Os novos donos do mundo

Parte do texto “No rastro de Boubacar”, publicado na Revista Piauí de julho de 2018

Já faz um tempo que tenho pensado sobre isso. Meu último texto no blog foi sobre o mesmo tema. No domingo em que a Copa do Mundo foi conquistada por uma Seleção Francesa – formada quase que integralmente por malinenses, congoleses, camaroneses, etc -, a crise da imigração tomou conta da minha cabeça. Porque não foi só futebol. Foi o dia em que filhos de sobreviventes de guerra, filhos de escravos, filhos de refugiados conseguiram provar pelo meio esportivo que são úteis e podem também dar orgulho ao país que lhes acolheu – até mesmo aos nacionalistas retrógrados e xenófobos que pregam o fechamento das portas para novos imigrantes. Futebol foi só um aperitivo.

Neste mesmo domingo estive em Teutônia – uma das tantas cidades construídas e colonizadas por alemães no Rio Grande do Sul. Aqui neste Estado nos orgulhamos por ter recebido tantos povos fugidos de guerras do século passado. Nada muito diferente da onda migratória que atinge a Europa nos últimos anos. Ou melhor, há sim uma grande diferença: nossos imigrantes são europeus, enquanto os dos europeus são africanos e árabes. Até temos uma parcela generosa de afrodescendentes em nossa população, mas nãoos tratamos como filhos/netos/bisnetos de africanos feitos de escravo e trazidos à força. Ignoramos por conveniência e sanidade, talvez. Acontece que agora nós, gaúchos, também temos recebido inúmeros refugiados nos últimos tempos: haitianos, senegaleses, angolanos… Você talvez não os tenha notado, mas eles estão espalhados por aí. Em Porto Alegre, estão no centro vendendo óculos e relógios, limpando o chão de alguma empresa, servindo cafezinho em escritórios ou até atendendo atrás de balcões em sorveterias e padarias. Vocês os viu? Eles querem exatamente o que tiveram, quase um século atrás, os italianos, alemães e poloneses que migraram para cá: oportunidade. Eles não querem construir uma cidade para si, impor suas crenças religiosas, expulsar e ridicularizar quem não seja do seu tom de pele. Eles apenas querem viver em paz.

Casualmente, no mesmo domingo em que me peguei pensando sobre isso, caiu em minhas mãos na viagem de volta para a casa uma matéria da Revista Piauí, escrita pela jornalista argentina Mori Ponsowy. No texto, ela conta a história de imigrantes. Um mauritano que tentou fugir do local onde era escravizado, teve os braços quebrados e fugiu pelo deserto. Um guineense que teve a família assassinada, foi recrutado como soldado rebelde aos 14 anos, mas conseguiu fugir. E tantas outras vidas destroçadas. Em comum: todos entraram de maneira ilegal e vivem na Europa. Moram na Espanha, Itália e França. Cruzam por lugares que eu visitei como turista, mas que para eles são símbolos de suas próprias sobrevivências. Chorei lendo. Chorei porque são os filhos de pessoas como essas que venceram neste domingo. São eles os novos donos do mundo. Não é só futebol. E se for, a taça não podia ter repousado em mãos mais calejadas e merecedoras do sucesso. Mas ao final de tudo, me pergunto quem é pior: quem promove as guerras civis que afugentam as pessoas de seus países de origem, ou quem nega abrigo para que essas pessoas consigam viver suas vidas.

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Uma Copa do Mundo na cara dos nacionalistas xenófobos

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Foto: Site Fifa.com

O Brasil caiu nas quartas-de-final da Copa do Mundo. Terrível para nós brasileiros! Mas deve estar sendo mais difícil ainda ser um nacionalista europeu durante este Mundial na Rússia. Vejam a França, por exemplo. Em sua última eleição presidencial, mais de 10 milhões de franceses (33,90%) votaram em Marine Le Pen, da Frente Nacional – que tinha entre suas propostas a suspensão da imigração no país. Pois esta mesma pessoa publicou em seu Twitter a seguinte frase: “Bravo la France ! À dimanche !” (Bravo França! Ao domingo!). Acontece que o gol que deu a vitória e a classificação para a grande final de domingo foi marcado por Samuel Umtiti, zagueiro do Barcelona, camaronês de nascença que se mudou com os pais para Lyon ainda criança e acabou se naturalizando francês. Ou seja, se a política de Le Pen estivesse em voga, o gol comemorado por ela mesma nesta terça-feira provavelmente não teria acontecido. Aliás, se a imigração fosse proibida, os craques Pobga e Mbappé teriam disputado as Eliminatórias por Guiné e Camarões, respectivamente. E ainda há na seleção francesa filho de malinense, congolês, marroquino, argelino, senegalês e togolês – isso sem falar no goleiro reserva Mandanda, que nasceu no Congo.

