A saída de Lula fará bem à corrida eleitoral

bazar

Simpatizantes de Lula, acalmem-se e leiam com atenção! Liberais de plantão, guardem os rojões e sentem na cadeira. Eleitores de Bolsonaro, vocês sim, podem se retirar: este texto irá irritar vocês! Não vou discorrer sobre a validade do julgamento ocorrido no TRF-4 nesta quarta-feira, que condenou o petista. Quero é tentar analisar o contexto que se desenhará a partir da impugnação da candidatura do ex-presidente para o pleito de 2018. E minha conclusão é: a saída de Lula fará bem à corrida eleitoral. Já expliquei meu posicionamento noutro post em julho do ano passado, mas agora que está mais cristalino, faço novamente.

A simples presença de Lula bipolarizaria o pleito, tornando qualquer debate político pobre e raso. A proposição de ideias já é deixada em segundo plano naturalmente, imagine só a quantidade de acusações pessoais e a troca de ofensas que iríamos ouvir em outubro. Seria uma verdadeira briga de bugios! Isso aconteceria graças à rejeição atrelada ao candidato do PT. Conforme pesquisa da Datafolha divulgada em dezembro, Lula é o pré-candidato com maior índice: 39%. Com sua saída do cenário eleitoral, Jair Bolsonaro (PSL) torna-se o escolhido – com 28% de rejeição. Meu único temor é que os votos que eventualmente seriam destinados a Lula acabem pulverizados em diferentes campanhas – entre outro candidato petista como Fernando Haddad ou Jaques Wagner, Marina Silva (REDE), Ciro Gomes (PDT) e Manuela D’Ávila (PCdoB). Mesmo assim, tal pesquisa não apresenta capacidade para Bolsonaro vencer a eleição no primeiro turno, ou seja alcançar mais que 50% dos votos nacionais (graças a esta alta rejeição que tem). Portanto, candidatos de centro-esquerda ganhariam força para alcançar e/ou ultrapassar o ex-militar reacionário num eventual segundo turno.

Por fim, me direciono a você, caro leitor autoproclamado de esquerda. Não resta dúvidas de que, se Lula tivesse sido absolvido na tarde de hoje, possivelmente venceria as eleições de 2018. Mas e aí, se não tivéssemos nenhuma guerra civil ou golpe de Estado até dezembro, ele governaria como? Seria questão de tempo até sofrer um impeachment, prolongando ainda mais a crise institucional em que o Brasil se meteu. Por favor, não seja birrento! Conscientize-se de uma vez por todas que o mar não está para peixe! Ou pior: a onda conservadora é mundial e você está fora de moda. Esquerdistas franceses e alemães já se dobraram a candidaturas de centro e direita (Macron e Merkel, respectivamente) para não entregar o país aos nacionalistas de extrema-direita. Norte-americanos e chilenos que ironizaram o crescimento conservador acabaram sobrepujados por Trump e Piñera (que angariou para si apoiadores da ditadura de Pinochet). E aí, qual destino você quer: um governo de centro, centro-esquerda ou uma aliança da direita conservadora que bate continência a torturador?

Anúncios

Eleição sem Lula é fraude?

bazar

Com helicópteros sobrevoando nossas cabeças, sentamos dois amigos e eu em uma mesa de bar. Porto Alegre respira o julgamento do ex-presidente Lula. Por nós, passam algumas pessoas portando bandeiras do PT, camisas vermelhas com o rosto do ex-presidente e os seguintes dizeres: “Eleição sem Lula é fraude”. Leio a frase em voz alta.

