Bandido bom é o bandido da “selfie” no aeroporto

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Eike Batista “surgiu” para o brasileiro médio no Carnaval de 1998, quando a modelo Luma de Oliveira usou uma coleira com o nome dele, seu marido na época, em plena Sapucaí. Em seguida, caiu na boca do povo como sinônimo de alguém muito rico e de vida mansa. Pois o empresário foi do céu ao inferno quando acabou preso na última semana, envolvido na Operação Lava-Jato – acusado de corrupção e pagamento de US$ 16,5 milhões em propina ao ex-governador do Rio, Sergio Cabral. Como tudo no país, o fato é encarado com chacotas, do tipo: “estou melhor que o Eike Batista“. Por outro lado, há quem finja que nunca foi próximo dele, ou simplesmente o admirou. Eu entendo: é triste ver quebrar o pedestal.

O prefeito de São Paulo, João Dória Júnior (PSDB), por exemplo, apagou tuítes de 2012 em que elogiava o amigo (assim classificado pelo antigo apresentador de televisão durante uma entrevista): “Se privatizar e Eike administrar, vai melhorar!“, dizia em um dos tuítes. Já o ainda apresentador de TV (e por enquanto não-político) Luciano Huck manteve seu recado de 2009 na mesma rede social: “Vale um parabens especial para Eike Batista, Eduardo Paes e Sergio Cabral. Só somando forças é possível construir um Rio mais justo.“. Aliás, a Revista Veja também largou o osso quando ele ficou pesado. Mas antes apresentou-o em matérias de capa, sob títulos como o de 2008: “Nasce o maior bilionário brasileiro“. Mas foi mais longe ainda quando em 2012 comparou-o a Deng Xiaoping, ministro do Partido Comunista, que inseriu o capitalismo na China, e cunhou a frase “enriquecer é glorioso“. Aliás, na matéria, a Veja apresenta Eike comoídolo, trabalha muito, compete honestamente, orgulha-se de gerar empregos e não se envergonha da riqueza“. Realmente, deve ser difícil passar uma tinta cinza sobre essas manchas eternizadas graças à internet.

Por vê-lo cair tão drasticamente, é fácil se compadecer do ex-bilionário. Colunista do jornal Zero Hora, David Coimbra admite que ficou “com pena do Eike“. Só de imaginar os cubículos onde ele será jogado, com pouca água e luz, à base de arroz e feijão, e à mercê da violência, eu sinceramente me compadeço também. Acontece que meu sentimento não se restringe a Eike. Poderia ser até o filho dele (Thor), absolvido após atropelar e matar um ciclista em Duque de Caxias/RJ, em 2012. Lamento quando qualquer um cai nas garras do nosso falido sistema prisional, onde celas são masmorras, e todo ser humano sai mais degenerado do que entrou. Não, não quero trazê-los para minha casa. Nem Eike, nem o ladrão de celular que é amarrado a um poste e espancado até a morte, enquanto a polícia não chega. Nem o traficante, que enriqueceu de maneira ilícita, sem ao menos receber uma capa de revista o enaltecendo. Nem o empresário que sonega impostos, mas sequer é festejado por apresentadores de televisão nas redes sociais. Quero o mesmo tratamento para todos, sem tortura para nenhum. Quero dignidade para todos eles. Punição, sim. Mas com métodos educacionais. Não posso fazer nada se para alguns o bandido bom merece ser morto, mas dependendo do bandido, merece “selfie” no aeroporto.

Ópio para quem não vê além das quatro linhas

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Confesso, sou um apaixonado pelas questões táticas do futebol. Muito mais curioso e fã de quem possui o conhecimento, do que propriamente dono do conhecimento. Mesmo assim, não excluo as questões humanas que permeiam o esporte. Não só a qualidade técnica do atleta, mas principalmente o ambiente onde ele está inserido. Desta forma, divido minhas leituras futebolísticas entre análises táticas e biografias. Por esse caminho, caiu em minhas mãos um livro chamado “Além das Quatro Linhas”. Ok, ele foi escrito por um amigo jornalista: Roberto Jardim. Mas mesmo que não fosse, não teria problemas em elogiar: que belas histórias contadas ali!

O nome do livro fala por si só. São cinco histórias, em formato de texto jornalístico, que vão além do resultado e da bola na rede. Narram fatos verídicos que envolveram o futebol e a política. A mim, dois contos chamaram a atenção. O primeiro, em que um repórter brasileiro exilado no Chile usa a camisa do Corinthians como moeda de troca para salvar vidas de perseguidos pela ditadura militar. E o segundo, em especial, o título do pequeno Defensor Sporting em meio à turbulência militar uruguaia – rompendo a lógica binária dos gigantes Peñarol e Nacional. Foi uma equipe transgressora em todos os moldes, ao imprimir um futebol de muita intensidade e movimentação, onde não havia craques, mas um conjunto em prol do bem maior. Tal qual exigia a luta pela volta da democracia dos movimentos revolucionários de Montevidéu e arredores.

