Olívio é o mais próximo que conseguimos chegar de Mujica

bazarDesde que conheci a figura do ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, confesso, me apaixonei. Desenhei sua caricatura na parede da minha cozinha. Dei seu nome ao meu cachorro. O estilo de vida desapegado dos bens materiais, capaz de doar parte do salário e lutar pelas classes mais necessitadas, me pegou em cheio. Queria ter um político como ele aqui no Brasil. Dilma, Aécio, Marina Silva, Lula, FHC, Brizola, Jango, Getúlio… Rondei o presente e o passado em busca de alguém que tivesse o mesmo perfil. Nada! Alguém que me faça crer que a política pública é lugar para gente que não quer apenas se locupletar. Ouvi algumas vezes: “Não cai nessa! Mujica faz um tipo. É pura demagogia!“. Virava o rosto, como se estivessem falando de um ente próximo meu. Como se fosse um avô querido, que me dá balas de goma escondido antes do almoço. Sentia pena quando lia críticas de seus rivais de partidos Blanco e Colorado. A mesma pena que senti hoje, ao ver a foto de Olívio Dutra com um curativo na cabeça, abaixo da manchete: “Ex-governador é agredido durante assalto em Porto Alegre“.

Não precisa ter votado em Olívio, muito menos ser simpatizante do PT, para sentir pena de um idoso que é agredido com uma coronhada na cabeça. Sei que alguns se permitiram pensar: “Isso é menos do que ele merecia por ter deixado a Ford ir embora do Rio Grande do Sul“. Ora bolas, Olívio tem 74 anos! Um amigo me disse, “até os canalhas envelhecem“, mas Olívio não é um canalha! Pode-se ter desavenças ideológicas, mas não consigo crer que alguém deseje um assalto ao outro. Mas enfim, cheguei até aqui para dizer que me surpreendeu mais uma vez o fato de saber que Olívio Dutra ainda usa o transporte público para se locomover. Ele, que foi prefeito da capital gaúcha, governador do Estado, presidente nacional do PT, anda de ônibus e lotação! Não estamos acostumados a ver políticos tão “indefesos” assim. Os vemos em seus ternos impecáveis, ou vestidos encomendados a uma boa estilista, desfilando em carrões importados de vidro fumê. Sempre no nível mais alto do esbanjamento e requinte. Quase inalcançáveis. Olívio, não. Ainda disse: “o que me aconteceu tem acontecido com as pessoas nas mais diferentes situações, principalmente com o povo que mais usa o transporte coletivo“.

Olívio não é Mujica. Olívio não esteve preso durante 15 anos em um calabouço durante a ditadura militar. Olívio não mora em uma fazenda e vende suas plantações em uma feira a céu aberto em Montevidéu. Olívio não foi chamado de ‘maconheiro’ por apresentar uma alternativa capaz de reduzir o tráfico de drogas no Uruguai. Mas foi Olívio quem se impôs publicamente contra José Genoíno quando todo seu partido pensava em defendê-lo em vão das acusações de corrupção. Foi Olívio quem fundou a UERGS (Universidade Estadual do Rio Grande do Sul). Ele, vindo de uma família de agricultores sem-terra, formado em Letras, chegou lá. Mas quem o vê por aí, sem saber da história, jamais imagina que foi o que foi. Senti pena de Olívio quando o ouvi nos debates à última eleição ao Senado, em 2014, quando concorreu contra Lasier Martins. Pensei que estivesse senil. Tive quase o mesmo nível de pena a de hoje, quando o vi com um curativo na cabeça. Quase a mesma pena que sinto quando ridicularizam Pepe Mujica por ser menos (bem menos) ganancioso que seus companheiros de política. Demagógicos são os que vêm demagogia na humildade. Para mim, Olívio é quem mais se aproxima de Mujica no Brasil.

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