A linha nada tênue entre paquera e assédio

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Eu ia deixar passar, já que as mulheres estavam travando um bom debate. Eis que meus camaradas de cromossomos se infiltraram e então me senti chamado ao ringue! Para quem não acompanhou, atrizes e atores vestiram a cor preta no Globo de Ouro 2018 como uma forma de protesto contra as acusações de assédio sexual em Hollywood. Mas veio o contragolpe! Na França, artistas e intelectuais (entre elas, a atriz Catherine Deneuve) assinaram uma carta no jornal Le Monde condenando o protesto: “Nós defendemos a liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual“. No Brasil, em entrevista ao jornal O Globo, onde é colunista, a escritora Danuza Leão foi ainda mais longe: “É ótimo passar em frente a uma obra e receber um elogio. Sou desse tempo. Acho que toda mulher deveria ser assediada pelo menos três vezes por semana para ser feliz“. Pronto! Estava inaugurada a contagem regressiva para a bomba. Não vou me meter na discussão das moças. Quero me ater aos urros e socos na mesa dos marmanjos que bradaram felizes porque finalmente alguém botou o dedo na cara dessas “tais feministas”.

Não sou nenhum Martinho da Vila, mas já paquerei muito. Muitas vezes fui correspondido e noutras tantas não. Evidentemente, nas minhas abordagens amorosas, jamais toquei sem consentimento em alguém. Um assunto puxado na parada do ônibus, no balcão do bar e lá vamos nós. Na era das redes sociais, a tarefa ficou até mais fácil. Basta uma mensagem correspondida e ali temos uma conversa inaugurada. E quando não há o retorno esperado? A ausência de uma resposta, ou uma resposta mais seca, ou ainda uma negativa para um encontro significa o fim do papo. É do jogo! Aí está a paquera. Qualquer insistência além disso – um deslizar de mãos pelo corpo alheio, uma tentativa de beijo à força, uma enxurrada de pedidos para sair – deixou de ser. Não é difícil de perceber quando a paquera ultrapassa o seu limite. Não é uma linha tênue em que, num piscar de olhos, se escorrega para o outro lado. Há mais dois ou três terrenos separando a paquera do assédio. Primeiro vem a inconveniência, depois o desconforto e por fim a repulsa. E o pior tipo de assediador é o dissimulado. Aquele que faz e não reconhece. É inclusive capaz de inverter os papeis e dizer que a mulher (de mente suja) pensou bobagem!

Ah, mas se não fosse meu pai assediar minha mãe, eu não estaria aqui!” Este argumento só serve se você foi concebido em um estupro. A época em que o homem catava a mulher com um tacape e arrastava pelos cabelos para procriar ficou na Era das Cavernas. Se buscar na minha árvore genealógica, talvez encontre este comportamento no meu tatatatatataravô. Mas ainda assim vai existir alguém para dizer que o mundo está chato e que o politicamente correto está ferrando com as relações humanas. Perceba que não! Aqui vos escreve um cidadão que, quando o assunto é liberdade sexual, está mais do que de acordo – desde que, obviamente, haja consentimento mútuo. Por fim, pergunto aos homens que acham ‘mimimi’ a reação das mulheres aos assobios e abordagens grosseiras, de que forma reagiriam caso recebessem o mesmo tratamento de homossexuais. Se é uma simples paquera, por que a maioria reage como se estivesse sofrendo um atentado violento ao pudor?

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Devia ser proibido morrer jovem

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Em menos de um ano, a segunda paulada: o segundo amigo do peito que se vai precocemente! E pensar que em uma das últimas vezes que saímos juntos, um me consolava pela morte do outro. Devia ser proibido morrer jovem, com pouco mais de 30 anos. Assim se foi o Robson. Tão inteligente, de humor tão perspicaz, que fazia eu me sentir lisonjeado por simplesmente estar ali, dividindo a mesa do bar, a mesma garrafa de cerveja, ou por ter me convidado a ir na casa dele, cantar a mesma música enquanto ele tocava violão. Daqueles caras que a gente lamenta por não ter convivido mais, aceitado mais convites para churrascadas, peladas no fim de semana, uma bebida na esquina. Mas também, quem iria imaginar que passaria assim, feito um foguete por este planeta?!

