Ópio para quem não vê além das quatro linhas

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Confesso, sou um apaixonado pelas questões táticas do futebol. Muito mais curioso e fã de quem possui o conhecimento, do que propriamente dono do conhecimento. Mesmo assim, não excluo as questões humanas que permeiam o esporte. Não só a qualidade técnica do atleta, mas principalmente o ambiente onde ele está inserido. Desta forma, divido minhas leituras futebolísticas entre análises táticas e biografias. Por esse caminho, caiu em minhas mãos um livro chamado “Além das Quatro Linhas”. Ok, ele foi escrito por um amigo jornalista: Roberto Jardim. Mas mesmo que não fosse, não teria problemas em elogiar: que belas histórias contadas ali!

O nome do livro fala por si só. São cinco histórias, em formato de texto jornalístico, que vão além do resultado e da bola na rede. Narram fatos verídicos que envolveram o futebol e a política. A mim, dois contos chamaram a atenção. O primeiro, em que um repórter brasileiro exilado no Chile usa a camisa do Corinthians como moeda de troca para salvar vidas de perseguidos pela ditadura militar. E o segundo, em especial, o título do pequeno Defensor Sporting em meio à turbulência militar uruguaia – rompendo a lógica binária dos gigantes Peñarol e Nacional. Foi uma equipe transgressora em todos os moldes, ao imprimir um futebol de muita intensidade e movimentação, onde não havia craques, mas um conjunto em prol do bem maior. Tal qual exigia a luta pela volta da democracia dos movimentos revolucionários de Montevidéu e arredores.

O futebol pode ser o “ópio do povo”, como escreveu Nelson Rodrigues, para quem quiser tê-lo neste formato. Pode entorpecer quem quer ser entorpecido. Para quem quer sentar na arquibancada ou em frente à TV para simplesmente torcer, deixar o tempo correr, enquanto esquece dos verdadeiros problemas do mundo. Já diria o técnico italiano Arrigo Sacchi: “O futebol é a coisa mais importante dentre as coisas menos importantes“. E é fato! Da mesma forma que pode ser usado como instrumento de propaganda a um governo autoritário (aos moldes da ditadura militar e o pensamento mítico do “onde a ARENA vai mal, mais um time no Nacional“); o futebol serve também como expressão cultural e, portanto, política. O que dizer de Sócrates e a Democracia Corinthiana? Ou de Johan Cruyff como produto da liberdade cultural holandesa no final dos anos 60? Do próprio Barcelona, que precisava “peitar” o time da coroa – o Real Madrid – para se afirmar como identidade catalã? Do atacante chileno Carlos Caszely, que teve a mãe torturada por se negar a cumprimentar Pinochet após a classificação à Copa de 74? Em seu livro, Roberto Jardim dá mais uma amostra que o ópio está aí para quem quer ter ópio. Pois o futebol oferece outras percepções de mundo além das quatro linhas.

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