Separatismo: a linha tênue entre o orgulho regional e a xenofobia

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Nos últimos dias, os olhos do mundo voltaram-se à Espanha – mais precisamente a Barcelona. Isso porque a população vive um grande debate, culminando com uma grave repressão policial após a instauração de um referendo que propõe a separação da Catalunha do território espanhol. O assunto injetou gasolina à proposta do movimento “O Sul é Meu País“, que tem como intenção algo semelhante: separar os Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná do restante do Brasil. No próximo sábado, o grupo distribuirá urnas para um plebiscito informal que pretende saber qual o tamanho do apoio popular para esta ideia. Confesso, já fui simpatizante. Impulsionado pela cultura gaúcha de exaltação à Revolução Farroupilha (com hino, bandeira e vestimenta tradicionalista), cheguei a acreditar que o separatismo seria uma boa saída. Aos poucos, fui mudando minha percepção. Hoje, correndo os olhos pelo que se passa no planeta, admito não ter uma opinião tão formada assim. Até que ponto este “regionalismo” não é xenofobia?

Primeiro é preciso diferenciar o caso do separatismo catalão do gaúcho. Enquanto a República Rio-Grandense teve vida curta de 10 anos em meio ao Brasil Império (de 1835 a 1845) – jamais contando com total apoio popular -, os catalães, de fato, foram reconhecidos como nação, exercendo um governo autônomo com legislação e língua próprias, embora ainda anexado à coroa espanhola. A exceção fica pelo período em que vigorou a ditadura fascista de Franco (de 1939 a 1975), em que a cultura catalã (hino, bandeiras e língua) foi censurada. Além disso, após a redemocratização, Barcelona sempre viveu o sentimento separatista de maneira latente, insuflada pelos partidos políticos que ganharam as últimas eleições ao formarem o movimento “Juntos pelo Sí”: os sociais-democratas da ERC (Esquerra Republicana de Catalunya), os liberais do CDC (Convergência Democrática da Catalunha) e os Democratas da Catalunha, representantes da democracia-cristã. Contra eles aparece o PP (Partido Popular), do presidente espanhol Mariano Rajoy e de origem consevadora. Convenhamos, uma situação bem diferente à do sul brasileiro, que vive em total sinergia com a ideologia em voga atualmente no país governado por Michel Temer (PMDB), e que vê cada vez mais Jair Bolsonaro subir nas pesquisas para 2018. Traduzindo: aqui, os governadores gaúcho, catarinense e paranaense falam a “mesma língua” do presidente.

Além das questões cultural e política, outro argumento utilizado pelos catalães está na tributação: mais de 20% dos impostos arrecadados por Madri vieram daquela região, sem que o retorno em serviços públicos fosse exatamente o mesmo. Este ponto também é levantado pelos “sulistas” – tal qual a grita sobre a tributação do charque pelos farrapos de 1835. Meu medo, sinceramente, é que este seja o pano de fundo para a questão maior e talvez até inconsciente: a xenofobia. Quanto à Catalunha, não posso ser definitivo pois não estou inserido naquele contexto. Mas aqui, no Rio Grande do Sul, não é raro ouvir a exaltação ao povo gaúcho como culto, honesto, trabalhador, etc – como se as demais localidades do Brasil não estivessem à altura de nós, gaúchos: “Nordestino não sabe votar!“, “Carioca é tudo malandro e gosta de passar os outros para trás!“, “Povo que não tem virtude acaba por ser escravo!“. Brada-se estes lugares comuns regados a preconceito como se neste Estado também não tivéssemos políticos citados em mais de um caso de corrupção, contrabandistas (desde drogas a carne de gado), analfabetos, racistas que torcem o nariz para estrangeiros (principalmente se estes forem negros) e etc. Não há nada que me orgulhe na criação e reprodução deste mito de uma raça superior, que muito se assemelha ao nazismo. O orgulho das raízes, o conhecimento da história de seus antepassados, em nada tem a ver com a exaltação exacerbada do localismo, e a antipatia ao ‘forasteiro’. Mas enfim, andar sobre a linha tênue do regionalismo/nacionalismo é isso: uma hora, inevitavelmente, se cai para o lado errado.

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