Nem deu tempo de se despedir, de pedir a “saideira”. Queria ouvir a última piada, cantar uma última música do Legião Urbana antes da síndica lembrar que é domingo e amanhã todo mundo trabalha cedo. Queria poder ter dito que adorei ser chamado para palestrar para a turma de jornalismo dele. Que mesmo achando uma péssima ideia no início (quando fui convidado), saí de lá cheio de tesão pelos olhares interessados dos alunos e com um orgulho danado do amigo que eu tinha. Assim como na vez em que comprei a Revista Superinteressante e vi o nome dele assinando uma das matérias. Aquele cara era meu chapa! E aquelas entrevistas que ele fez para a BBC?! Que crânio, velho! Que orgulho… Que dor!

Na verdade, minha dor é uma dor envergonhada. Nem deveria estar sentindo tanto. Se eu estou assim, o que resta para os pais dele? E a namorada? Cara, queria tanto te dar um abraço, dizer que vai ficar tudo bem, e que logo vai passar. Obrigado por me apresentar a ele. Obrigado por me fazer tão presente, mesmo sem eu estar. “Amado. Te quero mais na nossa vida“, dizia uma das mensagens que trocamos. Eu também queria (e agora percebo, deveria) ter aproveitado bem mais a companhia de vocês! Fica bem. Ele foi muito amado. E isso é cada vez mais difícil nos dias de hoje.

Maria do Rosário: a que merece ser assaltada

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De uns tempos para cá, tornou-se convencional entre as pessoas de bem odiar a deputada federal Maria do Rosário (PT). Sinceramente, não sei se é um fenômeno que se detém apenas ao território gaúcho, ou se estende pelo restante do país. Ela ganhou destaque na imprensa nacional quando bateu de frente com Jair Bolsonaro (então do PP) e ouviu a seguinte sentença do deputado carioca: “Jamais iria estuprar você, porque você não merece!” A declaração foi interpretada como ofensiva pelo STF e rendeu uma indenização de R$ 10 mil. Mesmo que o sentido tenha sido outro, trata-se de uma verdade: Maria do Rosário (assim como qualquer outra mulher) não merece ser estuprada. Talvez se Bolsonaro tivesse dito que a deputada merecesse ser assaltada, aí sim, receberia o aval de inúmeros brasileiros. Afinal de contas, foi o que se viu nesta quinta-feira.

Ela foi mais uma vítima do alto grau de violência gratuita deste país – fruto da desigualdade social latente. Maria do Rosário teve o carro roubado na zona norte de Porto Alegre, quando chegava em casa. E daí, justo três dias depois de comemorarem o Natal com muito amor no coração, gaúchos de diversas cidades do Rio Grande do Sul manifestaram sua ojeriza à deputada via redes sociais. Em tempos onde os direitos humanos viraram sinônimo de “defesa de bandido”, a ex-Ministra da Secretaria dos Direitos Humanos no governo Dilma Rousseff transformou-se na rainha dos assaltantes e homicidas. Não aos olhos dos ocupantes dos presídios, óbvio. Mas sim aos olhos dos cidadãos de bem. Justo ela (como salientou o colega Vinícius Brito em seu Facebook), “autora/relatora de lei que:
– Aumentou a pena para crimes de lesão corporal e homicídio contra policiais;
– Definiu a exploração sexual de crianças como crime hediondo.
– Também tornou crime hediondo o assassinato de mulheres motivado por questões de gênero.
– Garantiu a escuta protegida para crianças vítimas ou testemunhas de violência.
– Ainda foi relatora da CPI que investigou as redes de exploração da prostituição infantil no Brasil.”

