O ovo do fascismo também atinge Dória

bazarPara quem não acompanhou o caso, o prefeito de São Paulo, João Dória Jr (PSDB), foi atingido por uma ovada em Salvador na última segunda-feira. Justo ele, trazido na capa da Revista IstoÉ sob o título “Nasce o Anti-Lula“. A revista em si ignorou o maior acontecimento da semana, que foi o arquivamento da investigação sobre Michel Temer, para escancarar sua propaganda política a um pré-candidato à presidência. Pouco jornalístico, mas enfim, não é este o debate! Acontece que logo após secar a clara e gema que lhe escorriam pela cabeça, o “tucano” gravou um vídeo para suas redes sociais e, sabiamente, inflou ainda mais sua imagem de anti-Lula: “Esse é o caminho do Lula, do PT, das esquerdas, que querem isso. A intransigência, a agressividade, a tentativa de amedrontar e intimidar (…). Não há intimidação em parte nenhuma do Brasil. Os esquerdistas que querem o mal do Brasil, vão lá defender o Maduro e jogar ovo na Venezuela.” É, meu amigo, ele teve o que queria. O ovo na cara? Não, o combustível para crescer nas pesquisas eleitorais. Mas este não foi o maior mal que os manifestantes baianos fizeram.

Vi muitas pessoas que gosto e admiro – algumas mais próximas, outras não – comemorando e achando graça na ovada levada por Dória. Pergunto-lhes: e se fosse Lula, chamado para receber um prêmio, mas recebendo uma ovada na cabeça? “Raivosos! Antidemocratas! Fascistas!” Assim iriam vociferar os simpatizantes do ex-presidente. E sabe porquê? Porque teriam razão. Discordar das ações do governo paulistano – como a alegação de que mandou demolir prédios abandonados com pessoas dentro ou molhar moradores de rua enquanto dormiam -, não lhe dá o direito de agredir o político. Cercá-lo e hostilizá-lo já seria demais. Mas ovada?! A mesma truculência de que acusam membros do MBL, simpatizantes de Bolsonaro e etc, também se reflete às vezes em manifestantes da CUT, UNE e petistas. Por que apenas um lado é fascista e antidemocrata?! O que os difere? Nada, além da ideologia política. Ambos não suportam o diferente.

Não adianta levantar a bandeira da igualdade se você não consegue conviver com quem pensa diferente. A democracia está aí para que o debate de ideias aconteça de maneira republicana. Não no grito, ou na violência! E antes que surja o argumento da desobediência civil após o impeachment (ou golpe), desarme-se! Essa é apenas uma justificativa de momento. Reconheça que há muito tempo a esquerda usa de artifícios intimidadores contra adversários políticos. Ok, foi só uma bolinha de papel em José Serra (PSDB) durante a campanha de 2010 (e não uma pedra como apontou a perícia contratada por ele), mas não parece hostil demais – para não dizer infantilóide? Por exemplo, você deve ter achado falta de respeito quando houve protesto em frente ao prédio de Dilma Rousseff (PT), em Porto Alegre. Mas lembra de quando a ex-governadora Yeda Crusius (PSDB) foi hostilizada no portão de casa, ou de quando jogaram um coquetel molotov no prédio de José Fortunati (PDT), prefeito porto-alegrense? E aí, o fascismo é só quando ocorre contra os meus? Desculpa, mas não estou nessa! O ovo do fascismo também atinge João Dória. E amanhã pode atingir você também.

Não é não

 

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Esta noite me senti no Chile em 1988, quando o povo chileno foi às urnas votar em um plebiscito que decidiria se o ditador Augusto Pinochet, que havia assumido a presidência por um golpe de Estado, continuaria no poder pela próxima década, ou voltaria a democracia. A campanha publicitária que seguiu pelo “sim” e pelo “não” virou inclusive tema de filme, com o mexicano Gael García Bernal no papel principal (*foto acima). Estiveram ao lado de Pinochet, o ‘Partido Democrático de Chile’, ‘Partido Liberal Democrata’, ‘Partido Nacional’, ‘Partido Socialdemócrata’, ‘Renovación Nacional’, entre outros, além de 44% da população. Os outros 56% abraçaram a causa do ‘Partido Comunista de Chile’, ‘Partido Democrata Cristiano’, ‘Partido Democrático Nacional’, ‘Partido Humanista de Chile’, ‘Partido Liberal’, ‘Partido Radical’ e ‘Partido Socialista’. Portanto, o povo chileno votou NÃO. Sinceramente, fiquei curioso para o caso de termos um plebiscito no Brasil atualmente pela permanência de Michel Temer. Talvez o resultado fosse bem diferente do visto nesta quarta-feira, na Câmara em Brasília, quando 263 deputados (ou seja, 51,46%) decidiram pelo arquivamento das investigações contra o presidente. No voto indireto, venceu o SIM.