Petista! – salta o primeiro amigo.
– Mas eu só li o que estava escrito na camisa daquele cara, meu! – tento contemporizar.
– Golpista! – rebate o segundo amigo, do outro lado da mesa.
– Não, pelo contrário! Sou contra este governo Temer. E penso que até tenho muitos pensamentos em comum com a esquerda. Sou a favor das cotas nas universidades públicas, do SUS, do Bolsa Família, da seguridade social, dos direitos trabalhistas, de uma melhor distribuição de renda…
– Comunista!
– Não! Pelo que estudei, creio que sou um social-democrata.
– Vendido!
– Que nada! Não me vejo votando no PSDB, DEM, PP… Não quero o Bolsonaro, por exemplo.
– Apoiador de corrupto!
– Cara, vi muitos avanços sociais nos governos petistas, mas não consigo ignorar o ‘Mensalão’, ‘Petrolão’… Isso me afasta da possiblidade de defender o Lula de olhos fechados!
– Manipulado!
– Meu, só estou analisando o contexto! Vamos imaginar que o Lula seja absolvido no TRF-4 nesta quarta-feira. E consideremos que ele vença as eleições em outubro. Ele conseguiria governar sem as alianças que construiu para 2002? Conseguiria fazer o quê sem apoio do Senado e da Câmara? Só se ele dissolvesse tudo e desse um golpe de Estado!
– Bolivariano!
– Eu não estou apoiando isso que eu acabei de dizer! Sou um democrata, poxa vida. E justamente por não ver poder de governabilidade, nem projeto de governo a não ser uma tentativa desesperada de se agarrar ao poder, não votaria no Lula.
– Imperialista!
– Até parece que tu não me conhece! Sou contra a privatização de estatais, como a Petrobrás.
– Mamador das tetas do Estado!
– Cara, me respeita! Eu até trabalho para uma empresa privada.
– Pelego de patrão!
– Gente, o que quero dizer é que sou a favor do Estado de Bem Estar Social. Não de um Estado inchado, com mil ministérios e CC’s, mas um Estado justo que beneficie a quem realmente precisa. Olha o quanto a gente paga em impostos…
– Imposto é roubo!
– Não, calma! Sou a favor dos impostos. E justamente por isso cobro um melhor retorno em serviços públicos.
– A culpa é da sonegação!
– Até pode ser, mas nem sempre. Olha o quanto se desviou para comprar deputados, senadores…
– Admite que o PT é corrupto então?
– Alguns membros do partido, sim, foram. Assim como todos outros partidos têm alguém com o rabo preso, seja como corruptor ou corruptível.
– Estão perseguindo o Lula! Por isso, eleição sem ele é fraude. Concorda?
– Não. Preferia uma eleição sem ele. Mas que deixasse de concorrer por vontade própria. Já deu o que tinha que dar.
– Boa! Então, concorda comigo que ele é culpado?
– Não sei. Sou leigo em advocacia, mas pelo que tenho acompanhado, o Ministério Público tem tido dificuldade de apresentar provas. Isso é grave!
– Cadê a democracia?!
– Calma!
– Vocês é que querem implantar uma ditadura!
– Chega! Vamos embora. Garçom, traz a conta! – a mesa ficou em silêncio absoluto.

– Aqui, senhor! – chegou a nota fiscal em uma bandeja.
– Divide por três, por favor!
– O senhor está esperando mais alguém? Está sozinho na mesa desde que chegou.

A experiência antropológica que é correr

bazar

 

Moro em Porto Alegre há quase 8 anos e, desde que vim pra cá, passei a ter uma vida mais sedentária. Tentei inúmeras vezes me readaptar a jogar futebol, correr, me exercitar. Mas sempre acabo voltando a uma vida mais boêmia. De um mês para cá, voltei a me exercitar. Passei a correr no Parque da Redenção, fazer exercícios em casa e etc. Hoje resolvi fazer diferente, ir além: prestar atenção no meu corpo e ver como ele fala comigo, ser mais sensível e compreender como ele vem se adaptando a essa nova rotina.

Comecei a correr na esquina da Av. Loureiro da Silva com José do Patrocínio, e ali já percebi o quanto a roupa que se usa faz diferença na hora de correr. Eu estava com uma camisa mais colada, dessas de ginástica, e não as mais largas de algodão que costumo vestir no dia a dia. Então, quanto mais eu corria, mais a camisa colava no meu corpo e me fazia pesar além do normal. Além disso, antes mesmo de chegar à Redenção, reparei no ar que eu respirava, que era muito mais poluído, devido à fumaça dos carros e ônibus que ali passavam. E para piorar, ao atravessar as ruas, notei que a tensão do trânsito ao redor aumentava minha pulsação a cada esquina. E isso me atrapalhou bastante, porque meu coração batia mais forte e forçava minha respiração.