Aqui não faço juízo de valor sobre ela ser boa ou má legisladora, ser corrupta ou não, estar num bom ou mau partido, etc. Apenas rebato o rótulo de “defensora de bandido” colado em sua testa, e a comemoração que se seguiu com sua tragédia. Mas sei que, para os detratores da Maria do Rosário, virei alvo da mesma raiva que nela é despejada. Em contrapartida, você  que chegou até o fim deste texto com o coração palpitando, emocionado pela defesa à deputada, leia um trecho da matéria do dia 5 de julho de 1995, publicada no jornal fluminense A Tribuna da Imprensa (na imagem ao lado está na íntegra): “O deputado federal Jair Bolsonaro (PPR-RJ) foi assaltado ontem, quando seguia para panfletear junto a seus eleitores, na Zona Norte do Rio. […] Os criminosos levaram a motocicleta do parlamentar, a Honda Sahara 350, ano 94, placa LAG-0656, e a sua arma, uma pistola Glock 380. […] ‘Mesmo armado me senti indefeso’, comentou o parlamentar“. Se você soltou um sorriso de canto de boca, ou praguejou alto contra Bolsonaro, cuidado! Está fazendo igual ou pior que aqueles aos quais condena. Nenhum homem ou mulher merece ser assaltado(a) ou estuprado(a), lembra? Nem Marias, nem Jaires.

 

Abu Dhabi além do Mundial de Clubes

A woman wears a niqab as she pushes her caddy in Carrefour, the world's second-biggest retailer, as she shops in Doha

Após 11 dias longe de casa, retornei dos Emirados Árabes Unidos onde estive fazendo a cobertura do Grêmio na disputa do Mundial de Clubes. Foi uma viagem que me agregou muito profissionalmente. Não tenho do que me queixar. Entretanto, voltei modificado como ser humano. Al Ain, Abu Dhabi e Dubai me apresentaram situações contrastantes: a riqueza dos prédios luxuosíssimos erguidos graças ao dinheiro do petróleo, mas às custas da exploração da mão de obra barata dos estrangeiros (vindos do Paquistão, Índia, Nepal, Síria, Uganda e Indonésia); a tranquilidade de transitar nas ruas sem medo de ser assaltado, mas a limitação da liberdade de expressão agregada a um culto às armas e patriotismo. Agora, sem dúvidas, nada me causou maior choque cultural do que a condição feminina – imposta pelo fanatismo religioso.

Entendendo que a ampla maioria da população do país é formada por estrangeiros, por óbvio, nem todas as mulheres usam a tal burca. No entanto, basta dar uma volta pelos shoppings para se deparar com elas. Sedas pretas ambulantes pelos corredores. O “xador” (pano escuro que cobre todo o corpo feminino com exceção do rosto) já é chocante. Mas existe algo pior: o “niqab“. Com a aparência de ninjas, as mulheres transitam apenas com os olhos de fora – algumas ainda os cobrem com uma seda. No aeroporto, retornando ao Brasil, ainda vi uma que usava luvas pretas. Ou seja, nenhuma exposição à luz. Só panos da cor preta por toda a parte. Qual a necessidade disso? Proteger as mulheres de possíveis cantadas ou uma imposição de um marido ou pai ciumento? Tradição cultural ou reprodução de um machismo escondido atrás de religiosidade?

Quando embarquei para os Emirados, sabia que iria me deparar com a situação degradante das mulheres. Porém, imaginava que acabaria me acostumando ao longo dos dias. Não consegui. Pareciam pequenos fantasmas negros caminhando pelas ruas da cidade. É impressionante como as mulheres são renegadas a um posto mais baixo na família, completamente submissas ao homem. Que falta faz uma Simone de Beauvoir nas Arábias!

Vou torcer pro Grêmio… e o Mundial é meu caminho!

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Nos últimos dias, recebi (seja via Twitter ou na página do Facebook) mais de um recado de colorados indignados comigo: “Tu és muito gremista!“. Mal sabem eles que sim, nestes meses que passaram fui gremista. E nos próximos dias torcerei mais ainda pelo título mundial do Grêmio! “Olha aí, se assumiu?!“. Se há alguma coisa que, de fato, assumi é que o sucesso do Grêmio é o meu sucesso… profissional. Afinal de contas, graças à conquista da Libertadores, estou embarcando para os Emirados Árabes nesta sexta-feira! Eu e Daniel Oliveira.

