Goleiro Bruno e a espetacularização do ex-presidiário ao invés da ressocialização

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O roteiro é digno de Anthony Burgess e poderia ser uma continuidade da sua maior obra: ‘A Clockwork Orange’ (Laranja Mecânica, em português). Nem seria tão bem filmado por Stanley Kubrick como a vida real apresentou. A contratação do goleiro Bruno, ex-Flamengo, pelo clube mineiro Boa Esporte, é o espetáculo do grotesco. Não há nada de ressocialização ali. Para quem não lembra, Bruno foi condenado a 22 anos e 3 meses por ter mandado matar Eliza Samudio, mãe de seu filho – homicídio triplamente qualificado, sequestro e cárcere privado. No entanto, recorreu e, a partir da decisão do ministro do STF, Marco Aurélio Mello, ganhou habeas corpus para aguardar em liberdade o julgamento em segunda instância. A história por si só já seria absurda, eis que aparecem vários clubes interessados em contratá-lo.

Sou um defensor da ressocialização de presos. Acredito que, na maioria dos casos (com exceção à psicopatia), o ex-presidiário tem de ser reinserido na sociedade, ter direito a um emprego e não sofrer preconceito por seu passado pregresso. Desde que, obviamente, esteja arrependido do que fez e passe por um acompanhamento psicológico. Contudo, no caso de Bruno, sua contratação agora serve apenas como marketing ao clube – uma promoção de imagem grotesca, diga-se de passagem! Sim, pois não podemos acreditar que um clube de futebol realmente leva a sério a contratação de um atleta que há 7 anos não pratica esportes. Logo, Bruno deixou de ser um atleta. Se a intenção do presidente do clube era estender a mão e ajudar o ser humano, faria sem alardes. Poderia inclusive contratá-lo como preparador de goleiros, quem sabe. Não quero a prisão perpétua e nem a morte de Bruno. Nem sei qual sua escolaridade, mas no caso de não haver curso técnico ou superior como na maioria dos jogadores brasileiros, existem tantas outras funções que ele poderia exercer inicialmente no mundo do futebol: segurança, roupeiro, faxineiro, cortador de grama, etc. Não a de goleiro, que deixou de praticar há sete anos! Portanto, para o clube, anunciá-lo com pompas é uma maneira de usar em benefício próprio o holofote que Bruno já teria por si só. Além disso, possibilita que ele mantenha o status de ídolo, batendo “selfies” com desmiolados pelo país afora. Convenhamos, grotesco e vergonhoso!

O caso do goleiro Bruno é a prova viva de que o Brasil é um país machista. A postura da imprensa esportiva, na sua maioria formada por homens, também decepciona. É impossível tratar com normalidade que um cidadão que responde por assassinato de uma mulher seja encarado como atleta – mesmo que não pratique futebol profissionalmente há quase uma década. Dos programas de TV sensacionalistas, nem posso reclamar. Eles já se alimentam do fútil e grotesco normalmente, interessando-se muito mais pelo que Bruno vai almoçar ou vestir no seu retorno às ruas do que no desenrolar jurídico do caso e o que ele tem a dizer sobre o desaparecimento de sua ex-amante. Aliás, não sobraram comentários incriminando Eliza desde o ocorrido, em 2010: “ela também não era santa!“, “era Maria Chuteira!“, “fez até filme pornô!“, “ela extorquiu dinheiro dele!“. Nada disso justifica. Já ao Bruno, o pensamento é amenizador. Foi um bom goleiro, então pouco importa o que ele fez desde que seja útil ao futebol. Afinal de contas, “quem nunca saiu na mão com a sua mulher?” (como indagou o próprio em entrevista coletiva nos tempos de Flamengo).

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