Todos nós sabemos que a queda do presidente hoje seria a volta do PT e da esquerda. Que as viúvas do PT chorem para lá!“, justificou Marco Feliciano (PSC) o fato de se abraçar em Temer. Ele não pensa sozinho dessa forma. Muitos transformaram a política brasileira num nocivo petismo versus antipetismo, sendo que Rodrigo Maia (DEM) seria o responsável por herdar o trono em caso de afastamento do atual presidente. Desconhecimento ou manobra? Pior são os teoricamente mais esclarecidos, que justificam a permanência de Temer por conta da estabilidade econômica – alguns deles, gaúchos como José Fogaça (PMDB), José Otávio Germano (PP) e Yeda Crusius (PSDB). Seria o novo “rouba, mas faz“? Aliás, o dono da frase também esteve ao lado deles: Paulo Maluf (PP). Comecei a sorrir tranquilo, vendo que tinha escolhido a trincheira contrária destes. De repente, dei de ombros com Jair Bolsonaro e seu filho e me assustei. Mas ao ouvir o discurso do pai, notei que fazia do microfone seu próprio palanque para 2018: “Para ser uma grande Nação, o Brasil precisa de um presidente honesto, cristão e patriota“, em uma auto-descrição. Só não entendi o porquê do cristão, já que Temer é católico apostólico romano. Aquele papo de ‘anticristo’ e ‘vampiro’ era só uma brincadeira, viu?! Assim como foi uma brincadeira elegerem Sérgio Reis e Tiririca, que votaram pelo não e fizeram eu começar a questionar meu posicionamento. Será que estou ficando louco? Não. Assim se faz a democracia, com pensamentos opostos condenando a corrupção. Com pessoas tão diferentes, como Onyx Lorenzoni (DEM) e Mária do Rosário (PT) dividindo a mesma bancada.

Não precisamos concordar em tudo, apenas precisamos ter coerência. Michel Temer foi gravado pelo empresário da JBS, Joesley Batista, sendo no mínimo complacente com confissões de crimes de obstrução e corrupção. Ele não merece ser investigado? Era isso que estava sendo votado na Câmara dos Deputados. Ninguém estava pedindo a volta de Lula. Tampouco decidiu-se pelas ‘Diretas Já‘ (embora fossem necessárias). Nem pedia-se o fuzilamento do atual presidente aos moldes de Che Guevara. Queria-se apenas a autorização para investigá-lo. Lembra do “não temos corruptos de estimação“? Lembra do “primeiro tiramos a Dilma e depois tiramos os outros“? O discurso agora é deixar que ele termine o mandato para investigá-lo depois. Sério que você acredita? Não há problema em ser de direita (adepto do pensamento liberal, Estado mínimo e tal), mas você votaria não hoje, né? Assim os liberais e cristãos chilenos votaram em 1988. Queremos a investigação de todos, independente do lado. Não? Os deputados brasileiros mostraram que não.

Até quando será proibido ser liberal sem ser conservador no Brasil?

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É sempre difícil elogiar um político. Isso porque, mesmo que ele venha a falecer e sua obra ser dada como encerrada, ainda pode surgir uma denúncia passada capaz de manchar seu currículo. Se ele estiver durante o mandato, o risco de elogiá-lo é ainda maior, pois até o final da sua gestão pode cometer um erro crasso. Mesmo assim, vou me arriscar: falta um Justin Trudeau (leia-se Trudô) no Brasil! O jovem primeiro-ministro canadense tem me chamado a atenção por seus atos e declarações – mesmo sendo ele do Partido Liberal. Opa, então eu estou traindo a causa da esquerda, ou será que é ele um mau representante da direita? Nenhum dos dois. O que falta aos liberais brasileiros é a capacidade de se desligar do conservadorismo. Ainda mais em um momento de polarização como vivemos, parece ser proibido ser de direita e ao mesmo tempo progressista. O que vemos é uma geração de jovens de 20 ou 30 anos com discursos retrógrados, que mais parecem de seus avós, ou de um viajante no tempo recém chegado da Guerra Fria. Muitas vezes usei deste espaço para convocar a esquerda a se reinventar, agora farei o mesmo com a direita brasileira.