Ao adentrar a Redenção, passei a notar o choque dos meus ossos com o solo – o movimento do meu joelho a cada impacto, assim como meu tornozelo. Percebi a maneira como meus músculos passaram a enrijecer e notei que estava mais cansado do que o normal, como se já estivesse no final da corrida. E eu apenas estava começando! Ao ficar prestando atenção nas minhas pernas, notei também como meu pé pisava no chão. Como choveu hoje, o terreno estava mais escorregadio. Meu pé deu pequenas escorregadas pela terra algumas vezes, e eu passei a temer que viesse a perder o equilíbrio. Completamente aterrorizado por essa possibilidade de cair e me machucar, desacelerei o passo e caminhei. Estava na altura do Teatro Araújo Viana e não estava exatamente cansado, mas o terror me aumentou a adrenalina e fez respirar errado. Enquanto eu caminhava, desviei minha atenção para a música que estava ouvindo. Geralmente, escolho bandas de rock para me movimentar com vontade. Dessa vez eu havia colocado Jorge Drexler, que é um pouco mais lento, introspectivo, e estava tirando o meu pique. Então, concluí que a música também influencia na maneira de correr. Ainda mais quando notei que gostava da música e começava a cantar, o que me fazia respirar errado outra vez. Foi interessante perceber o quanto a música pode me desviar a atenção. Reduzi o volume do fone de ouvido e voltei a correr, passando o Parquinho da Redenção. Até que senti escorrer uma gota de suor pela nuca. Meus cabelos já estavam molhados e aquele choque do corpo quente com a gota gelada que escorria pescoço abaixo também me desconcentrou. Todas as zonas suadas passaram a pulsar.

Voltei a caminhar, fazendo o trajeto onde costumeiramente se instala o Brique da Redenção. Foi quando ouvi alguns passos se aproximando de minhas costas, dando a impressão de que alguém iria me ultrapassar em instantes. Isso me injetou uma adrenalina tremenda, e o senso de competitividade foi despertado. Pensei que não podia deixar que ninguém me ultrapassasse e acelerei numa corrida. Quando estava quase chegando à curva da praça, entrando na Av. João Pessoa, olhei para trás e não vi ninguém. Foram três segundos, no máximo, onde concluí que eu estava sozinho, na verdade competindo comigo mesmo. Ao realmente fazer a curva, quando consegui virar meu corpo, olhei para o lado e vi que de fato havia alguém lá atrás. Ou seja, eu disparei e tirei uma boa distância daquele competidor imaginário. Mas foi muito estúpido da minha parte, porque forcei demais e estava exausto, cansado, sentindo quentes os músculos da perna, que puxavam. Logo seria ultrapassado por ele, já que desacelerei até voltar a caminhar. Dei mais uns passos até um banco de madeira, onde fiz alongamentos e deitei para algumas abdominais.

Assim como antes, resolvi prestar atenção no meu corpo de maneira mais sensível. Geralmente, faço de 4 a 6 séries de 20 abdominais. Dessa vez, consegui fazer só uma série. Era como se meus músculos da barriga fossem saltar para fora. Sentia algumas câimbras na panturrilha e parei. Resolvi que ali eu iria retornar para casa. Não aguentei metade ou um terço do tempo que eu tenho feito ultimamente. Além disso, a sede foi muito maior também. Não pensava noutra coisa que não chegar de uma vez para beber água. Foi muito interessante. No caminho de volta, concluí que tive uma experiência “huxleyiana”. Concluí o quanto o nosso corpo fala diariamente conosco e mesmo assim o ignoramos. O quanto forçamos nossa carcaça. Foi realmente uma experiência antropológica! De certo, daqui uns dois dias vou voltar a correr de novo. Mas dessa vez, aprendi: se quiser ser mais duradouro na tarefa, é melhor desviar o foco de mim mesmo.

A linha nada tênue entre paquera e assédio

bazar

Eu ia deixar passar, já que as mulheres estavam travando um bom debate. Eis que meus camaradas de cromossomos se infiltraram e então me senti chamado ao ringue! Para quem não acompanhou, atrizes e atores vestiram a cor preta no Globo de Ouro 2018 como uma forma de protesto contra as acusações de assédio sexual em Hollywood. Mas veio o contragolpe! Na França, artistas e intelectuais (entre elas, a atriz Catherine Deneuve) assinaram uma carta no jornal Le Monde condenando o protesto: “Nós defendemos a liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual“. No Brasil, em entrevista ao jornal O Globo, onde é colunista, a escritora Danuza Leão foi ainda mais longe: “É ótimo passar em frente a uma obra e receber um elogio. Sou desse tempo. Acho que toda mulher deveria ser assediada pelo menos três vezes por semana para ser feliz“. Pronto! Estava inaugurada a contagem regressiva para a bomba. Não vou me meter na discussão das moças. Quero me ater aos urros e socos na mesa dos marmanjos que bradaram felizes porque finalmente alguém botou o dedo na cara dessas “tais feministas”.

