Se as eleições fossem hoje, você votaria no mártir do Uber?

bazarVivemos à espera de um novo messias. Alguém que venha para nos guiar rumo à libertação. Todos nós (religiosos ou não) aguardamos por um líder. Precisamos crer que uma pessoa, entre nós todos, vai dizer o que queremos ouvir. E aí, ele estará apto a nos guiar – religiosamente, politicamente, futebolisticamente ou em qualquer outra área da sociedade. Acontece que estamos tão ávidos por um guia, um novo ídolo, que ele não precisa nem dizer algo com que concordamos. Basta apenas ter um posicionamento inverso a quem queremos destituir do posto de líder. Politicamente falando, se estamos fartos de corrupção estatal, basta alguém fazer um discurso genérico contra a corrupção que tendemos a ficar ao seu lado. Se estamos exaustos de ver tanta violência gratuita nas ruas e alguém vira vítima dela, sobrevive e adota um discurso de paz e justiça: ele vira o nosso novo ‘salvador’. É aí que entra Bráulio Escobar, motorista do Uber, espancado por taxistas em novembro deste ano, em um supermercado em Porto Alegre.

Entrevistei ele neste sábado na Rádio Guaíba. Ao vê-lo adentrar o estúdio, pensei: eu o conheço de algum lugar. Demorei a perceber quem era. Lembrava das fotos em que aparecia em frente ao banner da Polícia Civil, com o rosto deformado. De todos hematomas, restava apenas um pequeno ‘galo’ na testa. Em uma conversa franca de quase uma hora, vi um cidadão relaxado. Grato pela generosidade das pessoas que o salvaram de ser espancado até a morte. Grato pelo carinho que recebeu após o incidente. Relatou que organizou um pequeno jantar para festejar o fato de estar voltando às ruas para trabalhar na próxima segunda-feira. Neste rito, foi procurado por uma criança, que pediu ao pai para conhecer o motorista do Uber – profissão que quer exercer ‘quando crescer’. Também recebeu a visita de uma senhora idosa, que pediu aos familiares para ser levada de casa até ele. Bráulio virou um mártir dos que não aguentam mais estar cercados de violência. Um novo ídolo.

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Questionei ele sobre a declaração do prefeito José Fortunati, dada um dia antes do sequestro seguido de tentativa de homicídio, de que Porto Alegre “não é uma terra sem lei” onde o Uber chegaria e sairia funcionando. Bráulio respondeu que a frase dita pelo prefeito foi usada várias vezes pelos agressores enquanto estes desferiam os socos e pontapés. Aí me deu o estalo: estamos criando um monstrengo político em potencial. Não que ele (Bráulio) vá concorrer a um cargo público contra Fortunati, mas poderá ser usado como ‘case’ pelos rivais políticos. Até que minha colega Samantha Klein disparou a pergunta: “Você já recebeu convite para se filiar a algum partido?“. Gelei. Pensei que estávamos o ajudando a se promover, convencendo os ouvintes de que ele seria uma boa opção de voto. Para meu alívio, o ‘mártir do Uber’ riu muito e disse que não tem a pretensão de entrar para a vida política. Talvez nem ele tivesse pensado no potencial que teria em uma futura eleição. Que bom! Que siga sem perceber. Ou, se perceber, que não se deixe ser utilizado como marionete. Até porque, não tenho dúvidas, Bráulio seria um ótimo ‘puxador de votos’ – como foram Jardel, Danrlei, Romário, Clodovil, Tiririca, João Derly, entre outros. Alguns, felizmente, fizeram um trabalho digno. Outros, eleitos pelo voto ‘despolitizado’ e pela zoeira, meteram os pés pelas mãos. Afinal de contas, o que pensa Bráulio? Que ideologia defende? É a favor ou contra a legalização do aborto? O que acha das privatizações? Votaria pelo aumento de impostos se o seu partido mandasse? E você: votaria no mártir do Uber? Por favor, não! Bráulio só foi um dos tantos exemplos diários de quanto temos de pensar antes de agir por impulso.

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