Fidel Castro: ame-o ou deixe-o

bazar

Fidel Castro morreu e eu resolvi não tecer nenhum comentário. Li muita coisa que se escreveu e ouvi o que se disse. Mas fiquei calado. Não porque não tenho nada a dizer, mas porque preferi evitar a fadiga. Com essa onda de intolerância política e o crescimento gradual da direita conservadora no mundo, era óbvio que qualquer comentário meu que não fosse no mesmo tom da moda seria taxado de comunista. Mas hoje resolvi romper o silêncio. Por quê? Fui induzido a isso. Estava participando de um programa de debates esportivos no rádio, e este assunto (que não é esportivo, mas se impõe pelo grau de importância jornalística) veio à pauta. Não costumo me calar. Então, para meu azar, expressei minha opinião – mais ou menos assim.

Bom, basta acompanhar o que escrevo ou me conhecer no cotidiano para perceber que defendo algumas ideias que, para muitos, são bandeiras de esquerda. Enfim, tenho um posicionamento político. Não partidário, mas político. Bom, se quiserem me qualificar como esquerdista, ok, eu sou. Nunca visitei Cuba, apenas li sobre. Aprecio o empenho do governo de lá para qualificar a saúde e educação públicas, e a causa da justiça social. O que não concordo é com a maneira como isso foi implementado, através de uma ditadura, com a extinção de partidos oposicionistas, prisões, torturas e assassinatos. Mas, o que mais me enojou na morte do Fidel é ver pessoas que enaltecem a ditadura militar do Brasil – e aí vou citar um nome, Jair Bolsonaro, que conseguiu exaltar a figura de um torturador em plena Câmara dos Deputados -, comemorando a morte de outro ditador. Ou seja, quando a ditadura está sob a minha ideologia, é boa? E quando ela não está sob os meus preceitos, não presta? Vale para os dois lados! Sempre vou preferir a democracia. Temos que respeitar a vontade da maioria. Se a maioria da população deseja um candidato que não é o meu, preciso respeitar o resultado das urnas. E mais do que isso, precisamos ensinar o povo brasileiro a falar sobre política, porque só a educação vai melhorar o país.

Antes de mais nada, você precisa saber que eu estava no saguão de um hotel de Porto Alegre, onde fazia a cobertura da concentração de um time de futebol. Meus colegas de debate estavam todos no estúdio da rádio. Logo, só a minha explanação foi ouvida por quem estava no hotel. Eis que um homem, que estava debruçado na recepção, virou-se para mim:

– Tu fala isso porque não conhece Cuba. Vai para Cuba para conhecer! – fiquei olhando para ele, com um sorriso congelado e sem graça. Sem reação. Pensei comigo que se tratava de um digno representante da direita raivosa, pronto para me apedrejar ali mesmo.
Eu já fui para Cuba! – seguiu ele – Fidel é amado lá! Dei aula numa faculdade cubana. Lá não tem desigualdade. Não tem rico, mas também não tem ninguém passando fome.
Senhor, acho que o senhor me entendeu mal – tentei argumentar, enquanto ele caminhava em direção à porta giratória, saindo do hotel com o pescoço virado para mim, com as veias saltando da gola da camisa.
– É, vai conhecer a realidade lá para depois falar! – foi a última coisa que ouvi.

Fiquei sem reação. Sorriso estagnado. Pensei que seria xingado de ‘esquerdopata’ e virei ‘coxinha’. Justo eu, um dingo representante da esquerda caviar! Um ‘PSOLzinho’ do Leblon! Um ‘PTzinho’ da Cidade Baixa! (e todos os outros ‘insultos’ que já me acostumei ler/ouvir). Virei ‘direitista’! Quem sabe até tucano! Porque Fidel faz isso com as pessoas. Como um ‘bom’ ditador (se é que existem bons ditadores), provoca a exaltação do slogan criado para o governo do meu ‘conterrâneo’ Emílio Garrastazú Médici: “ame-o ou deixe-o”. As paixões são assim, não permitem análises balanceadas. Ou se ama, ou se odeia. Presidente Getúlio Vargas. Presidente Ernesto Geisel. Presidente Augusto Pinochet. De direita ou esquerda, todos eles sofreram do mesmo mal. Nacionalistas ao extremo, tiveram detratores, mas defensores ferrenhos. Pois foram ditadores, assim como o presidente/ditador/comandante Fidel Castro.

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