Até quando será proibido ser liberal sem ser conservador no Brasil?

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É sempre difícil elogiar um político. Isso porque, mesmo que ele venha a falecer e sua obra ser dada como encerrada, ainda pode surgir uma denúncia passada capaz de manchar seu currículo. Se ele estiver durante o mandato, o risco de elogiá-lo é ainda maior, pois até o final da sua gestão pode cometer um erro crasso. Mesmo assim, vou me arriscar: falta um Justin Trudeau (leia-se Trudô) no Brasil! O jovem primeiro-ministro canadense tem me chamado a atenção por seus atos e declarações – mesmo sendo ele do Partido Liberal. Opa, então eu estou traindo a causa da esquerda, ou será que é ele um mau representante da direita? Nenhum dos dois. O que falta aos liberais brasileiros é a capacidade de se desligar do conservadorismo. Ainda mais em um momento de polarização como vivemos, parece ser proibido ser de direita e ao mesmo tempo progressista. O que vemos é uma geração de jovens de 20 ou 30 anos com discursos retrógrados, que mais parecem de seus avós, ou de um viajante no tempo recém chegado da Guerra Fria. Muitas vezes usei deste espaço para convocar a esquerda a se reinventar, agora farei o mesmo com a direita brasileira.

Com 44 anos, Trudeau assumiu o cargo máximo do Canadá com promessas progressistas e que aos poucos foram colocadas em prática: nomeação igualitária de ministros de ambos os sexos (15 mulheres e 15 homens), políticas sociais favoráveis aos povos indígenas nativos do país, aumento da tributação para os mais ricos, livre recebimento de refugiados e regulamentação da maconha. Suas ideias não vieram do nada. Seu pai, Pierre Trudeau, já havia sido premiê canadense em duas oportunidades (1968 a 1979 e 1980 a 1984), quando defendeu entre outras causas uma sociedade multicultural, reconhecendo como oficial o bilinguismo (inglês e francês), por exemplo. Enfim, ao longo do tempo, seu partido – o Partido Liberal – ainda aprovou outros projetos, como a abolição da pena de morte, a permissão do casamento gay e a implantação de um sistema nacional de saúde (algo como o SUS brasileiro). Tal comportamento faria seus correligionários serem posicionados no espectro político como centro-esquerda – da mesma forma que os sociais-democratas do leste europeu. Entretanto, vá você aplicar tais ideais no Brasil e seria taxado como “radical de esquerda“, “comunista” e “populista”. Por quê? Porque se criou no imaginário popular brasileiro que a política de bem estar social é cara aos cofres do Estado, e que para ser liberal é preciso ser conservador. Em tempos de Trump, Le Pen e Bolsonaro, Trudeau é um sopro de vitalidade a quem é a favor da propriedade privada, do livre mercado, do capitalismo na sua essência, “pero sin perder la ternura“.

E se alguém ainda pensa que Trudeau estaria no Brasil equivalente aos petistas, engana-se. No país norte-americano, este espaço é ocupado pelo Novo Partido Democrático, que ficou em terceiro lugar nas últimas eleições. Aliás, você pode até quebrar a cabeça para achar um Trudeau na política brasileira. Não há! Alguém que defenda o liberalismo sem cair na falsa austeridade de cortes de políticas públicas e sem promover a falsa meritocracia que só escancara as desigualdades sociais existentes. Acontece que até chegar a Justin Trudeau, o Canadá passou quase dez anos (de 2006 a 2015) sob a batuta de Stephen Harper, do Partido Conservador, que entre outros atos rompeu com o Protocolo de Kyoto (tratado internacional para reduzir a emissão de gases que causam o efeito estufa). Ligado às refinarias de petróleo, o ex-premiê promoveu a política de direita que estamos acostumados a ver no Brasil: austeridade econômica e permissividade tributária com grandes empresários. Mesmo assim, o que se viu foi uma lenta recuperação econômica e uma queda abrupta na sua popularidade, que culminaram com a derrota no pleito de 2015. Entretanto, foi quase uma década vivendo sob tais preceitos. Quem sabe é isso que falta aos brasileiros: mais alguns aninhos de conservadorismo para perceberem o quanto isso faz mal e beneficia sempre a casta mais alta da sociedade. Talvez até lá surja alguém dentro dos partidos da dita direita brasileira capaz de parar para pensar: opa, eu não preciso ter preconceito racial, sexual ou de classes para ser liberal!

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