Nunca fui torcedor do Grêmio. De uns tempos pra cá, resolvi falar abertamente para qual time torci na minha infância e adolescência. Você leu bem – e se não leu, repito: torci. Nunca fui gremista. Isso não faz de mim um “secador” ou membro da IVI (Imprensa Vermelha Isenta). Sem egoísmo, sou Eu Futebol Clube. Ou, no caso, defendo o Grupo Bandeirantes – minha atual empresa. Quando opino, prefiro ser fiel à minha consciência do que aos sentimentos que algum dia fizeram meu coração bater mais forte. Erro e acerto por convicção, sem querer fazer média, torcer contra ou a favor. Quando atuo como repórter, quero o bem da minha matéria. Que saia o gol do Grêmio para que a família carente que levei à Arena vibre em frente à câmera. Que o Inter volte à Série A para que minhas condições de trabalho melhorem (com viagens menos desgastantes, com jogos de maior proporção). A campanha tricolor me fez entrar ao vivo para rede nacional uma porção de vezes. Minhas matérias rodaram em São Paulo, Rio, Bahia, Mato Grosso, Acre! Então, sou torcedor? Se afeta positivamente o meu trabalho, sim! E este é o caso.

Acontece que cresci ouvindo/vendo as gravações dos gols de Renato em Tóquio. Depois, quando vim trabalhar em Porto Alegre, invejava o depoimento dos colegas que estiveram em Yokohama e relatavam os bastidores da epopeia colorada em 2006. Até os que cobriram as derrotas do Grêmio, em 1995, e do Inter, em 2010, tinham histórias pra contar. Quando chegaria a minha vez? Chegou. Em menos de uma década como profissional do jornalismo, estou embarcando para uma cobertura histórica. Para que minha voz seja buscada no arquivo de matérias especiais daqui a 20 ou 30 anos, para que eu possa servir de inspiração para gerações futuras de repórteres e comentaristas que almejarão chegar aonde eu cheguei, que o Grêmio vença! Sou gremista? Em Al Ain e Abu Dhabi serei. Não estou pedindo que você, colorado, faça o mesmo. Apenas entenda e respeite. O momento é tricolor! E você, gremista, acostume-se: pode ser que no futuro eu esteja torcendo pelo sucesso do seu rival. É do jogo da minha profissão, no caso. O sucesso do time é o meu sucesso. Por isso, não se aborreça se eu realmente parecer emocionado. De fato, estou nas alturas.

Segundo turno entre Lula e Bolsonaro faria Brasil retroceder 50 anos

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O Ibope divulgou neste domingo sua primeira pesquisa eleitoral para 2018, e o resultado é estarrecedor! Lula (PT), com 35% das intenções de voto, teria Jair Bolsonaro (saindo do PSC para o Patriotas) como opositor no segundo turno – o ex-militar aparece com 13%. Sei que pesquisas nem sempre acertam. Nas últimas eleições municipais em Porto Alegre, por exemplo, a primeira pesquisa divulgada projetava um segundo turno entre Manuela D’Ávila (PCdoB) e Luciana Genro (PSOL). Para a tranquilidade dos liberais, ocorreu exatamente o oposto. Manuela sequer concorreu e Nelson Marchezan Jr (PSDB), que estava em quarto lugar, venceu no segundo turno contra Sebastião Melo (PMDB), que estava em terceiro. Luciana acabaria a eleição sendo a quinta mais votada. Ainda há casos em que a pesquisa influencia o eleitorado a trocar o voto. Sei de amigos que, em 2014, votaram em José Ivo Sartori (PMDB) para tirar Ana Amélia Lemos (PP) do segundo turno e fortalecer a candidatura de Tarso Genro (PT). Resultado: foi o peemedebista quem acabou eleito. Mas não é a perícia da pesquisa que me preocupa, e sim a falta de opção e retrocesso a galope que o povo brasileiro irá se submeter.