O futebol pode ser o “ópio do povo”, como escreveu Nelson Rodrigues, para quem quiser tê-lo neste formato. Pode entorpecer quem quer ser entorpecido. Para quem quer sentar na arquibancada ou em frente à TV para simplesmente torcer, deixar o tempo correr, enquanto esquece dos verdadeiros problemas do mundo. Já diria o técnico italiano Arrigo Sacchi: “O futebol é a coisa mais importante dentre as coisas menos importantes“. E é fato! Da mesma forma que pode ser usado como instrumento de propaganda a um governo autoritário (aos moldes da ditadura militar e o pensamento mítico do “onde a ARENA vai mal, mais um time no Nacional“); o futebol serve também como expressão cultural e, portanto, política. O que dizer de Sócrates e a Democracia Corinthiana? Ou de Johan Cruyff como produto da liberdade cultural holandesa no final dos anos 60? Do próprio Barcelona, que precisava “peitar” o time da coroa – o Real Madrid – para se afirmar como identidade catalã? Do atacante chileno Carlos Caszely, que teve a mãe torturada por se negar a cumprimentar Pinochet após a classificação à Copa de 74? Em seu livro, Roberto Jardim dá mais uma amostra que o ópio está aí para quem quer ter ópio. Pois o futebol oferece outras percepções de mundo além das quatro linhas.

Duvide principalmente dos que beatificam Teori Zavascki

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Não é só bandido morto que vira bandido bom. O senso comum ordena que toda e qualquer pessoa morta vire boa. O jogador que não fardava no seu time e você vaiava, morto de maneira trágica, vira um ótimo atleta. O jornalista obsoleto e nada adaptado à tecnologia, vira um mestre da comunicação ao falecer. Se esta pessoa morre no auge da existência, em meio a um grande trabalho, torna-se um semideus. Somos assim. Inclinados primeiramente pelo respeito aos familiares que ficaram e, depois, pela questão emocional, colocamos os mortos em um pedestal. A morte tudo perdoa. Mas ainda há os cínicos. Aqueles que preferem esconder a indiferença (ou até mesmo o ódio) por conveniência. E é assim que Teori Zavascki será tratado a partir de agora. Obviamente, admirado por muitos pela forma como conduzia suas ações, estando como relator da Operação Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal (STF).

Ao determinar a prisão do senador Delcídio do Amaral (PT-MS), Teori certamente irritou os petistas. Mas foi além da dicotomia política ao fazer o mesmo com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Depois, ao recriminar o juiz Sérgio Moro pelas gravações telefônicas da então presidente Dilma Rousseff com o ex-presidente Lula, virou alvo de protestos de setores da direita. O Movimento Brasil Livre (MBL) chegou a estender uma faixa em frente ao seu prédio em Porto Alegre, chamando-o de “pelego do PT“. E o que dizer da conversa gravada entre Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, e Romero Jucá, ex-senador e ministro? Machado insinuava que alguém precisava “estancar a sangria” da Lava-Jato, buscando alguém com “ligação com o Teori“. A resposta de Jucá era nítida: “Não tem. É um cara fechado, foi ela (Dilma) que botou, um cara… Burocrata da… Ex-ministro do STJ“. E agora, o que será que Jucá, MBL e outros teriam a dizer sobre o ministro do STF, morto em um acidente de avião em Paraty? Dizer neste momento que se trata de um atentado, sem investigações sérias e profundas, seria inconsequência. Porém, não dá para esconder que a morte daquele que avaliava a lista de delações da Odebrecht é, no mínimo, conveniente para quem tinha interesses escusos.

Por isso, tento não me compadecer por qualquer que seja o discurso póstumo proferido a ele. É preciso atenção para não ser ludibriado por falsas emoções. Algumas declarações soam mais falsas do que a estátua de Joana D’Arc dentro da Catedral de Notre-Dame. Sim, a bruxa e herege francesa, queimada viva em um ritual religioso depois de ser considerada presa política em Paris, acabou sendo beatificada e canonizada pela mesma Igreja que foi cúmplice de seu assassinato. O cinismo póstumo nunca saiu de moda.

Nós, homens, temos de deixar de ser gaiolas

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O filme não é de agora (na verdade, 2006), mas só fui assistir hoje. Falo de ‘Les Amants Du Flore‘, ou “Os Amantes do Café Flore“. A história é conhecida e verídica: trata do romance entre Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre. E embebido do clima filosófico, peguei-me refletindo sobre o quanto os homens tratam as mulheres como passarinhos. Primeiro, escolhem entre os mais bonitos. Apaixonam-se por suas plumagens, cantos, estilo de voo. E em seguida, aprisionam-os em gaiolas. Às vezes, cortam-lhes até as asas para não voarem mais. Preferem vê-los ali, enclausurados e ao alcance, mesmo que tristes. As aves perdem as penas, param de cantar, deixam de ser livres. E aí, se não morrem, são abandonadas porque não têm mais aquilo que chamava a atenção de seu dono. Ora, mas quem lhe privou de tudo?

