Não é não

 

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Esta noite me senti no Chile em 1988, quando o povo chileno foi às urnas votar em um plebiscito que decidiria se o ditador Augusto Pinochet, que havia assumido a presidência por um golpe de Estado, continuaria no poder pela próxima década, ou voltaria a democracia. A campanha publicitária que seguiu pelo “sim” e pelo “não” virou inclusive tema de filme, com o mexicano Gael García Bernal no papel principal (*foto acima). Estiveram ao lado de Pinochet, o ‘Partido Democrático de Chile’, ‘Partido Liberal Democrata’, ‘Partido Nacional’, ‘Partido Socialdemócrata’, ‘Renovación Nacional’, entre outros, além de 44% da população. Os outros 56% abraçaram a causa do ‘Partido Comunista de Chile’, ‘Partido Democrata Cristiano’, ‘Partido Democrático Nacional’, ‘Partido Humanista de Chile’, ‘Partido Liberal’, ‘Partido Radical’ e ‘Partido Socialista’. Portanto, o povo chileno votou NÃO. Sinceramente, fiquei curioso para o caso de termos um plebiscito no Brasil atualmente pela permanência de Michel Temer. Talvez o resultado fosse bem diferente do visto nesta quarta-feira, na Câmara em Brasília, quando 263 deputados (ou seja, 51,46%) decidiram pelo arquivamento das investigações contra o presidente. No voto indireto, venceu o SIM.

Todos nós sabemos que a queda do presidente hoje seria a volta do PT e da esquerda. Que as viúvas do PT chorem para lá!“, justificou Marco Feliciano (PSC) o fato de se abraçar em Temer. Ele não pensa sozinho dessa forma. Muitos transformaram a política brasileira num nocivo petismo versus antipetismo, sendo que Rodrigo Maia (DEM) seria o responsável por herdar o trono em caso de afastamento do atual presidente. Desconhecimento ou manobra? Pior são os teoricamente mais esclarecidos, que justificam a permanência de Temer por conta da estabilidade econômica – alguns deles, gaúchos como José Fogaça (PMDB), José Otávio Germano (PP) e Yeda Crusius (PSDB). Seria o novo “rouba, mas faz“? Aliás, o dono da frase também esteve ao lado deles: Paulo Maluf (PP). Comecei a sorrir tranquilo, vendo que tinha escolhido a trincheira contrária destes. De repente, dei de ombros com Jair Bolsonaro e seu filho e me assustei. Mas ao ouvir o discurso do pai, notei que fazia do microfone seu próprio palanque para 2018: “Para ser uma grande Nação, o Brasil precisa de um presidente honesto, cristão e patriota“, em uma auto-descrição. Só não entendi o porquê do cristão, já que Temer é católico apostólico romano. Aquele papo de ‘anticristo’ e ‘vampiro’ era só uma brincadeira, viu?! Assim como foi uma brincadeira elegerem Sérgio Reis e Tiririca, que votaram pelo não e fizeram eu começar a questionar meu posicionamento. Será que estou ficando louco? Não. Assim se faz a democracia, com pensamentos opostos condenando a corrupção. Com pessoas tão diferentes, como Onyx Lorenzoni (DEM) e Mária do Rosário (PT) dividindo a mesma bancada.

Não precisamos concordar em tudo, apenas precisamos ter coerência. Michel Temer foi gravado pelo empresário da JBS, Joesley Batista, sendo no mínimo complacente com confissões de crimes de obstrução e corrupção. Ele não merece ser investigado? Era isso que estava sendo votado na Câmara dos Deputados. Ninguém estava pedindo a volta de Lula. Tampouco decidiu-se pelas ‘Diretas Já‘ (embora fossem necessárias). Nem pedia-se o fuzilamento do atual presidente aos moldes de Che Guevara. Queria-se apenas a autorização para investigá-lo. Lembra do “não temos corruptos de estimação“? Lembra do “primeiro tiramos a Dilma e depois tiramos os outros“? O discurso agora é deixar que ele termine o mandato para investigá-lo depois. Sério que você acredita? Não há problema em ser de direita (adepto do pensamento liberal, Estado mínimo e tal), mas você votaria não hoje, né? Assim os liberais e cristãos chilenos votaram em 1988. Queremos a investigação de todos, independente do lado. Não? Os deputados brasileiros mostraram que não.

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