Meu Natal pagão

bazar2Jesus Cristo é um personagem controverso. Se ele realmente nasceu no dia 25 de dezembro, por que o ano só vai acabar daqui a seis dias? Sim, pois se o calendário cristão – que tem 2015 anos – começa a ser contado a partir de seu nascimento, Jesus deveria ter nascido no dia 1º de janeiro, não?! Ora, então você vai comemorar o aniversário de quem? Sinto informar-lhe que esta é apenas uma data escolhida por Constantino para conciliar os ritos ‘pagãos’ dos romanos com os cristãos do ocidente. Tudo pelo bem da expansão do antigo Império Romano! Bom, a esta altura do texto você está praguejando contra mim, um maldito ateu, né? Acalme-se, é Natal! E onde está o espírito natalino? É justamente esta a mensagem que quero deixar no dia de hoje. Não se atenha à imagem, mas à mensagem de Jesus (se é que ele realmente existiu). Melhor: atenha-se à mensagem que foi atribuída a ele!

A figura de Jesus para os cristãos tem a mesma representatividade de Tamuz, deus da Suméria e Fenícia (aliás, este também teria nascido no dia 25 de dezembro!). Ainda há Hórus, considerado o deus sol para os antigos egípcios. E Mitra, o deus persa. Você provavelmente também ouviu falar em Buda! E Krishna? Então, não se sinta envergonhado ou com raiva de mim. São muitos os seres mitológicos, cada um em seu espaço geográfico e tempo, mas com similitudes entre si. Dentre todos eles, no entanto, a mensagem que ficou ao mundo ocidental é a de Jesus. Uma mensagem de paz, de conciliação entre os homens, de menos ganância, de distribuição de riquezas aos pobres, de igualdade. Se estivesse vivo hoje, seria só mais um a receber o rótulo de ‘esquerdopata’ a favor da reforma agrária. Relaxe! Jesus Cristo, se realmente passou por este planeta, poderia ter seu discurso facilmente comparado a tantas outras figuras contemporâneas, como Mahatma Gandhi ou Madre Teresa de Calcutá. Logo, se você admira tanto ele, desarme-se. De nada adianta uma árvore iluminada, abarrotada de presentes caros, e um banquete no jantar. Isso não tem nada a ver com o tal ‘homem de Nazaré’. Afinal de contas, que diabos é Papai Noel senão uma ação de marketing muito bem sucedida?

Para mim, o Natal sempre foi a noite em que minha família se reunia para festejar a vida. Senão em sua totalidade, praticamente. Meus avós maternos, meus pais, meu irmão, meus tios, primos, primos de segundo grau. Comíamos bem. Dançávamos, bebíamos, dávamos muitas risadas. Passamos noites muito felizes! O presente talvez fosse apenas um pretexto para pensar um pouco mais no outro, no que ele realmente gosta, de que forma vou agradá-lo. E no final, um abraço apertado, desejando-lhe com muita sinceridade a maior felicidade do mundo seguida de um próspero Ano Novo. Não é isso? Logo, pouco importa se Jesus nasceu ou não neste dia. Aliás, esqueça-se do cabeludo com coroa de espinhos, ou do gordinho com cara de criança, ou do homem com cabeça de águia, ou da criança de pele azul que toca flauta. Curta mais a sua família. Seja feliz em paz consigo mesmo.

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A maçã que me levou a Júpiter

bazarFui passar férias em Santa Maria. Estava com alguns amigos na boate do DCE quando tocou uma música muito diferente, meio ‘beatles’. “Que música é essa?“, eu perguntei. “Lugar do Caralho, do Júpiter. Como é que tu não conhece Júpiter Maçã?“, disparou minha amiga Cris. A partir dali, busquei cada uma das suas músicas e ‘marchei psicodelicamente com o Dr. Soup’. Virei fã. Coincidentemente, a primeira vez que o vi em cena foi também em Santa Maria, no bar Macondo, quase um ano depois. Fiquei apaixonado por aquela figura grotescamente lisérgica e genial. Adolescente besta que eu era, passei a imaginar que eu era o próprio Júpiter. Que eu era Flávio Basso na época dos Cascavelletes, pronto para dizer à primeira Angélica que aparecesse: “Eu quis comer você“.

