Segundo turno entre Lula e Bolsonaro faria Brasil retroceder 50 anos

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O Ibope divulgou neste domingo sua primeira pesquisa eleitoral para 2018, e o resultado é estarrecedor! Lula (PT), com 35% das intenções de voto, teria Jair Bolsonaro (saindo do PSC para o Patriotas) como opositor no segundo turno – o ex-militar aparece com 13%. Sei que pesquisas nem sempre acertam. Nas últimas eleições municipais em Porto Alegre, por exemplo, a primeira pesquisa divulgada projetava um segundo turno entre Manuela D’Ávila (PCdoB) e Luciana Genro (PSOL). Para a tranquilidade dos liberais, ocorreu exatamente o oposto. Manuela sequer concorreu e Nelson Marchezan Jr (PSDB), que estava em quarto lugar, venceu no segundo turno contra Sebastião Melo (PMDB), que estava em terceiro. Luciana acabaria a eleição sendo a quinta mais votada. Ainda há casos em que a pesquisa influencia o eleitorado a trocar o voto. Sei de amigos que, em 2014, votaram em José Ivo Sartori (PMDB) para tirar Ana Amélia Lemos (PP) do segundo turno e fortalecer a candidatura de Tarso Genro (PT). Resultado: foi o peemedebista quem acabou eleito. Mas não é a perícia da pesquisa que me preocupa, e sim a falta de opção e retrocesso a galope que o povo brasileiro irá se submeter.

Se, de fato, nenhum dos dois sair do páreo (por decisão jurídica ou partidária), “Lula versus Bolsonaro” será a reedição do embate entre Getúlio Vargas (PTB) e Carlos Lacerda (UDN) que se desenhava no imaginário brasileiro na década de 50! Isso, por si só, explicaria o retrocesso que estamos fazendo. A disputa jamais aconteceu nas urnas, mas ficou marcada pela enxurrada de ataques pessoais, tentativa de assassinato, suicídio e ‘fake news‘ produzidas pelos jornais da época – Tribuna da Imprensa, do próprio Lacerda, e Última Hora, mantido pelo governo Vargas. Os ânimos ficaram tão acirrados que nenhum debate profundo foi possível, desencadeando no golpe militar de 1964 (adiado em 10 anos graças ao suicídio de Vargas, mas que teve em João Goulart o herdeiro frágil do mesmo ódio). Lula representa hoje o que foi Vargas: ex-presidente, acusado de se utilizar da máquina pública para enriquecer a si e aos seus, apoiado no discurso de apoio à classe mais baixa e aos trabalhadores, e que foi praticamente convencido a voltar ao poder por falta de opção no partido e pescado pelo ego. Bolsonaro é a reencarnação política de Lacerda: admirador do militarismo, usa os meios de comunicação para vociferar contra a corrupção, se autoproclamando o representante da família, da moral e dos bons costumes. Por isso, um segundo turno entre ambos faria o Brasil retroceder quase meio século. Além disso, há a ausência de projeto.

Com o debate raso e baseado no ódio ao adversário, Lula e Bolsonaro não apresentam ideias e muito menos soluções para os problemas a longo prazo. Lula não representa mais o pensamento da esquerda, do Estado desenvolvimentista e de bem estar social. Está ali simplesmente para dar o troco contra quem lhe ataca. E, mesmo que tenha a intenção de dar continuidade a projetos implementados pelo seu governo – como ‘Bolsa Família’, ‘ProUni’, ‘Luz Para Todos’ -, não teria maioria na Câmara e Senado, e assim como sua pupila Dilma Rousseff estaria à mercê de um impeachment. Já Bolsonaro é tão raso quanto um pires. Rei das frases prontas, do “bandido bom é bandido morto” ao “vai para Cuba“, o ex-militar cresce nas pesquisas justamente pelo temor comunista que foi implantado no imaginário popular (exatamente como em 64). Ele nem sequer representa o pensamento liberal, já que defende abertamente o período militar. Enfim, não há um projeto de desenvolvimento em nenhum dos lados. Pode-se debater ideologicamente os outros nomes apresentados na pesquisa do Ibope, mas todos eles representam melhor o espectro político: Ciro Gomes, Marina Silva, Geraldo Alckmin… O resto é disputa cega pelo trono e crença em um ser messiânico que não virá!