Se, de fato, nenhum dos dois sair do páreo (por decisão jurídica ou partidária), “Lula versus Bolsonaro” será a reedição do embate entre Getúlio Vargas (PTB) e Carlos Lacerda (UDN) que se desenhava no imaginário brasileiro na década de 50! Isso, por si só, explicaria o retrocesso que estamos fazendo. A disputa jamais aconteceu nas urnas, mas ficou marcada pela enxurrada de ataques pessoais, tentativa de assassinato, suicídio e ‘fake news‘ produzidas pelos jornais da época – Tribuna da Imprensa, do próprio Lacerda, e Última Hora, mantido pelo governo Vargas. Os ânimos ficaram tão acirrados que nenhum debate profundo foi possível, desencadeando no golpe militar de 1964 (adiado em 10 anos graças ao suicídio de Vargas, mas que teve em João Goulart o herdeiro frágil do mesmo ódio). Lula representa hoje o que foi Vargas: ex-presidente, acusado de se utilizar da máquina pública para enriquecer a si e aos seus, apoiado no discurso de apoio à classe mais baixa e aos trabalhadores, e que foi praticamente convencido a voltar ao poder por falta de opção no partido e pescado pelo ego. Bolsonaro é a reencarnação política de Lacerda: admirador do militarismo, usa os meios de comunicação para vociferar contra a corrupção, se autoproclamando o representante da família, da moral e dos bons costumes. Por isso, um segundo turno entre ambos faria o Brasil retroceder quase meio século. Além disso, há a ausência de projeto.

Com o debate raso e baseado no ódio ao adversário, Lula e Bolsonaro não apresentam ideias e muito menos soluções para os problemas a longo prazo. Lula não representa mais o pensamento da esquerda, do Estado desenvolvimentista e de bem estar social. Está ali simplesmente para dar o troco contra quem lhe ataca. E, mesmo que tenha a intenção de dar continuidade a projetos implementados pelo seu governo – como ‘Bolsa Família’, ‘ProUni’, ‘Luz Para Todos’ -, não teria maioria na Câmara e Senado, e assim como sua pupila Dilma Rousseff estaria à mercê de um impeachment. Já Bolsonaro é tão raso quanto um pires. Rei das frases prontas, do “bandido bom é bandido morto” ao “vai para Cuba“, o ex-militar cresce nas pesquisas justamente pelo temor comunista que foi implantado no imaginário popular (exatamente como em 64). Ele nem sequer representa o pensamento liberal, já que defende abertamente o período militar. Enfim, não há um projeto de desenvolvimento em nenhum dos lados. Pode-se debater ideologicamente os outros nomes apresentados na pesquisa do Ibope, mas todos eles representam melhor o espectro político: Ciro Gomes, Marina Silva, Geraldo Alckmin… O resto é disputa cega pelo trono e crença em um ser messiânico que não virá!

 

Separatismo: a linha tênue entre o orgulho regional e a xenofobia

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Nos últimos dias, os olhos do mundo voltaram-se à Espanha – mais precisamente a Barcelona. Isso porque a população vive um grande debate, culminando com uma grave repressão policial após a instauração de um referendo que propõe a separação da Catalunha do território espanhol. O assunto injetou gasolina à proposta do movimento “O Sul é Meu País“, que tem como intenção algo semelhante: separar os Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná do restante do Brasil. No próximo sábado, o grupo distribuirá urnas para um plebiscito informal que pretende saber qual o tamanho do apoio popular para esta ideia. Confesso, já fui simpatizante. Impulsionado pela cultura gaúcha de exaltação à Revolução Farroupilha (com hino, bandeira e vestimenta tradicionalista), cheguei a acreditar que o separatismo seria uma boa saída. Aos poucos, fui mudando minha percepção. Hoje, correndo os olhos pelo que se passa no planeta, admito não ter uma opinião tão formada assim. Até que ponto este “regionalismo” não é xenofobia?

Primeiro é preciso diferenciar o caso do separatismo catalão do gaúcho. Enquanto a República Rio-Grandense teve vida curta de 10 anos em meio ao Brasil Império (de 1835 a 1845) – jamais contando com total apoio popular -, os catalães, de fato, foram reconhecidos como nação, exercendo um governo autônomo com legislação e língua próprias, embora ainda anexado à coroa espanhola. A exceção fica pelo período em que vigorou a ditadura fascista de Franco (de 1939 a 1975), em que a cultura catalã (hino, bandeiras e língua) foi censurada. Além disso, após a redemocratização, Barcelona sempre viveu o sentimento separatista de maneira latente, insuflada pelos partidos políticos que ganharam as últimas eleições ao formarem o movimento “Juntos pelo Sí”: os sociais-democratas da ERC (Esquerra Republicana de Catalunya), os liberais do CDC (Convergência Democrática da Catalunha) e os Democratas da Catalunha, representantes da democracia-cristã. Contra eles aparece o PP (Partido Popular), do presidente espanhol Mariano Rajoy e de origem consevadora. Convenhamos, uma situação bem diferente à do sul brasileiro, que vive em total sinergia com a ideologia em voga atualmente no país governado por Michel Temer (PMDB), e que vê cada vez mais Jair Bolsonaro subir nas pesquisas para 2018. Traduzindo: aqui, os governadores gaúcho, catarinense e paranaense falam a “mesma língua” do presidente.

