O que os olhos do brasileiro não veem, o coração do brasileiro não sente

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Abro uma matéria sobre a prisão de um delegado de polícia de Porto Alegre, suspeito por financiar quadrilhas de roubos de carga, receptação e estelionato. Eis que me deparo com os comentários no fim da matéria: “Só uma intervenção militar salvaria o Brasil. Geisel tinha razão“, dizia um deles. Não passou em nenhum momento pela cabeça dele (e de tantos outros cidadãos saudosistas da ditadura) que, acontecesse um caso como este dentro de um governo militar, jamais seria noticiado – ou sequer preso? Será que eles realmente acreditam que o Brasil foi feito de flores de 1964 a 1985? Que ninguém desviou verba pública, que nenhum empreiteiro enriqueceu, que todos governadores biônicos e deputados foram investigados e absolvidos de casos de corrupção? Não é mais fácil concluir que, com a censura dos meios de comunicação, nenhuma notícia que fizesse as bases do governo tremerem, poderia ser publicada? Logo, vou além: o brasileiro não é contra a corrupção, ele prefere é não ficar sabendo dela.

bazarCaso escrachado é este da nomeação do ex-Ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, ao Supremo Tribunal Federal (STF). Sinceramente, ninguém relaciona tudo o que está acontecendo à gravação da conversa entre Romero Jucá e Sérgio Machado? Aquela mesma conversa em que eles chamam a Operação Lava-Jato de “sangria que precisa ser estancada“. Pois naquele mesmo papo informal, falam em um “grande acordo nacional“… “Com o Supremo, com tudo” e “aí parava tudo“. Se existisse um mapa do golpe político que foi posto em prática, ali estão todos os passos a serem seguidos: tirar Dilma Rousseff e colocar Michel Temer, aparelhar o STF e, por fim, dar cabo das investigações. Já que desde 2013 se fazem passeatas contra a corrupção no Brasil, por que mais ninguém se importa com as acusações e com a clara tentativa de obstruir as investigações?

Por isso, concluo que o brasileiro médio não se importa com a corrupção de fato. Ele prefere mesmo é nem ficar sabendo. É o velho provérbio popular: “O que os olhos não veem, o coração não sente“. Se as investigações pararem, não há desvio de verba e nem enriquecimento ilícito passando no noticiário. E se os militares voltarem, a censura vai nos salvar ainda mais, porque o acordo não estará somente com o STF, mas com a imprensa e com tudo – abaixo de ameaças, é claro. Aí sim poderíamos viver no país das maravilhas, onde delegados não formam quadrilhas, soldados não formam milícias, políticos são íntegros e vagabundo não tem vez.

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