Não sou nenhum Martinho da Vila, mas já paquerei muito. Muitas vezes fui correspondido e noutras tantas não. Evidentemente, nas minhas abordagens amorosas, jamais toquei sem consentimento em alguém. Um assunto puxado na parada do ônibus, no balcão do bar e lá vamos nós. Na era das redes sociais, a tarefa ficou até mais fácil. Basta uma mensagem correspondida e ali temos uma conversa inaugurada. E quando não há o retorno esperado? A ausência de uma resposta, ou uma resposta mais seca, ou ainda uma negativa para um encontro significa o fim do papo. É do jogo! Aí está a paquera. Qualquer insistência além disso – um deslizar de mãos pelo corpo alheio, uma tentativa de beijo à força, uma enxurrada de pedidos para sair – deixou de ser. Não é difícil de perceber quando a paquera ultrapassa o seu limite. Não é uma linha tênue em que, num piscar de olhos, se escorrega para o outro lado. Há mais dois ou três terrenos separando a paquera do assédio. Primeiro vem a inconveniência, depois o desconforto e por fim a repulsa. E o pior tipo de assediador é o dissimulado. Aquele que faz e não reconhece. É inclusive capaz de inverter os papeis e dizer que a mulher (de mente suja) pensou bobagem!

Ah, mas se não fosse meu pai assediar minha mãe, eu não estaria aqui!” Este argumento só serve se você foi concebido em um estupro. A época em que o homem catava a mulher com um tacape e arrastava pelos cabelos para procriar ficou na Era das Cavernas. Se buscar na minha árvore genealógica, talvez encontre este comportamento no meu tatatatatataravô. Mas ainda assim vai existir alguém para dizer que o mundo está chato e que o politicamente correto está ferrando com as relações humanas. Perceba que não! Aqui vos escreve um cidadão que, quando o assunto é liberdade sexual, está mais do que de acordo – desde que, obviamente, haja consentimento mútuo. Por fim, pergunto aos homens que acham ‘mimimi’ a reação das mulheres aos assobios e abordagens grosseiras, de que forma reagiriam caso recebessem o mesmo tratamento de homossexuais. Se é uma simples paquera, por que a maioria reage como se estivesse sofrendo um atentado violento ao pudor?

Devia ser proibido morrer jovem

bazar
Em menos de um ano, a segunda paulada: o segundo amigo do peito que se vai precocemente! E pensar que em uma das últimas vezes que saímos juntos, um me consolava pela morte do outro. Devia ser proibido morrer jovem, com pouco mais de 30 anos. Assim se foi o Robson. Tão inteligente, de humor tão perspicaz, que fazia eu me sentir lisonjeado por simplesmente estar ali, dividindo a mesa do bar, a mesma garrafa de cerveja, ou por ter me convidado a ir na casa dele, cantar a mesma música enquanto ele tocava violão. Daqueles caras que a gente lamenta por não ter convivido mais, aceitado mais convites para churrascadas, peladas no fim de semana, uma bebida na esquina. Mas também, quem iria imaginar que passaria assim, feito um foguete por este planeta?!

Nem deu tempo de se despedir, de pedir a “saideira”. Queria ouvir a última piada, cantar uma última música do Legião Urbana antes da síndica lembrar que é domingo e amanhã todo mundo trabalha cedo. Queria poder ter dito que adorei ser chamado para palestrar para a turma de jornalismo dele. Que mesmo achando uma péssima ideia no início (quando fui convidado), saí de lá cheio de tesão pelos olhares interessados dos alunos e com um orgulho danado do amigo que eu tinha. Assim como na vez em que comprei a Revista Superinteressante e vi o nome dele assinando uma das matérias. Aquele cara era meu chapa! E aquelas entrevistas que ele fez para a BBC?! Que crânio, velho! Que orgulho… Que dor!

Na verdade, minha dor é uma dor envergonhada. Nem deveria estar sentindo tanto. Se eu estou assim, o que resta para os pais dele? E a namorada? Cara, queria tanto te dar um abraço, dizer que vai ficar tudo bem, e que logo vai passar. Obrigado por me apresentar a ele. Obrigado por me fazer tão presente, mesmo sem eu estar. “Amado. Te quero mais na nossa vida“, dizia uma das mensagens que trocamos. Eu também queria (e agora percebo, deveria) ter aproveitado bem mais a companhia de vocês! Fica bem. Ele foi muito amado. E isso é cada vez mais difícil nos dias de hoje.