Com 44 anos, Trudeau assumiu o cargo máximo do Canadá com promessas progressistas e que aos poucos foram colocadas em prática: nomeação igualitária de ministros de ambos os sexos (15 mulheres e 15 homens), políticas sociais favoráveis aos povos indígenas nativos do país, aumento da tributação para os mais ricos, livre recebimento de refugiados e regulamentação da maconha. Suas ideias não vieram do nada. Seu pai, Pierre Trudeau, já havia sido premiê canadense em duas oportunidades (1968 a 1979 e 1980 a 1984), quando defendeu entre outras causas uma sociedade multicultural, reconhecendo como oficial o bilinguismo (inglês e francês), por exemplo. Enfim, ao longo do tempo, seu partido – o Partido Liberal – ainda aprovou outros projetos, como a abolição da pena de morte, a permissão do casamento gay e a implantação de um sistema nacional de saúde (algo como o SUS brasileiro). Tal comportamento faria seus correligionários serem posicionados no espectro político como centro-esquerda – da mesma forma que os sociais-democratas do leste europeu. Entretanto, vá você aplicar tais ideais no Brasil e seria taxado como “radical de esquerda“, “comunista” e “populista”. Por quê? Porque se criou no imaginário popular brasileiro que a política de bem estar social é cara aos cofres do Estado, e que para ser liberal é preciso ser conservador. Em tempos de Trump, Le Pen e Bolsonaro, Trudeau é um sopro de vitalidade a quem é a favor da propriedade privada, do livre mercado, do capitalismo na sua essência, “pero sin perder la ternura“.

E se alguém ainda pensa que Trudeau estaria no Brasil equivalente aos petistas, engana-se. No país norte-americano, este espaço é ocupado pelo Novo Partido Democrático, que ficou em terceiro lugar nas últimas eleições. Aliás, você pode até quebrar a cabeça para achar um Trudeau na política brasileira. Não há! Alguém que defenda o liberalismo sem cair na falsa austeridade de cortes de políticas públicas e sem promover a falsa meritocracia que só escancara as desigualdades sociais existentes. Acontece que até chegar a Justin Trudeau, o Canadá passou quase dez anos (de 2006 a 2015) sob a batuta de Stephen Harper, do Partido Conservador, que entre outros atos rompeu com o Protocolo de Kyoto (tratado internacional para reduzir a emissão de gases que causam o efeito estufa). Ligado às refinarias de petróleo, o ex-premiê promoveu a política de direita que estamos acostumados a ver no Brasil: austeridade econômica e permissividade tributária com grandes empresários. Mesmo assim, o que se viu foi uma lenta recuperação econômica e uma queda abrupta na sua popularidade, que culminaram com a derrota no pleito de 2015. Entretanto, foi quase uma década vivendo sob tais preceitos. Quem sabe é isso que falta aos brasileiros: mais alguns aninhos de conservadorismo para perceberem o quanto isso faz mal e beneficia sempre a casta mais alta da sociedade. Talvez até lá surja alguém dentro dos partidos da dita direita brasileira capaz de parar para pensar: opa, eu não preciso ter preconceito racial, sexual ou de classes para ser liberal!

Injúria racial: condenável dentro e fora do futebol

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Fotos: Lucas Uebel (Grêmio) e Lucas Moraes (Ceará)

Sei que depois da importante vitória sobre a Ponte Preta não faltarão torcedores dizendo que estou tentando ofuscar o resultado, “criando uma crise” no Grêmio. Obviamente, não é o caso. Independente do placar, o debate precisava ser reacendido. O goleiro Aranha foi infeliz ao generalizar, alegando que o povo da região sul tem o racismo como “conceito de vida“. Mas ele não procurou o repórter para dar aquela declaração, não foi de graça, de cabeça fria e para “reviver” de maneira consciente algo que lhe fez mal. Não se pode minimizar o que ele sofre cada vez que pisa na Arena e que neste domingo mais uma vez se repetiu. Bastou seu nome ser anunciado no telão do estádio para que fosse muito vaiado. Era uma vaia simples contra um adversário qualquer? Não. Emerson Sheik, por exemplo, que é a principal referência técnica do time paulista, não recebeu nem a metade dos apupos. Aliás, só vi duas pessoas tornarem-se alvo semelhante ao entrarem no estádio gremista recentemente: D’Alessandro e Ronaldinho Gaúcho. Acontece que Aranha não é ídolo do clube rival, nem tampouco jogou no Grêmio e traiu a confiança do seu antigo torcedor – caso dos outros dois citados. Aranha foi vítima de injúria racial. Graças àquele episódio, o Tricolor acabou punido nos tribunais e eliminado da Copa do Brasil de 2014. Mas não foi o goleiro quem julgou o caso (nem eu!). Por que então ele sofre com vaias anormais cada vez que pisa na Arena? E não me venha com a justificativa de que esse é um comportamento típico do sul ou exclusivo do torcedor gremista. O futebol como um todo permite que isso aconteça!

