O “voto útil” faz o bem sem olhar a quem

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Levantar a bandeira do “voto útil” é um ato de desapego, quase um ato cristão. “Fazei o bem sem olhar a quem“, diz a frase que parece ter saído da Bíblia, mas que o Google atribui a um provérbio português. Afinal, o que é o voto útil? Nada mais do que uma estratégia política, de apoiar um candidato em que não se acredita e não se votaria normalmente, com intenção de prejudicar o outro concorrente. Não há nada que proíba este ato, não é crime. Portanto, à vontade. Porém, é necessário ter desapego. Não esperar um apoio recíproco futuro ou agradecimento do beneficiado. Por isso, acho bonita a atitude de Manuela D’Ávila e de seu partido (PC do B). Embora não concorde.

A deputada tem se manifestado constantemente contrária ao voto nulo ou em branco. Em nome da democracia, pede que seus simpatizantes saibam identificar as diferenças entre Nelson Marchezan Júnior (PSDB) e Sebastião Melo (PMDB) nas eleições à prefeitura de Porto Alegre. Em detrimento ao tucano, se posiciona pelo peemedebista. Justo, mas estranho. Tenho absoluta certeza de que se ela fosse a candidata, Melo esqueceria todas as escaramuças para se abraçar em Marchezan – em nome do combate à “ameaça comunista” e à “paranoia antiesquerda”. Natural, já que o próprio PCdoB (com Manuela no pelotão de frente) pôs-se diametralmente oposto ao PMDB, intitulando-o de protagonista do ‘golpe’ (impeachment de Dilma). Logo, não haveria reciprocidade. Por isso, atitude bonita, julgo eu.

O que estranho mais do que tudo neste caso é a dificuldade extrema que os semelhantes da esquerda têm de se aproximar (principalmente no Rio Grande do Sul). Neste ano, Manuela até teria o apoio do PT caso tivesse concorrido. Mas em 2012, quando se apresentou como oposição ao prefeito José Fortunati, viu o petista Adão Villaverde lançar candidatura própria. Mais do que isso, não foram poucas as vezes em que ela e Luciana Genro (PSOL) declararam diferenças. Também é justo, mas porque se afastam quando poderiam estar sentando para dialogar? Certamente há mais pontos convergentes entre elas do que entre PCdoB e PMDB. Por isso, tenho relutância em praticar o tal voto útil, em nome do “menos pior”. Rejeito o provérbio português e aceito a licença poética atribuída a Monteiro Lobato: “Fazei o bem, mas olhai a quem.” Mas juro que fico só nesta frase – se é que ela pertence mesmo ao citado escritor.

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Um comentário sobre “O “voto útil” faz o bem sem olhar a quem

  1. Curioso mesmo, Filipe. Não seria a vaidade de um lado ou outro (Manuela, Luciana, Raul) em não aceitar um cargo de vice? Acredito que todos veriam com bons olhos a possibilidade de um “chapão” porém todos querem encabeçá-lo.

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