhes até as asas para não voarem mais. Preferem vê-los ali, enclausurados e ao alcance, mesmo que tristes. As aves perdem as penas, param de cantar, deixam de ser livres. E aí, se não morrem, são abandonadas porque não têm mais aquilo que chamava a atenção de seu dono. Ora, mas quem lhe privou de tudo?

Se não entendeu no quê a analogia das aves tem a ver com o filme francês, explico. Acontece que o casal de filósofos citados acima decidiu ter um relacionamento aberto por toda a vida. Ou seja, polígamo. Aliás, sequer foram casados. Jamais moraram juntos também. Eram parceiros de estudos e de sexo. No entanto, não proibiam-se de ter outros casos amorosos. Foi uma condição imposta pelo professor de filosofia Sartre, que anarquicamente confrontava as instituições – entre elas, o “casamento burguês“. Ouviu um sim da parceira, que também resolveu alçar seus “voos independentes”, incluindo com mulheres. Tiveram outros pares, moraram tempos fora de seu país, mas sempre voltavam para o velho ninho – vizinhos de porta, um do outro. Mortos na década de 80 (com seis anos de diferença), seus restos mortais repousam no mesmo túmulo, no Cemitério de Montparnasse, em Paris.

Enfim, não é preciso ser polígamo para compreender e respeitar a história do casal. No mínimo, serve para questionar a relação que nós, homens, temos com as mulheres. Você conhece algum marido que se intrometeu e até proibiu a esposa de trabalhar? E uma mulher que deixou de estudar para ser mãe e cuidar do lar? E se a sua noiva/namorada gosta de beber, você permite? O número de vezes que você saiu para se divertir com seus amigos é igual ao que ela fez o mesmo? E se ela gosta de dançar, ela dança? Não precisa ser necessariamente com você! E na hora do sexo, você se esmera em fazê-la chegar a um orgasmo, ou apressa-se em gozar, vira para o lado e dorme? Graças ao seu livro de maior fama, “O Segundo Sexo”, Beauvoir nos faz pensar na igualdade entre homens e mulheres – seja na expressão sexual, social ou profissional. Não à toa, é um ícone do feminismo. E é isso que o feminismo exige: a igualdade entre os sexos. Responda: você, homem, prende o passarinho na gaiola também ou deixa-o livre para voar e voltar sempre que quiser? Este é o verdadeiro amor.

Como se fala Carandiru em holandês?

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Sejamos sinceros: o massacre no presídio de Manaus foi relativizado pela população brasileira. Em tempos onde a frase “direitos humanos para humanos direitos” é proferida mais do que ‘bom dia’, ignora-se o fato de que 56 pessoas foram brutalmente assassinadas pelo simples fato de que se tratavam de presidiários. São vidas! E foi o maior massacre deste tipo desde o Carandiru, em São Paulo – onde 111 detentos foram mortos em 1992 após confronto com a polícia. Por isso, já passou da hora de repensar o sistema carcerário no Brasil. A Holanda seria um belo exemplo a ser estudado.

Com o objetivo claro de ressocializar o preso, o país europeu vem fechando prisões nas últimas duas décadas – algumas viraram postos de triagem para refugiados ou até hotéis de luxo. Acontece que, ao invés de ficarem trancafiados com tempo ocioso, os detentos holandeses passam por cursos profissionalizantes (culinária, costura, etc) e são devolvidos à sociedade após o cumprimento da pena. Com isso, a taxa de reincidência é baixíssima – cerca de 10%, enquanto que no Reino Unido ou Estados Unidos (maior população carcerária do mundo) a porcentagem é de 50%. É melhor nem falar no Brasil! E antes que você pense que aqui isso não daria certo, é preciso compreender quem está dentro das cadeias. O sujeito com psicopatia precisa de tratamento médico e psicológico. E os traficantes? Bom, aí está o grande diferencial entre Brasil e Holanda.