Maria do Rosário: a que merece ser assaltada

bazar

De uns tempos para cá, tornou-se convencional entre as pessoas de bem odiar a deputada federal Maria do Rosário (PT). Sinceramente, não sei se é um fenômeno que se detém apenas ao território gaúcho, ou se estende pelo restante do país. Ela ganhou destaque na imprensa nacional quando bateu de frente com Jair Bolsonaro (então do PP) e ouviu a seguinte sentença do deputado carioca: “Jamais iria estuprar você, porque você não merece!” A declaração foi interpretada como ofensiva pelo STF e rendeu uma indenização de R$ 10 mil. Mesmo que o sentido tenha sido outro, trata-se de uma verdade: Maria do Rosário (assim como qualquer outra mulher) não merece ser estuprada. Talvez se Bolsonaro tivesse dito que a deputada merecesse ser assaltada, aí sim, receberia o aval de inúmeros brasileiros. Afinal de contas, foi o que se viu nesta quinta-feira.

Ela foi mais uma vítima do alto grau de violência gratuita deste país – fruto da desigualdade social latente. Maria do Rosário teve o carro roubado na zona norte de Porto Alegre, quando chegava em casa. E daí, justo três dias depois de comemorarem o Natal com muito amor no coração, gaúchos de diversas cidades do Rio Grande do Sul manifestaram sua ojeriza à deputada via redes sociais. Em tempos onde os direitos humanos viraram sinônimo de “defesa de bandido”, a ex-Ministra da Secretaria dos Direitos Humanos no governo Dilma Rousseff transformou-se na rainha dos assaltantes e homicidas. Não aos olhos dos ocupantes dos presídios, óbvio. Mas sim aos olhos dos cidadãos de bem. Justo ela (como salientou o colega Vinícius Brito em seu Facebook), “autora/relatora de lei que:
– Aumentou a pena para crimes de lesão corporal e homicídio contra policiais;
– Definiu a exploração sexual de crianças como crime hediondo.
– Também tornou crime hediondo o assassinato de mulheres motivado por questões de gênero.
– Garantiu a escuta protegida para crianças vítimas ou testemunhas de violência.
– Ainda foi relatora da CPI que investigou as redes de exploração da prostituição infantil no Brasil.”

Aqui não faço juízo de valor sobre ela ser boa ou má legisladora, ser corrupta ou não, estar num bom ou mau partido, etc. Apenas rebato o rótulo de “defensora de bandido” colado em sua testa, e a comemoração que se seguiu com sua tragédia. Mas sei que, para os detratores da Maria do Rosário, virei alvo da mesma raiva que nela é despejada. Em contrapartida, você  que chegou até o fim deste texto com o coração palpitando, emocionado pela defesa à deputada, leia um trecho da matéria do dia 5 de julho de 1995, publicada no jornal fluminense A Tribuna da Imprensa (na imagem ao lado está na íntegra): “O deputado federal Jair Bolsonaro (PPR-RJ) foi assaltado ontem, quando seguia para panfletear junto a seus eleitores, na Zona Norte do Rio. […] Os criminosos levaram a motocicleta do parlamentar, a Honda Sahara 350, ano 94, placa LAG-0656, e a sua arma, uma pistola Glock 380. […] ‘Mesmo armado me senti indefeso’, comentou o parlamentar“. Se você soltou um sorriso de canto de boca, ou praguejou alto contra Bolsonaro, cuidado! Está fazendo igual ou pior que aqueles aos quais condena. Nenhum homem ou mulher merece ser assaltado(a) ou estuprado(a), lembra? Nem Marias, nem Jaires.

 

Abu Dhabi além do Mundial de Clubes

A woman wears a niqab as she pushes her caddy in Carrefour, the world's second-biggest retailer, as she shops in Doha

Após 11 dias longe de casa, retornei dos Emirados Árabes Unidos onde estive fazendo a cobertura do Grêmio na disputa do Mundial de Clubes. Foi uma viagem que me agregou muito profissionalmente. Não tenho do que me queixar. Entretanto, voltei modificado como ser humano. Al Ain, Abu Dhabi e Dubai me apresentaram situações contrastantes: a riqueza dos prédios luxuosíssimos erguidos graças ao dinheiro do petróleo, mas às custas da exploração da mão de obra barata dos estrangeiros (vindos do Paquistão, Índia, Nepal, Síria, Uganda e Indonésia); a tranquilidade de transitar nas ruas sem medo de ser assaltado, mas a limitação da liberdade de expressão agregada a um culto às armas e patriotismo. Agora, sem dúvidas, nada me causou maior choque cultural do que a condição feminina – imposta pelo fanatismo religioso.

