Injúria racial: condenável dentro e fora do futebol

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Fotos: Lucas Uebel (Grêmio) e Lucas Moraes (Ceará)

Sei que depois da importante vitória sobre a Ponte Preta não faltarão torcedores dizendo que estou tentando ofuscar o resultado, “criando uma crise” no Grêmio. Obviamente, não é o caso. Independente do placar, o debate precisava ser reacendido. O goleiro Aranha foi infeliz ao generalizar, alegando que o povo da região sul tem o racismo como “conceito de vida“. Mas ele não procurou o repórter para dar aquela declaração, não foi de graça, de cabeça fria e para “reviver” de maneira consciente algo que lhe fez mal. Não se pode minimizar o que ele sofre cada vez que pisa na Arena e que neste domingo mais uma vez se repetiu. Bastou seu nome ser anunciado no telão do estádio para que fosse muito vaiado. Era uma vaia simples contra um adversário qualquer? Não. Emerson Sheik, por exemplo, que é a principal referência técnica do time paulista, não recebeu nem a metade dos apupos. Aliás, só vi duas pessoas tornarem-se alvo semelhante ao entrarem no estádio gremista recentemente: D’Alessandro e Ronaldinho Gaúcho. Acontece que Aranha não é ídolo do clube rival, nem tampouco jogou no Grêmio e traiu a confiança do seu antigo torcedor – caso dos outros dois citados. Aranha foi vítima de injúria racial. Graças àquele episódio, o Tricolor acabou punido nos tribunais e eliminado da Copa do Brasil de 2014. Mas não foi o goleiro quem julgou o caso (nem eu!). Por que então ele sofre com vaias anormais cada vez que pisa na Arena? E não me venha com a justificativa de que esse é um comportamento típico do sul ou exclusivo do torcedor gremista. O futebol como um todo permite que isso aconteça!

Há uma semana foi a vez da torcida do Inter usar as mesmas desculpas lidas e ouvidas neste domingo. Ao ver seu zagueiro Victor Cuesta ser acusado de ter chamado de macaco o atacante Elton, do Ceará, o torcedor colorado (em sua maioria) atirou-se cegamente para defendê-lo nas redes sociais. Escrevi no Twitter e falei no microfone que esperava uma apuração severa do clube que se orgulha de ter a inclusão racial em sua história e, se comprovado, o argentino fosse punido. A resposta que recebi é de que não havia provas de vídeo e por isso a acusação era inverídica, que Elton quis aparecer na mídia, e claro: que por ser gremista, eu quis “criar crise” para ofuscar a vitória do Inter. O incidente não deve ter nenhum desenrolar desportivo – como teve o do Grêmio há três anos. Talvez criminal, contra o atleta colorado, sim, por conta da lavratura de um boletim de ocorrência. Mas alguém duvida que, se causar alguma punição, Elton será transformado em vilão no Beira-Rio? O curioso é que, quando o volante Tinga foi vítima de injúrias em um jogo contra os peruanos do Real Garcilaso, todos nós condenamos e nos solidarizamos com o jogador. Ninguém disse que Tinga quis ganhar holofotes com aquilo, por exemplo. Sabe por quê? Simplesmente porque não envolveu nenhum clube gaúcho ou brasileiro. Os “criminosos” eram outros. Ou seja, com distanciamento, a injúria racial é condenável. Mas basta envolver o time do seu coração para surgir o “veja bem…

Ah, no futebol é assim!“. Sim, infelizmente eu sei que o futebol permite o racismo. Assim como permite outros preconceitos, como a homofobia, o machismo, etc – o que não quer dizer que eu concorde com isso. Meu objetivo justamente é propor o debate a fim de mudar o olhar das pessoas. E o cenário já foi pior! Até a década de 1920, muitos clubes sequer permitiam a presença de atletas negros, ou pintavam-os com pó de arroz para disfarçar a melanina do rosto. Alguém deve ter proposto o mesmo debate lá atrás para que a situação melhorasse, não? O escritor Lima Barreto foi talvez o principal denunciante. Admiro-o por isso. Não posso me omitir do debate, por mais antipático que seja. Não concordo com a tese de que a melhor arma para combater o racismo é não falar sobre ele. O fato de não ter ocorrido denúncias de corrupção na época da ditadura militar não faz daquele um período ilibado da política brasileira – mas um período em que não se permitia debater. Não discutir o problema seria só atirar a sujeira para baixo do tapete. Não quero é ser condescendente com o fato de a vítima de injúria racial ser transformada em alvo de vaias. Há um crime ali e precisamos condenar quem o comete. Discordar da punição imposta ao Grêmio é uma coisa, vaiar o Aranha é outra completamente diferente. Se a vítima for se transformar em culpada, cuide-se! Algum dia você pode ser assaltado na arquibancada de um estádio de futebol e, caso denuncie o crime, correrá o risco de ser vaiado por “criar crise no clube” ou “querer aparecer na mídia“. E se a moda pegar na sociedade comum, veremos familiares de criminosos perseguindo as vítimas de seus parentes que acabaram sendo presas por “culpa” delas. Tire a camisa do clube do seu coração, pare e pense. Estamos fazendo certo? Se ainda assim você achar que está com a razão e quiser me incluir no pacote de vaiados ao lado de Aranha, Elton e Tinga, fique à vontade. Só posso lamentar. Mas não vou ser condescendente com a inversão de papeis que vivemos no futebol.

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