Nós, homens, temos de deixar de ser gaiolas

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O filme não é de agora (na verdade, 2006), mas só fui assistir hoje. Falo de ‘Les Amants Du Flore‘, ou “Os Amantes do Café Flore“. A história é conhecida e verídica: trata do romance entre Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre. E embebido do clima filosófico, peguei-me refletindo sobre o quanto os homens tratam as mulheres como passarinhos. Primeiro, escolhem entre os mais bonitos. Apaixonam-se por suas plumagens, cantos, estilo de voo. E em seguida, aprisionam-os em gaiolas. Às vezes, cortam-lhes até as asas para não voarem mais. Preferem vê-los ali, enclausurados e ao alcance, mesmo que tristes. As aves perdem as penas, param de cantar, deixam de ser livres. E aí, se não morrem, são abandonadas porque não têm mais aquilo que chamava a atenção de seu dono. Ora, mas quem lhe privou de tudo?

Se não entendeu no quê a analogia das aves tem a ver com o filme francês, explico. Acontece que o casal de filósofos citados acima decidiu ter um relacionamento aberto por toda a vida. Ou seja, polígamo. Aliás, sequer foram casados. Jamais moraram juntos também. Eram parceiros de estudos e de sexo. No entanto, não proibiam-se de ter outros casos amorosos. Foi uma condição imposta pelo professor de filosofia Sartre, que anarquicamente confrontava as instituições – entre elas, o “casamento burguês“. Ouviu um sim da parceira, que também resolveu alçar seus “voos independentes”, incluindo com mulheres. Tiveram outros pares, moraram tempos fora de seu país, mas sempre voltavam para o velho ninho – vizinhos de porta, um do outro. Mortos na década de 80 (com seis anos de diferença), seus restos mortais repousam no mesmo túmulo, no Cemitério de Montparnasse, em Paris.

Enfim, não é preciso ser polígamo para compreender e respeitar a história do casal. No mínimo, serve para questionar a relação que nós, homens, temos com as mulheres. Você conhece algum marido que se intrometeu e até proibiu a esposa de trabalhar? E uma mulher que deixou de estudar para ser mãe e cuidar do lar? E se a sua noiva/namorada gosta de beber, você permite? O número de vezes que você saiu para se divertir com seus amigos é igual ao que ela fez o mesmo? E se ela gosta de dançar, ela dança? Não precisa ser necessariamente com você! E na hora do sexo, você se esmera em fazê-la chegar a um orgasmo, ou apressa-se em gozar, vira para o lado e dorme? Graças ao seu livro de maior fama, “O Segundo Sexo”, Beauvoir nos faz pensar na igualdade entre homens e mulheres – seja na expressão sexual, social ou profissional. Não à toa, é um ícone do feminismo. E é isso que o feminismo exige: a igualdade entre os sexos. Responda: você, homem, prende o passarinho na gaiola também ou deixa-o livre para voar e voltar sempre que quiser? Este é o verdadeiro amor.

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