Quem está preparado para assumir a Prefeitura de Porto Alegre?

bazarComo todo texto deste blog, este também não tem a pretensão de conter a razão absoluta. São apenas as minhas visões de mundo (à disposição para você discordar ou não). Desta vez, em relação ao primeiro turno das eleições para a Prefeitura de Porto Alegre – a ser realizado já no próximo domingo. Resolvi enumerar os argumentos prós e contras de cada candidato, a fim de organizar minhas próprias ideias sobre eles. Não há a intenção de ‘demonizar’ nenhum, tampouco propagandear e pedir voto para qualquer que seja. Para tentar atingir o máximo de isenção, apresentarei-os em ordem alfabética.

fabio-ostermann– Fábio Ostermann (PSL)
*Prós: Mais jovem entre todos os candidatos (32 anos), pode atrair votos justamente por ser a novidade. Liberal, prega a diminuição da máquina pública, discurso que encontra voz na atual conjuntura política com escândalos de corrupção em estatais.
*Contras: Desconhecido do grande público e em um partido ‘nanico’, não consegue ter voz. Para se ter uma ideia, sua propaganda eleitoral tem apenas seis segundos. Além disso, é sua primeira eleição. Ou seja, completamente inexperiente para ocupar o cargo que postula.

joao-carlos– João Carlos Rodrigues (PMN)
*Prós: Apareceu para o grande público quando concorreu ao governo do Estado, há dois anos. Não é tão desconhecido como os outros candidatos ‘menores’.
*Contras: Embora tenha concorrido em outros pleitos, jamais venceu. Ou seja, não tem experiência na carreira política.

julio-flores– Júlio Flores (PSTU)
*Prós: Rosto carimbado de outras campanhas, utiliza o pouco espaço publicitário para pregar igualdade às camadas sociais mais baixas.
*Contras: Mesmo em 2016, ainda defende a implantação de uma ideologia que não vingou no mundo. Vive uma realidade utópica.

luciana-genro– Luciana Genro (PSOL)
*Prós: Dos planos de governo enviados ao TSE, apresentou o que mais contém páginas (138 – sendo o segundo de Sebastião Melo, com 44). O que dá a interpretação de que realmente debruçou-se para apresentar projetos de melhoria à cidade. Em tempos de combate à corrupção, sai ilesa por nunca ter sido ligada a nenhum escândalo e, ainda por cima, tendo em seu histórico o combate interno, quando filiada ao PT, de alianças escusas. Admitiu que, mesmo em assuntos que já tem posicionamento (como as obras da orla do rio Guaíba), pretende consultar a vontade da população através de plebiscitos. Defende o corte de cargos de confiança (CCs), ao contrário do aparelhamento utilizado pelo PT – partido de esquerda que já geriu a cidade.
*Contras: Para se distanciar da afirmação de que é uma ‘linha auxiliar’ do PT (como a acusou Aécio Neves nas eleições de 2014), tentou ser palatável a um eleitorado que não é o seu, e que ainda a vê com distanciamento graças aos elogios públicos a governos venezuelanos de Maduro e Chávez. Até por isso, teimou em manter-se neutra nas manifestações contrárias ao presidente Michel Temer e reconheceu a incapacidade de implantar o “passe livre” nos ônibus – bandeira antiga de seu partido. Quem sabe por isso, acabou perdendo popularidade em meio a jovens eleitores de esquerda que migraram para Raul Pont nas pesquisas. Além do mais, se eleita, terá dificuldade imensa de ter governabilidade junto à Câmara de Vereadores, já que seu partido tem pouquíssima representatividade na Casa e o quadro não deve ser modificado neste pleito.

marcello-chiodo– Marcello Chiodo (PV)
*Prós: Consegue ir além do discurso ecológico de seu partido.
*Contras: Não teve sequer o apoio do presidente estadual de seu partido, Marcio Souza, que preferia a aliança com Nelson Marchezan Júnior. 

mauricio– Maurício Dziedricki (PTB)
*Prós: Mesmo sendo um dos mais jovens candidatos, foge do estereótipo de inexperiente. Já foi secretário de obras de José Fogaça (ou seja, desta gestão que aí está), mas também foi secretário de Economia Solidária e Apoio à Micro e Pequena Empresa, no governo estadual de Tarso Genro (PT); além de ter sido eleito deputado estadual na última eleição e já tendo ocupado vaga na Câmara de Vereadores da Capital. Até mesmo por essa transição entre governos de centro e esquerda, pode apresentar-se sem estar preso a uma ideologia política – como faz habilmente sua propaganda eleitoral.
*Contras: Seu ponto forte é seu calcanhar de Aquiles. Ao ter ocupado a Secretaria de Obras e Viação da atual gestão, é ligado a todo momento ao atraso nas obras da cidade – mesmo tendo deixado a pasta há mais de seis anos. Além disso, o que pode parecer liberdade em transitar em governos de diferentes ideologias, também pode ser interpretado como fisiologismo e falta de convicção política.