Enquanto as casas de detenções brasileiras transformam o ‘aviãozinho’ em ‘patrão da boca’ e o ‘patrão da boca’ em ‘mafioso’, os holandeses cortaram o mal pela raiz. Viciados são questão de saúde: precisam ser medicados e acompanhados psicologicamente. E vendedores são legalizados. Sim, o simples fato de permitir a venda de maconha em pubs já reduziu consideravelmente o poder dos traficantes. Logo, não está se “financiando o crime organizado“, como também argumentam os conservadores brasileiros. Tais medidas fazem com que o fluxo nos presídios seja amenizado. Não há briga entre facções, como o PCC (Primeiro Comando da Capital), que causou a chacina manauara. Também não basta privatizar presídios como defendem alguns, já que a lógica destes seria obter lucro, encarcerando cada vez mais gente e estimulando a construção de novos prédios – o presídio de Manaus era privado, por exemplo. Tampouco se solucionará o problema se o Estado providenciar novas construções, como se preocupa o governo Sartori no Rio Grande do Sul. Darcy Ribeiro, antropólogo e político brasileiro, foi muito feliz quando na década de 80 decretou que se o país não investisse em educação naquele momento, estaria fadado a construir novos presídios em 20 anos. Estes 20 anos passaram. Não adianta mais dar murro em ponta de faca. A lógica brasileira está falida. É mais fácil mudar o que se está fazendo e não vem obtendo resultado, do que convencer os holandeses de que o ‘modelo Carandiru’ está correto.

Como seria a vida de Jesus nos dias atuais?

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Líder pacifista. Pastor e ativista político. Líder político rebelde. Assim rotularam respectivamente o indiano Mahatma Gandhi, o estadunidense Martin Luther King Jr e o sul-africano Nelson Mandela. Porém, as três definições poderiam servir tranquilamente para Yeshua Ha Mashiach – ou, como conhecemos pela cultura ocidental, Jesus, o Messias. Pela crença popular cristã, nasceu em 25 de dezembro, na cidade israelense de Nazaré (que hoje tem cerca de 65 mil habitantes). Mas esqueça a história! Permita-me (e permita-se) imaginar como seria esta pessoa vivendo nos dias atuais. Sem querer ofender, por favor!

– Agitador cultural

Ao não ter sido criado pelo pai biológico, Jesus já poderia sofrer o primeiro preconceito aí. Digamos que não estaria inserido no que se classifica como ‘família tradicional’. Mesmo assim, levaria uma vida pacata até os 30 anos, quando resolve sair de casa sem rumo, abandonando o emprego ensinado pelo padrasto, e decide viajar para pregar palavras religiosas – mesmo que sem vínculo com nenhuma igreja. Aliás, as igrejas não seriam propriamente bem aceitas por ele. O que diria, por exemplo, da gigantesca Basílica de São Pedro, recheada de ouro, no Vaticano? Nem quero imaginar o que faria se visitasse o Templo de Salomão, obra faraônica erguida no bairro do Brás, em São Paulo, pela Igreja Universal. Mas dá para ter uma ideia através da sua ação violenta relatada na Bíblia e atribuída a João: “expulsou a todos do templo, as ovelhas bem como os bois, derramou pelo chão o dinheiro dos cambistas, virou as mesas e disse aos que vendiam as pombas: Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai uma casa de negócio“. Tal comportamento, lógico, não seria bem recebido nos dias atuais. Seria, no mínimo, chamado de “agitador cultural” ou “subversivo” pelos mais conservadores.

– Assédio de partidos políticos

O que diria contra os pastores evangélicos que vociferam contra homossexuais, prostitutas, etc? Jesus, aquele mesmo que interveio durante o apedrejamento de uma mulher adúltera, certamente repetiria a frase “atire a primeira pedra“. E ao defender ladrões e assassinos, o que diriam os mais xiitas defensores da pena de morte? Bom, é melhor nem pensar o que falariam sobre a divisão igualitária de comida entre todos. E se ele resolvesse falar a um jovem rico contemporâneo que é “mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus“. Nooossa! “Vai para Cuba!” seria o xingamento mais educado, além do carimbo de ‘comunista’ na testa. Aliás, o posicionamento político renderia convites para filiação partidária – fosse no Brasil, por identificação ideológica, PSOL e PT voariam sobre ele; mas outros partidos poderiam se aventurar também. Quem sabe não seria essa a ‘tentação de Cristo’ nos tempos modernos? Promessas de bons cargos públicos, salários e outras benesses. Provavelmente, ele não cairia em tentação.

– Problemas com a lei e formação de “quadrilha”

Mesmo comprando brigas contra a igreja e políticos renomados, Jesus teria seguidores. Se utilizasse as redes sociais, bem mais que 12, com certeza. O que não evitaria seus problemas com a lei. Quando voltou a Jerusalém, o profeta fez críticas aos fariseus e aos doutores da Lei, a quem chamou de hipócritas por não seguirem o que pregavam. Este comportamento traria perseguições a ele e aos seus seguidores. Um deles poderia ser preso e, assim como fez Judas Iscariotes, entregaria onde as reuniões aconteciam. Seria uma espécie de delação premiada, para utilizar um termo em voga. Trocando o Monte das Oliveiras por uma favela ou morro na periferia de uma grande cidade, poderíamos ter o cenário da prisão. Possivelmente seria acusado de “formação de quadrilha”, já que estava cercado por ‘comparsas’.

