Esquerda brasileira se inspira no Uruguai para se reinventar. Conseguirá?

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Raul Pont, candidato do PT à prefeitura de Porto Alegre, já falava abertamente durante o domingo que, caso passasse ao segundo turno das eleições municipais, esperava pelo apoio de Luciana Genro – candidata do PSOL. Segundo ele, o mesmo aconteceria se fosse o contrário – apoiaria Luciana se ela fosse ao segundo turno. Pois nem um, nem o outro passaram adiante. Contudo, a aproximação e os últimos contatos mantidos entre os dois partidos não deve se resumir ao pleito de 2016. A inspiração está no país vizinho Uruguai, com a ‘Frente Amplio’ (um conglomerado de partidos e movimentos sociais que governa o país há mais de 10 anos) e que encerrou o bipartidarismo entre ‘blacos y colorados’. A primeira experiência ocorrerá no Rio de Janeiro, onde o ‘psolista’ Marcelo Freixo já recebeu apoio público de seus concorrentes Jandira Feghali (PCdoB) e Alessandro Molon (Rede) para disputar o segundo turno contra Marcelo Crivella (PRB). Por enquanto, a soma de todos os votos recebidos por eles não dará a vitória sobre o bispo da Igreja Universal – o que já mostra que, se unidos a tarefa é complicada, separados é impossível.

A aliança uruguaia também não é tão simples assim de se reproduzir por aqui, até por não ser um processo recente. Fundada em 1971, a ‘Frente Ampla’ lançou o general Líber Seregni à presidência da República. Não só acabou derrotada nas urnas, como foi colocada na ilegalidade dois anos depois com a instauração da ditadura militar. Com a abertura democrática, concorreu a mais quatro pleitos até eleger Tabaré Vázquez e, posteriormente, seu sucessor José Mujica. Hoje Tabaré Vázquez está mais uma vez no posto mais alto de Montevidéu, de onde só deve sair em 2020 caso encerre seu mandato são e salvo. O ‘contra-ataque’, no entanto, está sendo armado a cada eleição, com os candidatos dos Partidos Nacional e Colorado (rivais históricos, mas ambos de direita) ensaiando apoios mútuos para tentar vencer os representantes da esquerda – o que já serve para mostrar a expressão da Frente Amplio uruguaia.

Curiosamente, o nome ‘Frente Ampla’ já foi utilizado na história política do Brasil – e não necessariamente para denominar candidatos da esquerda. Com o golpe de 1964, Carlos Lacerda pela UDN, Juscelino Kubitschek pelo PSD, e João Goulart pelo PTB (as três lideranças civis da época), resolveram formar uma aliança contra os governantes militares. Mesmo cassados e/ou exilados, os três publicaram notas conclamando a população por eleições diretas e se aproximaram de movimentos estudantis e sindicais. Por óbvio, conforme a ditadura evoluía, os comícios eram dispersados, até a proibição da Frente Ampla em 68. Qualquer intenção de recriar movimentos democráticos foi encerrada com a morte (acidental ou não) dos três em um período de 9 meses, de 1976 a 1977. O processo agora se daria de maneira diferente – até porque não há militares no poder. Apenas o nome do jogo é o mesmo, mas o que está em jogo são outras coisas. Mais ao estilo uruguaio mesmo.

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