Entendendo que a ampla maioria da população do país é formada por estrangeiros, por óbvio, nem todas as mulheres usam a tal burca. No entanto, basta dar uma volta pelos shoppings para se deparar com elas. Sedas pretas ambulantes pelos corredores. O “xador” (pano escuro que cobre todo o corpo feminino com exceção do rosto) já é chocante. Mas existe algo pior: o “niqab“. Com a aparência de ninjas, as mulheres transitam apenas com os olhos de fora – algumas ainda os cobrem com uma seda. No aeroporto, retornando ao Brasil, ainda vi uma que usava luvas pretas. Ou seja, nenhuma exposição à luz. Só panos da cor preta por toda a parte. Qual a necessidade disso? Proteger as mulheres de possíveis cantadas ou uma imposição de um marido ou pai ciumento? Tradição cultural ou reprodução de um machismo escondido atrás de religiosidade?

Quando embarquei para os Emirados, sabia que iria me deparar com a situação degradante das mulheres. Porém, imaginava que acabaria me acostumando ao longo dos dias. Não consegui. Pareciam pequenos fantasmas negros caminhando pelas ruas da cidade. É impressionante como as mulheres são renegadas a um posto mais baixo na família, completamente submissas ao homem. Que falta faz uma Simone de Beauvoir nas Arábias!

Vou torcer pro Grêmio… e o Mundial é meu caminho!

bazar

Nos últimos dias, recebi (seja via Twitter ou na página do Facebook) mais de um recado de colorados indignados comigo: “Tu és muito gremista!“. Mal sabem eles que sim, nestes meses que passaram fui gremista. E nos próximos dias torcerei mais ainda pelo título mundial do Grêmio! “Olha aí, se assumiu?!“. Se há alguma coisa que, de fato, assumi é que o sucesso do Grêmio é o meu sucesso… profissional. Afinal de contas, graças à conquista da Libertadores, estou embarcando para os Emirados Árabes nesta sexta-feira! Eu e Daniel Oliveira.

Nunca fui torcedor do Grêmio. De uns tempos pra cá, resolvi falar abertamente para qual time torci na minha infância e adolescência. Você leu bem – e se não leu, repito: torci. Nunca fui gremista. Isso não faz de mim um “secador” ou membro da IVI (Imprensa Vermelha Isenta). Sem egoísmo, sou Eu Futebol Clube. Ou, no caso, defendo o Grupo Bandeirantes – minha atual empresa. Quando opino, prefiro ser fiel à minha consciência do que aos sentimentos que algum dia fizeram meu coração bater mais forte. Erro e acerto por convicção, sem querer fazer média, torcer contra ou a favor. Quando atuo como repórter, quero o bem da minha matéria. Que saia o gol do Grêmio para que a família carente que levei à Arena vibre em frente à câmera. Que o Inter volte à Série A para que minhas condições de trabalho melhorem (com viagens menos desgastantes, com jogos de maior proporção). A campanha tricolor me fez entrar ao vivo para rede nacional uma porção de vezes. Minhas matérias rodaram em São Paulo, Rio, Bahia, Mato Grosso, Acre! Então, sou torcedor? Se afeta positivamente o meu trabalho, sim! E este é o caso.

Acontece que cresci ouvindo/vendo as gravações dos gols de Renato em Tóquio. Depois, quando vim trabalhar em Porto Alegre, invejava o depoimento dos colegas que estiveram em Yokohama e relatavam os bastidores da epopeia colorada em 2006. Até os que cobriram as derrotas do Grêmio, em 1995, e do Inter, em 2010, tinham histórias pra contar. Quando chegaria a minha vez? Chegou. Em menos de uma década como profissional do jornalismo, estou embarcando para uma cobertura histórica. Para que minha voz seja buscada no arquivo de matérias especiais daqui a 20 ou 30 anos, para que eu possa servir de inspiração para gerações futuras de repórteres e comentaristas que almejarão chegar aonde eu cheguei, que o Grêmio vença! Sou gremista? Em Al Ain e Abu Dhabi serei. Não estou pedindo que você, colorado, faça o mesmo. Apenas entenda e respeite. O momento é tricolor! E você, gremista, acostume-se: pode ser que no futuro eu esteja torcendo pelo sucesso do seu rival. É do jogo da minha profissão, no caso. O sucesso do time é o meu sucesso. Por isso, não se aborreça se eu realmente parecer emocionado. De fato, estou nas alturas.