Trabalhando na rádio Viva de Bento Gonçalves, tive a honra de entrevistá-lo com meu grande amigo Diogo Filippon. Mal podia imaginar que estava diante do homem que criou os magníficos discos ‘A Sétima Efervescência’, ‘Uma Tarde na Fruteita’. Mal consegui conversar. Só queria ouvi-lo falar em ‘portunglês’, cantar, dançar. E o fiz no bar Ferrovia mais tarde, naquela mesma noite. Gênio! Uma mistura de Mick Jagger, Jim Morrison, David Bowie, John Lennon, George Harrison, Bob Dylan e Kurt Cobain. Tudo em um homem só. Em Porto Alegre, voltei a assistir outros shows dele. Algumas vezes melhor que em outras. Trabalhando na capital, o reencontrei nos estúdios da Rádio Guaíba. Não hesitei na hora de tietá-lo, pedindo uma foto. Não sei por que cargas d’água ele disse que era do signo de aquário. Eu também sou aquariano! “Pô, tu também é aquariano!?“. E esse diálogo se repetiu como em looping naquela tarde. Percebi que ele estava mais frágil, com memória fraca, à base de muito café. Uma lástima! Pediu para ter um comentário diário de cultura na emissora. As negociações não evoluíram. Eu não podia acreditar no que via: Júpiter quase trabalhou no mesmo lugar onde eu trabalhava.

A última vez que o vi foi há poucos dias, no próprio bar Panama, onde seria o show para o qual ele estava ensaiando. Meus amigos me ligaram para avisar que ele estava por lá. Cheguei e o vi sentado em uma mesa. Pedi uma cerveja, mesmo sem vontade de beber, só para vê-lo mais de perto. Interrompi sua conversa com outros dois caras, estendi o braço e disse: “Obrigado, Júpiter!“. Ele tinha a palma da mão gelada. Ficou com o rosto imóvel, olhos caídos e a boca balbuciando algumas coisas que eu não entendi. Não precisava. Foi a minha despedida dele, sem que eu soubesse. A minha despedida do cara que me ‘abriu as tortas e as cucas’. Agora podes descansar, man!

Se as eleições fossem hoje, você votaria no mártir do Uber?

bazarVivemos à espera de um novo messias. Alguém que venha para nos guiar rumo à libertação. Todos nós (religiosos ou não) aguardamos por um líder. Precisamos crer que uma pessoa, entre nós todos, vai dizer o que queremos ouvir. E aí, ele estará apto a nos guiar – religiosamente, politicamente, futebolisticamente ou em qualquer outra área da sociedade. Acontece que estamos tão ávidos por um guia, um novo ídolo, que ele não precisa nem dizer algo com que concordamos. Basta apenas ter um posicionamento inverso a quem queremos destituir do posto de líder. Politicamente falando, se estamos fartos de corrupção estatal, basta alguém fazer um discurso genérico contra a corrupção que tendemos a ficar ao seu lado. Se estamos exaustos de ver tanta violência gratuita nas ruas e alguém vira vítima dela, sobrevive e adota um discurso de paz e justiça: ele vira o nosso novo ‘salvador’. É aí que entra Bráulio Escobar, motorista do Uber, espancado por taxistas em novembro deste ano, em um supermercado em Porto Alegre.

Entrevistei ele neste sábado na Rádio Guaíba. Ao vê-lo adentrar o estúdio, pensei: eu o conheço de algum lugar. Demorei a perceber quem era. Lembrava das fotos em que aparecia em frente ao banner da Polícia Civil, com o rosto deformado. De todos hematomas, restava apenas um pequeno ‘galo’ na testa. Em uma conversa franca de quase uma hora, vi um cidadão relaxado. Grato pela generosidade das pessoas que o salvaram de ser espancado até a morte. Grato pelo carinho que recebeu após o incidente. Relatou que organizou um pequeno jantar para festejar o fato de estar voltando às ruas para trabalhar na próxima segunda-feira. Neste rito, foi procurado por uma criança, que pediu ao pai para conhecer o motorista do Uber – profissão que quer exercer ‘quando crescer’. Também recebeu a visita de uma senhora idosa, que pediu aos familiares para ser levada de casa até ele. Bráulio virou um mártir dos que não aguentam mais estar cercados de violência. Um novo ídolo.

