Brasil, a pátria de luvas de boxe

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Por muito tempo se pensou o seguinte: “ah, se o brasileiro se importasse tanto com político como se importa com futebol, o país não estava desse jeito“. Ledo engano! De uns tempos para cá, os botecos deixaram o Fla-Flu de lado para discutir se Lula sabia ou não da corrupção na Petrobrás. No ponto de táxi, o assunto não é mais o gol perdido pelo atacante, mas a mais nova delação premiada. Ninguém mais critica tanto o juiz que validou um gol com a mão, mas espuma ao ler sobre a última decisão do STF. Arrisco dizer que, desde a reabertura política, o brasileiro nunca se preocupou tanto com política como agora. Acontece que a maneira com que se acompanha o noticiário político é idêntica a como acompanhava o noticiário esportivo: como mero torcedor, cego de raiva ou paixão, sedento pela vitória a qualquer custo. E sei do que estou falando! Como cronista esportivo, sofro cada vez que tento fazer uma análise, tecer uma crítica/elogio a algum jogador, técnico ou clube de futebol. Mesmo que me poste de maneira respeitosa, soa como ofensa ao ouvido do torcedor. Por quê? Porque ele não assiste/lê/ouve, ele digere com o estômago.

Nelson Rodrigues estava errado. O Brasil não é e nunca foi a pátria de chuteiras, mas a pátria das luvas de boxe. Não porque gosta mais deste esporte que do outro, mas porque prefere o embate em si – seja sobre o que for. E tal pensamento não se resume somente ao brasileiro médio. Há jornalistas que também gostam de ver o circo pegar fogo, da discussão rasa. E cito a profissão de jornalista pressupondo que são pessoas com ensino superior completo, portanto capazes de escrever e interpretar textos que fujam do senso comum. Outro engano! Nosso esporte preferido nos impede de colocarmos a razão à frente da emoção, e nos impele a este maniqueísmo pobre que separa um em cada canto do ringue. Exatamente como fizeram na última semana as capas das revistas Veja e IstoÉ (duas das maiores do país). Queria eu ter a segurança de muitos brasileiros e me posicionar contrário/a favor de Lula/Sérgio Moro. Não consigo ver tão somente uma perseguição política na investigação sobre desvios de dinheiro público e influência de poder no mandato do ex-presidente, assim como não consigo aplaudir as ações do juiz que ultrapassam a linha constitucional – como vazamento seletivo de conversas telefônicas. Isso me faz alguém medroso, que fica em cima do muro? É, no mundo raso do futebol costuma se chamar de “muraldino” aquele que não se posiciona sobre um determinado assunto. Logo, como o debate político ganhou ares futebolísticos, virei “muraldino” por não escolher nenhum dos lados.

Mas, como já escrevi antes, o próprio papel da imprensa está enviesado. Como sou jornalista, sei: a isenção é uma mentira. Isso, porém, não quer dizer que vou me comportar como um torcedor de clube de futebol ou como um filiado a partido político. Posso tranquilamente gostar de ver um time jogar em uma determinada temporada por causa de tal metodologia de trabalho, assim como acabo votando em um determinado candidato pela conjuntura ou projetos apresentados. Entretanto, no papel de repórter, não tomo partido. Apenas ouço as partes. Como comentarista, aí sim, devo me posicionar (sem cegueira ou raiva). O problema está no conceito editorial. Como puderam as duas revistas acima citadas colocarem um pré-candidato à presidência prestes a lutar contra um juiz federal? Para facilitar o processo, te convoco a imaginar o seguinte cenário. Teremos a final de um campeonato no final de semana, e o caderno de esportes de um determinado jornal traz o ídolo de um dos times desafiando o árbitro do jogo. Algo como: “D’Alessandro versus Leandro Vuaden” ou “Danrlei contra Carlos Simon“. E o representante do outro time, o outro finalista, está aonde? Este deveria ser o enfoque! Enfim, seria louco (para não dizer parcial) até para os padrões do jornalismo esportivo ver uma capa dessas. Mas, como o futebol já é passado, vamos fazê-lo com a política. E que se rale o noticiário e a análise fria das informações. Queremos mesmo é urrar do lado de fora do ringue até que um dos boxeadores desabe na lona!

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