A maçã que me levou a Júpiter

bazarFui passar férias em Santa Maria. Estava com alguns amigos na boate do DCE quando tocou uma música muito diferente, meio ‘beatles’. “Que música é essa?“, eu perguntei. “Lugar do Caralho, do Júpiter. Como é que tu não conhece Júpiter Maçã?“, disparou minha amiga Cris. A partir dali, busquei cada uma das suas músicas e ‘marchei psicodelicamente com o Dr. Soup’. Virei fã. Coincidentemente, a primeira vez que o vi em cena foi também em Santa Maria, no bar Macondo, quase um ano depois. Fiquei apaixonado por aquela figura grotescamente lisérgica e genial. Adolescente besta que eu era, passei a imaginar que eu era o próprio Júpiter. Que eu era Flávio Basso na época dos Cascavelletes, pronto para dizer à primeira Angélica que aparecesse: “Eu quis comer você“.

Trabalhando na rádio Viva de Bento Gonçalves, tive a honra de entrevistá-lo com meu grande amigo Diogo Filippon. Mal podia imaginar que estava diante do homem que criou os magníficos discos ‘A Sétima Efervescência’, ‘Uma Tarde na Fruteita’. Mal consegui conversar. Só queria ouvi-lo falar em ‘portunglês’, cantar, dançar. E o fiz no bar Ferrovia mais tarde, naquela mesma noite. Gênio! Uma mistura de Mick Jagger, Jim Morrison, David Bowie, John Lennon, George Harrison, Bob Dylan e Kurt Cobain. Tudo em um homem só. Em Porto Alegre, voltei a assistir outros shows dele. Algumas vezes melhor que em outras. Trabalhando na capital, o reencontrei nos estúdios da Rádio Guaíba. Não hesitei na hora de tietá-lo, pedindo uma foto. Não sei por que cargas d’água ele disse que era do signo de aquário. Eu também sou aquariano! “Pô, tu também é aquariano!?“. E esse diálogo se repetiu como em looping naquela tarde. Percebi que ele estava mais frágil, com memória fraca, à base de muito café. Uma lástima! Pediu para ter um comentário diário de cultura na emissora. As negociações não evoluíram. Eu não podia acreditar no que via: Júpiter quase trabalhou no mesmo lugar onde eu trabalhava.

A última vez que o vi foi há poucos dias, no próprio bar Panama, onde seria o show para o qual ele estava ensaiando. Meus amigos me ligaram para avisar que ele estava por lá. Cheguei e o vi sentado em uma mesa. Pedi uma cerveja, mesmo sem vontade de beber, só para vê-lo mais de perto. Interrompi sua conversa com outros dois caras, estendi o braço e disse: “Obrigado, Júpiter!“. Ele tinha a palma da mão gelada. Ficou com o rosto imóvel, olhos caídos e a boca balbuciando algumas coisas que eu não entendi. Não precisava. Foi a minha despedida dele, sem que eu soubesse. A minha despedida do cara que me ‘abriu as tortas e as cucas’. Agora podes descansar, man!

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