Segundo turno entre Lula e Bolsonaro faria Brasil retroceder 50 anos

bazar
O Ibope divulgou neste domingo sua primeira pesquisa eleitoral para 2018, e o resultado é estarrecedor! Lula (PT), com 35% das intenções de voto, teria Jair Bolsonaro (saindo do PSC para o Patriotas) como opositor no segundo turno – o ex-militar aparece com 13%. Sei que pesquisas nem sempre acertam. Nas últimas eleições municipais em Porto Alegre, por exemplo, a primeira pesquisa divulgada projetava um segundo turno entre Manuela D’Ávila (PCdoB) e Luciana Genro (PSOL). Para a tranquilidade dos liberais, ocorreu exatamente o oposto. Manuela sequer concorreu e Nelson Marchezan Jr (PSDB), que estava em quarto lugar, venceu no segundo turno contra Sebastião Melo (PMDB), que estava em terceiro. Luciana acabaria a eleição sendo a quinta mais votada. Ainda há casos em que a pesquisa influencia o eleitorado a trocar o voto. Sei de amigos que, em 2014, votaram em José Ivo Sartori (PMDB) para tirar Ana Amélia Lemos (PP) do segundo turno e fortalecer a candidatura de Tarso Genro (PT). Resultado: foi o peemedebista quem acabou eleito. Mas não é a perícia da pesquisa que me preocupa, e sim a falta de opção e retrocesso a galope que o povo brasileiro irá se submeter.

Se, de fato, nenhum dos dois sair do páreo (por decisão jurídica ou partidária), “Lula versus Bolsonaro” será a reedição do embate entre Getúlio Vargas (PTB) e Carlos Lacerda (UDN) que se desenhava no imaginário brasileiro na década de 50! Isso, por si só, explicaria o retrocesso que estamos fazendo. A disputa jamais aconteceu nas urnas, mas ficou marcada pela enxurrada de ataques pessoais, tentativa de assassinato, suicídio e ‘fake news‘ produzidas pelos jornais da época – Tribuna da Imprensa, do próprio Lacerda, e Última Hora, mantido pelo governo Vargas. Os ânimos ficaram tão acirrados que nenhum debate profundo foi possível, desencadeando no golpe militar de 1964 (adiado em 10 anos graças ao suicídio de Vargas, mas que teve em João Goulart o herdeiro frágil do mesmo ódio). Lula representa hoje o que foi Vargas: ex-presidente, acusado de se utilizar da máquina pública para enriquecer a si e aos seus, apoiado no discurso de apoio à classe mais baixa e aos trabalhadores, e que foi praticamente convencido a voltar ao poder por falta de opção no partido e pescado pelo ego. Bolsonaro é a reencarnação política de Lacerda: admirador do militarismo, usa os meios de comunicação para vociferar contra a corrupção, se autoproclamando o representante da família, da moral e dos bons costumes. Por isso, um segundo turno entre ambos faria o Brasil retroceder quase meio século. Além disso, há a ausência de projeto.

Com o debate raso e baseado no ódio ao adversário, Lula e Bolsonaro não apresentam ideias e muito menos soluções para os problemas a longo prazo. Lula não representa mais o pensamento da esquerda, do Estado desenvolvimentista e de bem estar social. Está ali simplesmente para dar o troco contra quem lhe ataca. E, mesmo que tenha a intenção de dar continuidade a projetos implementados pelo seu governo – como ‘Bolsa Família’, ‘ProUni’, ‘Luz Para Todos’ -, não teria maioria na Câmara e Senado, e assim como sua pupila Dilma Rousseff estaria à mercê de um impeachment. Já Bolsonaro é tão raso quanto um pires. Rei das frases prontas, do “bandido bom é bandido morto” ao “vai para Cuba“, o ex-militar cresce nas pesquisas justamente pelo temor comunista que foi implantado no imaginário popular (exatamente como em 64). Ele nem sequer representa o pensamento liberal, já que defende abertamente o período militar. Enfim, não há um projeto de desenvolvimento em nenhum dos lados. Pode-se debater ideologicamente os outros nomes apresentados na pesquisa do Ibope, mas todos eles representam melhor o espectro político: Ciro Gomes, Marina Silva, Geraldo Alckmin… O resto é disputa cega pelo trono e crença em um ser messiânico que não virá!

