20 de setembro: a festa dos vikings brasileiros

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Desculpem-me os amigos tradicionalistas. Sem querer ofender, mas já tocando na ferida: a Semana Farroupilha é uma ode ao retrocesso. Para quem não sabe, 20 de setembro é feriado no Rio Grande do Sul. Por quê? Foi neste dia que, em 1835, generais-estancieiros insatisfeitos com o valor do imposto pago para exportar o charque (carne salgada) invadiram Porto Alegre, renderam as tropas imperiais e deram início a uma revolução contra o governo de Dom Pedro II. O ápice veio no ano posterior quando, em 11 de setembro de 1836, estes mesmos revoltosos declararam independência do Brasil. Estava proclamada a República Rio-Grandense, que duraria mais 9 anos! Depois de uma árdua batalha contra o restante do país, o Rio Grande foi anexado novamente e assinado um tratado de paz. Curiosamente, Porto Alegre nunca foi a capital da tal república dos gaúchos. Logo depois de invadida, ela foi reconquistada pelo exército do Imperador – fato que lhe rendeu o título de leal e valorosa, ostentado até hoje na bandeira da cidade. Mesmo assim, os porto-alegrenses (assim como em todo o território sul-riograndense) comemoram o 20 de setembro. Na capital, há inclusive o Acampamento Farroupilha, onde as pessoas vivem por mais de uma semana como na época da Guerra dos Farrapos: em casebres de madeira, andando a cavalo, com vestimentas do tataravô e assando carne cravada em espetos no chão. Ou seja, tiram alguns dias para viver como se estivéssemos em 1830 outra vez.

Já ouvi mais de uma vez que sou um ‘gauchinho’ de apartamento. “Como pode um guri que veio do interior, ainda mais da fronteira, não saber assar um churrasco?” Vou em uma churrascaria. “Como não sabe andar a cavalo?!” Não faço equitação e, além disso, já inventaram o carro. “Por que não honra a tradição?!” Porque não quero participar desta festa do retrocesso! O povo gaúcho tem suas virtudes, mas o tradicionalismo nos estagnou. Por que não posso viver como um uruguaio de Montevidéu, ou um argentino de Buenos Aires, que segue tomando o seu mate e comendo o seu assado, mas sem fechar as portas para a modernidade? Por que preciso me enfurnar em um casebre de madeira cercado de lama, vestir bombacha com uma adaga na cintura, botas cheias de esterco e um lenço no pescoço? Os argentinos e uruguaios são tão gaúchos quanto nós, mas não ficaram presos nos anos de suas independências! Nós – principalmente os homens – somos quase que obrigados a agir como se agia há mais de 100 anos (ou se criou, através do mito ‘gaúcho’): com palavreado rude, movimentos brutos e fala alta. Qualquer um que fuja deste padrão é “afrescalhado” ou “nem parece gaúcho, tchê!“.

Imagine você um escandinavo do mundo atual. Escolha a nacionalidade que preferir: sueco, norueguês ou dinamarquês. Qual a imagem que lhe vem à cabeça? Agora imagine uma festa em que durante quase um mês eles deixassem a barba ruiva crescer, com um chapéu de chifres pontiagudos, roupas sujas, uma espada na mão e a outra segurando um escudo e brincando em barcos de madeira. Sim, os antepassados deles eram os vikings! Não lhe parece um tanto quanto caricata se eles fizessem isso? Para mim soa até patético. Então por que aqui no Rio Grande do Sul chamamos a festa à fantasia de setembro de tradicionalismo? Uso bombacha, sim! Porque gosto de como o tecido da calça deixa minhas pernas mais à vontade. E se eu quiser calçar um tênis junto com elas? “Não, fere a tradição!” Uso alpargatas, sim! Mas quando quero e porque gosto. Também gosto de ar condicionado, internet wi-fi, TV a cabo, spotify. Sou tão gaúcho quanto os que fazem de conta que são Bento Gonçalves durante a Semana Farroupilha e que vivem 1835 em pleno 2017.

 

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Cuidado, Porto Alegre! Os nazistas ridicularizaram a arte moderna

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O cancelamento da ‘Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira’ é um verdadeiro escândalo. “Pedofilia!“, “Só tem putaria, só tem sacanagem!“, “zoofilia!“, gritavam os homens que gravaram um vídeo dentro do Santander Cultural, onde as obras de mais de 80 artistas estavam expostas – como Cândido Portinari, por exemplo. Após o protesto, a empresa resolveu fechar a exposição. Mas cuidado: ridicularizar obras de arte, transformá-las em ‘show do grotesco’, até tirá-las de circulação não será uma ação inédita na história mundial. Os membros do MBL (Movimento Brasil Livre) que apoiaram o protesto não têm do que se orgulhar. Há muito do nazismo nesta atitude! E ninguém quer se parecer com os nazistas (a quem até se imputou nos últimos tempos o carimbo de “esquerda”). Não é mesmo?

Acontece que, em 1937, Munique recebeu uma exposição intitulada “entartete Kunst” – ou arte degenerada, em alemão. A intenção do governo de Adolf Hitler era, ao mesmo tempo que expunha as obras, ridicularizá-las com frases escritas nas paredes, logo acima dos quadros: “insulto às mulheres alemãs“, “revelação da alma racial judia“, etc. Ou seja, incluíam-se aí todos os movimentos artísticos que fugiam da realidade e do tradicional, como o cubismo, dadaísmo ou surrealismo (arte moderna). Entre os artistas ‘censurados’ estavam: Pablo Picasso, Paul Gauguin, Lasar Segall, Wassily Kandinsky, Piet Mondrian. Sobrou até para a música! O jazz, por exemplo, passou a ser música negro-judaica e por isso foi proibida na Alemanha. Isso está nos livros de história! Não, não é corrente de Twitter ou Facebook.

Assim como está registrado em fotos o desespero do governo francês para locomover e esconder as obras de arte do Museu do Louvre antes da invasão alemã a Paris. Se encontrada pelos nazistas, o que restaria da Vênus de Milo, uma mulher sem os braços e com os seios de fora? Deformada e desavergonhada ainda por cima! E a estátua do Hermafrodita Dormindo, uma clara propaganda à sodomia? E se ‘A Bela Jardineira‘ de Rafael fosse interpretada como pedofilia? E ‘Gabrielle de Estrées e sua irmã‘, não seria incesto aliado à lesbianidade? Ainda bem que os nazistas não encontraram estas obras de arte. E se tivessem as encontrado, será que gravariam vídeos ridicularizando-as e bradando pela moral e bons costumes arianos? Pois é, melhor nem pensar. Afinal de contas, ninguém quer se parecer com os nazistas. Logo, aproveite as obras de arte. E as que você não apreciar, simplesmente não visite.