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Questionei ele sobre a declaração do prefeito José Fortunati, dada um dia antes do sequestro seguido de tentativa de homicídio, de que Porto Alegre “não é uma terra sem lei” onde o Uber chegaria e sairia funcionando. Bráulio respondeu que a frase dita pelo prefeito foi usada várias vezes pelos agressores enquanto estes desferiam os socos e pontapés. Aí me deu o estalo: estamos criando um monstrengo político em potencial. Não que ele (Bráulio) vá concorrer a um cargo público contra Fortunati, mas poderá ser usado como ‘case’ pelos rivais políticos. Até que minha colega Samantha Klein disparou a pergunta: “Você já recebeu convite para se filiar a algum partido?“. Gelei. Pensei que estávamos o ajudando a se promover, convencendo os ouvintes de que ele seria uma boa opção de voto. Para meu alívio, o ‘mártir do Uber’ riu muito e disse que não tem a pretensão de entrar para a vida política. Talvez nem ele tivesse pensado no potencial que teria em uma futura eleição. Que bom! Que siga sem perceber. Ou, se perceber, que não se deixe ser utilizado como marionete. Até porque, não tenho dúvidas, Bráulio seria um ótimo ‘puxador de votos’ – como foram Jardel, Danrlei, Romário, Clodovil, Tiririca, João Derly, entre outros. Alguns, felizmente, fizeram um trabalho digno. Outros, eleitos pelo voto ‘despolitizado’ e pela zoeira, meteram os pés pelas mãos. Afinal de contas, o que pensa Bráulio? Que ideologia defende? É a favor ou contra a legalização do aborto? O que acha das privatizações? Votaria pelo aumento de impostos se o seu partido mandasse? E você: votaria no mártir do Uber? Por favor, não! Bráulio só foi um dos tantos exemplos diários de quanto temos de pensar antes de agir por impulso.

Olívio é o mais próximo que conseguimos chegar de Mujica

bazarDesde que conheci a figura do ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, confesso, me apaixonei. Desenhei sua caricatura na parede da minha cozinha. Dei seu nome ao meu cachorro. O estilo de vida desapegado dos bens materiais, capaz de doar parte do salário e lutar pelas classes mais necessitadas, me pegou em cheio. Queria ter um político como ele aqui no Brasil. Dilma, Aécio, Marina Silva, Lula, FHC, Brizola, Jango, Getúlio… Rondei o presente e o passado em busca de alguém que tivesse o mesmo perfil. Nada! Alguém que me faça crer que a política pública é lugar para gente que não quer apenas se locupletar. Ouvi algumas vezes: “Não cai nessa! Mujica faz um tipo. É pura demagogia!“. Virava o rosto, como se estivessem falando de um ente próximo meu. Como se fosse um avô querido, que me dá balas de goma escondido antes do almoço. Sentia pena quando lia críticas de seus rivais de partidos Blanco e Colorado. A mesma pena que senti hoje, ao ver a foto de Olívio Dutra com um curativo na cabeça, abaixo da manchete: “Ex-governador é agredido durante assalto em Porto Alegre“.

Não precisa ter votado em Olívio, muito menos ser simpatizante do PT, para sentir pena de um idoso que é agredido com uma coronhada na cabeça. Sei que alguns se permitiram pensar: “Isso é menos do que ele merecia por ter deixado a Ford ir embora do Rio Grande do Sul“. Ora bolas, Olívio tem 74 anos! Um amigo me disse, “até os canalhas envelhecem“, mas Olívio não é um canalha! Pode-se ter desavenças ideológicas, mas não consigo crer que alguém deseje um assalto ao outro. Mas enfim, cheguei até aqui para dizer que me surpreendeu mais uma vez o fato de saber que Olívio Dutra ainda usa o transporte público para se locomover. Ele, que foi prefeito da capital gaúcha, governador do Estado, presidente nacional do PT, anda de ônibus e lotação! Não estamos acostumados a ver políticos tão “indefesos” assim. Os vemos em seus ternos impecáveis, ou vestidos encomendados a uma boa estilista, desfilando em carrões importados de vidro fumê. Sempre no nível mais alto do esbanjamento e requinte. Quase inalcançáveis. Olívio, não. Ainda disse: “o que me aconteceu tem acontecido com as pessoas nas mais diferentes situações, principalmente com o povo que mais usa o transporte coletivo“.

