Como foi bom nós dois!

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Talvez eu não tenha a mesma habilidade da Milly Lacombe em comparar o término de um relacionamento com a morte de uma estrela. Mesmo assim, precisava externar (e tentar mostrar para nós mesmos) o quanto a concepção de casamento está errada. O “viveram felizes para sempre” é o que nos fode. Não somos os príncipes e princesas da Disney. Ninguém é. Somos apenas as crianças que cresceram lendo estes livros. E os leitores sofrem, se apaixonam, caem no marasmo e sentem vontade de se apaixonar de novo. Quem disse que nosso relacionamento deu errado? Demos foi muito certo! Curtimo-nos durante sete anos. Sete! Número cabalístico, ainda por cima. E como escreveu Vinícius de Moraes – que viveu ao pé da letra tudo isso nos seus tantos amores -, fomos eternos enquanto duramos.

Quando olho para trás, lembro do quanto me fizeste evoluir como homem e ser humano. Dos ‘papos-cabeça’ que tivemos nas mesas dos bares – nem sempre concordando um com o outro. Aliás, debater contigo foi meu melhor exercício para aceitar o quanto o outro pode ser diferente. E algumas vezes até me convenceste a ser um pouco mais como tu. Quero levar comigo a recordação dos grandes porres, das comilanças, dos filmes que tu dormiste no meio, das gargalhadas sem sentido, das semanas intensas de sexo, das aventuras pelo mundo, dos amigos que conquistamos, dos inimigos que praguejamos. Teus medos foram meus, minhas raivas foram tuas, minhas camisas te serviram como pijama e as tuas saias foram minha fantasia de Carnaval. E pensar que começamos pelo avesso, né?! Conhecemo-nos prometendo que era proibido se apaixonar – quando eu cheguei no primeiro encontro carregando cerveja e tu me esperavas com vinho, parecia que seria fácil. Mas eu fui fisgado pelo teu gosto musical e ouvi tu balbuciando que me amavas durante o sono. Fiquei feliz por não estar sozinho nesse sentimento e meses depois fomos morar juntos. A pior escolha! Ali quase nos matamos. Brigávamos tanto, eu era tão ciumento e tínhamos um contrato de aluguel a cumprir. Mudamos de casa, adotamos um casal de cachorros na rua, fizemos planos de ter um filho (ou filha), estourei a champagne da tua formatura, me orgulhei da profissional que te tornasse e sei que tens orgulho de mim também. Quando pensaram que éramos o “casal 20”, nos reinventamos! Saíste de casa para morar sozinha, eu concordei e nosso fogo reacendeu! Voltamos a namorar. Permitimo-nos tantas coisas e nos conhecíamos barbaramente. Quando pensaste em outra pessoa, eu descobri quem era porque também achava-o bonito. Quando foi minha vez de querer alguém, tu também descobriste. Estávamos quase um no cérebro do outro, tamanha nossa cumplicidade. Esse foi o nosso fim? Não, só fez parte do processo lindo que nos tornou quase uma pessoa só.

Então como podemos acabar? Simplesmente porque todas as coisas acabam. Lembra do que a Cássia Eller cantou: “que o pra sempre sempre acaba“? Eu não conseguiria viver ao teu lado sendo uma sombra do que fomos. Seria desrespeito com nós mesmos. É como manter um girassol morto no canto da sala só porque um dia ele foi bonito. Dá pena, mas o ciclo da vida é esse: brotamos, florescemos e caímos por terra. E sabe o que é mais incrível? Eu ainda te amo. Vou seguir comemorando tuas conquistas, sorrindo com tua felicidade e sofrendo quando chorares. Nossa saúde mental é que vai dizer o quanto seremos próximos a partir de agora. E é desse jeito que tem que ser. Quantos casais seguem juntos até a morte e não têm a metade do que nós temos? Cruzam pela casa como desconhecidos, se insultam, não trocam carinhos. Eu não queria ficar assim, acomodado numa relação doente, mas cheia de charme para quem vê de fora. Agora dói, eu sei, mas um dia sentaremos para rir disso tudo e concluir sem tristeza: como foi bom nós dois! Não é que quase chegamos lá, nós chegamos e sobrevivemos para contar a história.

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