Quando o jornalista não está preparado para uma cobertura jornalística

alupa

Eu tinha me formado há poucos meses e sai da minha cidade. Meu primeiro emprego foi em Bento Gonçalves. Ainda tentando me estabelecer profissionalmente, como o famoso ‘foca’ (termo utilizado para o jornalista recém saído da universidade), fui escalado para cobrir um acidente de trânsito. Chegando no local, percebi que não era um acidente tão grave como se imaginava. Apenas dois carros se chocaram, mas um dos vidros estourou e cortou o rosto de um bebê, que estava na poltrona atrás do motorista. Desabei ali. Fiquei todo atrapalhado, colhi as informações que podia com os policiais, entrei no ar gaguejando, nervoso, e voltei para a redação. Pedi para nunca mais ser escalado para coberturas assim. Ali descobri que eu era jornalista esportivo mesmo. A maioria de nós não está preparado para coberturas deste porte. A cada desastre lembro da sentença que eu mesmo me apliquei. Nesta terça-feira, 29 de novembro de 2016, o mesmo sentimento reapareceu.

Tomei conhecimento do acidente envolvendo a delegação da Chapecoense quando ainda estava na cama pela manhã. O sono acabou imediatamente. Liguei TV, rádio, busquei mais informações na internet. E aí os nomes começaram a aparecer. Chorei desesperadamente. Jogadores que a gente já conviveu, dirigentes que já entrevistamos, colegas e amigos de imprensa que víamos e conversávamos nos estádios, hotéis, aeroportos, redações, restaurantes, bares… Não adianta, esse é o nosso dia a dia. Cobrir a queda de um avião, que vitimou praticamente todos eles, não. É chocante demais! Não há estômago. Pelo menos não para mim.

Entre nós, jornalistas esportivos, o trajeto feito por eles é comum: voo fretado, para outro país, junto com atletas, comissão técnica e dirigentes. Eu próprio já fiz quase a mesma viagem no ano passado, acompanhando o Internacional que enfrentaria o Independiente Santa Fé, em Bogotá, na Colômbia. Portanto, dói se colocar no lugar deles, imaginar que também podemos passar por isso, que nossa família passaria por uma dor dessas. Desculpem se pareci mesquinho. Lógico que lamento pelas vidas perdidas, pelos sonhos interrompidos. Mas sofro ainda mais por saber que fomos tão próximos. Só neste ano, fui duas vezes a Chapecó. Nem precisava disso para me comover. Qualquer pessoa que trabalha com futebol no Brasil tem um mínimo de vínculo com qualquer que seja uma das vítimas do acidente da Chapecoense. E isso dói.

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