Política não é Hamlet, embora pareça

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O impeachment de Dilma Rousseff é fato consumado – como era esperado, diga-se de passagem. Por isso, fogos de artifício pipocaram nos céus de Porto Alegre e outras capitais brasileiras. O senso comum é que, a partir de agora, a corrupção terá vida curta no país. Este foi o discurso dos últimos tempos: de que a corrupção acabaria quando o governo petista acabasse. Convenhamos, não é tão simples assim. Se a motivação dos deputados e senadores fosse esta, o novo presidente Michel Temer, em seu primeiro discurso, não teria falado em: flexibilização dos direitos trabalhistas, revisão da Previdência, etc. Afinal de contas, política não se trata apenas de ser honesto ou não ser. Não é Hamlet e seu famoso monólogo: “ser ou não ser, eis a questão“. Abrange muito mais do que isso. Por isso, sinto urticária quando ouço: “São tudo farinha do mesmo saco!“. Não, amigo. Não são!

Para se ter uma noção, até segundo aviso, a ‘presidente impedida’ não ficou inelegível por 8 anos. Já o novo ‘comandante do país’ foi encaixado há dois meses na Lei da Ficha Limpa pelo TRE-SP e não poderá ser votado nas próximas eleições. Logo, que honestidade é essa que tomou de assalto o país? A verdade é que partidos que até bem pouco tempo eram oposição (muitos deles derrotados nas urnas) não viam condições de aprovar suas leis. Diz-se, por exemplo, que a chamada ‘bancada da bala’ tentará votar mais uma vez a Lei do Desarmamento na Câmara dos Deputados. Por óbvio, são ideias que me ponho contrário, mas não iria estar tão incomodado se o governo/projeto tivesse recebido o aval das urnas. Não é ser petista ou não, é ser democrata e respeitar o resultado das urnas. Isso não quer dizer que Dilma jamais poderia ser afastada em caso de comprovação de crimes de responsabilidade fiscal. Quero dizer que o programa de governo proposto na corrida eleitoral deve ser respeitado.

Não vamos falar em reforma trabalhista, vamos falar em adequação da relação empregado-empregador, modernização“. Esta foi a frase proferida por Temer em sua primeira reunião ministerial. É natural o peemedebista pensar assim, já que sempre esteve posicionado ao lado do grande empresário. Agora imagine o trabalhador assalariado, de carteira assinada, a partir de amanhã sentando para negociar com seu chefe sobre o pagamento ou não do 13º, das férias, das horas extras. Estas são condições impostas pela lei. Com a modificação dela, que poder de barganha terá o funcionário diante do patrão? É fazer ou ser demitido! É disso que estamos falando. Ou, como já chegou a ser sugerido, aumentar a idade da aposentadoria para 70 anos. Temer, Aécio, Agripino, Bolsonaro, Rodrigo Maia e tantos outros comemoram a conquista do governo nesta quarta-feira. Mas, na linguagem futebolística, marcaram um gol com a mão. Ou melhor, protagonizaram  uma virada de mesa no tapetão. Suas visões políticas estavam na zona do rebaixamento e eles conseguiram, com uma liminar, uma vaga para a Libertadores. Sinceramente, eu sentiria vergonha de comemorar numa hora dessas. O mais prudente seria convocar eleições gerais imediatamente. Mas aí, tenho certeza, a população jamais aprovaria projetos impopulares como os que serão impostos a partir de agora. Sendo assim, não se deixe enganar com a encenação de Shakespeare.

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