– Júri popular e pena de morte

Preso pela Polícia Federal (substituídos aqui pelos soldados do Império Romano), o caso de Jesus seria levado para julgamento diante do governador ou presidente, que – assim como Pôncio Pilatos – “lavaria as mãos” em entrevista coletiva. Levado à juri popular, após cobertura sensacionalista da imprensa, seria condenado. Dependendo do país, varia o crime e a pena. No Irã, por exemplo, seria condenado por “distúrbio da paz pública”. No Brasil, como não há pena de morte, renderia alguns meses de cadeia, quem sabe. Mas, pela onda de justiça social com as próprias mãos, não seria loucura noticiar sua morte dentro do camburão da polícia, ou assassinato dentro da cela do presídio. Para quem quisesse ter uma morte tão trágica quanto à crucificação imposta, basta imaginar o famoso ‘microondas’ dos morros cariocas – uma pilha de pneus em chamas, com o cidadão amarrado do lado de dentro. Claro, depois de ser devidamente torturado. As chagas nas mãos e pés ocasionadas pelos pregos poderiam ser marcas de balas, para impedir qualquer fuga. Algo bem contemporâneo. Coitado de Jesus!

O pacote de ideias do senhor Ivo

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Meu nome é Ivo e já vivi praticamente sete décadas. Há dois anos, eu morava no interior do Estado. Levava uma vida pacata, até minha empresa resolver me dar uma promoção. Transferiram-me para a capital, para executar uma função que eu mesmo desconfiava se estava capacitado para tanto ou não. Mas resolvi aceitar o desafio. Cheguei achando que bastaria repetir o mesmo ritmo para adaptar a mim e minha família à cidade grande. Ledo engano! O custo de vida aqui é bem mais alto do que eu imaginava. No início, me atrapalhei demais para equilibrar as finanças. Atrasei o pagamento da escola dos meus filhos e eles viraram motivo de chacota na escola, pois chamavam o pai deles de caloteiro. Achei que pagar por grade na janela, alarme no portão e o ‘ronda’ do bairro era supérfluo. Até que minha mulher quase pediu o divórcio depois que teve bolsa e celulares roubados na frente de casa. Meu chefe viu que algo não ia bem, pois parei de render no trabalho. Refleti e reuni a família para propor algumas mudanças no nosso cotidiano. Sentei na sala com eles, joguei um pacote em cima da mesa e comecei a tirar as minhas ideias de lá de dentro. Deu o maior bate-boca. Não sei por que meus familiares não gostaram das minhas propostas. Mas como sou eu quem manda na casa, vai ser do meu jeito:

– Decidi cortar a internet, televisão e rádio de casa. A partir de agora, se quiserem assistir alguma coisa, que peçam favor aos amigos – claro, ficando sujeitos ao desejo deles em assistir o que bem entenderem. Meus filhos reclamam que vai lhes faltar ciência, tecnologia e cultura. E eu com isso?!
– Resolvi que vamos colocar os vasos com plantas na calçada da rua. Quem quiser levar, que leve. Vamos economizar na água! E os animais de estimação (cachorro, gato e papagaio), vamos vender ou soltá-los por aí. A ração estava muito cara. E eu lá tenho cara de zoológico ou botânica?!
– Não vou mais contratar um contador para declarar meu imposto de renda. A partir deste ano, eu mesmo vou ser o responsável pela economia e estatística da casa. Não sou especialista na área, mas tenho certeza que vai dar certo!
– Cancelei qualquer convênio médico. Para quê pesquisar a saúde? Se não está bem, se sentir alguma dor, que siga trabalhando. O que não mata, engorda!
– Também não vou renovar a carteirinha de ônibus e trem dos meus filhos. Sei que eles precisam estudar na universidade que fica na cidade ao lado, mas que deem um jeito de se locomover. Eu é que não quero mais planejar o transporte!
– Além disso tudo, pensei em parar de comprar botijão de gás. Estou quase me convencendo a usar um fogão à lenha, como nos bons tempos de quando eu morava na fazenda. Aos mesmos moldes, estou prestes a recuperar os lampiões. Este negócio de luz elétrica não vingou e é caro para caramba!
– Obviamente, a mesada de todos será cortada. Tanto dos meus filhos, como da minha esposa – que não precisa trabalhar, pois tem que cuidar da casa!