Há uma semana foi a vez da torcida do Inter usar as mesmas desculpas lidas e ouvidas neste domingo. Ao ver seu zagueiro Victor Cuesta ser acusado de ter chamado de macaco o atacante Elton, do Ceará, o torcedor colorado (em sua maioria) atirou-se cegamente para defendê-lo nas redes sociais. Escrevi no Twitter e falei no microfone que esperava uma apuração severa do clube que se orgulha de ter a inclusão racial em sua história e, se comprovado, o argentino fosse punido. A resposta que recebi é de que não havia provas de vídeo e por isso a acusação era inverídica, que Elton quis aparecer na mídia, e claro: que por ser gremista, eu quis “criar crise” para ofuscar a vitória do Inter. O incidente não deve ter nenhum desenrolar desportivo – como teve o do Grêmio há três anos. Talvez criminal, contra o atleta colorado, sim, por conta da lavratura de um boletim de ocorrência. Mas alguém duvida que, se causar alguma punição, Elton será transformado em vilão no Beira-Rio? O curioso é que, quando o volante Tinga foi vítima de injúrias em um jogo contra os peruanos do Real Garcilaso, todos nós condenamos e nos solidarizamos com o jogador. Ninguém disse que Tinga quis ganhar holofotes com aquilo, por exemplo. Sabe por quê? Simplesmente porque não envolveu nenhum clube gaúcho ou brasileiro. Os “criminosos” eram outros. Ou seja, com distanciamento, a injúria racial é condenável. Mas basta envolver o time do seu coração para surgir o “veja bem…

Ah, no futebol é assim!“. Sim, infelizmente eu sei que o futebol permite o racismo. Assim como permite outros preconceitos, como a homofobia, o machismo, etc – o que não quer dizer que eu concorde com isso. Meu objetivo justamente é propor o debate a fim de mudar o olhar das pessoas. E o cenário já foi pior! Até a década de 1920, muitos clubes sequer permitiam a presença de atletas negros, ou pintavam-os com pó de arroz para disfarçar a melanina do rosto. Alguém deve ter proposto o mesmo debate lá atrás para que a situação melhorasse, não? O escritor Lima Barreto foi talvez o principal denunciante. Admiro-o por isso. Não posso me omitir do debate, por mais antipático que seja. Não concordo com a tese de que a melhor arma para combater o racismo é não falar sobre ele. O fato de não ter ocorrido denúncias de corrupção na época da ditadura militar não faz daquele um período ilibado da política brasileira – mas um período em que não se permitia debater. Não discutir o problema seria só atirar a sujeira para baixo do tapete. Não quero é ser condescendente com o fato de a vítima de injúria racial ser transformada em alvo de vaias. Há um crime ali e precisamos condenar quem o comete. Discordar da punição imposta ao Grêmio é uma coisa, vaiar o Aranha é outra completamente diferente. Se a vítima for se transformar em culpada, cuide-se! Algum dia você pode ser assaltado na arquibancada de um estádio de futebol e, caso denuncie o crime, correrá o risco de ser vaiado por “criar crise no clube” ou “querer aparecer na mídia“. E se a moda pegar na sociedade comum, veremos familiares de criminosos perseguindo as vítimas de seus parentes que acabaram sendo presas por “culpa” delas. Tire a camisa do clube do seu coração, pare e pense. Estamos fazendo certo? Se ainda assim você achar que está com a razão e quiser me incluir no pacote de vaiados ao lado de Aranha, Elton e Tinga, fique à vontade. Só posso lamentar. Mas não vou ser condescendente com a inversão de papeis que vivemos no futebol.

Lula fará mal às eleições de 2018

bazarPor favor, não fique apenas no título para tirar suas impressões sobre este texto. Acompanhe minha lógica e reflita – mesmo que vá discordar depois. Se você se considera de direita, ainda não atire rojões. Concordamos que Lula não pode ser o próximo presidente do Brasil, mas isso não quer dizer que estamos do mesmo lado da trincheira. Se és de esquerda, espere um pouco antes de xingar minha quinta geração. Ainda não somos tão antagônicos. Se concorrer nas eleições de 2018, Lula irá polarizar de vez o país, extremar posicionamentos e dizimar qualquer possibilidade de debate político. Estaremos à beira de uma guerra civil ou de nervos.

