Brasil unificado: contra a corrupção ou em nome dela?

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Foto: Fernando Bizerra Jr. (EFE/El País.com.br)

Quase fui convencido de que os políticos do Brasil estavam se unindo para acabar com a corrupção. Quase colocaram-me na cabeça que, com o PT sendo excomungado’, ficaríamos livres dos Mensalões, Lava-Jato, Zelotes e etc. Pois ainda não descobri se o país está se unificando contra ou em nome da corrupção. Pois o tapete que está se estendendo é largo e, aos poucos, está sendo levantado. A sujeira está sendo varrida pouco a pouco para baixo dele. Haja gavetas!

Você, que é a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff, pode até não ser um golpista como bradam os petistas. Afinal de contas, nem todos os insatisfeitos com o governo são contra a democracia. Contudo, temos de dar o braço a torcer: há um golpe político em curso. Não fosse isso, o PSDB de Aécio Neves (principal denunciante da utilização da máquina pública em favor da situação nas últimas eleições), não estaria negociando cargos com o PMDB para virar governo. Golpistas! Ou há outro nome para quem apóia o afastamento da presidente da República para, no dia seguinte, virar governo sem o voto do povo? Aí ouço Fernando Henrique Cardoso falar em unificação em nome de uma emergência nacional. Mas então por que não sentaram com o PT, para propor saídas políticas para a crise? Convenhamos, a unificação nacional não é o xis da questão!

E o que falar da notícia publicada há um dia, de uma reunião entre Jorge Gerdau e Michel Temer? Segundo o publicado, o empresário apresentou algumas propostas para sair da crise econômica. Lindo! Não fosse a empresa siderúrgica que leva seu sobrenome (e da qual ele é presidente do conselho de administração) ser uma das investigadas por tentar sonegar impostos no valor de R$ 1,5 bilhão. A empresa nega, claro. Mas eu pergunto: não é imoral para o possível futuro presidente reunir-se com o representante de um dos investigados pela Polícia Federal? Para finalizar, questiono: por onde anda Sérgio Moro? A última vez que se ouviu falar do juiz – que ganhou notoriedade pelos grampos telefônicos e a condução coercitiva de Lula -, ele estava presente em um jantar de gala da revista Time, em Nova Iorque. Justo agora em que o PT está prestes a sair do governo e todo o pó poderia ser varrido, ele abanadona as páginas policiais para ocupar a coluna social?! Sinto dizer, minha gente, que todos fomos enganados. Eu pelo PT, que aplicou o mesmo jogo de conluio com empreiteiras e Sarneys. Agora vocês, pelos novos caçadores de marajás. Ah, por falar nisso, você leu que o ex-presidente e agora senador Fernando Collor apresentou proposta de “reconstrução” do Brasil a Temer? Era melhor ser surdo, cego, mudo e louco.

Mesmo que doa, prefiro sem cuspe

bazar01Calma! O título pode sugerir um cunho sexual, mas não é a intenção. Quero falar sobre a mais nova onda de debates que tomou conta do cenário político brasileiro: vale cuspir em quem te agride verbalmente? Embora o comportamento tenha vindo de pessoas consideradas ideologicamente de esquerda (e eu me considero um cidadão com ideias rotuladas assim também), teimo em ver com naturalidade tal comportamento. Para mim, cuspir é sim um ato agressivo! Seria capaz de cuspir em alguém talvez em último ato de defesa, de mãos amarradas e sendo torturado fisicamente. Para uma agressão verbal, jamais! A uma agressão física, talvez fugisse. E, encurralado, tentaria me defender com socos, pontapés ou que me viesse pela frente. Do contrário, sou avesso a agressões físicas.

Este debate iniciou na votação do impeachment na Câmara dos Deputados, em Brasília, quando Jean Wyllys (PSOL) cuspiu na direção de Jair Bolsonaro (PSC). O motivo alegado foi defesa contra xingamentos homofóbicos. Não quero inocentar Bolsonaro – até porque é um sujeito que me causa repulsa com seu discurso enaltecendo torturadores da ditadura militar -, mas não vejo como a melhor maneira para se defender. Há meios legais para recorrer de uma agressão (ainda mais vinda de um parlamentar!). Neste caso, um processo por danos morais seria mais apropriado. Mas não parou por aí! O último foi o ator global José de Abreu, abertamente identificado com o PT. Segundo o próprio relatou via Twitter, ele e sua esposa foram hostilizados por pessoas contrárias ao governo Dilma em um restaurante e, em resposta, soltou um cuspe na cara de seu agressor. Ok, entendo que para chegar a tal ponto, os xingamentos devem ter passado dos limites. Mas e se fosse o contrário?