 

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Separatismo: a linha tênue entre o orgulho regional e a xenofobia

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Nos últimos dias, os olhos do mundo voltaram-se à Espanha – mais precisamente a Barcelona. Isso porque a população vive um grande debate, culminando com uma grave repressão policial após a instauração de um referendo que propõe a separação da Catalunha do território espanhol. O assunto injetou gasolina à proposta do movimento “O Sul é Meu País“, que tem como intenção algo semelhante: separar os Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná do restante do Brasil. No próximo sábado, o grupo distribuirá urnas para um plebiscito informal que pretende saber qual o tamanho do apoio popular para esta ideia. Confesso, já fui simpatizante. Impulsionado pela cultura gaúcha de exaltação à Revolução Farroupilha (com hino, bandeira e vestimenta tradicionalista), cheguei a acreditar que o separatismo seria uma boa saída. Aos poucos, fui mudando minha percepção. Hoje, correndo os olhos pelo que se passa no planeta, admito não ter uma opinião tão formada assim. Até que ponto este “regionalismo” não é xenofobia?

Primeiro é preciso diferenciar o caso do separatismo catalão do gaúcho. Enquanto a República Rio-Grandense teve vida curta de 10 anos em meio ao Brasil Império (de 1835 a 1845) – jamais contando com total apoio popular -, os catalães, de fato, foram reconhecidos como nação, exercendo um governo autônomo com legislação e língua próprias, embora ainda anexado à coroa espanhola. A exceção fica pelo período em que vigorou a ditadura fascista de Franco (de 1939 a 1975), em que a cultura catalã (hino, bandeiras e língua) foi censurada. Além disso, após a redemocratização, Barcelona sempre viveu o sentimento separatista de maneira latente, insuflada pelos partidos políticos que ganharam as últimas eleições ao formarem o movimento “Juntos pelo Sí”: os sociais-democratas da ERC (Esquerra Republicana de Catalunya), os liberais do CDC (Convergência Democrática da Catalunha) e os Democratas da Catalunha, representantes da democracia-cristã. Contra eles aparece o PP (Partido Popular), do presidente espanhol Mariano Rajoy e de origem consevadora. Convenhamos, uma situação bem diferente à do sul brasileiro, que vive em total sinergia com a ideologia em voga atualmente no país governado por Michel Temer (PMDB), e que vê cada vez mais Jair Bolsonaro subir nas pesquisas para 2018. Traduzindo: aqui, os governadores gaúcho, catarinense e paranaense falam a “mesma língua” do presidente.

Além das questões cultural e política, outro argumento utilizado pelos catalães está na tributação: mais de 20% dos impostos arrecadados por Madri vieram daquela região, sem que o retorno em serviços públicos fosse exatamente o mesmo. Este ponto também é levantado pelos “sulistas” – tal qual a grita sobre a tributação do charque pelos farrapos de 1835. Meu medo, sinceramente, é que este seja o pano de fundo para a questão maior e talvez até inconsciente: a xenofobia. Quanto à Catalunha, não posso ser definitivo pois não estou inserido naquele contexto. Mas aqui, no Rio Grande do Sul, não é raro ouvir a exaltação ao povo gaúcho como culto, honesto, trabalhador, etc – como se as demais localidades do Brasil não estivessem à altura de nós, gaúchos: “Nordestino não sabe votar!“, “Carioca é tudo malandro e gosta de passar os outros para trás!“, “Povo que não tem virtude acaba por ser escravo!“. Brada-se estes lugares comuns regados a preconceito como se neste Estado também não tivéssemos políticos citados em mais de um caso de corrupção, contrabandistas (desde drogas a carne de gado), analfabetos, racistas que torcem o nariz para estrangeiros (principalmente se estes forem negros) e etc. Não há nada que me orgulhe na criação e reprodução deste mito de uma raça superior, que muito se assemelha ao nazismo. O orgulho das raízes, o conhecimento da história de seus antepassados, em nada tem a ver com a exaltação exacerbada do localismo, e a antipatia ao ‘forasteiro’. Mas enfim, andar sobre a linha tênue do regionalismo/nacionalismo é isso: uma hora, inevitavelmente, se cai para o lado errado.