Não é mais uma questão de foi ou não golpe. A candidatura de Lula pelo PT é puramente uma questão de ego. Não há projeto envolvido. E mesmo que haja, não terá a mínima condição de ser colocado em prática. O pleito de 2014 mostrou que, mesmo colocando Dilma Rousseff no posto majoritário, o brasileiro médio é conservador e continuará alimentando a “bancada da bala”, evangélica, dos empresários, e etc. Ou seja, caso confirme as pesquisas e seja eleito, Lula não terá maioria no Congresso. Não terá governabilidade, não poderá repetir os programas sociais implantados a partir de 2002 e talvez até sofra impeachment. Vimos esse filme, não? Logo, para que gastar saliva em um debate infrutífero? Você poderá argumentar que essa é a única chance do PT (ou da esquerda) eleger um presidente. Eu respondo: que se lance qualquer outro e se perca a eleição! Dos males, o menor.

As pesquisas mostram que, sem Lula no páreo, crescem nomes como de Marina Silva (REDE). É o ideal? Para mim, não. Mas bem mais distante do que pode vir. Tenho acompanhado uma tentativa desesperada de descolar o PSDB da direita. Embora ostente o nome da social-democracia, este partido nada mais foi desde seu princípio do que o representante máximo do neoliberalismo no Brasil – a favor das privatizações e do livre mercado. Aliás, os nomes dos partidos brasileiros são apenas uma questão de semântica. O Partido Progressista, por exemplo, não tem nada de progressista e há tempos elege políticos liberais e conservadores (no Rio Grande do Sul ainda representa a classe dos estancieiros). O Partido Comunista do Brasil não tem nada de comunista, sendo no máximo trabalhista. O Democratas é o antigo PFL, uma dissidência do PDS, que na época da ditadura foi a ARENA, braço político dos militares. Logo, na sua origem, não foi democrata. Enfim, tudo isso para dizer que, ao passo que Aécio Neves – principal representante da direita em 2014 – aparece ligado a esquemas de corrupção, já é descartado como um opositor a Lula. O processo respinga, obviamente, no partido, a ponto de ter quem veja no governo paulistano de João Dória Júnior aspectos de centro-esquerda. Ok, para quem está localizado nas extremidades do espectro político, PT e PSDB são basicamente irmãos siameses – o que é claramente um absurdo. E isso é culpa de Lula! Sim, é ele quem promove no inconsciente popular estas reações polarizadas. Com ele nas urnas, a tendência é o brasileiro buscar sua oposição mais gritante: Jair Bolsonaro.

Não há problema em ser liberal. Não sou um adepto deste pensamento, sou a favor do Estado de Bem-Estar Social, mas reconheço e respeito o liberalismo. Acontece que, muitos dos votos que seriam depositados em candidatos liberais, com a presença de Lula no pleito, irão parar em Bolsonaro. Embora sejam opostos, os dois pré-candidatos tem uma semelhança: ambos despertam ódios e paixões. Para seus adeptos, é como se não existisse mais ninguém ao meio. É 8 ou 80! Quando na verdade, não é bem assim. “Bolsonaro não é corrupto!“, dizem os que o defendem. Minha avó também não é, e isso não faz dela uma potencial presidenciável. Falta ao deputado carioca conhecimento político, econômico e histórico. Ex-militar, defende abertamente o governo ditatorial das décadas de 60 a 80 (o que é um contrassenso para os liberais, uma vez que qualquer ditadura se utiliza do Estado para privar o cidadão da liberdade tão defendida por Mises). Quando confrontado por ideias contrárias às suas, Bolsonaro parte para o confronto pessoal. Além disso, solta frases tão rasas como um pires: “se tem pena de bandido, leva para a casa“, “você (mulher) é feia e não merece ser estuprada“, “tive 4 filhos homens, a quinta eu dei uma fraquejada e veio uma mulher“, “a pessoa não pode ter privilégio porque faz sexo com o órgão excretor“, “fui num quilombo e o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Nem pra procriador ele serve mais.” Convenhamos, se Lula não pode ser presidente – e eu concordo -, temos que ter uma solução melhor do que aquele que nos apresentam como seu principal opositor.

