Você está preparado para saber para qual time torce o jornalista?

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Como todos vocês, não nasci de chocadeira. Mais do que isso, cresci em uma família que adora futebol. Meu avô foi goleiro e dirigente do Grêmio Bagé. Meu pai arriscou uns chutes, chegou a jogar com o ex-lateral Branco quando mais jovem (e dizem até que era um bom zagueiro na várzea). Meu irmão foi goleiro de futsal e preparador de goleiros no Esportivo, de Bento Gonçalves. Logo, com tanta influência, não poderia ser diferente comigo: consumo futebol desde cedo. Fui a estádios, colecionei camisas, jogava ‘pelada’, botão, video game… Comemorei, chorei, ganhei e perdi. Torci loucamente por um time e até bati boca por ele. Isso durou mais ou menos até 2008, quando me formei na faculdade de jornalismo. Aos poucos, fui perdendo a paixão e vendo o esporte com mais razão. Comecei a ver os erros do ‘meu time’ e virtudes naquele que até então era meu adversário – sempre que necessário, claro. Chegou ao ponto de familiares e amigos perguntarem: “Vem cá, tu virou a casaca?“. Talvez, para quem tenha me acompanhado apenas lá no início, é inimaginável me enxergar como um repórter agora. Para os que me conhecem há pouco tempo, fica a pulga atrás da orelha: “Mas qual é o teu time: Grêmio ou Inter?“.

O fato de alguns jornalistas revelarem seus clubes recentemente, e as acusações simultâneas de postagens antigas de outros colegas que resolveram não se assumir, vem causando polvorosa nos torcedores. Gremistas acusam a mídia gaúcha de ser a IVI (imprensa vermelha isenta). Colorados alegam que o complô é contra o seu clube. E aí?! Já pensei em acabar com essa bobagem e revelar meu lado. Mas qual lado eu tenho? Não sou um fanático que senta na arquibancada – ou em frente à TV – e xinga o juiz. Não abro a janela do meu apartamento para gritar para o vizinho. Não sou torcedor. Fui torcedor. E por mais difícil que seja imaginar, acredite em mim: a gigantesca maioria dos meus colegas de imprensa não se deixa influenciar pelo passado ou pela preferência clubística na hora de noticiar ou opinar. Então, por que não revelar o time do coração? Medo. Só isso. Medo da tua reação. Certa vez, fui escalado para fazer reportagem na torcida do Grêmio, em um jogo contra o Juventude, em Caxias do Sul. Acabei cercado por alguns torcedores, que me prensaram contra as grades e queriam me bater por eu ser ‘do outro lado’. Noutra oportunidade, quando o Peñarol eliminou o Inter da Libertadores em pleno Beira-Rio, seguranças apartaram um grupo de torcedores que derrubaram o gradil para pular em cima de mim e outros colegas de profissão que, no imaginário deles, eram todos simpatizantes ‘do outro lado’. Logo, como eles reagiriam se soubessem que estavam realmente certos? Desde que me mudei para Porto Alegre e passei a fazer o setor da dupla Gre-Nal, fiz parcerias dos dois lados – do massagista ao presidente. Cumprimentei efusivamente a ambos em casos de vitórias, e já fui ríspido em algumas críticas. Cometi equívocos, claro! Mas nunca por má intenção. ‘Criei crise’ nos dois lados. Noticiei briga no vestiário colorado no estádio Serra Dourada, em Goiânia. E entrevistei empresário de jogador gremista, que fazia força para ir embora por estar insatisfeito com a reserva. Era o meu papel como jornalista: reproduzir a verdade. Nem omiti-la ou aumentá-la. Apenas reproduzi-la.

Há alguns anos, recebi a proposta de um conselheiro para ser o assessor de imprensa de seu movimento político. Curiosamente, não é do clube com qual me identifiquei na infância/adolescência. Senti-me lisonjeado com o convite e só neguei por não ver compatibilidade com a função de repórter. Ele pediu que eu indicasse um outro jornalista, que fosse torcedor do mesmo time que eu. Respeitei e procurei um colega que estava desempregado, e que eu sabia era das mesmas cores dele: “Mas ele não é do outro time?“, indagou-me o conselheiro (que ele não me odeie por isso agora). Mas sinceramente, você sendo um advogado gremista, deixaria um cliente sozinho no banco dos réus por descobrir que ele é colorado? E se você é um engenheiro colorado, daria aval a um projeto mal feito somente por descobrir que o cliente é gremista? O padeiro colorado venderia intencionalmente o pão estragado a um gremista? O médico gremista deixaria seu paciente colorado morrer na mesa de operação? Então, por favor, não duvide da idoneidade de todos os jornalistas por este motivo! É claro que os maus profissionais existem, assim como existem na área veterinária, militar, educacional, etc.

A maior lição da minha curta carreira não tirei do futebol, mas da política. Estava em Belo Horizonte, acompanhando o candidato Aécio Neves (PSDB) na cobertura das eleições presidenciais em 2014. Quem me conhece/lê, sabe que não tenho nenhuma simpatia ideológica por ele. No entanto, não estava lá para falar sobre minha preferência nas urnas, e sim para descrever sua movimentação e quem sabe entrevistá-lo. Em uma das visitas a tantas escolas, o conglomerado de repórteres mineiros foi para cima de Antonio Anastasia, então candidato ao senado. Aécio ficou sozinho ao meu lado, olhou para mim e sorriu. Cumprimentei-o: “Boa tarde, candidato. E aí, confiante?“. Ele apertou-me a mão e logo puxou um lenço do bolso para enxugar a testa suada. Em seguida, disparou: “Vai ser difícil!“. Devolvi com um ‘boa sorte’ e ouvi um preocupado “vou precisar“. Ao vê-lo se afastando, entrei no ar pela minha emissora e relatei o ar de preocupação daquele que realmente perderia a eleição futuramente. Sem tecer nenhum comentário ou opinião, segui a tarde inteira postando no Twitter fotos e informações sobre o paradeiro de Aécio. Para minha surpresa, mais tarde, recebi mensagem de um conhecido, acusando-me de estar fazendo campanha para o candidato tucano. Justo naquela tarde em que resolvi apenas relatar o que via e ouvia! Logo, não tenho a pretensão de agradar a todos. Trabalho com informação, mas também com opinião. Tento separar bem uma da outra. E ambas do coração, que cada vez mais age menos na hora do trabalho.