Entre os derrotados belgas (que eliminaram o Brasil) também há filhos da imigração. Os titulares Lukaku, Witsel e Kompany são filhos de congoleses; Chadli e Fellaini de marroquinos; Dembelé de malinense, Carrasco de martiniquense e Januzaj de kosovense. Ao mesmo tempo que, dentro de campo, alcançaram o melhor desempenho do país em Copas do Mundo, possuem um Ministro da Imigração que fecha cada vez mais o cerco a imigrantes – Theo Francken, da Nova Aliança Flamenga (N-VA), que compõe a coligação do primeiro-ministro Charles Michel. E aí, a geração belga é motivo de orgulho ou não? Por fim, veja o ‘English Team’. Não chegava a uma semifinal de Copa do Mundo desde 1990 na Itália, e nesta quarta-feira decidirá uma vaga na decisão do Mundial contra a Croácia. Legal, né?! Mas entre os motivos que levaram a população a aprovar recentemente o ‘Brexit’ (saída do Reino Unido da União Europeia) está o desejo de “estancar” a onda migratória. Fosse isso, o técnico Gareth Southgate não teria à sua disposição o meia Delle Alli (filho de nigeriano), e os atacantes Welbeck (filho de ganeses) e Sterling (jamaicano naturalizado inglês).

Sinceramente, ficaria feliz se os ingleses que apoiam tais medidas se recolhessem às suas poltronas e, comedidamente, comemorassem suas vitórias na Rússia. Mas imagino que tenham a mesma atitude hipócrita que a francesa Marine Le Pen: capaz de prometer a expulsão de imigrantes para no dia seguinte comemorar o gol de um deles. Hipócrita! Mérito nosso que, no Brasil, abraçamos todos os povos. Do descendente alemão Alisson Becker aos afrodescendentes Marcelo, Neymar, Paulinho e Fernandinho. Mas ai deles que marquem um gol contra! Se isso acontecer, esquecemos nosso motivo de orgulho para esbanjar racismo.

E se eu dissesse que sou gay?

A sua resposta para a pergunta que dá título a este post fala muito mais sobre você do que sobre mim. Caso você não saiba, hoje é o Dia do Orgulho LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais ou transgêneros). Quer uma data melhor para refletir sobre isso?

Durante quase toda minha vida respondi questionamentos sobre minha sexualidade. A última pergunta veio da minha terapeuta na semana passada. Contei a ela sobre a primeira vez que pensei sobre isso. Foi quando, na época da faculdade, uma amiga e colega de aula indagou sobre a possibilidade de eu ser gay. Afinal de contas, eu nunca tinha tentado beijá-la, nem quando dormíamos no mesmo colchão assistindo filmes. Éramos confidentes, contávamos segredos, e ela se achou no direito de me alertar sobre algo que poderia estar ali, escondido em mim. Num primeiro momento, disse que não era homossexual, mas resolvi tirar a prova: saí à noite disposto a experimentar se eu gostaria de beijar um homem. Escorado na mesa do bar, refleti melhor e não me senti atraído por ninguém. Não aconteceu nada, mas sou agradecido à Juliana por ter me feito pensar sobre isso. Há alguns anos, numa discussão com meu irmão, minha mãe saiu em minha defesa após uma ofensa: “ele é teu irmão e nós temos que respeitar a opção sexual dele!”. Senti-me protegido, embora jamais tenha me assumido gay para ela. Por fim, fiquei sabendo recentemente que existem comentários de pessoas próximas de que eu transo com homens e mulheres. Fiquei surpreso! E sabe como eu soube? Contaram isso para minha namorada que, no início da nossa relação, me perguntou se era verdade.

Não que isso me ofenda. Pelo contrário! Penso que não há nada mais prazeroso do que ser bissexual. Adoraria sê-lo. É praticamente uma prova de superioridade sentir desejo sexual ou amar qualquer ser humano, independente do seu gênero ou preferência sexual. Acontece que não sou bissexual. Nem gay. Mas e se eu fosse? Sinceramente, do lado de cá não mudaria nada. Talvez mudasse a maneira como você me vê e, aí sim, iria alterar de maneira indireta a minha vida. Você me trataria mal se eu fosse gay? Deixaria de me assistir na TV? Minhas informações perderiam crédito? Apertaria minha mão na rua? Falaria comigo normalmente sem fazer nenhuma piadinha quando eu virasse as costas? Frequentaria minha casa? Sentaria na mesma mesa de bar? Enfim, as respostas sobre todos estes questionamentos falam muito mais sobre você do que sobre mim.

Homem, aprenda a dizer não!

