A greve não é culpa do grevista

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Está no artigo 9º da Constituição Federal: “É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender“. Mas, ao mesmo tempo, no artigo 142 (que diz respeito às Forças Armadas), no inciso IV, diz-se que “ao militar são proibidas a sindicalização e a greve“. Então, qual a saída para policiais militares que reclamam pelo atraso, parcelamento ou até defasagem de salários? O aquartelamento. Já aconteceu em Porto Alegre, e agora se passa no Estado do Espírito Santo, onde a frase “a ocasião faz o ladrão” está sendo posta em prática de maneira literal. Sem poder manifestar sua indignação, policiais militares ficam nos quartéis, enquanto seus familiares se mobilizam em frente às guarnições, impedindo suas saídas para as ruas. Sem policiamento, estourou uma onda de saques e assaltos sem precedentes. A culpa é de quem?
1) Dos policiais militares
2) Dos familiares
3) Do governo que não valoriza seu servidor público
Bingo para quem assinalou a alternativa três. Mas não se sinta mal se você ficou entre as duas primeiras. O senso comum brasileiro atribui ao grevista o carimbo de vagabundo. Você só faz parte da maioria egoísta. Acontece que greve “é coisa de vagabundo e desocupado” até chegar na sua vez de se indignar.

Quando tiveram seus salários parcelados pelo governo gaúcho, os professores e demais servidores públicos foram os primeiros a saltar da cadeira. Foram para as ruas, mostrar ao restante da cidade as dificuldades pelas quais estavam passando. Qual foi a resposta da sociedade? “Vagabundos!” As buzinas tocavam insistentemente, pois as manifestações atrapalhavam o trânsito. Eis que chegou o dia em que o prefeito eleito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Júnior (PSDB), anunciou que os dias dos cobradores de ônibus estão contados, que terão de procurar outro lugar para trabalhar. Assustados, os rodoviários resolveram se manifestar. Nem houve uma paralisação por completo, mas apenas a famosa “Operação Tartaruga“, onde os veículos trafegam vagarosamente. Mesmo assim, ouviram: “Bando de vagabundos!

E se algum bancário estava esperando o ônibus e se atrasou para o trabalho? Certamente, não poderia ter se manifestado com raiva. Até porque já deve ter ouvido críticas de alguém que chegou para sacar dinheiro e se deparou com um cartaz colado na vidraça do banco: “Estamos em greve“. E o aposentado que foi sacar seu parco e parcelado salário? Ah, esse é o único que não tem o direito à greve assegurado. Mas com certeza vai reclamar do ônibus, do banco, da polícia e das manifestação pelas ruas. Geralmente, insuflado pelos radialistas/jornalistas que vociferam nos microfones contra a desordem social. Até que chega o dia em que o salário destes também atrasa – como aconteceu na Super Rádio Tupi, do Rio de Janeiro, onde os comunicadores resolveram entrar em greve e tirar a rádio do ar por tempo indeterminado. Mas não fiquem apreensivos! Quando o dinheiro voltar a pingar na conta, não faltarão brados contra a greve e protestos dos outros: “Tem que descer a borracha nesses desocupados!” Aí voltamos ao policial militar, que é chamado para acabar com as manifestações desses “grevistas vagabundos“. E está estabelecida a ordem e o progresso – pelo menos até o próximo insatisfeito se sentir no direito de entrar em greve.

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