Maria do Rosário: a que merece ser assaltada

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De uns tempos para cá, tornou-se convencional entre as pessoas de bem odiar a deputada federal Maria do Rosário (PT). Sinceramente, não sei se é um fenômeno que se detém apenas ao território gaúcho, ou se estende pelo restante do país. Ela ganhou destaque na imprensa nacional quando bateu de frente com Jair Bolsonaro (então do PP) e ouviu a seguinte sentença do deputado carioca: “Jamais iria estuprar você, porque você não merece!” A declaração foi interpretada como ofensiva pelo STF e rendeu uma indenização de R$ 10 mil. Mesmo que o sentido tenha sido outro, trata-se de uma verdade: Maria do Rosário (assim como qualquer outra mulher) não merece ser estuprada. Talvez se Bolsonaro tivesse dito que a deputada merecesse ser assaltada, aí sim, receberia o aval de inúmeros brasileiros. Afinal de contas, foi o que se viu nesta quinta-feira.

Ela foi mais uma vítima do alto grau de violência gratuita deste país – fruto da desigualdade social latente. Maria do Rosário teve o carro roubado na zona norte de Porto Alegre, quando chegava em casa. E daí, justo três dias depois de comemorarem o Natal com muito amor no coração, gaúchos de diversas cidades do Rio Grande do Sul manifestaram sua ojeriza à deputada via redes sociais. Em tempos onde os direitos humanos viraram sinônimo de “defesa de bandido”, a ex-Ministra da Secretaria dos Direitos Humanos no governo Dilma Rousseff transformou-se na rainha dos assaltantes e homicidas. Não aos olhos dos ocupantes dos presídios, óbvio. Mas sim aos olhos dos cidadãos de bem. Justo ela (como salientou o colega Vinícius Brito em seu Facebook), “autora/relatora de lei que:
– Aumentou a pena para crimes de lesão corporal e homicídio contra policiais;
– Definiu a exploração sexual de crianças como crime hediondo.
– Também tornou crime hediondo o assassinato de mulheres motivado por questões de gênero.
– Garantiu a escuta protegida para crianças vítimas ou testemunhas de violência.
– Ainda foi relatora da CPI que investigou as redes de exploração da prostituição infantil no Brasil.”

Aqui não faço juízo de valor sobre ela ser boa ou má legisladora, ser corrupta ou não, estar num bom ou mau partido, etc. Apenas rebato o rótulo de “defensora de bandido” colado em sua testa, e a comemoração que se seguiu com sua tragédia. Mas sei que, para os detratores da Maria do Rosário, virei alvo da mesma raiva que nela é despejada. Em contrapartida, você  que chegou até o fim deste texto com o coração palpitando, emocionado pela defesa à deputada, leia um trecho da matéria do dia 5 de julho de 1995, publicada no jornal fluminense A Tribuna da Imprensa (na imagem ao lado está na íntegra): “O deputado federal Jair Bolsonaro (PPR-RJ) foi assaltado ontem, quando seguia para panfletear junto a seus eleitores, na Zona Norte do Rio. […] Os criminosos levaram a motocicleta do parlamentar, a Honda Sahara 350, ano 94, placa LAG-0656, e a sua arma, uma pistola Glock 380. […] ‘Mesmo armado me senti indefeso’, comentou o parlamentar“. Se você soltou um sorriso de canto de boca, ou praguejou alto contra Bolsonaro, cuidado! Está fazendo igual ou pior que aqueles aos quais condena. Nenhum homem ou mulher merece ser assaltado(a) ou estuprado(a), lembra? Nem Marias, nem Jaires.

 

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Abu Dhabi além do Mundial de Clubes

A woman wears a niqab as she pushes her caddy in Carrefour, the world's second-biggest retailer, as she shops in Doha

Após 11 dias longe de casa, retornei dos Emirados Árabes Unidos onde estive fazendo a cobertura do Grêmio na disputa do Mundial de Clubes. Foi uma viagem que me agregou muito profissionalmente. Não tenho do que me queixar. Entretanto, voltei modificado como ser humano. Al Ain, Abu Dhabi e Dubai me apresentaram situações contrastantes: a riqueza dos prédios luxuosíssimos erguidos graças ao dinheiro do petróleo, mas às custas da exploração da mão de obra barata dos estrangeiros (vindos do Paquistão, Índia, Nepal, Síria, Uganda e Indonésia); a tranquilidade de transitar nas ruas sem medo de ser assaltado, mas a limitação da liberdade de expressão agregada a um culto às armas e patriotismo. Agora, sem dúvidas, nada me causou maior choque cultural do que a condição feminina – imposta pelo fanatismo religioso.

