Como seria a vida de Jesus nos dias atuais?

bazar

Líder pacifista. Pastor e ativista político. Líder político rebelde. Assim rotularam respectivamente o indiano Mahatma Gandhi, o estadunidense Martin Luther King Jr e o sul-africano Nelson Mandela. Porém, as três definições poderiam servir tranquilamente para Yeshua Ha Mashiach – ou, como conhecemos pela cultura ocidental, Jesus, o Messias. Pela crença popular cristã, nasceu em 25 de dezembro, na cidade israelense de Nazaré (que hoje tem cerca de 65 mil habitantes). Mas esqueça a história! Permita-me (e permita-se) imaginar como seria esta pessoa vivendo nos dias atuais. Sem querer ofender, por favor!

– Agitador cultural

Ao não ter sido criado pelo pai biológico, Jesus já poderia sofrer o primeiro preconceito aí. Digamos que não estaria inserido no que se classifica como ‘família tradicional’. Mesmo assim, levaria uma vida pacata até os 30 anos, quando resolve sair de casa sem rumo, abandonando o emprego ensinado pelo padrasto, e decide viajar para pregar palavras religiosas – mesmo que sem vínculo com nenhuma igreja. Aliás, as igrejas não seriam propriamente bem aceitas por ele. O que diria, por exemplo, da gigantesca Basílica de São Pedro, recheada de ouro, no Vaticano? Nem quero imaginar o que faria se visitasse o Templo de Salomão, obra faraônica erguida no bairro do Brás, em São Paulo, pela Igreja Universal. Mas dá para ter uma ideia através da sua ação violenta relatada na Bíblia e atribuída a João: “expulsou a todos do templo, as ovelhas bem como os bois, derramou pelo chão o dinheiro dos cambistas, virou as mesas e disse aos que vendiam as pombas: Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai uma casa de negócio“. Tal comportamento, lógico, não seria bem recebido nos dias atuais. Seria, no mínimo, chamado de “agitador cultural” ou “subversivo” pelos mais conservadores.

– Assédio de partidos políticos

O que diria contra os pastores evangélicos que vociferam contra homossexuais, prostitutas, etc? Jesus, aquele mesmo que interveio durante o apedrejamento de uma mulher adúltera, certamente repetiria a frase “atire a primeira pedra“. E ao defender ladrões e assassinos, o que diriam os mais xiitas defensores da pena de morte? Bom, é melhor nem pensar o que falariam sobre a divisão igualitária de comida entre todos. E se ele resolvesse falar a um jovem rico contemporâneo que é “mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus“. Nooossa! “Vai para Cuba!” seria o xingamento mais educado, além do carimbo de ‘comunista’ na testa. Aliás, o posicionamento político renderia convites para filiação partidária – fosse no Brasil, por identificação ideológica, PSOL e PT voariam sobre ele; mas outros partidos poderiam se aventurar também. Quem sabe não seria essa a ‘tentação de Cristo’ nos tempos modernos? Promessas de bons cargos públicos, salários e outras benesses. Provavelmente, ele não cairia em tentação.

– Problemas com a lei e formação de “quadrilha”

Mesmo comprando brigas contra a igreja e políticos renomados, Jesus teria seguidores. Se utilizasse as redes sociais, bem mais que 12, com certeza. O que não evitaria seus problemas com a lei. Quando voltou a Jerusalém, o profeta fez críticas aos fariseus e aos doutores da Lei, a quem chamou de hipócritas por não seguirem o que pregavam. Este comportamento traria perseguições a ele e aos seus seguidores. Um deles poderia ser preso e, assim como fez Judas Iscariotes, entregaria onde as reuniões aconteciam. Seria uma espécie de delação premiada, para utilizar um termo em voga. Trocando o Monte das Oliveiras por uma favela ou morro na periferia de uma grande cidade, poderíamos ter o cenário da prisão. Possivelmente seria acusado de “formação de quadrilha”, já que estava cercado por ‘comparsas’.

– Júri popular e pena de morte

Preso pela Polícia Federal (substituídos aqui pelos soldados do Império Romano), o caso de Jesus seria levado para julgamento diante do governador ou presidente, que – assim como Pôncio Pilatos – “lavaria as mãos” em entrevista coletiva. Levado à juri popular, após cobertura sensacionalista da imprensa, seria condenado. Dependendo do país, varia o crime e a pena. No Irã, por exemplo, seria condenado por “distúrbio da paz pública”. No Brasil, como não há pena de morte, renderia alguns meses de cadeia, quem sabe. Mas, pela onda de justiça social com as próprias mãos, não seria loucura noticiar sua morte dentro do camburão da polícia, ou assassinato dentro da cela do presídio. Para quem quisesse ter uma morte tão trágica quanto à crucificação imposta, basta imaginar o famoso ‘microondas’ dos morros cariocas – uma pilha de pneus em chamas, com o cidadão amarrado do lado de dentro. Claro, depois de ser devidamente torturado. As chagas nas mãos e pés ocasionadas pelos pregos poderiam ser marcas de balas, para impedir qualquer fuga. Algo bem contemporâneo. Coitado de Jesus!