marchezan– Nelson Marchezan Jr (PSDB)
*Prós: Com a bandeira liberal, é a oposição perfeita. Bate nos erros da atual administração, sem ser afeito à bandeira petista. Pelo contrário, a nível nacional (como deputado) foi feroz crítico da gestão de Dilma e Lula. Traz o discurso ideal para o momento, de que não tem “corruptos de estimação” e que cortará gastos na máquina pública.
*Contras: Há cinco anos exercendo o cargo de deputado federal em Brasília, é acusado de não vivenciar Porto Alegre e, consequentemente, não estar atualizado quanto aos seus problemas. Embora traga um discurso de combate à corrupção, seu partido está coligado ao PP, um dos principais partidos beneficiados pelos desvios da Petrobrás e que na administração atual ocupa a Fasc (Fundação de Assistência Social e Cidadania), uma das pastas investigadas pelo Ministério Público por corrupção. Além disso, Marchezan tem a seu favor as maiores doações de campanhas publicitárias, sendo estes doadores dois sócios da fabricante de armas Taurus – empresa recentemente citada em denúncia sobre venda a traficantes do Iêmen.

raul-pont– Raul Pont (PT)
*Prós: Entre todos os candidatos, é o único que teve a experiência de já ter sido prefeito de Porto Alegre. Com isso, pode ter melhor desenvoltura para lidar com o cargo.
*Contras: Não é segredo para ninguém que ele não seria candidato – já havia até mesmo anunciado a aposentadoria da carreira política. Ao não conseguir convencer Manuela D’Ávila (PCdoB) a concorrer em uma aliança entre os dois partidos, o PT se viu obrigado a lançar o seu próprio. Neste quesito, Pont não foi nem unanimidade, já que havia uma corrente interna que pedia Olívio Dutra. Com a negativa deste, não houve outra saída. Quem sabe por conta disso, de uma candidatura de última hora, não apresenta projetos concretos e baseia seu discurso contra o “golpe” a nível nacional.

melo– Sebastião Melo (PMDB)
*Prós: Atual vice-prefeito, conhece os problemas da cidade. E se souber reconhecer os erros da administração, pode corrigi-los com mais agilidade. Além disso, conta a seu favor o fato de ter a nível federal e estadual correligionários do mesmo partido, o que pode dar-lhe uma certa facilidade para transitar nos Palácios do Planalto e Piratini – embora não tenha utilizado nem Sartori ou Temer durante a campanha eleitoral pela baixa popularidade de ambos.
*Contras: Mesmo que não tenha sido o mandatário máximo da Prefeitura nos últimos anos, fez parte da gestão e é corresponsável por todos os seus problemas – seja nas obras atrasadas, no serviço do transporte público deficitário ou nas investigações de corrupção no DEP (Departamento de Esgotos Pluviais), Fasc (Fundação de Assistência Social e Cidadania) e Secretaria da Juventude. Esta última, inclusive, pode ter custado a indicação de Mauro Zacher (então chefe da pasta), que seria o candidato a vice-prefeito com Melo, mas acabou tendo o nome barrado pelo seu partido (PDT) em detrimento de Juliana Brizola.

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Para onde foram os milhões de Cunhas?

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Foto: Reprodução do Facebook de Eduardo Cunha

A cassação do deputado federal Eduardo Cunha (PMDB/RJ) teve um “quê” de constrangimento. Foram 450 votos favoráveis ao afastamento, contra apenas 10 contrários. Além disso, 9 abstenções. Mas como pode ter perdido tanta força um dos políticos que, até bem pouco tempo, era aclamado por correligionários, movimentos e nas redes sociais como o ‘messias da democracia’? Durante os protestos que pediam o Impeachment da presidente Dilma Rousseff, surgiram inclusive faixas defendendo-o – algumas com os dizeres “Somos milhões de Cunhas”. Além do mais, vale lembrar que, quando eleito presidente da Câmara, o carioca recebeu 263 votos de colegas de plenário. Para onde foram todos eles nesta noite de 12 de setembro de 2016?