 

Separatismo: a linha tênue entre o orgulho regional e a xenofobia

bazar

Nos últimos dias, os olhos do mundo voltaram-se à Espanha – mais precisamente a Barcelona. Isso porque a população vive um grande debate, culminando com uma grave repressão policial após a instauração de um referendo que propõe a separação da Catalunha do território espanhol. O assunto injetou gasolina à proposta do movimento “O Sul é Meu País“, que tem como intenção algo semelhante: separar os Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná do restante do Brasil. No próximo sábado, o grupo distribuirá urnas para um plebiscito informal que pretende saber qual o tamanho do apoio popular para esta ideia. Confesso, já fui simpatizante. Impulsionado pela cultura gaúcha de exaltação à Revolução Farroupilha (com hino, bandeira e vestimenta tradicionalista), cheguei a acreditar que o separatismo seria uma boa saída. Aos poucos, fui mudando minha percepção. Hoje, correndo os olhos pelo que se passa no planeta, admito não ter uma opinião tão formada assim. Até que ponto este “regionalismo” não é xenofobia?

Primeiro é preciso diferenciar o caso do separatismo catalão do gaúcho. Enquanto a República Rio-Grandense teve vida curta de 10 anos em meio ao Brasil Império (de 1835 a 1845) – jamais contando com total apoio popular -, os catalães, de fato, foram reconhecidos como nação, exercendo um governo autônomo com legislação e língua próprias, embora ainda anexado à coroa espanhola. A exceção fica pelo período em que vigorou a ditadura fascista de Franco (de 1939 a 1975), em que a cultura catalã (hino, bandeiras e língua) foi censurada. Além disso, após a redemocratização, Barcelona sempre viveu o sentimento separatista de maneira latente, insuflada pelos partidos políticos que ganharam as últimas eleições ao formarem o movimento “Juntos pelo Sí”: os sociais-democratas da ERC (Esquerra Republicana de Catalunya), os liberais do CDC (Convergência Democrática da Catalunha) e os Democratas da Catalunha, representantes da democracia-cristã. Contra eles aparece o PP (Partido Popular), do presidente espanhol Mariano Rajoy e de origem consevadora. Convenhamos, uma situação bem diferente à do sul brasileiro, que vive em total sinergia com a ideologia em voga atualmente no país governado por Michel Temer (PMDB), e que vê cada vez mais Jair Bolsonaro subir nas pesquisas para 2018. Traduzindo: aqui, os governadores gaúcho, catarinense e paranaense falam a “mesma língua” do presidente.

Além das questões cultural e política, outro argumento utilizado pelos catalães está na tributação: mais de 20% dos impostos arrecadados por Madri vieram daquela região, sem que o retorno em serviços públicos fosse exatamente o mesmo. Este ponto também é levantado pelos “sulistas” – tal qual a grita sobre a tributação do charque pelos farrapos de 1835. Meu medo, sinceramente, é que este seja o pano de fundo para a questão maior e talvez até inconsciente: a xenofobia. Quanto à Catalunha, não posso ser definitivo pois não estou inserido naquele contexto. Mas aqui, no Rio Grande do Sul, não é raro ouvir a exaltação ao povo gaúcho como culto, honesto, trabalhador, etc – como se as demais localidades do Brasil não estivessem à altura de nós, gaúchos: “Nordestino não sabe votar!“, “Carioca é tudo malandro e gosta de passar os outros para trás!“, “Povo que não tem virtude acaba por ser escravo!“. Brada-se estes lugares comuns regados a preconceito como se neste Estado também não tivéssemos políticos citados em mais de um caso de corrupção, contrabandistas (desde drogas a carne de gado), analfabetos, racistas que torcem o nariz para estrangeiros (principalmente se estes forem negros) e etc. Não há nada que me orgulhe na criação e reprodução deste mito de uma raça superior, que muito se assemelha ao nazismo. O orgulho das raízes, o conhecimento da história de seus antepassados, em nada tem a ver com a exaltação exacerbada do localismo, e a antipatia ao ‘forasteiro’. Mas enfim, andar sobre a linha tênue do regionalismo/nacionalismo é isso: uma hora, inevitavelmente, se cai para o lado errado.