Diretas! Independente de endireitar ou não

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Se compararmos à cobertura feita da manifestação de março de 2015, que pedia o impeachment da então presidente Dilma Rousseff, o protesto do último domingo em Copacabana (a favor de eleições diretas) não recebeu nem a metade da repercussão na mídia. Nem mesmo a presença de inúmeros atores, ou shows de alguns dos maiores nomes da música – do passado e do presente, como Caetano Veloso, Milton Nascimento, Mart’nália e Criolo – sensibilizaram a grande imprensa brasileira. Jornalisticamente falando, há uma grande diferença de tratamento numa transmissão ao vivo para uma matéria de 2 minutos. Nem flashes ao vivo? Mas ok, entende-se! A pauta simplesmente não interessa. Por que ‘Diretas Já‘ é inconstitucional? Não! Porque o voto direto neste momento poderia eleger alguém que brecaria as reformas previdenciária e trabalhista. Por isso, mesmo que Michel Temer seja derrubado, é preciso garantir que o sistema vá se proteger através de uma eleição indireta como manda a Constituição Federal (agora convém respeitá-la!). Nem todos os jornalistas pensam assim, mas esta é a linha editorial a que eles estão submetidos. É a lógica patronal – desde a fábrica de automóveis, à fábrica de notícias.

Lula. Este é o nome citado em qualquer debate proposto sobre Diretas Já! Que o TSE retire o candidato petista da corrida eleitoral então. E que o argumento que lhe impediria (o fato de ser um dos principais investigados da Operação Lava-Jato) também impeça outros nomes de entrarem no páreo. Não me importo. Não votaria em Lula pelo fato de ser ele um potencializador da polaridade atual. Prefiro alguém que soe mais conciliador ao ambiente político e mercado econômico – desde que este também não dê as costas para o bem estar social. Se você é contrário às “Diretas” pelo fato de que Lula lidera as pesquisas atuais, não é o oposto que me faz acreditar nas “Diretas” como a solução plausível. Não votaria também em Jair Bolsonaro ou João Dória Jr, outros possíveis candidatos. Mesmo assim, se for a vontade da maioria, aceitaria a vitória de um deles.

Acima das minhas ideologias, entendo que o Brasil precisa ter um presidente com legitimidade popular. Neste período de descrédito, é preciso devolver ao povo o direito de escolher seu governante, e não terceirizar a decisão a um colegiado (putrefato, diga-se de passagem). Aceitaria a eleição de qualquer um, nem que seja alguém que eu não concorde. Nem que fosse o próprio Temer! Alguém que, assim como ele, daria continuidade às reformas das quais sou contrário nesta maneira que se propõem. As mesmas reformas que os grandes empresários têm medo que não aconteçam. Os grandes empresários de todos os ramos – inclusive das grandes empresas de comunicação. As mesmas empresas de comunicação que omitiram (ou minimizaram) vergonhosamente o pedido por Diretas Já do noticiário jornalístico.

Um mês sem a ficha cair

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Hoje faz um mês. Dizem que a ficha um dia vai cair. Mas o que isso significa? Ouvi teu nome completo nas rádios, vi tuas fotos no jornal e até um vídeo em que tu aparece na televisão. Parece mentira! Às vezes cruzo em frente ao teu prédio, achando que vou te abanar no portão e receber um convite: “E aí, bugrinho, quando é que vamos fazer um churras?!“. No último protesto parei na esquina, com uma garrafa de cerveja na mão, acendi um cigarro em tua homenagem e fiquei te esperando passar. Não vieste! Cheguei a ouvir tua voz perfeitamente gritando junto com todo mundo: “Fora Temer! Fora Temer!“.

Não te culpo pela ingenuidade. A vítima nunca é a culpada! Nem sinto raiva de quem te arrancou à força do mundo. Aliás, consigo te imaginar sentado na mesa de um bar, às risadas (e ouço a tua gargalhada), contando como foi que escapaste dessa enrascada. Seu louquinho! Por isso, não brado pela pena de morte – sei que tu também era contrário a ela. Queria que o M.S.M (25 anos) – conforme a polícia divulgou – entendesse a bobagem que ele fez. Que se arrependesse de ter nos privado de conviver mais um pouco contigo. Quem sabe ele próprio, se tivesse ficado mais algumas horas, dias, semanas e meses ao teu lado, iria aprender como a vida merece ser plenamente vivida. Este é o ensinamento que me passaste, mesmo sem querer. Deu vontade de ir à praia? Vamos! Está de folga no final de semana? Vamos ao Uruguai! Ou ao Rio de Janeiro! E nem adianta marcar hora, porque tu sempre chegaste atrasado. Dorminhoco! Sou uma pessoa melhor graças ao tempo em que pude conviver contigo. Uma pessoa mais tolerante, feliz, com a mente aberta…

Não adianta! Por mais que eu tente imaginar como seria o último mês contigo ainda presente, penso que estarias menos alegre. Aconteceram algumas coisas por aqui que tu não concordas. O cerco está se fechando! As pessoas estão cada vez menos parecidas contigo – menos ingênuas, mais intolerantes, odiosas, caretas… Falei para tua mãe e repito: não pertencias a este mundo! E como era bom quando tu me convidava para entrar neste teu mundo diferente, nem que fosse por algumas horas. Uma cervejinha gelada no congelador, uma música de fundo no radinho ao lado da cama, a televisão no mudo e a porta da sacada aberta para entrar um vento. Assim te imagino descansando para sempre. Mas se quiseres reaparecer e contar que tudo foi mentira, fique à vontade: tem Comitê Latino-Americano nesse final de semana!