Não venham me dizer que só agora perceberam quem era Eduardo Cunha, depois de ouvir as acusações sobre contas na Suíça! Este é o mesmo cidadão que, apresentado por PC Farias, fez campanha para eleger Fernando Collor e, por “serviços prestados”, acabou sendo indicado à presidência da Telerj – cargo de onde foi afastado em 1993, pelo então governador Leonel Brizola, após suspeitas de superfaturamento de R$ 92 milhões. É o mesmo cidadão também que, em 1999, o TCE apontou irregularidades na construção de 10 mil casas populares enquanto era subsecretário de Habitação do então governador do Rio, Anthony Garotinho. Por fim, foi chamado publicamente de “achacador” em plena sessão da Câmara, em 2015, pelo então ministro da Educação, Cid Gomes. Sem contar as inúmeras vezes que foi citado em delações premiadas na Operação Lava-Jato. Ninguém sabia disso até ontem? E não me venha com o papo de “Meu Malvado Favorito”! Achei que não tínhamos “corruptos de estimação”.

Na verdade, Cunha foi um corrupto útil. Enquanto presidente da Câmara, sabia-se que ele era o único que, mesmo sendo de um partido do governo, não se furtaria de pedir o afastamento de Dilma. Jogou com isso enquanto pode, até perder o apoio velado dos petistas. Prova desta devoção demagoga é a foto publicada por ele próprio, em seu Facebook, quando recebeu líderes do MBL (Movimento Brasil Livre) e pousou para fotos ao lado de colegas deputados. Da tal foto (que ilustra este texto), quase nenhum seguiu ao seu lado: de Mendonça Filho (DEM) – hoje ministro de Temer -, passando por Carlos Sampaio (PSDB) e chegando à Jair Bolsonaro (PSC). O único talvez seja Paulinho da Força (Solidariedade) que, ao lado de Marco Feliciano (PSC), teve a ‘coragem’ de entrar para a história como integrante do grupo “Os 10 de Cunha”, votando contra sua cassação. Nem mesmo Kim Kataguiri, coordenador nacional do MBL – que chegou a receber credenciais do próprio Cunha para acompanhar ‘in loco’ as votações na Câmara – restou. Todos fugiram ou se arrependeram – incluindo apoiadores gaúchos como Sérgio Moraes (PTB), que preferiu não comparecer em Brasília nesta noite, e Darcísio Perondi (PMDB), que fazia campanha para colocá-lo na presidência da Câmara, mas votou pela cassação. De milhões, sobraram dez. E o agora presidente Michel Temer, será um destes arrependidos também?

A árvore genealógica dos partidos políticos do Brasil

arvore genealogica da politica brasileira

Quem nunca teve a curiosidade de desenhar a árvore genealógica de sua família? Ainda mais sendo oriundo de uma família de imigrantes (alemã, italiana, etc). Aquela ‘pontinha’ de curiosidade, que ajuda a pensar “de onde venho e para onde vou”? Pois nestes últimos dias, resolvi me debruçar sobre a história dos partidos políticos brasileiros e fazer o mesmo. Como não sou historiador, nem cientista político, o desenho pode apresentar falhas. No entanto, ajudou-me a organizar as ideias e reconhecer melhor em qual terreno e contexto se inserem alguns partidos atuais. Na dúvida, veja o quadro acima.

– Brasil Império e República Velha
Para começo de conversa, durante o Brasil Império (1822-1889), dois partidos “de direita”, que defendiam a manutenção da escravatura, bipolarizaram o poder: Partido Liberal e Partido Conservador. O cenário só começou a mudar com a aparição dos Partidos Republicanos. Não existia uma união nacional nesta época, com os quadros sendo formados dentro dos Estados (o Partido Republicano Paulista, o Mineiro, e o Riograndense, de Júlio de Castilhos, por exemplo). Estes dominaram o palco principalmente a partir da Proclamação da República e estabelecendo a política do ‘café com leite‘, com paulistas e mineiros se revezando no poder. É preciso compreender que neste período não havia o sufrágio universal. Ou seja, mulheres e pobres não iam às urnas. Portanto, as referências políticas eram pessoas da elite social.