Defeito ou virtude, tento me colocar no lugar do outro. Claro que não vou sair por aí hostilizando alguém que não conheço somente pelo fato de ter uma ideologia política ou opção sexual diferente da minha, mas odiaria receber uma cusparada na face. E se os simpatizantes do tal Bolsonaro se sentirem no direito de cuspir em mim pelo fato de eu sentir ojeriza ao político e ter manifestado isso aqui no blog? Ou cada um que se sinta atingido pela opinião contrária, puxe um catarro do pulmão? Viveremos uma guerra de cuspes! Temer cuspirá em Dilma, que cuspirá em Eduardo Cunha, que cuspirá em Chico Alencar, que cuspirá em Marco Feliciano, até que o cuspe atinja a ti. Não, né?! Por isso, sentiu-se ofendido, procure um policial ou advogado. Por mais que tenha doído, não revide. Sem cuspes, por favor!

Homem belo, recatado e do lar

bazar01Para você que leu a matéria de péssimo gosto da Revista Veja, que tenta promover a “quase primeira-dama” Marcela Temer aos moldes das mulheres da década de 1950, e não vê problema nisso, inverta os papéis. Verás o quanto machista é a sociedade brasileira. E se ainda assim continuares vendo este discurso apenas como mais uma bandeira “de esquerda”, lamento pela sua esposa, filha, mãe, avó, tia, neta e/ou sobrinha. Mas vamos lá, deixe sua mente voar e imagine o quadro…

“Marcelo tem 32 anos, é formado em direito, mas nunca exerceu a profissão. Sua única experiência no currículo foi um curto período como recepcionista e um concurso de beleza no interior de São Paulo. Mas não venceu, ficou em segundo lugar. Hoje em dia, segue sem emprego. Gasta as horas no conforto do lar e sua única distração é levar e buscar o filho da escola – enquanto a esposa, 40 anos mais velha, trabalha como servidora pública. Ah, nas horas vagas – já que tem muitos funcionários para limpar e servir a casa -, ele gosta de ir à academia cuidar dos músculos. “Marcelo sempre chamou a atenção pela beleza, mas sempre foi recatado. Gosta de usar calças compridas que não mostrem o tornozelo quando senta. É recatado!”, conta o estilista do rapaz. Também fica lendo as notícias na internet e conta para a esposa o que anda acontecendo no país. Mas isso só acontece três dias na semana, quando estão na mesma cidade. Pois enquanto a esposa trabalha de segunda a quinta-feira, Marcelo vai para a casa do pai – um homem negro cor de jambo, olhos escuros, que fez questão de acompanhar o filho (ainda adolescente) no primeiro encontro do casal.”

E aí, em nenhum momento você sorriu envergonhado? E se eu complementasse que este tal Marcelo descrito ali em cima é o mais novo namorado da presidente da República, Dilma Rousseff, que recebeu um perfil numa revista de alta circulação para ser aceito na sociedade brasileira? Você aceitaria um trintão, sem emprego, que gasta as horas na academia e na casa mãe, como “primeira-dama”? Não, né? Isso é coisa de mulher! E para um homem, estar desempregado, matando tempo em casa e sendo sustentado pela mulher, é “coisa de vagabundo”. Não é? E não me venha com o papo de ser evoluído, que na sua casa até ajuda a esposa a arrumar a cama: “Eu também lavo a louça!”. Você não está ajudando, você está exercendo o seu papel. A casa não é dos dois?! Por que cabe apenas à mulher os deveres domésticos? Não sou o maior dos exemplos a serem citados, mas choca-me ver como (ainda em 2016) estamos amorfos diante de um cenário desse: uma mulher “bela, recatada e do lar”. Praticamente um bibelô! Poupem-me dessa! Definitivamente, não é este Brasil que quero. Sonho com cada vez mais mulheres livres (para serem bonitas como desejarem), politizadas (ao invés de recatadas) e trabalhadoras (dividindo igualitariamente os afazeres do lar).

Carta aberta aos antigos eleitores do PT

bazar01Se em algum momento da vida, votou em candidato do PT em eleições, leia o texto com atenção. Se não for o caso, nem perca tempo. Ele não vai te pegar. Apenas não se irrite. E se irritar, respeite a mim e a si.

Eu entendo quem usou bóton e balançou bandeira do PT e hoje se vê traído pelo atual governo. Entendo mesmo! Para chegar e se manter no poder, o PT abraçou velhos inimigos e pôs pouco em prática das filosofias sociais. Por isso, compreendo aqueles que se diziam a favor das políticas públicas e agora rejeitam ao PT dos benefícios próprios e seus desvios de verba. Só não entendo alguns que, por essas desavenças, deram as mãos a fanáticos religiosos, a militares e simpatizantes da ditadura, ou a representantes do neoliberalismo. Estes citados aqui estão do mesmo lado que sempre estiveram. Mas e tu? Foi o PT quem lhe traiu, que não respeitou a ideologia antes defendida. Logo, não precisas mudar teu conceito. Uma causa é bem maior que um partido.

A teoria do capitão do mato

bazar01Levei meus cães para passear no parque. Enquanto os via correr com outros cachorros que ali estavam, me deparei com uma cena bem intrigante e que me fez entender por que muitos oprimidos apoiam a opressão. O motivo é simples: ganância pelo poder. Minha cachorra – que dentro de casa é subordinada a pequenas ordens, como não subir no sofá ou fazer xixi em cima do jornal no mesmo lugar – adotou a figura mais alta da hierarquia entre seus iguais. Não deixava ninguém se aproximar do pote de água, latia quando outros cachorros corriam, etc. Enfim, aos olhos de um sargentão, “colocou ordem” no lugar. Aos meus olhos, não passou de um capitão do mato.