 

 

 

Empresários pagadores de propina ou povo trabalhador?

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Foto: Alan Santos/PR

Imagina que louco seria se, num país onde se “descobriu” que grandes empresários pagavam propina e cobravam favores de políticos (e onde também se “descobriu” que o presidente se reunia às escondidas, à noite, com um destes grandes empresários), o presidente da República – com vários pedidos de impeachment -, juntasse os líderes das bancadas partidárias, pedindo pra acelerar votações na Câmara dos Deputados?

Agora imagine que, coincidentemente, até estourar o último escândalo de corrupção, a principal meta deste presidente era votar as reformas previdenciária e trabalhista. E que o presidente da Comissão da reforma da Previdência, indicado pelo partido do presidente, é o mesmo deputado que foi à Ordem dos Advogados defender o tal presidente de um pedido de impeachment.

Considerando tudo isso, eu faria uma única pergunta: as reformas trabalhista e previdenciária interessam realmente ao povo trabalhador ou aos empresários que financiam estes políticos?

Atenção! A implosão de Temer não pode ser a implosão da democracia

bazar.jpgNão há motivos para festejar. A bomba que caiu sobre Brasília neste 17 de maio de 2017 é motivo de preocupação para todos nós, coxinhas, mortadelas ou o que seja. Não quero dizer com isso que devamos ignorar a crise política e manter Michel Temer na presidência da República pelo bem da recuperação econômica – como já sugeriram alguns anteriormente. O mais novo escândalo (agora com direito à gravação) merece ser tratado com rigor, sim: saída imediata do presidente, seja por renúncia ou por impeachment. Mas e aí, o que será feito depois? É preciso atenção! O momento delicado que vive o Brasil é um prato cheio para quem odeia a democracia. Não faltarão adeptos do velho pensamento mágico: “ah, se os militares estivessem no poder…“. De fato, se os militares estivessem no poder, a imprensa jamais teria publicado a notícia desta noite. Não por que a corrupção estivesse findada. Não! Simplesmente porque estaríamos todos de olhos vendados e com mordaças sobre a boca (talvez literalmente!). Ou você acha que as empreiteiras agiram licitamente na construção de obras faraônicas, como a Rodovia Transamazônica, nas décadas de 60 e 70?

Pela legislação nacional, com um possível afastamento do presidente, Rodrigo Maia (do DEM, presidente da Câmara dos Deputados, e pertencente à base governista de Temer) assumiria a cadeira e convocaria eleições indiretas. Ou seja, deputados e senadores escolheriam o novo presidente. Não eu ou você! Mais ou menos como colocar um grupo de raposas a cuidar da porta do galinheiro. Por exemplo, o que os impediria de um grande conchavo, como os já feitos atualmente? Ou pior: mudar as regras do jogo e esta pessoa eleita ficar por mais 4 anos, adiando o pleito agendado para 2018. Mas enfim, se é para ser inconstitucional, digamos que a melhor saída seja eleições gerais e diretas. Pois bem, neste caso, as últimas eleições municipais já deram pequenas amostras do que pode vir pela frente: uma grande desilusão com a classe política e a famosa frase de que são todos “farinha do mesmo saco“.

Dos consagrados, Aécio Neves (PSDB) é carta fora do baralho até no próprio partido depois de também ter sido gravado. Para Lula (PT), seria questão de tempo até o próximo pedido de impeachment. Marina Silva (REDE) mudaria de opinião quantas vezes sob a batuta dos líderes religiosos? E então voltemos aos saudosistas verde-oliva: aqui entra Jair Bolsonaro (hoje PSC). O “mito” dos preconceituosos e truculentos – que parece engraçado quando retratado por programas humorísticos – tem sérios problemas em lidar com o contraditório. Seria este o apaziguador da democracia brasileira? Óbvio que não! Aí entram os “outsiders“, aqueles fora do bojo político. Alguém que você nem imagina, talvez alguém que você nem conhece, pode ser o novo presidente da República daqui alguns meses. Esta pessoa pode estar sentada ao seu lado agora. Ou apresentando o programa de TV que você sabe que existe, mas nem assiste. Pode ter dado entrevistas durante o programa esportivo do final de semana e até feito um gol importante de repente. Pode ter sido cirurgião plástico, juiz federal ou palhaço de circo. Por isso, não se pode nem brindar a queda iminente de Michel Temer. Tempos difíceis ainda estão por vir!

