Duvide principalmente dos que beatificam Teori Zavascki

joana-darc
Não é só bandido morto que vira bandido bom. O senso comum ordena que toda e qualquer pessoa morta vire boa. O jogador que não fardava no seu time e você vaiava, morto de maneira trágica, vira um ótimo atleta. O jornalista obsoleto e nada adaptado à tecnologia, vira um mestre da comunicação ao falecer. Se esta pessoa morre no auge da existência, em meio a um grande trabalho, torna-se um semideus. Somos assim. Inclinados primeiramente pelo respeito aos familiares que ficaram e, depois, pela questão emocional, colocamos os mortos em um pedestal. A morte tudo perdoa. Mas ainda há os cínicos. Aqueles que preferem esconder a indiferença (ou até mesmo o ódio) por conveniência. E é assim que Teori Zavascki será tratado a partir de agora. Obviamente, admirado por muitos pela forma como conduzia suas ações, estando como relator da Operação Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal (STF).

Ao determinar a prisão do senador Delcídio do Amaral (PT-MS), Teori certamente irritou os petistas. Mas foi além da dicotomia política ao fazer o mesmo com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Depois, ao recriminar o juiz Sérgio Moro pelas gravações telefônicas da então presidente Dilma Rousseff com o ex-presidente Lula, virou alvo de protestos de setores da direita. O Movimento Brasil Livre (MBL) chegou a estender uma faixa em frente ao seu prédio em Porto Alegre, chamando-o de “pelego do PT“. E o que dizer da conversa gravada entre Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, e Romero Jucá, ex-senador e ministro? Machado insinuava que alguém precisava “estancar a sangria” da Lava-Jato, buscando alguém com “ligação com o Teori“. A resposta de Jucá era nítida: “Não tem. É um cara fechado, foi ela (Dilma) que botou, um cara… Burocrata da… Ex-ministro do STJ“. E agora, o que será que Jucá, MBL e outros teriam a dizer sobre o ministro do STF, morto em um acidente de avião em Paraty? Dizer neste momento que se trata de um atentado, sem investigações sérias e profundas, seria inconsequência. Porém, não dá para esconder que a morte daquele que avaliava a lista de delações da Odebrecht é, no mínimo, conveniente para quem tinha interesses escusos.

Por isso, tento não me compadecer por qualquer que seja o discurso póstumo proferido a ele. É preciso atenção para não ser ludibriado por falsas emoções. Algumas declarações soam mais falsas do que a estátua de Joana D’Arc dentro da Catedral de Notre-Dame. Sim, a bruxa e herege francesa, queimada viva em um ritual religioso depois de ser considerada presa política em Paris, acabou sendo beatificada e canonizada pela mesma Igreja que foi cúmplice de seu assassinato. O cinismo póstumo nunca saiu de moda.

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