O efeito placebo do investimento em segurança pública

bazarO pacote de medidas em favor da segurança pública no Rio Grande do Sul, anunciado nesta quinta-feira pelo governador José Ivo Sartori, chega em boa hora. Claro que foi cercado de pirotecnia, como todo ato político, mas contempla grande parcela da sociedade gaúcha que está aterrorizada com o nível de violência que assola o Estado nos últimos anos. Porto Alegre, particularmente, ganhou ares de Gotham City – com direito a um oficial da Brigada Militar ironizar um chamado para socorrer assaltos, pedindo para que se chamasse o Batman ao invés da polícia. Contudo, opressão não é o bastante para solucionar o quadro da criminalidade. Não deixa de ser apenas o remédio (quase placebo) para um doente em estágio avançado. É preciso muito mais que isso, mesmo que básico, e partir de um âmbito inclusive maior: governo federal! Pedir investimentos em saúde, saneamento, cultura e educação (principalmente!) parece clichê. E até acho que é pedir demais mesmo, tendo em vista a capacidade intelectual dos nossos atuais governantes, que estão abertos a se reunir e receber propostas de um grupo capitaneado por Alexandre Frota, mas vira as costas para teorias educacionais de Paulo Freire – o qual é taxado pelo mesmo grupo referido como símbolo da doutrinação marxista. Mas enfim, vamos lá!

É preciso entender que coibir a violência com mais violência nada mais é do que dar continuidade a um ciclo sem fim. Com isso, não quero dizer que o Estado não deva contratar mais policiais, investir em tecnologia voltada à segurança e até construir mais presídios. Não, pode fazê-lo! Quero chamar a atenção para o fato de que o problema precisa ser identificado no seu início, e não continue se enxugando gelo. Atualmente, a imensa maioria dos assaltantes, assassinos e facções criminosas em geral estão ligados ao tráfico de drogas. Não é difícil chegar a essa conclusão. Mas o que se faz com isso? Oprime-se ainda mais, dando guerra a quem não tem nada a perder. Você já parou para pensar quantas décadas já se perdeu tentando coibir o tráfico de drogas? Esse é um diálogo que podemos marcar para outra hora, mas prefiro ficar com os exemplos do vizinho Uruguai e da europeia Holanda, que desistiram de fazer de conta que toda a população é saudável e não faz uso de entorpecentes (do calmante, passando pelo cigarro de maconha, até chegar ao crack). O tratamento disso não deve ser policial, mas através da saúde e educação. Saúde que irá tratar dos viciados, educação para ensinar os reais efeitos colaterais de cada substância. Algumas, poderão ter o cinto afrouxado – com a permissão de plantios de pés de maconha para consumo próprio ou de bares identificados para consumo interno, por exemplo. Por que não?! Imagine você se os Estados Unidos tivessem esmurrado como em ponta de faca até hoje com relação à Lei Seca, que ao proibir bebidas alcoólicas só criou gangsteres como Al Capone.

Outro passo muito importante é parar de avaliar a família através do binóculo religioso, onde se considera apenas como estrutura aquela com pai e mãe. E aí marginalizam-se as mães solteiras, os casais homossexuais, os netos criados pelas avós, os filhos adotivos – como se fossem mais propícios a distúrbios psicológicos que viessem a transformá-los em criminosos em potencial. A família é sim o primeiro passo para a real educação de um cidadão. Mas como ter pais ou responsáveis conscientes senão educá-los antes de o serem. No final das contas, a responsabilidade recai novamente sobre a educação. A escola, antes de mais nada, precisa ser repaginada por completo para preparar a criança/adolescente ao futuro. Desenvolver-lhe o pensamento crítico, cidadania, capacitá-la para viver em sociedade e reproduzir o bem. Como obrigar uma criança dos dias atuais (que possui uma gama de informação ao botão de uma televisão ou através das redes sociais) a prestar atenção na chatice de uma aula baseada na ‘decoreba’ da Fórmula de Bhaskara ou disposição da tabela periódica. Ah, poupem-me! Aí somos obrigados a ver saudosistas (na maior parte das vezes, ensinados e adeptos do período ditatorial) arrotando: “No meu tempo havia mais respeito“. Não, havia medo, senhores! Apenas medo e opressão. As escolas nada mais eram do que uma extensão dos presídios. E o que ganhamos com isso? Bom, chegamos até aqui. Logo, o remédio anunciado hoje por Sartori é bem-vindo, mas não faz tanto efeito assim como se imagina. É praticamente um placebo.

Propor ou reproduzir: o papel do jornalista

bazar
Reprodução de imagem do filme ‘Batman Vs Superman’

Há alguns dias venho refletindo sobre o papel do jornalismo no mundo atual. Pode parecer simplista, pode ser que eu tenha chegado tardiamente à esta conclusão, e que para você não se trate exatamente de uma novidade. Entretanto, apresento-lhe minha tese mesmo assim. Não tenho como intenção ofender nenhum colega jornalista, tampouco decretar qual o modelo certo ou errado de exercer a profissão. Logicamente, tenho preferência por um dos lados. E você, escolhe o jornalismo propositivo ou o reprodutor?

O jornalismo propositivo é aquele em que se coloca o conteúdo em primeiro plano. Não que se exclui a possibilidade de apresentar infográficos, tabelas, trilha sonora ou uma imagem ilustrativa. Afinal de contas, tudo isso contribuirá para qualificar a informação e até torná-la mais atrativa. Geralmente, este tipo de jornalismo é visto como “chato”: longos textos de jornais/sites/revistas; entrevistas longas e sem edição, tanto para rádio ou televisão. Penso que realmente é preciso ‘maquiar’ o produto, torná-lo mais atraente e menos maçante. Contudo, não se pode renegar o verdadeiro princípio da matéria, que é a informação. E, além disso, instigar a dúvida no leitor/ouvinte/telespectador, apresentar ideias conflitantes, propor a ele um debate cultural (nem que seja consigo mesmo).

Já o jornalismo reprodutor, como o próprio nome sugere, apenas reproduz a cultura vigente. Este nem sempre se pauta pela informação. Ela até pode aparecer, embora em menor quantidade (como também pode ser totalmente ausente). Isso porque se pauta pela audiência. É simplesmente um produto que se molda à necessidade do consumidor. Sendo assim, não necessariamente são informativos, pois apenas repetem o que o leitor/ouvinte/telespectador já possui. Os programas de auditório são grande exemplo disso, com claquete de aplauso guiando até quando o quadro se estenderá, apresentando entrevistados ou atrações que não lhe fazem pensar, mas que estão ali por simplesmente possuírem ‘status’. Ou seja, se faz sucesso, continua no ar. Do contrário, “ih, fora!”. É a lógica de mercado, do vendável, do descartável, do que dá ibope ou não. De fato, não há problema em se encaixar neste perfil, em priorizar o que a maioria quer ler/ver/ouvir. Afinal de contas, é o que dá o resultado financeiro imediato. E, convenhamos, todos nós precisamos colocar pão em cima da mesa – até os ‘glamourosos’ jornalistas. Aliás, é neste caso que comumente lemos as seguintes manchetes para ilustrar manifestações de minorias: “Protesto bloqueia o trânsito“. No caso do jornalismo propositivo, a preocupação é saber o que faz aquelas pessoas saírem às ruas, impedirem que os carros continuem trafegando na avenida, o que as pauta, se há justificativa para tanto e qual a saída das autoridades para solucionar os problemas. Eu, particularmente, prefiro este, que me faz pensar. Mas respeito o contraditório. Há espaço para quem quer ser Superman, mas podemos ter mais Clark Kents por aí.