Claro que todas estas ideias geniais eu não tive sozinho. Um colega de empresa, que mora lá em Brasília, apresentou primeiro esse pacote. Parece que a família dele por lá também não gostou. E o pior é que o sujeito foi com a maior das boas intenções. Até reuniu a família (que é bem maior que a minha) em um grande banquete, com direito a salmão e espumante. É não é que um sobrinho desajustado teve o disparate de peitá-lo?! Meu filho fez quase a mesma coisa. Você acredita que ele me olhou nos olhos e disse: “Pai, já faz um ano que o senhor nos convenceu que, se economizássemos, as coisas entrariam nos eixos. Passei a comprar menos bebida, a mãe maneirou nos perfumes e até passamos a comprar as rações mais baratas para os bichos. Disse que era um remédio amargo, mas necessário e nada melhorou. Me diz uma coisa, por que o senhor não vende um de seus carros? Nenhum de nós dirige a não ser o senhor. Outra: e para quê a casa na serra e na praia também? Helicóptero?! E quem sabe se o senhor suspendesse a sua aula de tiro no Clube Militar? Acho que já passou da idade de brincar de justiça militar, né pai? Além do mais, a gente sabe que o senhor assina televisão a cabo e vários jornais e revistas. Que propaganda é essa que o senhor quer passar para a gente? Pode cortar o número de empregados da casa também. Ou o senhor realmente precisa de um jardineiro, cozinheira, assador de churrasco, chofer… O senhor tem empregado até para atender o telefone para o senhor! Ah, e tem mais… Sei que o senhor gosta de ver a mamãe trabalhando nas coisas da casa, mas então por que mantém uma diarista? Se a mãe não sabe cuidar da casa como a diarista, deixa ela trabalhar em outra área. Pode até ser fora de casa, por que não?! E outra, pai: se a vida está tão difícil aqui na capital, por que o senhor não ficou lá no interior? Deixa de ser caxias, poxa!“. Olha quanto desaforo! Confesso que fiquei magoado com o que ouvi. Como ele pode achar que eu estou esbanjando?! São coisas necessárias para manter o bem-estar. E pensar que há bem pouco tempo este mesmo filho, logo que eu recebi a promoção para trocar de cidade, me disse: “pai, você é massa!“. Não gosto de falar grosso e muito menos de surrar meu guri, mas desta vez tive que me impor. Dei uma brigada, mandei ele para o quarto e decidi que meu pacote estava decretado.  

Quando o jornalista não está preparado para uma cobertura jornalística

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Eu tinha me formado há poucos meses e sai da minha cidade. Meu primeiro emprego foi em Bento Gonçalves. Ainda tentando me estabelecer profissionalmente, como o famoso ‘foca’ (termo utilizado para o jornalista recém saído da universidade), fui escalado para cobrir um acidente de trânsito. Chegando no local, percebi que não era um acidente tão grave como se imaginava. Apenas dois carros se chocaram, mas um dos vidros estourou e cortou o rosto de um bebê, que estava na poltrona atrás do motorista. Desabei ali. Fiquei todo atrapalhado, colhi as informações que podia com os policiais, entrei no ar gaguejando, nervoso, e voltei para a redação. Pedi para nunca mais ser escalado para coberturas assim. Ali descobri que eu era jornalista esportivo mesmo. A maioria de nós não está preparado para coberturas deste porte. A cada desastre lembro da sentença que eu mesmo me apliquei. Nesta terça-feira, 29 de novembro de 2016, o mesmo sentimento reapareceu.

Tomei conhecimento do acidente envolvendo a delegação da Chapecoense quando ainda estava na cama pela manhã. O sono acabou imediatamente. Liguei TV, rádio, busquei mais informações na internet. E aí os nomes começaram a aparecer. Chorei desesperadamente. Jogadores que a gente já conviveu, dirigentes que já entrevistamos, colegas e amigos de imprensa que víamos e conversávamos nos estádios, hotéis, aeroportos, redações, restaurantes, bares… Não adianta, esse é o nosso dia a dia. Cobrir a queda de um avião, que vitimou praticamente todos eles, não. É chocante demais! Não há estômago. Pelo menos não para mim.