Olívio não é Mujica. Olívio não esteve preso durante 15 anos em um calabouço durante a ditadura militar. Olívio não mora em uma fazenda e vende suas plantações em uma feira a céu aberto em Montevidéu. Olívio não foi chamado de ‘maconheiro’ por apresentar uma alternativa capaz de reduzir o tráfico de drogas no Uruguai. Mas foi Olívio quem se impôs publicamente contra José Genoíno quando todo seu partido pensava em defendê-lo em vão das acusações de corrupção. Foi Olívio quem fundou a UERGS (Universidade Estadual do Rio Grande do Sul). Ele, vindo de uma família de agricultores sem-terra, formado em Letras, chegou lá. Mas quem o vê por aí, sem saber da história, jamais imagina que foi o que foi. Senti pena de Olívio quando o ouvi nos debates à última eleição ao Senado, em 2014, quando concorreu contra Lasier Martins. Pensei que estivesse senil. Tive quase o mesmo nível de pena a de hoje, quando o vi com um curativo na cabeça. Quase a mesma pena que sinto quando ridicularizam Pepe Mujica por ser menos (bem menos) ganancioso que seus companheiros de política. Demagógicos são os que vêm demagogia na humildade. Para mim, Olívio é quem mais se aproxima de Mujica no Brasil.

PMDB: uma oposição confiável e uma coligação em desconfiança

PrintEstá deflagrado o tiroteio interno no PMDB! Depois que o presidente do Senado, Renan Calheiros, criticou publicamente Michel Temer (vice-presidente da República e mandatário do partido) chamando-o de “coronel”, veio uma nota oficial do partido para retrucar. O melhor ficou por conta da frase dita por Calheiros, de que Ulysses Guimarães estaria a “tremer na cova” pelo retrocesso do partido. A nota fez questão de lembrar que esta possibilidade estava descartada, até porque Ulysses – grande líder das ‘Diretas Já’ e uma das cabeças pensantes da Constituição de 1988 – morreu em um acidente de helicóptero e seu corpo jamais foi achado no fundo do mar. Um tabefe com um livro de história! Mas afinal de contas, o que ocorre com o PMDB?

Tenho uma leitura bem particular sobre o partido. Custo a acreditar na idoneidade de quem nunca (ou poucas vezes) faz oposição. Óbvio que o partido já teve em seus quadros grandes nomes da política brasileira – como o próprio Ulysses Guimarães -, entretanto não consigo engolir o fato de que ele esteve presente em todos os governos desde a Ditadura Militar. Alguém dirá: “mas o partido foi oposição na ditadura!“. Ok, os ‘Anos de Chumbo’ não pouparam crianças, estudantes, professores e políticos da tortura e da morte. Por que se daria ao luxo de ter uma oposição? Porque esta seria uma oposição ‘confiável’. Logicamente, o MDB (Movimento Democrático Brasileiro) teve membros cassados, perseguidos, presos. Mas não é necessário pensar muito para chegar à conclusão de que algo estranho tinham aqueles que foram permitidos. No mínimo, um silêncio conveniente.

A situação fica evidente quando da abertura política em 1985. Ao deixar o Planalto, os militares fizeram questão de indicar o seu candidato: o ex-UDN, ex-Arena e agora PMDB, José Sarney. Ao longo dos anos, o partido seguiu na mesma comodidade contra os vencedores: fez oposição a Collor, ganhou ministérios e só se voltou contra quando a cama estava armada para o Impeachment (coincidência, né?); apoiou a reeleição de Fernando Henrique Cardoso; esmolou ministérios de Lula, mesmo depois de ter participado da chapa com José Serra nas eleições; por fim, teve o candidato a vice de Dilma. Mas como é de seu DNA, ao passo que se apresenta como oposição, não pensa duas vezes quando o papo é ganhar pastas para ser governo. E ao ser governo, passa de ‘oposição confiável’ a ‘coligação em desconfiança’. Que o digam militares, Collor, Serra e Dilma! Não há problema em criticar a figura de Che Guevara, só não precisa se tornar uma antítese perfeita da frase do guerrilheiro comunista: “Se hay gobierno, soy contra“. No caso do PMDB, se há governo, está dentro. Como oposição confiável ou coligação em desconfiança.

