Um homem jamais saberá o que é ter medo de ser estuprado

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Comecei a escrever este texto e apaguei as primeiras linhas. Refiz o título. Apaguei de novo. Pensei em pedir desculpas, mas me coloquei no lugar das mulheres. Não conseguiria me perdoar. Aí comecei a sentir vergonha por ser o que sou: homem. Isso porque trinta pessoas iguais a mim, armados, fizeram sexo forçado com uma menina de 17 anos no Rio de Janeiro. Não bastando, filmaram o ato. Divulgaram nas redes sociais. Vangloriaram-se disso. “Amassaram a mina”, publicou um deles. Aliás, os comentários de tantos outros homens nas notícias publicadas em sites jornalísticos conseguiram ser ainda mais repugnantes. “A cupla é dela”, argumentaram alguns deles! Ela não deveria estar ali, ela não deveria usar drogas, ela não poderia usar roupa curta, ela não poderia se relacionar com quem se relaciona. Ela, a mulher! A culpa é dela! E os homens?! Os trinta homens que estupraram-na?!

Se você é homem e chegou até este ponto do texto, coloque-se na seguinte situação: imagine você estar voltando para a casa, depois da faculdade ou trabalho, e ser abordado por um homem armado no semáforo. Ele entra no teu carro e encosta o cano do revólver na tua cabeça. Força-te a fazer sexo com ele. Se estiver em um ônibus, ele manda você descer, te leva para uma praça escura e te força a baixar as calças. Enfia o pênis no seu ânus! Além da dor física, qual o tamanho da dor psicológica que você sentiria? Agora digamos que o medo de que isso possa acontecer faça você pegar um táxi para voltar à casa. Mas o taxista sente tesão por você. Ele te leva para uma rua vazia, aponta uma arma para sua cabeça e te força a fazer sexo anal com ele. Ok, você reagiu. Conseguiu evitar o estupro, roubou a arma do motorista e deu-lhe um tiro no peito. Bom, o caso seria investigado pela polícia. Você iria a julgamento e, por um desses casos de erros da justiça, é apontado como culpado. Preso, é enviado ao presídio, divide a cela com outros homens. Cerca de 30. E se eles te agarrassem e te estuprassem? Um por um, um de cada vez. Os trinta! E aí, o que fazer? A quem recorrer? Quanta bobagem! Vamos parar de falar disso, né?! Isso jamais aconteceria. É melhor pensar assim, tão inocentes quanto uma criança de sete anos. Aliás, imagine que você é uma criança de sete anos, mas que seu pai, tio, avô ou algum homem adulto pensa que você é bem sexualizado para a sua idade. A sua roupa é vulgar. E ele entende que, por isso, tem o direito de pedir para você tocar-lhe as partes íntimas, colocar a boca na sua genitália. E, se você fizer, é porque gosta. E aí terão outras vezes. Dentro da sua própria casa. Difícil, né?!

Assim funciona a cabeça da maioria das mulheres. O temor de ser estuprada é constante! Na infância, na adolescência, na vida adulta, até quando idosa! O homem é grotesco. Olha o que fizemos com elas. Por quê?! Precisamos falar sobre isso! Precisamos ensinar a próxima geração de que o ato sexual precisa ser consentido. De que a mulher tem o direito de dizer sim ou não. De que forçar alguém a fazer sexo não é legal. De que estupro é crime. Precisamos ouvir as mulheres sobre isso. Precisamos nos colocar no lugar delas. Um homem jamais saberá o que é ter medo constante de ser estuprado. Contudo, ouvi-las sobre isso é o mais próximo que podemos chegar de entender o quanto as torturamos. Diariamente.

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