Como se fala Carandiru em holandês?

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Sejamos sinceros: o massacre no presídio de Manaus foi relativizado pela população brasileira. Em tempos onde a frase “direitos humanos para humanos direitos” é proferida mais do que ‘bom dia’, ignora-se o fato de que 56 pessoas foram brutalmente assassinadas pelo simples fato de que se tratavam de presidiários. São vidas! E foi o maior massacre deste tipo desde o Carandiru, em São Paulo – onde 111 detentos foram mortos em 1992 após confronto com a polícia. Por isso, já passou da hora de repensar o sistema carcerário no Brasil. A Holanda seria um belo exemplo a ser estudado.

Com o objetivo claro de ressocializar o preso, o país europeu vem fechando prisões nas últimas duas décadas – algumas viraram postos de triagem para refugiados ou até hotéis de luxo. Acontece que, ao invés de ficarem trancafiados com tempo ocioso, os detentos holandeses passam por cursos profissionalizantes (culinária, costura, etc) e são devolvidos à sociedade após o cumprimento da pena. Com isso, a taxa de reincidência é baixíssima – cerca de 10%, enquanto que no Reino Unido ou Estados Unidos (maior população carcerária do mundo) a porcentagem é de 50%. É melhor nem falar no Brasil! E antes que você pense que aqui isso não daria certo, é preciso compreender quem está dentro das cadeias. O sujeito com psicopatia precisa de tratamento médico e psicológico. E os traficantes? Bom, aí está o grande diferencial entre Brasil e Holanda.

Enquanto as casas de detenções brasileiras transformam o ‘aviãozinho’ em ‘patrão da boca’ e o ‘patrão da boca’ em ‘mafioso’, os holandeses cortaram o mal pela raiz. Viciados são questão de saúde: precisam ser medicados e acompanhados psicologicamente. E vendedores são legalizados. Sim, o simples fato de permitir a venda de maconha em pubs já reduziu consideravelmente o poder dos traficantes. Logo, não está se “financiando o crime organizado“, como também argumentam os conservadores brasileiros. Tais medidas fazem com que o fluxo nos presídios seja amenizado. Não há briga entre facções, como o PCC (Primeiro Comando da Capital), que causou a chacina manauara. Também não basta privatizar presídios como defendem alguns, já que a lógica destes seria obter lucro, encarcerando cada vez mais gente e estimulando a construção de novos prédios – o presídio de Manaus era privado, por exemplo. Tampouco se solucionará o problema se o Estado providenciar novas construções, como se preocupa o governo Sartori no Rio Grande do Sul. Darcy Ribeiro, antropólogo e político brasileiro, foi muito feliz quando na década de 80 decretou que se o país não investisse em educação naquele momento, estaria fadado a construir novos presídios em 20 anos. Estes 20 anos passaram. Não adianta mais dar murro em ponta de faca. A lógica brasileira está falida. É mais fácil mudar o que se está fazendo e não vem obtendo resultado, do que convencer os holandeses de que o ‘modelo Carandiru’ está correto.

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