Além das questões cultural e política, outro argumento utilizado pelos catalães está na tributação: mais de 20% dos impostos arrecadados por Madri vieram daquela região, sem que o retorno em serviços públicos fosse exatamente o mesmo. Este ponto também é levantado pelos “sulistas” – tal qual a grita sobre a tributação do charque pelos farrapos de 1835. Meu medo, sinceramente, é que este seja o pano de fundo para a questão maior e talvez até inconsciente: a xenofobia. Quanto à Catalunha, não posso ser definitivo pois não estou inserido naquele contexto. Mas aqui, no Rio Grande do Sul, não é raro ouvir a exaltação ao povo gaúcho como culto, honesto, trabalhador, etc – como se as demais localidades do Brasil não estivessem à altura de nós, gaúchos: “Nordestino não sabe votar!“, “Carioca é tudo malandro e gosta de passar os outros para trás!“, “Povo que não tem virtude acaba por ser escravo!“. Brada-se estes lugares comuns regados a preconceito como se neste Estado também não tivéssemos políticos citados em mais de um caso de corrupção, contrabandistas (desde drogas a carne de gado), analfabetos, racistas que torcem o nariz para estrangeiros (principalmente se estes forem negros) e etc. Não há nada que me orgulhe na criação e reprodução deste mito de uma raça superior, que muito se assemelha ao nazismo. O orgulho das raízes, o conhecimento da história de seus antepassados, em nada tem a ver com a exaltação exacerbada do localismo, e a antipatia ao ‘forasteiro’. Mas enfim, andar sobre a linha tênue do regionalismo/nacionalismo é isso: uma hora, inevitavelmente, se cai para o lado errado.

Por que encerrarei minha conta no Facebook

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Hoje decidi excluir minha conta do Facebook. O Twitter e o Instagram por pouco não foram junto, mas minha relação com as redes sociais não será mais igual. A partir de agora, nada de vida pessoal publicada por aí! Até porque, digamos que mais de 70% das pessoas que me adicionaram eu não conhecia pessoalmente. Apenas me seguem para consumir o meu trabalho. E não há problema nisso! Pelo contrário, é motivo de alegria. Então, para satisfazê-los, criei uma página com o perfil do jornalista Filipe Duarte, não do cidadão comum. Ali divulgarei minhas matérias, opiniões e fotos durante eventos profissionais. Por que fiz isso? Bom, é uma longa história…

Já venho maturando essa ideia há um tempo. Desde que criei meu perfil no Facebook, passei a aceitar qualquer pessoa que me adicionava. Pensava que era uma maneira de interagir com quem, de alguma forma, gostava do meu trabalho. De um ano para cá, quando passei a fazer telejornalismo, o número de “convites” triplicou. Perdi o controle! Toda e qualquer coisa que eu postava, gerava ‘likes’ e comentários. Como eu postava muita coisa sobre minha vida particular, fora do horário de trabalho, a situação passou a se confundir. Quem não era tão próximo, passou a ser. Li desde palpites sobre a roupa que eu vestia, às músicas que eu escutava, até discordâncias sobre posicionamentos políticos. Seria natural, afinal de contas, me tornei uma pessoa pública. Por favor, que não soe pretensioso! Não, eu não escolhi ser “famoso”. É o bônus do pacote que comprei quando decidi ter a profissão que tenho – e gosto! Acontece que há uma grande diferença entre a crítica e a ofensa, a humilhação. Portanto, não que eu não saiba lidar com críticas ou não saiba sustentar um debate. Óbvio que sim! E acho salutar inclusive. Cada vez que tenho uma ideia confrontada, me vejo obrigado a pensar, pesquisar, ler mais sobre aquilo que eu falo. Muitas vezes, intimamente, acabo questionando a mim mesmo. É um ótimo exercício! Além disso, interpretei que (em tempos do avanço do conservadorismo social) meu papel seria difundir a desconstrução dos símbolos, estimular o pensamento dos outros até reconstruir conceitos sobre o convívio humano. Fracassei – ou melhor, subestimei o cenário ao meu redor.