O exemplo francês: dos males, o menor

bazarA extrema-direita parece ganhar voz no mundo. Não é só no Brasil que falsos moralistas, que respingam pensamentos retrógrados com relação à sociedade – como Jair Bolsonaro (PP) e Marco Feliciano (PSC) -, vêm ganhando espaço na política. Na Alemanha, os neonazistas começam a aparecer no Parlamento através do Partido Nacional Democrata (NPD). Fato semelhante acontece nos países escandinavos, através de ultranacionalistas que adotam o discurso xenófobo, elegendo parlamentares na Suécia e Dinamarca. Até mesmo na Grécia, que agora tem o Syriza (partido de esquerda) com o cargo de primeiro-ministro, 10% dos votos foram destinados à Aurora Dourada – considerada neonazista. Mas, sem dúvidas, o maior exemplo veio nas eleições municipais da França neste domingo.

Após um primeiro turno onde a Frente Nacional indicava que venceria em 6 das 13 regiões francesas, houve uma reviravolta. Surfando na onda dos ataques terroristas, o partido adotou um discurso típico da extrema-direita, de expulsão dos refugiados e contra o islamismo. Imprimiu medo contra o medo, algo que vem ocorrendo também também pelo candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump. Porém, assustados com a adesão a este discurso, o Partido Socialista (do atual presidente François Hollande), resolveu abandonar o pleito em algumas regiões e apoiar candidatos do Les Républicains, de seu rival e antecessor Nicolas Sarkozy. Em resumo, a esquerda apoiou os candidatos de centro-direita, para não ver a extrema-direita ganhar corpo. Deve ter pensado: dos males, o menor. O resultado foi certeiro! Das 13 regiões, 7 ficaram com a direita, 5 com a esquerda e nenhuma com a extrema-direita. Bingo!

Pensamento semelhante me ocorreu em 2014 aqui no Brasil. Basta me conhecer (ou ler um pouco), para perceber que tenho atração a ditas bandeiras de esquerda (casamento gay, regulamentação da maconha, taxação de grandes fortunas, não à redução da maioridade penal). Logo, acabo votando em candidatos do PSOL, PCdoB, etc. No pleito presidencial para 1º turno, acabei não votando em nenhum. Estava trabalhando como jornalista em Belo Horizonte, acompanhando as movimentações do candidato Aécio Neves (PSDB). No voo de volta, depois de ouvir uma enxurrada de pensamentos retrógrados e extremistas – seja nas ruas ou nas redes sociais -, cheguei em casa disposto a votar no PSDB no 2º turno. Estaria eu traindo minhas convicções ideológicas, ao não entregar meu voto ao PT, partido mais deslocado à esquerda em relação ao PSDB? Na minha cabeça, era hora de se dar por vencido. Enxerguei que poderia estar fazendo um bem à conjuntura política e ao estanque momentâneo das vozes que multiplicam a homofobia, racismo, machismo e incentivam a volta da ditadura militar no país. Foram dias pensando nisso, até que vi Bolsonaro, Feliciano, Agripino Maia (DEM) e tantos outros dando apoio ao candidato da direita. Revi meu posicionamento. Fiquei do lado contrário ao deles mais uma vez! Mesmo que tenha me causado uma úlcera ver as fotos de Michel Temer e Dilma Rousseff na urna eletrônica.

Se eu não quiser ir para a rua, eu não vou

bazarUma das coisas que mais me dá nos nervos ultimamente é ouvir/ler a seguinte frase: “vivemos uma ditadura aqui no Brasil”. Basta ter mais de um neurônio para chegar à conclusão de que não, não vivemos uma ditadura. Nem bolivariana, militar, de esquerda, de direita, pra cima, baixo, meia-lua para frente e Y. A prova disso é que milhares de brasileiros foram às ruas neste domingo, mais uma vez, para protestar contra o governo. E simplesmente não há nenhum registro de algum preso político. Houve inclusive, novamente, quem preferisse tirar selfie com os policiais. Convenhamos, nem se compara com as décadas de 60 e 70 em que qualquer manifestação de cunho político terminava em sirene, bomba e cacetada. Também não chega perto da Venezuela onde, por exemplo, um opositor de Nicolás Maduro foi baleado durante comício. Nada a ver! Mas isso não quer dizer que eu precise ir à rua. Pelo contrário!

