O Brasil está deixando de ser laico?

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Foto: Reprodução do Youtube

Quantas vezes você já ouviu a frase: “O Estado é laico”? Sabe o que ela realmente representa? Por favor, não confundir com ateísmo. Quer dizer que não há nenhuma religião oficial que rege o país. Mesmo tendo uma maioria da população católica, não é um país oficialmente católico. Apesar de ser o país com mais adeptos do kardecismo pelo mundo, o Brasil também não é espírita. Nem com tantas religiões afros, pode se decretar o candomblé como representante da cultura nacional. Muito menos a expansão da Igreja Universal do Reino de Deus, criada em São Paulo e que se espalha até por países vizinhos angariando cada vez mais fieis, faz dos brasileiros um país evangélico. Ou pelo menos não deveria. Mas não é o que está acontecendo. De uns tempos para cá, e principalmente após o afastamento de Dilma Rousseff da presidência, este setor tem ganhado terrenos importantes da política. Assustadoramente!

Na última eleição, em 2014, já vimos um pastor concorrer a presidente. E justamente com a palavra ‘Pastor’ como prenome, Everaldo (PSC) terminou em 5º lugar. Melhor sorte teve o também evangélico Eduardo Cunha (PMDB), que assumiu a presidência da Câmara dos Deputados em Brasília. Mesmo envolvido em inúmeras acusações de corrupção e lavagem de dinheiro – desde os tempos de Collor e PC Farias! -, o carioca deu o pontapé inicial ao impeachment da presidente da República, e desferiu seu voto em meio à sessão com a seguinte frase: “Que deus tenha misericórdia desta nação”. Mas o Estado não era laico?! De lá para cá, a coisa degringolou de vez. Entre os ministros nomeados pelo presidente interino Michel Temer, nenhuma mulher ou negro, mas dois evangélicos: Marcos Pereira (PRB), com a pasta do Desenvolvimento, Indústria e Comércio; Ronaldo Nogueira (PTB), com a pasta do Trabalho. E nesta quarta-feira foi a vez do deputado – e também pastor – Marco Feliciano (PSC) publicar um vídeo em que encoraja Temer a enfrentar os “movimentos sociais petistas” e o elogia por extinguir o Ministério da Cultura. Ato também festejado por outro pastor, Silas Malafaia, via Twitter. Afinal de contas, por que os evangélicos têm recebido apoio e apoiado tanto o novo governo federal?

Obviamente, as igrejas evangélicas não cresceram a partir do impeachment de Dilma. A religião já vem ganhando dimensão nos últimos anos e, aos poucos, colocando representantes na política. Entretanto, nunca estiveram tão próximas do poder. Percebendo a facilidade com que manejam seus fieis, Michel Temer e outros oposicionistas ao governo petista, aliaram-se a este segmento. O próprio já havia gravado um vídeo com Marco Feliciano, em que o pastor pedia para que os evangélicos dessem apoio ao “futuro presidente”. Antes disso, Jair Bolsonaro – ídolo dos oposicionistas fervorosos aos direitos humanos -, abandonou o Partido Progressista (PP) para se filiar ao Partido Social Cristão (PSC), prometendo concorrer à presidência. Ou seja, eles aproveitam-se da influência dos pastores para trazer o rebanho de ovelhas para seu lado. São votos a mais! Mas aonde isso vai parar? De tanto insuflarem figuras como essas, Michéis e Jaires podem perder o controle da situação e ver seus ‘parceiros’ tomando as rédeas. E aí, meu amigo, a brincadeira não estará mais entre homens. Não irá mais se restringir a discussão política a Estado Mínimo ou não, direitos trabalhistas e movimentos sociais ou não. Estaremos todos sob o crivo de deus, e aquele que ousar desobedecer será um herege. Justamente aqui, num Estado laico, estaremos voltando à Idade Média europeia com suas fogueiras! Se a Igreja quer ter um partido político, que primeiro pague impostos! Que se assuma como pessoa jurídica de uma vez, livre para vender seus livros, terços, cruzes, velas, copos d’água benzida, terrenos no céu e disposta a obter lucro como qualquer outra empresa! Até lá, o último que souber separar religião de política, que apague a luz. Amém!

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