Entre nós, jornalistas esportivos, o trajeto feito por eles é comum: voo fretado, para outro país, junto com atletas, comissão técnica e dirigentes. Eu próprio já fiz quase a mesma viagem no ano passado, acompanhando o Internacional que enfrentaria o Independiente Santa Fé, em Bogotá, na Colômbia. Portanto, dói se colocar no lugar deles, imaginar que também podemos passar por isso, que nossa família passaria por uma dor dessas. Desculpem se pareci mesquinho. Lógico que lamento pelas vidas perdidas, pelos sonhos interrompidos. Mas sofro ainda mais por saber que fomos tão próximos. Só neste ano, fui duas vezes a Chapecó. Nem precisava disso para me comover. Qualquer pessoa que trabalha com futebol no Brasil tem um mínimo de vínculo com qualquer que seja uma das vítimas do acidente da Chapecoense. E isso dói.

Fidel Castro: ame-o ou deixe-o

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Fidel Castro morreu e eu resolvi não tecer nenhum comentário. Li muita coisa que se escreveu e ouvi o que se disse. Mas fiquei calado. Não porque não tenho nada a dizer, mas porque preferi evitar a fadiga. Com essa onda de intolerância política e o crescimento gradual da direita conservadora no mundo, era óbvio que qualquer comentário meu que não fosse no mesmo tom da moda seria taxado de comunista. Mas hoje resolvi romper o silêncio. Por quê? Fui induzido a isso. Estava participando de um programa de debates esportivos no rádio, e este assunto (que não é esportivo, mas se impõe pelo grau de importância jornalística) veio à pauta. Não costumo me calar. Então, para meu azar, expressei minha opinião – mais ou menos assim.

Bom, basta acompanhar o que escrevo ou me conhecer no cotidiano para perceber que defendo algumas ideias que, para muitos, são bandeiras de esquerda. Enfim, tenho um posicionamento político. Não partidário, mas político. Bom, se quiserem me qualificar como esquerdista, ok, eu sou. Nunca visitei Cuba, apenas li sobre. Aprecio o empenho do governo de lá para qualificar a saúde e educação públicas, e a causa da justiça social. O que não concordo é com a maneira como isso foi implementado, através de uma ditadura, com a extinção de partidos oposicionistas, prisões, torturas e assassinatos. Mas, o que mais me enojou na morte do Fidel é ver pessoas que enaltecem a ditadura militar do Brasil – e aí vou citar um nome, Jair Bolsonaro, que conseguiu exaltar a figura de um torturador em plena Câmara dos Deputados -, comemorando a morte de outro ditador. Ou seja, quando a ditadura está sob a minha ideologia, é boa? E quando ela não está sob os meus preceitos, não presta? Vale para os dois lados! Sempre vou preferir a democracia. Temos que respeitar a vontade da maioria. Se a maioria da população deseja um candidato que não é o meu, preciso respeitar o resultado das urnas. E mais do que isso, precisamos ensinar o povo brasileiro a falar sobre política, porque só a educação vai melhorar o país.

Antes de mais nada, você precisa saber que eu estava no saguão de um hotel de Porto Alegre, onde fazia a cobertura da concentração de um time de futebol. Meus colegas de debate estavam todos no estúdio da rádio. Logo, só a minha explanação foi ouvida por quem estava no hotel. Eis que um homem, que estava debruçado na recepção, virou-se para mim:

– Tu fala isso porque não conhece Cuba. Vai para Cuba para conhecer! – fiquei olhando para ele, com um sorriso congelado e sem graça. Sem reação. Pensei comigo que se tratava de um digno representante da direita raivosa, pronto para me apedrejar ali mesmo.
Eu já fui para Cuba! – seguiu ele – Fidel é amado lá! Dei aula numa faculdade cubana. Lá não tem desigualdade. Não tem rico, mas também não tem ninguém passando fome.
Senhor, acho que o senhor me entendeu mal – tentei argumentar, enquanto ele caminhava em direção à porta giratória, saindo do hotel com o pescoço virado para mim, com as veias saltando da gola da camisa.
– É, vai conhecer a realidade lá para depois falar! – foi a última coisa que ouvi.