Desde fevereiro, vivemos o Campeonato Brasileiro de Protestos. As pessoas sentem necessidade de contabilizar qual ‘lado’ colocou mais manifestantes na rua. A Polícia Militar divulga que foram X, mas os organizadores falam em X³. Se eu não for à rua pedir o impeachment de Dilma, sou ‘petralha’ e ‘comunista’. Se não apoiar incondicionalmente o governo, sou ‘coxinha’ e ‘tucano’. Alto lá! Tenho muitas reclamações com relação ao governo PT, mas nem por isso apoio o impedimento da presidente da República. Aguardo sim com ansiedade que as investigações cheguem ao seu nome e às suas contas. Encontrando alguma irregularidade, estarei disposto a apoiar sua queda. Do contrário, nego-me a bater de ombros com pessoas que fecham os olhos para a corrupção (comprovada pela polícia suíça) do presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Nego-me a dividir calçada com velhinhos saudosos e jovens alienados amantes da ditadura militar. Sou contra qualquer tipo de governo ditatorial! Tampouco vestiria a camisa da Seleção Brasileira, com o escudo sujo da CBF do lado esquerdo do peito, para pedir hipocritamente o fim da corrupção no país.

Também não vi motivo nenhum para desfilar pelo centro de Porto Alegre na última sexta-feira, ao lado de sindicatos como a CUT (Central Única dos Trabalhadores), que presta defesa incondicional ao PT. Não, não sou assim! Não ponho minha mão no fogo por ninguém. Quero aguardar em casa a sequência das investigações da Operação Lava-Jato, Zelotes, Mensalão Petista, Tucano, Anões do Orçamento, etc… Não preciso sair à rua para defendê-los. Não quero marchar ao lado de Stédiles e nem de Kataguiris – cegos de lados opostos. Mas se ao final deste texto ainda achas que sou um acomodado, e de certa forma condizente com um governo corrupto e ditatorial de esquerda, fico com a mensagem que vi na televisão (pasme, no Faustão, vinda do ator Alexandre Nero): “Menos opinião e mais conhecimento“. Como vivemos em uma democracia, me dou o direito de não ir à rua. Não desta vez!

Antes de eu saber pescar, alguém me deu o peixe

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Quando eu mal sabia ler e não trabalhava em lugar nenhum, ganhei o peixe na boca. E como era bom! Não sabia de onde vinha o pão e o leite, mas sempre os via em cima da mesa. E ainda reclamava porque queria sempre mais: eu quero tomar iogurte! Sempre ganhei tudo o que quis, desde que fosse bem na escola. Entretanto, até quando derrapava nas notas escolares (e admito, foram poucas vezes), não deixava de ser bem alimentado. Confesso que ‘mamei nas tetas’! Muitas vezes usei daquele dinheiro que me davam para comprar bebida alcoólica, para fazer festa, para gastar em bobagem. E o fazia sem o mínimo peso na consciência. Fiquei por bons anos apenas ganhando o peixe, sem aprender a pescar. Falo do Bolsa Família ou do bolso do meu pai?

Aos poucos, fui crescendo e, pressionado a estudar, escolher uma profissão. Até que arranjei ‘Meu Primeiro Emprego’. No segundo grau, ainda fui matriculado em um curso técnico. Pouco aproveitei, matei aulas, mas concluí e tenho o diploma guardado até hoje. Não gastei um tostão com aquele curso técnico! O mesmo aconteceu com a faculdade, em que fiz o vestibular e passei. No início, encarava os estudos como hobby, um lugar para conhecer mulheres, amigos e fazer festa. Até que me dei conta: dali viria o meu sustento. Demorou, mas entrei nos trilhos! Quem pagou minha universidade particular: meu país ou meus pais?

Já formado, tive dificuldade em ingressar no mercado de trabalho. Precisei morar de favor em algumas casas, saí da minha cidade natal e, depois de algum tempo racionando comida e dinheiro, consegui ajustar as contas. Até o dia em que fui comunicado: conseguiria ter meu próprio apartamento. É claro que ele foi-me dado, pois com meu salário mal conseguia pagar o aluguel. Quem me deu o apartamento: “Minha casa, Minha vida” ou meu pai?