– Era Vargas

Oriundo do PRR (Partido Republicano Riograndense), o gaúcho Getúlio Vargas chegou à presidência em 1930 graças a um golpe de Estado que interrompeu o revezamento de paulistas e mineiros. Quatro anos depois, promulgou uma nova Constituição, impondo entre outras coisas o voto secreto, o voto às mulheres e direitos trabalhistas. Com a implantação do Estado Novo (nada mais do que uma ditadura populista), viu as oposições se radicalizarem entre extrema-direita e extrema-esquerda: Ação Integralista Brasileira (AIB), que defendia um governo fascista; e Aliança Nacional Libertadora (ANL), formada por integrantes do PCB (Partido Comunista Brasileiro). Aliás, este último, conhecido como ‘Partidão’, foi o primeiro viés de esquerda na política nacional, fundado ainda em 1922, acabou sendo tornado ilegal por muitos dos governos que assumiram o país. Apesar de fortes revoluções organizadas por essas duas frentes, Vargas manteve-se na presidência até 1945. Voltaria eleito cinco anos depois, mas antes ainda foi o avalizador de dois partidos que seriam fundados: PSD (Partido Social Democrático) e PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) – pelo qual se filiou. No espectro oposto, surgiria a UDN (União Democrática Nacional), uma herdeira dos Partidos Conservador e Liberal. Seria a principal oposição ao governo getulista até seu suicídio em 1954.

– Ditadura Militar
Com o golpe militar de 1964, apoiado inicialmente pela UDN para derrubar o governo trabalhista de João Goulart (‘filho político’ de Getúlio), todos os partidos – da esquerda à direita – entraram na ilegalidade. Do PCdoB (Partido Comunista do Brasil, herdeiro do PCB), passando pelo PSB (Partido Socialista Brasileiro, encontro de ideologias entre PCB e PTB), PDC (Partido Democrata Cristão) e alcançando até a própria UDN. Permitia-se apenas a adesão a duas vertentes: MDB (Movimento Democrático Brasileiro) e ARENA (Aliança Renovadora Nacional). Era como se, de uma hora para outra, a política nacional voltasse ao período do Brasil Império, onde vigoravam apenas os liberais e conservadores. Os quadros da centro-esquerda foram forçados ao exílio (como o petebista Leonel Brizola), enquanto os da extrema-esquerda assumiram a ilegalidade para criar grupos armados – ALN (Aliança Libertadora Nacional), MR8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro), VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), entre outros.

– Reabertura política

Diante das manifestações populares pelo fim dos governos militares, foram surgindo novos partidos. Com o DNA getulista, Brizola fundou o Partido Democrático Trabalhista (PDT). Este ainda recebeu alguns componentes dos grupos revolucionários, enquanto a maioria acabou migrando para o recém fundado Partido dos Trabalhadores (PT), encontrando-se com líderes de movimentos sindicais. Com o desprestígio da ARENA, surgiu o PDS (Partido Democrático Social), que passaria a abrigar aqueles políticos que governaram sob o guarda-chuva militar, como José Sarney. O MDB, por sua vez, foi quem surfou a onda da abertura política, sendo a cara da recente democracia brasileira. Velhos partidos, como PCdoB, PSB e PTB também foram reativados, mas já desvirtuados das ideologias que os havia fundado.

– Coligações e fisiologismo

A partir da década de 90, os partidos foram se multiplicando. Da direita, saíram do PDS o PFL (Partido da Frente Liberal, hoje DEM), PPB (Partido Progressista Brasileiro, hoje apenas PP) e PRN (Partido da Reconstrução Nacional, hoje PTC) – que elegeria Fernando Collor nas primeiras eleições diretas. Do gigantesco PMDB, surgiria principalmente o PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira). Do PT, acabariam migrando vertentes radicais de esquerda, como PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado), PCO (Partido da Causa Operária) e mais recentemente PSOL (Partido Socialismo e Liberdade). O impeachment de Collor em 1992, no entanto, influenciaria ainda mais o fisiologismo na vida democrática brasileira. A troca constante de partidos – como do então vice-presidente Itamar Franco, que chegaria ao seu 5º partido ao assumir a presidência (PTB, MDB, PL, PRN e PMDB) – denunciava a falta de fidelidade a uma raiz ideológica. Além disso, o sistema presidencialista de coalizão insuflou as coligações antes inimagináveis. O ‘tucano’ Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, ex-MDB, coligou com o PFL (dissidência do PDS e ARENA) para vencer as eleições de 1994 e 1998. Já o petista Lula uniu-se com o PL para fazer o mesmo em 2002 e 2006. Quando que os liberais do Brasil Império imaginariam que seus herdeiros políticos um dia uniriam forças com trabalhadores de movimentos sindicais? Da fusão dessa coligação improvável, por exemplo, saiu o atual SD (Solidariedade), que tem como presidente o deputado Paulinho da Força Sindical – um ex-petista, que se tornou uma das principais bases de apoio ao recente impeachment de Dilma Rousseff. Outra obra do fisiologismo é o recém criado Rede Sustentabilidade, capaz de abrigar a fundadora Marina Silva, ex-PT e PV (Partido Verde); Randolfe Rodrigues, ex-PSOL; Miro Teixeira, ex-PP, PDT e PROS (Partido Republicano da Ordem Social); e João Derly, ex-PCdoB. Isso sem falar no PSC (Partido Social Cristão), herdeiro do antigo PDC extinto pela ditadura militar, mas que já lançou a pré-candidatura de Jair Bolsonaro, um entusiasta do regime militar. Mas talvez o ‘filho mais bastardo’ da política brasileira seja o PR (Partido da República), nascido da fusão entre PL e PRONA (Partido da Reedificação da Ordem Nacional) – pensado e criado pelo ultranacionalista Enéas Carneiro, primo distante do integralista Plínio Salgado. Mesmo assim, não exitou em coligar com o PT nas eleições de Dilma. Sendo assim, à esta altura, onde ninguém mais sabe quem é o inimigo ou amigo na trincheira, urge uma reforma na política brasileira. Ou sigam degustando essa sopa de letrinhas promíscuas e indigestas.

