O pacote de ideias do senhor Ivo

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Meu nome é Ivo e já vivi praticamente sete décadas. Há dois anos, eu morava no interior do Estado. Levava uma vida pacata, até minha empresa resolver me dar uma promoção. Transferiram-me para a capital, para executar uma função que eu mesmo desconfiava se estava capacitado para tanto ou não. Mas resolvi aceitar o desafio. Cheguei achando que bastaria repetir o mesmo ritmo para adaptar a mim e minha família à cidade grande. Ledo engano! O custo de vida aqui é bem mais alto do que eu imaginava. No início, me atrapalhei demais para equilibrar as finanças. Atrasei o pagamento da escola dos meus filhos e eles viraram motivo de chacota na escola, pois chamavam o pai deles de caloteiro. Achei que pagar por grade na janela, alarme no portão e o ‘ronda’ do bairro era supérfluo. Até que minha mulher quase pediu o divórcio depois que teve bolsa e celulares roubados na frente de casa. Meu chefe viu que algo não ia bem, pois parei de render no trabalho. Refleti e reuni a família para propor algumas mudanças no nosso cotidiano. Sentei na sala com eles, joguei um pacote em cima da mesa e comecei a tirar as minhas ideias de lá de dentro. Deu o maior bate-boca. Não sei por que meus familiares não gostaram das minhas propostas. Mas como sou eu quem manda na casa, vai ser do meu jeito:

– Decidi cortar a internet, televisão e rádio de casa. A partir de agora, se quiserem assistir alguma coisa, que peçam favor aos amigos – claro, ficando sujeitos ao desejo deles em assistir o que bem entenderem. Meus filhos reclamam que vai lhes faltar ciência, tecnologia e cultura. E eu com isso?!
– Resolvi que vamos colocar os vasos com plantas na calçada da rua. Quem quiser levar, que leve. Vamos economizar na água! E os animais de estimação (cachorro, gato e papagaio), vamos vender ou soltá-los por aí. A ração estava muito cara. E eu lá tenho cara de zoológico ou botânica?!
– Não vou mais contratar um contador para declarar meu imposto de renda. A partir deste ano, eu mesmo vou ser o responsável pela economia e estatística da casa. Não sou especialista na área, mas tenho certeza que vai dar certo!
– Cancelei qualquer convênio médico. Para quê pesquisar a saúde? Se não está bem, se sentir alguma dor, que siga trabalhando. O que não mata, engorda!
– Também não vou renovar a carteirinha de ônibus e trem dos meus filhos. Sei que eles precisam estudar na universidade que fica na cidade ao lado, mas que deem um jeito de se locomover. Eu é que não quero mais planejar o transporte!
– Além disso tudo, pensei em parar de comprar botijão de gás. Estou quase me convencendo a usar um fogão à lenha, como nos bons tempos de quando eu morava na fazenda. Aos mesmos moldes, estou prestes a recuperar os lampiões. Este negócio de luz elétrica não vingou e é caro para caramba!
– Obviamente, a mesada de todos será cortada. Tanto dos meus filhos, como da minha esposa – que não precisa trabalhar, pois tem que cuidar da casa!

Claro que todas estas ideias geniais eu não tive sozinho. Um colega de empresa, que mora lá em Brasília, apresentou primeiro esse pacote. Parece que a família dele por lá também não gostou. E o pior é que o sujeito foi com a maior das boas intenções. Até reuniu a família (que é bem maior que a minha) em um grande banquete, com direito a salmão e espumante. É não é que um sobrinho desajustado teve o disparate de peitá-lo?! Meu filho fez quase a mesma coisa. Você acredita que ele me olhou nos olhos e disse: “Pai, já faz um ano que o senhor nos convenceu que, se economizássemos, as coisas entrariam nos eixos. Passei a comprar menos bebida, a mãe maneirou nos perfumes e até passamos a comprar as rações mais baratas para os bichos. Disse que era um remédio amargo, mas necessário e nada melhorou. Me diz uma coisa, por que o senhor não vende um de seus carros? Nenhum de nós dirige a não ser o senhor. Outra: e para quê a casa na serra e na praia também? Helicóptero?! E quem sabe se o senhor suspendesse a sua aula de tiro no Clube Militar? Acho que já passou da idade de brincar de justiça militar, né pai? Além do mais, a gente sabe que o senhor assina televisão a cabo e vários jornais e revistas. Que propaganda é essa que o senhor quer passar para a gente? Pode cortar o número de empregados da casa também. Ou o senhor realmente precisa de um jardineiro, cozinheira, assador de churrasco, chofer… O senhor tem empregado até para atender o telefone para o senhor! Ah, e tem mais… Sei que o senhor gosta de ver a mamãe trabalhando nas coisas da casa, mas então por que mantém uma diarista? Se a mãe não sabe cuidar da casa como a diarista, deixa ela trabalhar em outra área. Pode até ser fora de casa, por que não?! E outra, pai: se a vida está tão difícil aqui na capital, por que o senhor não ficou lá no interior? Deixa de ser caxias, poxa!“. Olha quanto desaforo! Confesso que fiquei magoado com o que ouvi. Como ele pode achar que eu estou esbanjando?! São coisas necessárias para manter o bem-estar. E pensar que há bem pouco tempo este mesmo filho, logo que eu recebi a promoção para trocar de cidade, me disse: “pai, você é massa!“. Não gosto de falar grosso e muito menos de surrar meu guri, mas desta vez tive que me impor. Dei uma brigada, mandei ele para o quarto e decidi que meu pacote estava decretado.  

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