Por que encerrarei minha conta no Facebook

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Hoje decidi excluir minha conta do Facebook. O Twitter e o Instagram por pouco não foram junto, mas minha relação com as redes sociais não será mais igual. A partir de agora, nada de vida pessoal publicada por aí! Até porque, digamos que mais de 70% das pessoas que me adicionaram eu não conhecia pessoalmente. Apenas me seguem para consumir o meu trabalho. E não há problema nisso! Pelo contrário, é motivo de alegria. Então, para satisfazê-los, criei uma página com o perfil do jornalista Filipe Duarte, não do cidadão comum. Ali divulgarei minhas matérias, opiniões e fotos durante eventos profissionais. Por que fiz isso? Bom, é uma longa história…

Já venho maturando essa ideia há um tempo. Desde que criei meu perfil no Facebook, passei a aceitar qualquer pessoa que me adicionava. Pensava que era uma maneira de interagir com quem, de alguma forma, gostava do meu trabalho. De um ano para cá, quando passei a fazer telejornalismo, o número de “convites” triplicou. Perdi o controle! Toda e qualquer coisa que eu postava, gerava ‘likes’ e comentários. Como eu postava muita coisa sobre minha vida particular, fora do horário de trabalho, a situação passou a se confundir. Quem não era tão próximo, passou a ser. Li desde palpites sobre a roupa que eu vestia, às músicas que eu escutava, até discordâncias sobre posicionamentos políticos. Seria natural, afinal de contas, me tornei uma pessoa pública. Por favor, que não soe pretensioso! Não, eu não escolhi ser “famoso”. É o bônus do pacote que comprei quando decidi ter a profissão que tenho – e gosto! Acontece que há uma grande diferença entre a crítica e a ofensa, a humilhação. Portanto, não que eu não saiba lidar com críticas ou não saiba sustentar um debate. Óbvio que sim! E acho salutar inclusive. Cada vez que tenho uma ideia confrontada, me vejo obrigado a pensar, pesquisar, ler mais sobre aquilo que eu falo. Muitas vezes, intimamente, acabo questionando a mim mesmo. É um ótimo exercício! Além disso, interpretei que (em tempos do avanço do conservadorismo social) meu papel seria difundir a desconstrução dos símbolos, estimular o pensamento dos outros até reconstruir conceitos sobre o convívio humano. Fracassei – ou melhor, subestimei o cenário ao meu redor.

Ser xingado, ofendido e subestimado não é novidade pra mim. Lido com isso desde que comecei a trabalhar com a paixão futebolística. O que me assustou foi me dar conta que naquele mesmo espaço frequentado pelos fiscais de comportamento alheio, posto fotos com minha família, amigos, nos lugares que frequento regularmente. Ou seja, viraria um alvo fácil não só nas redes sociais, mas no cotidiano. Estava sujeito à perseguição real! Mais de uma vez, li o seguinte comentário em tom de ameaça: “Fica no comentário de futebol que é o que tu sabe fazer“. Parece uma afirmação despretensiosa, mas é regada de ódio. É, no mínimo, censura! É a total incapacidade de conviver com o pensamento contraditório. E eles venceram. Pelo menos, parcialmente. Vou seguir com meu olhar crítico sobre política, religião e futebol (a tríplice aliança que, dizem, não deve ser tocada). Mas vou me limitar a debater com pessoas que tenham maior proximidade comigo, a ponto de discordar sem precisar me agredir. Entrego em troca um espaço aos outros, aos brutos que não conseguem sair da caixa do conservadorismo e do senso comum: aqui está o Filipe que só fala de futebol. Bom proveito!