Entendendo que a ampla maioria da população do país é formada por estrangeiros, por óbvio, nem todas as mulheres usam a tal burca. No entanto, basta dar uma volta pelos shoppings para se deparar com elas. Sedas pretas ambulantes pelos corredores. O “xador” (pano escuro que cobre todo o corpo feminino com exceção do rosto) já é chocante. Mas existe algo pior: o “niqab“. Com a aparência de ninjas, as mulheres transitam apenas com os olhos de fora – algumas ainda os cobrem com uma seda. No aeroporto, retornando ao Brasil, ainda vi uma que usava luvas pretas. Ou seja, nenhuma exposição à luz. Só panos da cor preta por toda a parte. Qual a necessidade disso? Proteger as mulheres de possíveis cantadas ou uma imposição de um marido ou pai ciumento? Tradição cultural ou reprodução de um machismo escondido atrás de religiosidade?

Quando embarquei para os Emirados, sabia que iria me deparar com a situação degradante das mulheres. Porém, imaginava que acabaria me acostumando ao longo dos dias. Não consegui. Pareciam pequenos fantasmas negros caminhando pelas ruas da cidade. É impressionante como as mulheres são renegadas a um posto mais baixo na família, completamente submissas ao homem. Que falta faz uma Simone de Beauvoir nas Arábias!

Vou torcer pro Grêmio… e o Mundial é meu caminho!

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Nos últimos dias, recebi (seja via Twitter ou na página do Facebook) mais de um recado de colorados indignados comigo: “Tu és muito gremista!“. Mal sabem eles que sim, nestes meses que passaram fui gremista. E nos próximos dias torcerei mais ainda pelo título mundial do Grêmio! “Olha aí, se assumiu?!“. Se há alguma coisa que, de fato, assumi é que o sucesso do Grêmio é o meu sucesso… profissional. Afinal de contas, graças à conquista da Libertadores, estou embarcando para os Emirados Árabes nesta sexta-feira! Eu e Daniel Oliveira.

Nunca fui torcedor do Grêmio. De uns tempos pra cá, resolvi falar abertamente para qual time torci na minha infância e adolescência. Você leu bem – e se não leu, repito: torci. Nunca fui gremista. Isso não faz de mim um “secador” ou membro da IVI (Imprensa Vermelha Isenta). Sem egoísmo, sou Eu Futebol Clube. Ou, no caso, defendo o Grupo Bandeirantes – minha atual empresa. Quando opino, prefiro ser fiel à minha consciência do que aos sentimentos que algum dia fizeram meu coração bater mais forte. Erro e acerto por convicção, sem querer fazer média, torcer contra ou a favor. Quando atuo como repórter, quero o bem da minha matéria. Que saia o gol do Grêmio para que a família carente que levei à Arena vibre em frente à câmera. Que o Inter volte à Série A para que minhas condições de trabalho melhorem (com viagens menos desgastantes, com jogos de maior proporção). A campanha tricolor me fez entrar ao vivo para rede nacional uma porção de vezes. Minhas matérias rodaram em São Paulo, Rio, Bahia, Mato Grosso, Acre! Então, sou torcedor? Se afeta positivamente o meu trabalho, sim! E este é o caso.

Acontece que cresci ouvindo/vendo as gravações dos gols de Renato em Tóquio. Depois, quando vim trabalhar em Porto Alegre, invejava o depoimento dos colegas que estiveram em Yokohama e relatavam os bastidores da epopeia colorada em 2006. Até os que cobriram as derrotas do Grêmio, em 1995, e do Inter, em 2010, tinham histórias pra contar. Quando chegaria a minha vez? Chegou. Em menos de uma década como profissional do jornalismo, estou embarcando para uma cobertura histórica. Para que minha voz seja buscada no arquivo de matérias especiais daqui a 20 ou 30 anos, para que eu possa servir de inspiração para gerações futuras de repórteres e comentaristas que almejarão chegar aonde eu cheguei, que o Grêmio vença! Sou gremista? Em Al Ain e Abu Dhabi serei. Não estou pedindo que você, colorado, faça o mesmo. Apenas entenda e respeite. O momento é tricolor! E você, gremista, acostume-se: pode ser que no futuro eu esteja torcendo pelo sucesso do seu rival. É do jogo da minha profissão, no caso. O sucesso do time é o meu sucesso. Por isso, não se aborreça se eu realmente parecer emocionado. De fato, estou nas alturas.