O que vi e vivi do protesto contra Michel Temer em Porto Alegre

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Embora eu seja jornalista diplomado, este não é um relato de um repórter. Não acompanhei a manifestação desta sexta-feira com crachá no peito. Estava em meio aos protestantes, pois sou contra a continuidade de um governo Temer. Mesmo assim, sinto-me na obrigação de relatar o que vi do protesto contra o presidente interino em Porto Alegre.

– Centro
A movimentação começou na chamada ‘Esquina Democrática’, no Centro da Capital, por volta das 17h30. A maioria predominante era de jovens. Poucos mais velhos. Em meio a um círculo formado por pessoas sentadas ao chão, um caixão de papelão com a palavra ‘democracia’ escrita em cima e algumas velas ao redor. Aos poucos, mais pessoas chegavam ao local. Muitas bandeiras de movimentos sociais, sindicatos e grupos teatrais – MLB (Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas), CPERS (Centro dos Professores do Rio Grande do Sul), UNE (União Nacional dos Estudantes) e ‘Ói Nóis Aqui Traveiz’. Cânticos começavam a ser entoados, como “Ai, ai, ai, ai… empurra o Temer que ele cai!“. O ex-prefeito Raul Pont, do PT, fazia-se presente. Momento de tensão quando três cavalarianos da Brigada Militar passaram em meio aos manifestantes. Outro quando a repórter da SBT foi hostilizada por um dos protestantes (de mais idade), que a cobrava pela matéria que seria publicada. Do alto de um dos prédios, cinegrafistas de outras emissoras gravavam o início da caminhada, quando começaram os gritos que se repetiriam ao longo do trajeto: “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura“.

– João Pessoa
Ao sair da Avenida Borges de Medeiros, o protesto entrou na Salgado Filho. Com o trânsito parado, ouvia-se buzinaços de carros em apoio aos protestantes. Algumas pessoas se debruçavam para fora das janelas dos ônibus e entoavam juntos os cânticos: “Vem! Vem pra rua, vem. Contra o Temer!” Das sacadas dos apartamentos, moradores acenavam ou piscavam as luzes. Tensão um pouco maior quando, ao lado do DCE da Ufrgs, um morador com a bandeira do Brasil amarrada aos ombros batia panela de sua sacada. Foi vaiado e teve de ouvir a massa se voltar contra ele: “Mas que palhaçada! Bate panela, mas quem lava é a empregada“. Sinceramente, não consegui ouvir o que ele gritava e não sei se era contrário ou favorável ao protesto. Descendo a Avenida João Pessoa, em direção ao Parque da Redenção, a deputada Maria do Rosário (PT) se juntou à manifestação e ouviu um grupo de pessoas gritando: “Me representa!“. Foi às lágrimas, entre abraços e fotos. Mais adiante, em frente à sede do PMDB, gritos de “Golpistas, fascistas, não passarão!” se intensificaram. Ali abriu-se um clarão na passeata. Isso porque alguns dos protestantes pararam para colar adesivos de ‘Fora Temer‘ e pichar as portas do prédio.

– Ipiranga
Quando a caminhada alcançou a Avenida Ipiranga, um grupo de cavalarianos da Brigada Militar passou galopeando do outro lado do Arroio Dilúvio. Foi recebido sob vaias dos manifestantes e um novo cântico: “Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da Polícia Militar.” Ao chegar no cruzamento com a Lima e Silva, um grupo parou, pedia para ir em direção ao bairro Cidade Baixa, mas a passeata seguiu em frente. Adiante, na Érico Veríssimo, o grupo da frente dobrou à direita, ensaiando a entrada no bairro boêmio da cidade. Entretanto, havia outros que tomavam a esquerda, para se postar em frente ao prédio da RBS. Uma viatura da BM chegou em alta velocidade, com sirenes ligadas. Sinceramente, não vi, mas colegas que trabalham na empresa relataram via Twitter que pedras foram arremessadas contra janelas do prédio. Depois de um pequeno impasse, os manifestantes dobraram em direção ao ginásio Tesourinha.

– Cidade Baixa
A entrada no bairro aconteceu pela rua João Alfredo. Ali, com certeza, a maior adesão dos moradores, que abriam janelas e portas para acenar e cantar juntos o ‘Vem pra rua‘. Na rua da República, um carro estacionado, com o porta-malas abertos, distribuía grandes adesivos amarelos com os dizeres ‘Fora Temer’. Alguns deles foram colados ao longo da rua, pelas paredes ou até no chão. A caminhada foi até a Lima e Silva, onde dobrou na avenida Loureiro da Silva. No pequeno trajeto rumo ao Largo Zumbi dos Palmares, uma bomba estourou do outro lado da rua, onde havia somente um homem, mais idoso, alheio ao protesto. Alguns manifestantes apontaram para o cidadão, dizendo que ele era um infiltrado, que queria bagunçar a passeata até aquele momento pacífica. Ele explicou-se para alguns que o coibiram, mostrou os bolsos e negou ser o responsável pelo estouro. A EPTC trancava o trânsito, esperando a passeata acabar. Chegando ao Largo Zumbi dos Palmares, os tambores e as músicas cessaram e um dos manifestantes sacou o megafone para convocar todos para uma assembleia no próximo domingo e um novo protesto na quinta-feira. A maioria dispersou, indo embora. Eis que um grupo, que havia ficado para trás, sentou-se no chão no meio da rua, na esquina da Loureiro com Lima e Silva. Sob o pretexto de que estavam trancando o trânsito, a tropa de choque da BM avançou sobre eles. A partir daí, bombas de efeito moral eram jogadas contra os manifestantes, que devolviam com pedras ou chutando as próprias bombas de volta. E a velha discussão se fez: quem começou? O confronto durou cerca de 20 minutos. Relato de três meninas detidas pelos policiais ao final. No Largo dos Açorianos, uma fileira de policiais com escudos, cercados por viaturas e até camburão da BM – como há muito não se vê pelas ruas de Porto Alegre. Os gritos inconformados dos manifestantes, aos poucos, foram findando. Fim de protesto, após cerca de 2h30min de caminhada! Um protesto que tinha tudo para acabar pacífico, como iniciou.

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Trajeto realizado pelas ruas de Porto Alegre, que durou cerca de 2h30min 
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