Sartori, a morfina e o câncer do Rio Grande do Sul

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Foto: Luiz Chaves (Palácio Piratini)

Ok, finalmente o governador se deu conta da gravidade da situação da segurança pública no Rio Grande do Sul. Após a morte de uma mulher, em frente à escola do filho, em um bairro nobre de Porto Alegre, e de muita (mas muita mesmo) pressão pública para que tomasse alguma providência, ele agiu. Destoando da declaração dada há 10 dias de que o número de latrocínios havia diminuído em sua gestão, José Ivo Sartori correu para Brasília e conseguiu o auxílio do governo federal: 120 homens da Força Nacional irão desembarcar para reforçar o quadro policial. Está bem! Pela gravidade da situação, era necessário uma medida drástica como essa. Mas, convenhamos, esta é apenas uma dose de morfina para quem acaba de descobrir que está com o corpo tomado por câncer. A partir de agora, a população precisa saber quais projetos governamentais serão implementados para devolver a tranquilidade aos cidadãos. Ou você acha que os militares ficarão por aqui para sempre?

Aliás, há quem acredite que esta é a solução de todos os problemas: a volta dos militares – inclusive nas decisões políticas do país. Quero pedir desculpas aos amigos e familiares que comungam desta ideia, mas não há nada mais raso do que isso. Não há uma solução simples para um problema tão complexo. É preciso desenvolver políticas públicas de inclusão social e profissional, combater a evasão escolar, discutir (e não apenas coibir e oprimir) a questão do tráfico de drogas. Ou seja, qualificar a vida de quem vive na mais baixa camada econômica. E isso não é um discurso populista ou de caráter assistencialista. É preciso entender o que faz alguém virar ladrão de carros, traficante, sequestrador, etc. Por hobby ou vocação é que não é. Muitos destes homens (que entram e saem constantemente do sistema prisional falido do país) são apenas o produto de anos e mais anos de omissão do Estado – potencializados agora por um governo desleixado com o servidor público e, consequentemente, com a classe policial responsável pela segurança da população. São frutos de uma criança sem qualidade escolar, que já vinham de uma desestrutura familiar, sem perspectivas profissionais. Algo muito distante da minha e da tua realidade e, realmente muito difícil de entender. Por isso, alegar que “descer o chumbo nesses vagabundos” e/ou “matar tudo” é apenas secar gelo. Outros virão no futuro, e daremos sequência a esta guerra civil sem fim.

E sim, os principais culpados por todo este contexto gaúcho e brasileiro são os políticos que passaram pelo poder (sejam eles, civis ou militares). A carga não pode ser despejada só nas costas de Sartori, não. Assim como olhar apenas para o governo anterior ao dele, de Tarso Genro, é simplório. Devemos é parar de reclamar da alta carga tributária, deixar de descobrir meios que soneguem impostos, e cobrar o retorno desse investimento altíssimo que fazemos diariamente. Olhar a quantidade de coligações partidárias em cada ano de eleição e perceber que, quanto mais partidos coligados, mais cabides de empregos públicos serão criados. Acompanhar cada ano de eleição com avidez, exigir propostas concretas, e não apenas críticas ao passado, frases de efeito e discursos vazios: “mais educação, mais saúde, mais segurança“.

Outro ponto bem importante deste aspecto é considerar que honestidade não pode ser uma virtude de um político, mas apenas um pré-requisito. O próprio Sartori é um produto deste pensamento eleitoral. Foi cria de um sentimento ocasionado pelos inúmeros escândalos de corrupção que estouraram a nível federal. Além da honestidade, foi apresentado brilhantemente como o boa praça, pai de família, marido e filho exemplar. Ok, mas convenhamos, isso não basta! Foi o candidato a governador mais despolitizado das eleições em 2014, que teimava em apresentar sequer um projeto de governo. Nenhuma proposta! “Primeiro ganhamos a eleição, depois montamos uma equipe“, dizia ele. Virou chacota, quase um personagem de humor, e mesmo assim acabou sendo eleito. E agora venho eu, exigir-lhe um planejamento para estancar a crise de segurança pública? Realmente, é pedir demais. Injetem-me a morfina enquanto o doutor não chega.

Em que momento virou incomum ser orgânico?

bazarNo último sábado, fui a uma feira de produtos orgânicos. Organizado pelos moradores da ocupação ‘Utopia e Luta’ em parceria com o Coletivo Terra Viva, o evento ficou instalado na escadaria do viaduto da Avenida Borges de Medeiros, em Porto Alegre. Voltei para casa com uma sacola cheia de batatas, cenouras, couve, tempero verde, bergamotas e bananas. Descasquei a primeira banana e, enquanto comia, refleti: afinal de contas, o que é uma banana orgânica senão a verdadeira banana? Aquela mesma plantada na terra, respeitando a sua época, sem uso de agrotóxicos, transgênicos e etc. A que não se encaixa neste perfil, é vendida no supermercado. Geralmente já vem empacotada, bem amarelinha, quase o dobro do tamanho real, e muitas vezes vendida até fora de sua época. Esta é uma fruta industrializada, praticamente produzida de maneira artificial para que o produtor (geralmente uma grande empresa) lucre mais do que o pequeno agricultor, que planta sua fruta ou verdura na velha e simpática horta natural.

Minha dúvida é: em que momento o produto natural virou artigo em extinção? Será que chegaremos ao cúmulo de, em alguns anos, exibi-los no museu: “eis aqui a última espécie de uma banana orgânica“. Entendo que a lógica da produção em série, para atender ao exigente mercado, faz com que se altere a química dos alimentos. Mas por que estes não são os estigmatizados?! Ou você já viu alguma placa chamando para uma Feira de Produtos com Agrotóxicos? Esse seria o mais prudente, né? Não o contrário!

Imagine você, por exemplo, estando à beira da praia quando lê uma placa que diz: “Águas sem esgoto, aptas para o banho“. Não! A lógica exige o contrário, que se avise quando o local é impróprio para banho ou, no mínimo, corre-se o risco de mergulhar em produtos químicos. Ou seja, quando o natural está adulterado! Por que essa lógica não se repete quando se trata daquilo que a gente come? Feliz o dia em que a lógica será invertida, em que a banana orgânica volte a ser chamada simplesmente de banana. E que a adulterada venha com o alerta: banana que contém agrotóxico.