A teoria do capitão do mato

bazar01Levei meus cães para passear no parque. Enquanto os via correr com outros cachorros que ali estavam, me deparei com uma cena bem intrigante e que me fez entender por que muitos oprimidos apoiam a opressão. O motivo é simples: ganância pelo poder. Minha cachorra – que dentro de casa é subordinada a pequenas ordens, como não subir no sofá ou fazer xixi em cima do jornal no mesmo lugar – adotou a figura mais alta da hierarquia entre seus iguais. Não deixava ninguém se aproximar do pote de água, latia quando outros cachorros corriam, etc. Enfim, aos olhos de um sargentão, “colocou ordem” no lugar. Aos meus olhos, não passou de um capitão do mato.

Capitão do mato era uma figura presente no Brasil escravocrata. Geralmente um negro alforriado que, após anos sofrendo chibatadas no tronco, ganhava um cargo superior: caçar os escravos que fugiam para o mato e devolvê-los à fazenda. Recebia soldo para isso e não precisava mais sentar no chão da senzala. Logo, uma “evolução”. Nem sempre era negro (às vezes era apenas um cidadão mais pobre, mas praticamente mestiço). Contudo, por que um negro teria prazer em chicotear e prender negros, depois de ter passado pelo mesmo? Por que o oprimido virou opressor? Por ganância! Em seu íntimo, ele imaginava que um dia teria sua fazenda, seus próprios escravos. Poderia ‘subir na vida’. Se deixou de ser escravo, um dia poderia deixar de ser peão. Poderia se tornar o estancieiro rico. É o que vende a meritocracia nos dias atuais, não?

É o mesmo princípio ativo que faz um funcionário chão-de-fábrica defender os interesses do grande empresário. O mesmo motivo pelo qual o solado raso engole os sacrifícios e as ordens estapafúrdias do coronel do exército. O calouro que aguenta o trote universitário do veterano. O pobre que apóia o rico defensor do liberalismo, da falsa austeridade. Tudo se resume à ideia mágica de que um dia, graças ao seu suor e meritocracia, ele chegará ao cume da hierarquia. E aí, de oprimido, passará a ser o opressor. Ou seja, aguenta-se a opressão com naturalidade pela falsa ilusão de que um dia terá o chicote em mãos para cobrar a conta. Mas a conta será cobrada de outros. Só que são realmente outros, e não aqueles que lhe fizeram o mal. E ao invés de vingança, terás a continuidade de um ciclo vicioso de opressão ao mais fraco. Quando é que alguém romperá a corda? Quando é que alguém deixará de oprimir em busca do status e por mais poder? Nesta busca incessante pelo posto mais alto, poucos se questionam: e se eu não chegar lá, seguirei sendo oprimido o resto da vida? Há de ter outra saída, meus amigos. Avisem-me quando a encontrarem. Até agora, aprendi mais com os meus cachorros.

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