O pacote de ideias do senhor Ivo

bazar

Meu nome é Ivo e já vivi praticamente sete décadas. Há dois anos, eu morava no interior do Estado. Levava uma vida pacata, até minha empresa resolver me dar uma promoção. Transferiram-me para a capital, para executar uma função que eu mesmo desconfiava se estava capacitado para tanto ou não. Mas resolvi aceitar o desafio. Cheguei achando que bastaria repetir o mesmo ritmo para adaptar a mim e minha família à cidade grande. Ledo engano! O custo de vida aqui é bem mais alto do que eu imaginava. No início, me atrapalhei demais para equilibrar as finanças. Atrasei o pagamento da escola dos meus filhos e eles viraram motivo de chacota na escola, pois chamavam o pai deles de caloteiro. Achei que pagar por grade na janela, alarme no portão e o ‘ronda’ do bairro era supérfluo. Até que minha mulher quase pediu o divórcio depois que teve bolsa e celulares roubados na frente de casa. Meu chefe viu que algo não ia bem, pois parei de render no trabalho. Refleti e reuni a família para propor algumas mudanças no nosso cotidiano. Sentei na sala com eles, joguei um pacote em cima da mesa e comecei a tirar as minhas ideias de lá de dentro. Deu o maior bate-boca. Não sei por que meus familiares não gostaram das minhas propostas. Mas como sou eu quem manda na casa, vai ser do meu jeito:

– Decidi cortar a internet, televisão e rádio de casa. A partir de agora, se quiserem assistir alguma coisa, que peçam favor aos amigos – claro, ficando sujeitos ao desejo deles em assistir o que bem entenderem. Meus filhos reclamam que vai lhes faltar ciência, tecnologia e cultura. E eu com isso?!
– Resolvi que vamos colocar os vasos com plantas na calçada da rua. Quem quiser levar, que leve. Vamos economizar na água! E os animais de estimação (cachorro, gato e papagaio), vamos vender ou soltá-los por aí. A ração estava muito cara. E eu lá tenho cara de zoológico ou botânica?!
– Não vou mais contratar um contador para declarar meu imposto de renda. A partir deste ano, eu mesmo vou ser o responsável pela economia e estatística da casa. Não sou especialista na área, mas tenho certeza que vai dar certo!
– Cancelei qualquer convênio médico. Para quê pesquisar a saúde? Se não está bem, se sentir alguma dor, que siga trabalhando. O que não mata, engorda!
– Também não vou renovar a carteirinha de ônibus e trem dos meus filhos. Sei que eles precisam estudar na universidade que fica na cidade ao lado, mas que deem um jeito de se locomover. Eu é que não quero mais planejar o transporte!
– Além disso tudo, pensei em parar de comprar botijão de gás. Estou quase me convencendo a usar um fogão à lenha, como nos bons tempos de quando eu morava na fazenda. Aos mesmos moldes, estou prestes a recuperar os lampiões. Este negócio de luz elétrica não vingou e é caro para caramba!
– Obviamente, a mesada de todos será cortada. Tanto dos meus filhos, como da minha esposa – que não precisa trabalhar, pois tem que cuidar da casa!

Claro que todas estas ideias geniais eu não tive sozinho. Um colega de empresa, que mora lá em Brasília, apresentou primeiro esse pacote. Parece que a família dele por lá também não gostou. E o pior é que o sujeito foi com a maior das boas intenções. Até reuniu a família (que é bem maior que a minha) em um grande banquete, com direito a salmão e espumante. É não é que um sobrinho desajustado teve o disparate de peitá-lo?! Meu filho fez quase a mesma coisa. Você acredita que ele me olhou nos olhos e disse: “Pai, já faz um ano que o senhor nos convenceu que, se economizássemos, as coisas entrariam nos eixos. Passei a comprar menos bebida, a mãe maneirou nos perfumes e até passamos a comprar as rações mais baratas para os bichos. Disse que era um remédio amargo, mas necessário e nada melhorou. Me diz uma coisa, por que o senhor não vende um de seus carros? Nenhum de nós dirige a não ser o senhor. Outra: e para quê a casa na serra e na praia também? Helicóptero?! E quem sabe se o senhor suspendesse a sua aula de tiro no Clube Militar? Acho que já passou da idade de brincar de justiça militar, né pai? Além do mais, a gente sabe que o senhor assina televisão a cabo e vários jornais e revistas. Que propaganda é essa que o senhor quer passar para a gente? Pode cortar o número de empregados da casa também. Ou o senhor realmente precisa de um jardineiro, cozinheira, assador de churrasco, chofer… O senhor tem empregado até para atender o telefone para o senhor! Ah, e tem mais… Sei que o senhor gosta de ver a mamãe trabalhando nas coisas da casa, mas então por que mantém uma diarista? Se a mãe não sabe cuidar da casa como a diarista, deixa ela trabalhar em outra área. Pode até ser fora de casa, por que não?! E outra, pai: se a vida está tão difícil aqui na capital, por que o senhor não ficou lá no interior? Deixa de ser caxias, poxa!“. Olha quanto desaforo! Confesso que fiquei magoado com o que ouvi. Como ele pode achar que eu estou esbanjando?! São coisas necessárias para manter o bem-estar. E pensar que há bem pouco tempo este mesmo filho, logo que eu recebi a promoção para trocar de cidade, me disse: “pai, você é massa!“. Não gosto de falar grosso e muito menos de surrar meu guri, mas desta vez tive que me impor. Dei uma brigada, mandei ele para o quarto e decidi que meu pacote estava decretado.