Política não é Hamlet, embora pareça

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O impeachment de Dilma Rousseff é fato consumado – como era esperado, diga-se de passagem. Por isso, fogos de artifício pipocaram nos céus de Porto Alegre e outras capitais brasileiras. O senso comum é que, a partir de agora, a corrupção terá vida curta no país. Este foi o discurso dos últimos tempos: de que a corrupção acabaria quando o governo petista acabasse. Convenhamos, não é tão simples assim. Se a motivação dos deputados e senadores fosse esta, o novo presidente Michel Temer, em seu primeiro discurso, não teria falado em: flexibilização dos direitos trabalhistas, revisão da Previdência, etc. Afinal de contas, política não se trata apenas de ser honesto ou não ser. Não é Hamlet e seu famoso monólogo: “ser ou não ser, eis a questão“. Abrange muito mais do que isso. Por isso, sinto urticária quando ouço: “São tudo farinha do mesmo saco!“. Não, amigo. Não são!

Para se ter uma noção, até segundo aviso, a ‘presidente impedida’ não ficou inelegível por 8 anos. Já o novo ‘comandante do país’ foi encaixado há dois meses na Lei da Ficha Limpa pelo TRE-SP e não poderá ser votado nas próximas eleições. Logo, que honestidade é essa que tomou de assalto o país? A verdade é que partidos que até bem pouco tempo eram oposição (muitos deles derrotados nas urnas) não viam condições de aprovar suas leis. Diz-se, por exemplo, que a chamada ‘bancada da bala’ tentará votar mais uma vez a Lei do Desarmamento na Câmara dos Deputados. Por óbvio, são ideias que me ponho contrário, mas não iria estar tão incomodado se o governo/projeto tivesse recebido o aval das urnas. Não é ser petista ou não, é ser democrata e respeitar o resultado das urnas. Isso não quer dizer que Dilma jamais poderia ser afastada em caso de comprovação de crimes de responsabilidade fiscal. Quero dizer que o programa de governo proposto na corrida eleitoral deve ser respeitado.

Não vamos falar em reforma trabalhista, vamos falar em adequação da relação empregado-empregador, modernização“. Esta foi a frase proferida por Temer em sua primeira reunião ministerial. É natural o peemedebista pensar assim, já que sempre esteve posicionado ao lado do grande empresário. Agora imagine o trabalhador assalariado, de carteira assinada, a partir de amanhã sentando para negociar com seu chefe sobre o pagamento ou não do 13º, das férias, das horas extras. Estas são condições impostas pela lei. Com a modificação dela, que poder de barganha terá o funcionário diante do patrão? É fazer ou ser demitido! É disso que estamos falando. Ou, como já chegou a ser sugerido, aumentar a idade da aposentadoria para 70 anos. Temer, Aécio, Agripino, Bolsonaro, Rodrigo Maia e tantos outros comemoram a conquista do governo nesta quarta-feira. Mas, na linguagem futebolística, marcaram um gol com a mão. Ou melhor, protagonizaram  uma virada de mesa no tapetão. Suas visões políticas estavam na zona do rebaixamento e eles conseguiram, com uma liminar, uma vaga para a Libertadores. Sinceramente, eu sentiria vergonha de comemorar numa hora dessas. O mais prudente seria convocar eleições gerais imediatamente. Mas aí, tenho certeza, a população jamais aprovaria projetos impopulares como os que serão impostos a partir de agora. Sendo assim, não se deixe enganar com a encenação de Shakespeare.