Brasil, a pátria de luvas de boxe

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Por muito tempo se pensou o seguinte: “ah, se o brasileiro se importasse tanto com político como se importa com futebol, o país não estava desse jeito“. Ledo engano! De uns tempos para cá, os botecos deixaram o Fla-Flu de lado para discutir se Lula sabia ou não da corrupção na Petrobrás. No ponto de táxi, o assunto não é mais o gol perdido pelo atacante, mas a mais nova delação premiada. Ninguém mais critica tanto o juiz que validou um gol com a mão, mas espuma ao ler sobre a última decisão do STF. Arrisco dizer que, desde a reabertura política, o brasileiro nunca se preocupou tanto com política como agora. Acontece que a maneira com que se acompanha o noticiário político é idêntica a como acompanhava o noticiário esportivo: como mero torcedor, cego de raiva ou paixão, sedento pela vitória a qualquer custo. E sei do que estou falando! Como cronista esportivo, sofro cada vez que tento fazer uma análise, tecer uma crítica/elogio a algum jogador, técnico ou clube de futebol. Mesmo que me poste de maneira respeitosa, soa como ofensa ao ouvido do torcedor. Por quê? Porque ele não assiste/lê/ouve, ele digere com o estômago.

Nelson Rodrigues estava errado. O Brasil não é e nunca foi a pátria de chuteiras, mas a pátria das luvas de boxe. Não porque gosta mais deste esporte que do outro, mas porque prefere o embate em si – seja sobre o que for. E tal pensamento não se resume somente ao brasileiro médio. Há jornalistas que também gostam de ver o circo pegar fogo, da discussão rasa. E cito a profissão de jornalista pressupondo que são pessoas com ensino superior completo, portanto capazes de escrever e interpretar textos que fujam do senso comum. Outro engano! Nosso esporte preferido nos impede de colocarmos a razão à frente da emoção, e nos impele a este maniqueísmo pobre que separa um em cada canto do ringue. Exatamente como fizeram na última semana as capas das revistas Veja e IstoÉ (duas das maiores do país). Queria eu ter a segurança de muitos brasileiros e me posicionar contrário/a favor de Lula/Sérgio Moro. Não consigo ver tão somente uma perseguição política na investigação sobre desvios de dinheiro público e influência de poder no mandato do ex-presidente, assim como não consigo aplaudir as ações do juiz que ultrapassam a linha constitucional – como vazamento seletivo de conversas telefônicas. Isso me faz alguém medroso, que fica em cima do muro? É, no mundo raso do futebol costuma se chamar de “muraldino” aquele que não se posiciona sobre um determinado assunto. Logo, como o debate político ganhou ares futebolísticos, virei “muraldino” por não escolher nenhum dos lados.

Mas, como já escrevi antes, o próprio papel da imprensa está enviesado. Como sou jornalista, sei: a isenção é uma mentira. Isso, porém, não quer dizer que vou me comportar como um torcedor de clube de futebol ou como um filiado a partido político. Posso tranquilamente gostar de ver um time jogar em uma determinada temporada por causa de tal metodologia de trabalho, assim como acabo votando em um determinado candidato pela conjuntura ou projetos apresentados. Entretanto, no papel de repórter, não tomo partido. Apenas ouço as partes. Como comentarista, aí sim, devo me posicionar (sem cegueira ou raiva). O problema está no conceito editorial. Como puderam as duas revistas acima citadas colocarem um pré-candidato à presidência prestes a lutar contra um juiz federal? Para facilitar o processo, te convoco a imaginar o seguinte cenário. Teremos a final de um campeonato no final de semana, e o caderno de esportes de um determinado jornal traz o ídolo de um dos times desafiando o árbitro do jogo. Algo como: “D’Alessandro versus Leandro Vuaden” ou “Danrlei contra Carlos Simon“. E o representante do outro time, o outro finalista, está aonde? Este deveria ser o enfoque! Enfim, seria louco (para não dizer parcial) até para os padrões do jornalismo esportivo ver uma capa dessas. Mas, como o futebol já é passado, vamos fazê-lo com a política. E que se rale o noticiário e a análise fria das informações. Queremos mesmo é urrar do lado de fora do ringue até que um dos boxeadores desabe na lona!