Fiquei sem reação. Sorriso estagnado. Pensei que seria xingado de ‘esquerdopata’ e virei ‘coxinha’. Justo eu, um dingo representante da esquerda caviar! Um ‘PSOLzinho’ do Leblon! Um ‘PTzinho’ da Cidade Baixa! (e todos os outros ‘insultos’ que já me acostumei ler/ouvir). Virei ‘direitista’! Quem sabe até tucano! Porque Fidel faz isso com as pessoas. Como um ‘bom’ ditador (se é que existem bons ditadores), provoca a exaltação do slogan criado para o governo do meu ‘conterrâneo’ Emílio Garrastazú Médici: “ame-o ou deixe-o”. As paixões são assim, não permitem análises balanceadas. Ou se ama, ou se odeia. Presidente Getúlio Vargas. Presidente Ernesto Geisel. Presidente Augusto Pinochet. De direita ou esquerda, todos eles sofreram do mesmo mal. Nacionalistas ao extremo, tiveram detratores, mas defensores ferrenhos. Pois foram ditadores, assim como o presidente/ditador/comandante Fidel Castro.

Eleição de Trump nos EUA comprova que o mundo está doente

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Como pode um país que elegeu e reelegeu Barack Obama – o primeiro presidente negro e um cidadão de mente aberta (para os padrões americanos), progressista e liberal no real sentido das palavras – agora escolher Donald Trump? Trata-se de um ‘outsider’ (ou seja, alguém de fora da política), extremamente machista (que já demonstrou inúmeras vezes como aprecia a objetificação da mulher) e que serve de porta-voz do discurso raso pela família ‘de bem’, contra as minorias e imigrantes. Portanto, a antítese de seu antecessor. Já ouvi e li por aí que para os brasileiros pouco importaria quem venceria as eleições nos Estados Unidos. Errado! A maior potência econômica e militar é, obviamente, um termômetro do mundo. E o termômetro aponta uma febre terrível na Terra. A onda está só começando a tomar conta do planeta.

Para quem não acompanhou as promessas de campanha, discursos e manifestações de Trump, aqui vão algumas pequenas lembranças:
Com certeza, o maior absurdo foi a promessa de que construiria um muro para separar os Estados Unidos do México, para impedir que os latinos continuassem entrando em território norte-americano. E pior, exigiria que o governo mexicano pagasse pela obra;
– Para combater o terrorismo, prometeu exportar todos os muçulmanos de volta ao seus países de origem, como se todos fossem ‘homens e mulheres-bomba’ em potencial;
– Disse que o aquecimento global é uma falácia, que tem como única intenção atrapalhar o crescimento das fábricas americanas. Por isso, ameaçou cancelar o acordo da ONU que assegura a diminuição da emissão de gases;
– Chamou de obsoleta e ameaçou deixar a OTAN, aliança militar dos países europeus com os Estados Unidos, que serve como um pacto antiguerra e de proteção entre si;
– Posicionou-se contrário ao ‘Obamacare’, lei que assegurou o seguro de saúde público à população – priorizando os mais carentes. Uma espécie de Sistema Único de Saúde (SUS) norte-americano.
– “Eu sou automaticamente atraído pela beleza. Eu simplesmente começo a beijá-las. É como um ímã. Somente beijo. Nem espero. (…) Quando você é uma estrela, elas deixam você fazer isso. Você pode fazer qualquer coisa. (…) Pegue elas pela boceta. Você pode fazer qualquer coisa”. Estas frases expostas entre aspas foram ditas por Trump em um vídeo divulgado durante a campanha, em que o novo presidente americano explicava como deu em cima de uma mulher casada, em um comportamento de claro assédio sexual. Depois da divulgação, pediu desculpas, alegando que aquela era uma “conversa de vestiário” – ou seja, não que estivesse arrependido, apenas não deveria ter vazado.

Não fique tão horrorizado assim! Discursos como os de cima são encontrados em todo o mundo, na boca de cada vez mais cidadãos comuns. Muitos são seus vizinhos e parentes. Consequentemente, o número de políticos que defende tais medidas ganha força com a eleição de um dos seus ao cargo máximo da maior potência militar e política do mundo. O discurso contrário a imigrantes encorpa na Europa, como por exemplo com a francesa Marine Le Pen. Para o russo Vladimir Putin, a OTAN não só é obsoleta como inimiga. E aqui, no Brasil, gastos com saúde pública são supérfluos para o atual governo Temer e seus asseclas. Mas o pior ainda está por vir. Discursos de ódio encontram terreno fértil no terrorismo e no medo. E nós vivemos assim ultimamente. Trump é uma mistura de Silvio Santos, Roberto Justus e Jair Bolsonaro. Mas antes que você esboce um sorriso e pense “então Trump está certo“, lembro-te que ainda és um latino. Portanto, apenas mais um imigrante ou turista nos EUA. E se achas que vamos ser beneficiados por qualquer uma de suas ações, vale parafrasear o multimilionário em seu tradicional programa de TV: “Você está demitido!“.