Capitão do mato era uma figura presente no Brasil escravocrata. Geralmente um negro alforriado que, após anos sofrendo chibatadas no tronco, ganhava um cargo superior: caçar os escravos que fugiam para o mato e devolvê-los à fazenda. Recebia soldo para isso e não precisava mais sentar no chão da senzala. Logo, uma “evolução”. Nem sempre era negro (às vezes era apenas um cidadão mais pobre, mas praticamente mestiço). Contudo, por que um negro teria prazer em chicotear e prender negros, depois de ter passado pelo mesmo? Por que o oprimido virou opressor? Por ganância! Em seu íntimo, ele imaginava que um dia teria sua fazenda, seus próprios escravos. Poderia ‘subir na vida’. Se deixou de ser escravo, um dia poderia deixar de ser peão. Poderia se tornar o estancieiro rico. É o que vende a meritocracia nos dias atuais, não?

É o mesmo princípio ativo que faz um funcionário chão-de-fábrica defender os interesses do grande empresário. O mesmo motivo pelo qual o solado raso engole os sacrifícios e as ordens estapafúrdias do coronel do exército. O calouro que aguenta o trote universitário do veterano. O pobre que apóia o rico defensor do liberalismo, da falsa austeridade. Tudo se resume à ideia mágica de que um dia, graças ao seu suor e meritocracia, ele chegará ao cume da hierarquia. E aí, de oprimido, passará a ser o opressor. Ou seja, aguenta-se a opressão com naturalidade pela falsa ilusão de que um dia terá o chicote em mãos para cobrar a conta. Mas a conta será cobrada de outros. Só que são realmente outros, e não aqueles que lhe fizeram o mal. E ao invés de vingança, terás a continuidade de um ciclo vicioso de opressão ao mais fraco. Quando é que alguém romperá a corda? Quando é que alguém deixará de oprimir em busca do status e por mais poder? Nesta busca incessante pelo posto mais alto, poucos se questionam: e se eu não chegar lá, seguirei sendo oprimido o resto da vida? Há de ter outra saída, meus amigos. Avisem-me quando a encontrarem. Até agora, aprendi mais com os meus cachorros.

Impeachment? Por que não recall?!

bazar01Ninguém me perguntou. Talvez muita gente discorde. Vão me vestir de vermelho, chamar de petralha, perguntar quanto eu ganhei do governo e me mandar para Cuba. E talvez eu vá. Viajar e conhecer novos lugares é prazeroso. Mas isso não vem ao caso. Escrevi este post para dizer que sou contra o Impeachment de Dilma Rousseff. Para quem me acompanha por aqui há mais tempo, acho que já deu para perceber, né? Isso não quer dizer, no entanto, que eu esteja aplaudindo o que a atual gestão anda fazendo em Brasília. Pelo contrário! Só não consigo aceitar que, com a saída somente da presidente, voltaremos a navegar em mares de calmaria e sem corrupção. Não! Não quero entregar o timoneiro aos piratas.

Basta ligar a TV Câmara para ver o sujo falando do mal lavado. Deputado citado na Lava-Jato posando de bacana é dose! É duro engolir PMDB e PP, que estavam no governo até ontem, recebendo a mesma propina da Petrobrás para suas campanhas eleitorais, condenando o PT. Chega a ser cômico ouvir o PSDB bradar por justiça quando empurra para baixo do tapete, ao mesmo tempo, o escândalo das merendas escolares em São Paulo. Por isso, não vejo moral nem na Câmara ou no Senado para dar continuidade ao processo – que enfim deve sair vitorioso, do ponto de vista dos favoráveis ao Impeachment. E se o povo decidisse? Mesmo estando cercados de pequenos cidadãos corruptores e corruptíveis, só o povo exerceria a verdadeira democracia neste momento. Por isso, sou a favor de duas saídas: chamamento a novas eleições gerais ou o recall político.

O recall político é uma espécie de reavaliação popular. Como se, no meio do mandato, a população fosse chamada novamente às urnas para aprovar ou reprovar a continuidade do governante. Sob o nome de “voto destituinte”, foi proposto na Assembleia Constituinte de 1987 (mas acabou ficando de fora da Constituição promulgada um ano depois). Em 2005, o então senado Eduardo Suplicy voltou a propor a ideia, através de uma PEC (Projeto de Emenda Constitucional). Foi arquivada e segue até hoje. Você acha que seria uma boa? Se Dilma mentiu durante sua campanha eleitoral, dizendo que não aumentaria impostos e aumentou, você poderia tirá-la nas urnas! Se o governador Sartori fez como única promessa reforçar a segurança pública e não cumpriu, não seria justo avaliá-lo novamente? Não seria um deputado, à mercê de conchavos e propinas, que indicaria o futuro do país. Seria você através das urnas. E aí, sim, teríamos a real noção sobre o que querem os brasileiros.