Se não entendeu no quê a analogia das aves tem a ver com o filme francês, explico. Acontece que o casal de filósofos citados acima decidiu ter um relacionamento aberto por toda a vida. Ou seja, polígamo. Aliás, sequer foram casados. Jamais moraram juntos também. Eram parceiros de estudos e de sexo. No entanto, não proibiam-se de ter outros casos amorosos. Foi uma condição imposta pelo professor de filosofia Sartre, que anarquicamente confrontava as instituições – entre elas, o “casamento burguês“. Ouviu um sim da parceira, que também resolveu alçar seus “voos independentes”, incluindo com mulheres. Tiveram outros pares, moraram tempos fora de seu país, mas sempre voltavam para o velho ninho – vizinhos de porta, um do outro. Mortos na década de 80 (com seis anos de diferença), seus restos mortais repousam no mesmo túmulo, no Cemitério de Montparnasse, em Paris.

Enfim, não é preciso ser polígamo para compreender e respeitar a história do casal. No mínimo, serve para questionar a relação que nós, homens, temos com as mulheres. Você conhece algum marido que se intrometeu e até proibiu a esposa de trabalhar? E uma mulher que deixou de estudar para ser mãe e cuidar do lar? E se a sua noiva/namorada gosta de beber, você permite? O número de vezes que você saiu para se divertir com seus amigos é igual ao que ela fez o mesmo? E se ela gosta de dançar, ela dança? Não precisa ser necessariamente com você! E na hora do sexo, você se esmera em fazê-la chegar a um orgasmo, ou apressa-se em gozar, vira para o lado e dorme? Graças ao seu livro de maior fama, “O Segundo Sexo”, Beauvoir nos faz pensar na igualdade entre homens e mulheres – seja na expressão sexual, social ou profissional. Não à toa, é um ícone do feminismo. E é isso que o feminismo exige: a igualdade entre os sexos. Responda: você, homem, prende o passarinho na gaiola também ou deixa-o livre para voar e voltar sempre que quiser? Este é o verdadeiro amor.

Como se fala Carandiru em holandês?

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Sejamos sinceros: o massacre no presídio de Manaus foi relativizado pela população brasileira. Em tempos onde a frase “direitos humanos para humanos direitos” é proferida mais do que ‘bom dia’, ignora-se o fato de que 56 pessoas foram brutalmente assassinadas pelo simples fato de que se tratavam de presidiários. São vidas! E foi o maior massacre deste tipo desde o Carandiru, em São Paulo – onde 111 detentos foram mortos em 1992 após confronto com a polícia. Por isso, já passou da hora de repensar o sistema carcerário no Brasil. A Holanda seria um belo exemplo a ser estudado.

Com o objetivo claro de ressocializar o preso, o país europeu vem fechando prisões nas últimas duas décadas – algumas viraram postos de triagem para refugiados ou até hotéis de luxo. Acontece que, ao invés de ficarem trancafiados com tempo ocioso, os detentos holandeses passam por cursos profissionalizantes (culinária, costura, etc) e são devolvidos à sociedade após o cumprimento da pena. Com isso, a taxa de reincidência é baixíssima – cerca de 10%, enquanto que no Reino Unido ou Estados Unidos (maior população carcerária do mundo) a porcentagem é de 50%. É melhor nem falar no Brasil! E antes que você pense que aqui isso não daria certo, é preciso compreender quem está dentro das cadeias. O sujeito com psicopatia precisa de tratamento médico e psicológico. E os traficantes? Bom, aí está o grande diferencial entre Brasil e Holanda.

Enquanto as casas de detenções brasileiras transformam o ‘aviãozinho’ em ‘patrão da boca’ e o ‘patrão da boca’ em ‘mafioso’, os holandeses cortaram o mal pela raiz. Viciados são questão de saúde: precisam ser medicados e acompanhados psicologicamente. E vendedores são legalizados. Sim, o simples fato de permitir a venda de maconha em pubs já reduziu consideravelmente o poder dos traficantes. Logo, não está se “financiando o crime organizado“, como também argumentam os conservadores brasileiros. Tais medidas fazem com que o fluxo nos presídios seja amenizado. Não há briga entre facções, como o PCC (Primeiro Comando da Capital), que causou a chacina manauara. Também não basta privatizar presídios como defendem alguns, já que a lógica destes seria obter lucro, encarcerando cada vez mais gente e estimulando a construção de novos prédios – o presídio de Manaus era privado, por exemplo. Tampouco se solucionará o problema se o Estado providenciar novas construções, como se preocupa o governo Sartori no Rio Grande do Sul. Darcy Ribeiro, antropólogo e político brasileiro, foi muito feliz quando na década de 80 decretou que se o país não investisse em educação naquele momento, estaria fadado a construir novos presídios em 20 anos. Estes 20 anos passaram. Não adianta mais dar murro em ponta de faca. A lógica brasileira está falida. É mais fácil mudar o que se está fazendo e não vem obtendo resultado, do que convencer os holandeses de que o ‘modelo Carandiru’ está correto.