Às vezes me queixo da vida, sem perceber de onde sai e aonde cheguei. Repenso e sou muito grato a quem me financiou e investiu em mim para chegar até aqui. No meu caso, foram meus pais. E eles fizeram isso só para eu amá-los mais, para eu votar neles? Não, eles queriam me ver prosperar. Talvez até por instinto, pois se eu tiver meu próprio soldo, um dia não precisarei mais deles para sobreviver. Mas e se eu não os tivesse, ou se eles não tivessem condição de fazê-lo? Eu poderia ter o governo a me ajudar. Um governo paternalista, sim! E se eu não evoluísse na vida, a culpa seria deles? Acho que não. Tenho amigos que pararam no primeiro ‘estágio’, seguem ‘mamando nas tetas’ dos pais, morando embaixo de seus tetos. Então, por que te faz tão mal quando alguém para no ‘Bolsa Família’? Há tantos outros exemplos de pessoas que usam os programas do governo para evoluir na vida. Assim como eu usei os programas do meu pai para evoluir na minha.

Dá para ter um Bom Senso FC em Brasília

bazarConfesso que sou um homem de bandeiras. Mesmo sabendo que ao serem erguidas por aí, as bandeiras deixam de ser orquestradas pelo homem, e sim pelo vento, eu teimo em erguê-las. Creio sempre que as pessoas vão me oferecer o que têm de melhor, e não o contrário. Soa ingênuo, mas sou assim. Seja na política ou futebol, sou adepto da Utopia Futebol Clube. Mas, enquanto não fundo o meu ‘time’, acompanho com atenção o que faz o Bom Senso F.C. No último fim de semana, conversei com Ricardo Martins, diretor executivo do movimento. Gostei do que ouvi! Em meio às investigações que afastaram Ricardo Teixeira, José Maria Marín e Marco Polo Del Nero, o sociólogo não toma partido entre Coronel Nunes e Delfim Peixoto (dois candidatos que vão bipolarizar a disputa pela presidência da CBF). Eles querem mudar as regras do jogo. Ótimo! Podem levar tudo isso para a política partidária?

Na CBF, Del Nero resolveu se afastar para argumentar sua defesa junto ao FBI. Com isso, indicou ao cargo interino Marcus Vicente, deputado federal pelo PP (argh!) e ex-presidente da Federação Capixaba por 20 anos. Entretanto, já articulou a candidatura de Antônio Nunes, presidente da Federação Paraense de Futebol, ao cargo de vice-presidente da entidade – vaga deixada em aberto por Marin, preso nos Estados Unidos. A indicação dele não é por acaso! ‘Coronel’ Nunes, como é chamado, tem 79 anos (5 a mais que Delfim Peixoto, presidente da Federação Catarinense). Como o cargo de mandatário máximo do futebol brasileiro cai no colo do mais velho vice-presidente, o paraense passaria à frente do representante de Santa Catarina, que depois de anos de apoio incondicional a Teixeira, passou a ser visto como oposição. Ou seja, todos eles são filhos do mesmo modelo de gestão desportiva: obscuro e obsoleto. Por isso é preciso mudar as regras do jogo, para depois propor nomes – como Raí, Zico, Leonardo, entre outros que apoiam o Bom Senso.

O mesmo cabe à corrida presidencial no Brasil. Nesta quinta-feira, Luciana Genro (que foi candidata no último pleito pelo PSOL) lançou nota exigindo novas eleições para 2016. Tenho maior apreço pela candidata – tanto que até pensei em votar nela para primeiro turno e só não o fiz porque estava trabalhando fora de Porto Alegre e justifiquei o voto -, mas ela foi muito ingênua no posicionamento. Com exceção do PMDB, todos estão ávidos por ir às urnas amanhã: Aécio Neves do PSDB, Marina Silva da Rede e Jair Bolsonaro do PP (argh! de novo). Ou seja, todos filhos do mesmo modelo de gestão política! São os Delfins Peixotos e Coronéis Nunes brigando pelo Palácio do Planalto. Eu via no PSOL o Bom Senso FC da política brasileira. O partido que vinha propondo o fim dos financiamentos privados de campanhas e uma rediscussão do novo modelo de política não pode achar que vai brigar de igual para igual em um jogo em que as regras seguem as mesmas, em que o sistema se autoprotege. Que o diga a Câmara de Deputados com as manobras políticas de Eduardo Cunha! De duas, uma: ou me enganei com o PSOL, ou a nota de Luciana foi um deslumbre momentâneo. Se bobear, fundo meu ‘Utopia Futebol Clube’ e vou para dentro deles! Ou simplesmente, levem o Bom Senso FC para Brasília.