Todos nós temos corruptos de estimação

bazar
Foto: Ueslei Marcelino (Reuters)

O que mais me impressiona é ver a maioria daqueles que iam às ruas para protestar contra o governo petista, ensandecidos com os escândalos de corrupção, calarem-se agora diante de Michel Temer. As camisas da Seleção Brasileira voltaram aos armários. Há os que continuam de pé, protestando e batendo panelas nas sacadas, é verdade. A maioria, no entanto, se calou. Mesmo que o presidente interino tenha sido citado na Operação Lava-Jato. Mesmo que tenha nomeado ministros igualmente citados e até um sendo investigado. Mesmo que tenha participado até bem pouco tempo do governo petista e, consequentemente, ter sido cúmplice de possíveis crimes cometidos pela gestão Dilma Rousseff. Não! Com ele há uma paciência maior. Atenderam facilmente ao pedido feito no pronunciamento oficial: “Não fale em crise, trabalhe!”. Então parei para refletir o que faz existir essa indignação seletiva.

Como sempre faço, inverti o jogo. Coloquei-me no lugar de quem critico. Lembrei das panelas que batiam enquanto Dilma discursava. Não bati panela neste domingo à noite, enquanto Temer falava ao Fantástico na Rede Globo. Mas houve quem fizesse! E certamente foram os mesmos que criticaram a “classe alta” por entregar panelas às empregadas domésticas lavarem no dia seguinte. E quando Lula foi indicado para assumir como ministro, por que não houve essa irritação toda que há ao ver Romero Jucá, igualmente investigado pela Polícia Federal? “Os petistas têm corruptos de estimação“, ouvi nas ruas e li nas redes sociais. Pois concluí que todos nós, brasileiros, adoramos pegar corruptos para criar.

Balizamo-nos por corrupção apenas no discurso. No fundo, aceitamos todos eles! Até porque também somos corruptos nas pequenas coisas do cotidiano. Ao furar a fila da padaria, ao não devolver o troco a mais no mercado, ao burlar a barreira policial da Balada Segura, sonegar no Imposto de Renda… Logo, ao entender que somos todos corruptos (ou que, no mínimo, cultivamos corruptos de estimação), levamos em consideração a ideologia política – mesmo que sob um raso pré-conceito. Por exemplo, não aceito de jeito nenhum ouvir um liberal falar em parlamentarismo, pelo simples fato de vir de um liberal. Já um comunista jamais terá seu discurso por igualdade de direitos levado adiante por um direitista assumido. Assim, não nos ouvimos. Não nos respeitamos. Mas o fazemos com os corruptos – desde que estejam do “nosso lado” do muro. Criamos monstros, e agora são eles que nos domesticam. Somos completos imbecis!

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