Charge é coisa séria

bazarEu ainda estava na pré-escola quando fui repreendido por uma professora, que não acreditava que eu era o autor do ‘tema para a casa’. O fato se repetiu duas vezes com desenhos diferentes – um com índios, outro com dinossauros. Em uma das ocasiões, minha mãe foi chamada para ser questionada sobre quem havia feito o desenho: eu ou ela. Acontece que minhã mãe é artista plástica, foi professora de Educação Artística, e era realmente a causadora de todo o problema. Não por ter feito os ‘deveres escolares’ em meu
lugar como propôs a ‘educadora’, mas sim por ter me ensinado desde cedo a gostar de ler, escrever, desenhar e pintar. Fui incentivado a isso (bem antes de ser repreendido por aquela professora do maternal).

No decorrer da minha vida escolar, continuei desenhando. Gostava de mangás (os famosos desenhos japoneses). Juntava-me a outros amigos que também assistiam àqueles programas na TV e passávamos o recreio inteiro desenhando na biblioteca. “Nerd, eu?“. Até que um dia percebi que gostava de desenhar pessoas. Comecei a fazer caricaturas escondido. Desenhava o amigo, a colega de aula… Eis que a professora de inglês da 8ª Série descobriu! Puxou-me o papel do caderno e viu que a ‘caricaturada’ em questão era ela própria. Fiquei rubro. Pensei que seria punido. Pelo contrário, ela mostrou para todos os alunos da sala, que riram comigo daquela situação embaraçosa. Continuei sendo incentivado a desenhar – agora pelos colegas. Fiz uma oficina de charge, com o até hoje chargista do Jornal Minuano de Bagé, Cláudio Falcão. Aliás, cursei jornalismo inicialmente motivado a ser um chargista como ele. Depois, ao longo da faculdade, fui parando de desenhar. Hoje me limito a rabiscar as paredes da cozinha com giz. Reconheci que não sou bom o bastante como é necessário para se trabalhar nisso. Mas sei reconhecer um bom cartunista quando o vejo. Dentre os que mais admiro, e tive a possibilidade de conhecer pessoalmente, foi Carlos Latuff. Sou fã.

Por isso, me pesa olhar a charge publicada no jornal Zero Hora da última sexta e novamente nesta segunda-feira, como errata. Claro, quem sou eu para recriminar o desenhista profissional Marco Aurélio, de tantos anos de serviços prestados. Ele certamente já passou por muito mais e mais sérias cobranças do que eu diante da professora da pré-escola. Também não estou aqui para cobrar da empresa jornalística e seus editores. Mais uma vez, quem sou eu, né? No entanto, não deixo de sentir pelo erro. E eles sabem que erraram. O desenho que serviria como crítica a Fernando Henrique Cardoso, acusado de receber R$ 100 milhões em propinas por negócios com a Petrobrás, tinha a caricatura de outro ex-presidente: Lula. Em um momento político turbulento como este que vivemos no país, este é um erro crasso que não podia passar batido. Mas ao contrário de muitas opiniões que li no Twitter, vou pensar que não foi intencional a troca de um personagem por outro. Que da próxima vez saibam desenhar certo, mesmo que por linhas tortas. Afinal de contas, charge é coisa séria! Bem séria.

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