Ser xingado, ofendido e subestimado não é novidade pra mim. Lido com isso desde que comecei a trabalhar com a paixão futebolística. O que me assustou foi me dar conta que naquele mesmo espaço frequentado pelos fiscais de comportamento alheio, posto fotos com minha família, amigos, nos lugares que frequento regularmente. Ou seja, viraria um alvo fácil não só nas redes sociais, mas no cotidiano. Estava sujeito à perseguição real! Mais de uma vez, li o seguinte comentário em tom de ameaça: “Fica no comentário de futebol que é o que tu sabe fazer“. Parece uma afirmação despretensiosa, mas é regada de ódio. É, no mínimo, censura! É a total incapacidade de conviver com o pensamento contraditório. E eles venceram. Pelo menos, parcialmente. Vou seguir com meu olhar crítico sobre política, religião e futebol (a tríplice aliança que, dizem, não deve ser tocada). Mas vou me limitar a debater com pessoas que tenham maior proximidade comigo, a ponto de discordar sem precisar me agredir. Entrego em troca um espaço aos outros, aos brutos que não conseguem sair da caixa do conservadorismo e do senso comum: aqui está o Filipe que só fala de futebol. Bom proveito!

20 de setembro: a festa dos vikings brasileiros

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Desculpem-me os amigos tradicionalistas. Sem querer ofender, mas já tocando na ferida: a Semana Farroupilha é uma ode ao retrocesso. Para quem não sabe, 20 de setembro é feriado no Rio Grande do Sul. Por quê? Foi neste dia que, em 1835, generais-estancieiros insatisfeitos com o valor do imposto pago para exportar o charque (carne salgada) invadiram Porto Alegre, renderam as tropas imperiais e deram início a uma revolução contra o governo de Dom Pedro II. O ápice veio no ano posterior quando, em 11 de setembro de 1836, estes mesmos revoltosos declararam independência do Brasil. Estava proclamada a República Rio-Grandense, que duraria mais 9 anos! Depois de uma árdua batalha contra o restante do país, o Rio Grande foi anexado novamente e assinado um tratado de paz. Curiosamente, Porto Alegre nunca foi a capital da tal república dos gaúchos. Logo depois de invadida, ela foi reconquistada pelo exército do Imperador – fato que lhe rendeu o título de leal e valorosa, ostentado até hoje na bandeira da cidade. Mesmo assim, os porto-alegrenses (assim como em todo o território sul-riograndense) comemoram o 20 de setembro. Na capital, há inclusive o Acampamento Farroupilha, onde as pessoas vivem por mais de uma semana como na época da Guerra dos Farrapos: em casebres de madeira, andando a cavalo, com vestimentas do tataravô e assando carne cravada em espetos no chão. Ou seja, tiram alguns dias para viver como se estivéssemos em 1830 outra vez.

Já ouvi mais de uma vez que sou um ‘gauchinho’ de apartamento. “Como pode um guri que veio do interior, ainda mais da fronteira, não saber assar um churrasco?” Vou em uma churrascaria. “Como não sabe andar a cavalo?!” Não faço equitação e, além disso, já inventaram o carro. “Por que não honra a tradição?!” Porque não quero participar desta festa do retrocesso! O povo gaúcho tem suas virtudes, mas o tradicionalismo nos estagnou. Por que não posso viver como um uruguaio de Montevidéu, ou um argentino de Buenos Aires, que segue tomando o seu mate e comendo o seu assado, mas sem fechar as portas para a modernidade? Por que preciso me enfurnar em um casebre de madeira cercado de lama, vestir bombacha com uma adaga na cintura, botas cheias de esterco e um lenço no pescoço? Os argentinos e uruguaios são tão gaúchos quanto nós, mas não ficaram presos nos anos de suas independências! Nós – principalmente os homens – somos quase que obrigados a agir como se agia há mais de 100 anos (ou se criou, através do mito ‘gaúcho’): com palavreado rude, movimentos brutos e fala alta. Qualquer um que fuja deste padrão é “afrescalhado” ou “nem parece gaúcho, tchê!“.

Imagine você um escandinavo do mundo atual. Escolha a nacionalidade que preferir: sueco, norueguês ou dinamarquês. Qual a imagem que lhe vem à cabeça? Agora imagine uma festa em que durante quase um mês eles deixassem a barba ruiva crescer, com um chapéu de chifres pontiagudos, roupas sujas, uma espada na mão e a outra segurando um escudo e brincando em barcos de madeira. Sim, os antepassados deles eram os vikings! Não lhe parece um tanto quanto caricata se eles fizessem isso? Para mim soa até patético. Então por que aqui no Rio Grande do Sul chamamos a festa à fantasia de setembro de tradicionalismo? Uso bombacha, sim! Porque gosto de como o tecido da calça deixa minhas pernas mais à vontade. E se eu quiser calçar um tênis junto com elas? “Não, fere a tradição!” Uso alpargatas, sim! Mas quando quero e porque gosto. Também gosto de ar condicionado, internet wi-fi, TV a cabo, spotify. Sou tão gaúcho quanto os que fazem de conta que são Bento Gonçalves durante a Semana Farroupilha e que vivem 1835 em pleno 2017.

 

Cuidado, Porto Alegre! Os nazistas ridicularizaram a arte moderna

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O cancelamento da ‘Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira’ é um verdadeiro escândalo. “Pedofilia!“, “Só tem putaria, só tem sacanagem!“, “zoofilia!“, gritavam os homens que gravaram um vídeo dentro do Santander Cultural, onde as obras de mais de 80 artistas estavam expostas – como Cândido Portinari, por exemplo. Após o protesto, a empresa resolveu fechar a exposição. Mas cuidado: ridicularizar obras de arte, transformá-las em ‘show do grotesco’, até tirá-las de circulação não será uma ação inédita na história mundial. Os membros do MBL (Movimento Brasil Livre) que apoiaram o protesto não têm do que se orgulhar. Há muito do nazismo nesta atitude! E ninguém quer se parecer com os nazistas (a quem até se imputou nos últimos tempos o carimbo de “esquerda”). Não é mesmo?

Acontece que, em 1937, Munique recebeu uma exposição intitulada “entartete Kunst” – ou arte degenerada, em alemão. A intenção do governo de Adolf Hitler era, ao mesmo tempo que expunha as obras, ridicularizá-las com frases escritas nas paredes, logo acima dos quadros: “insulto às mulheres alemãs“, “revelação da alma racial judia“, etc. Ou seja, incluíam-se aí todos os movimentos artísticos que fugiam da realidade e do tradicional, como o cubismo, dadaísmo ou surrealismo (arte moderna). Entre os artistas ‘censurados’ estavam: Pablo Picasso, Paul Gauguin, Lasar Segall, Wassily Kandinsky, Piet Mondrian. Sobrou até para a música! O jazz, por exemplo, passou a ser música negro-judaica e por isso foi proibida na Alemanha. Isso está nos livros de história! Não, não é corrente de Twitter ou Facebook.

Assim como está registrado em fotos o desespero do governo francês para locomover e esconder as obras de arte do Museu do Louvre antes da invasão alemã a Paris. Se encontrada pelos nazistas, o que restaria da Vênus de Milo, uma mulher sem os braços e com os seios de fora? Deformada e desavergonhada ainda por cima! E a estátua do Hermafrodita Dormindo, uma clara propaganda à sodomia? E se ‘A Bela Jardineira‘ de Rafael fosse interpretada como pedofilia? E ‘Gabrielle de Estrées e sua irmã‘, não seria incesto aliado à lesbianidade? Ainda bem que os nazistas não encontraram estas obras de arte. E se tivessem as encontrado, será que gravariam vídeos ridicularizando-as e bradando pela moral e bons costumes arianos? Pois é, melhor nem pensar. Afinal de contas, ninguém quer se parecer com os nazistas. Logo, aproveite as obras de arte. E as que você não apreciar, simplesmente não visite.