Este é um texto direcionado especificamente aos homens heterossexuais – aos quais me incluo. Claro, outros gêneros são bem-vindos, mas meu papo hoje é direto com os meus iguais. O assunto é sexualidade: quantos ‘nãos’ de mulheres você já ouviu e quantos ‘nãos’ você já deu? Vou repetir as perguntas e você pensa calmamente em cada uma das respostas. Sei que nós, homens, não nos permitimos pensar muito. Somos ensinados a agir (e quanto mais brutos, melhor!). Pensar é um sinal de fraqueza, de ser “mulherzinha”. E pensar sobre isso então (nossa!), é um atestado de fraqueza. Mas vou refazer a pergunta.

Quantos ‘nãos‘ de mulheres você já ouviu? Não se faça de rogado! Obviamente, você já foi rejeitado. E quando a mulher até lhe beijou, mas na ‘hora H’ resolveu dizer que não queria transar?! Certamente, você também insistiu para continuar, mesmo depois da negativa. Alguns de nós, inclusive, forçaram o ato sexual. Não sei se você sabe, mas isso é estupro. Isso inclui também os homens casados que ignoram o não da esposa e dizem: “ah, mas você não precisa nem se mexer, eu faço tudo sozinho!”. Se você já fez isso, saiba que violentou alguém igualmente. Agora, se você não se encaixa nos perfis anteriores, sempre respeitou (ou passou a respeitar) o não feminino e parou, parabéns! Agora podemos avançar para a segunda pergunta.

Quantos ‘nãos‘ você já deu? Sinceramente, nunca te aconteceu de aparecer uma mulher interessada em você, mas que não te atraiu tanto e, mesmo assim, a beijou? Afinal de contas, “homem que é homem não nega fogo”! Ou então, uma mulher te convidou para transar e você não sente tanto tesão por ela (ou só não está em um dia legal), mas ignora tudo isso para dormirem juntos. Nunca fez isso? Já? Pode falar. Eu já. Muitas vezes! E sabe por quê? Porque homem não é ensinado que também pode dizer não. Ou pior: a sociedade impõe ao homem esta ideia de ereção eterna – seja com quem for, onde for e como for. A virilidade masculina deve ser inabalável – é o que pensam também algumas mulheres, infelizmente. E ai de você se broxar! Ela pode espalhar para as amigas e essa fama é terrível para a imagem de um “garanhão”. Mas o pior castigo é o sentimento de culpa consigo mesmo. “Como eu fui broxar?“. Não deixa de ser um abuso, uma autoviolencia. Você não ouviu os “nãos” do seu próprio corpo. Ou até ouviu, mas resolveu ignorá-los. Afinal, “homem de verdade não pode dizer não. Isso é coisa de mulher”. Até quando, hein?

O que eu penso sobre os pré-candidatos a governador do Rio Grande do Sul

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Respeito muito os institutos de pesquisas e vejo nas pesquisas eleitorais um retrato do momento, não algo definitivo. Há quem goste de, depois do fato consumado ao contrário, cobrar por que o resultado das urnas não foi igual àquela pesquisa feita 4 meses antes das eleições. Não é o caso de agora. Ao me deparar com o levantamento da Paraná Pesquisas, em que o atual governador do Rio Grande do Sul, José Ivo Sartori (MDB), lidera com 28% as intenções de voto entre os gaúchos, caí para trás da cadeira. Não acredito que este será o cenário final em outubro. Educadamente, sem duvidar da idoneidade de quem guiou as entrevistas, questiono a conexão desta pesquisa com a realidade. Ou, então, como eu mesmo mencionei, ela é (no mínimo) o retrato do momento em que a população gaúcha ainda não tem noção de quem são os outros nomes no pleito. Pensando nisso, resolvi fazer este texto. Ninguém me perguntou, mas vou aproveitar que ainda não estamos impedidos de manifestar opinião pela lei eleitoral, para passar minhas impressões sobre os pré-candidatos ao Piratini. Não é uma manifestação pública de voto ou propaganda, apenas minhas impressões.

-JOSÉ IVO SARTORI (MDB)
Não creio que ele seja capaz de mudar a sina do povo gaúcho em não reeleger um governante. O discurso vazio e a ausência de propostas, que foram muito bem maquiados pela campanha de marketing de 2014 (transformando o ex-prefeito de Caxias do Sul em um senhor “boa praça”, “bonachão” e “confiável”) não terão o mesmo efeito. Agora o emedebista é conhecido do público – e não apenas pelo discurso frágil, mas pelos atos desastrosos. Tentará se vender a ideia de um governo que iniciou o ajuste das contas do Estado, mas o parcelamento no pagamento dos servidores públicos e o agravamento da crise de segurança pública farão com que receba críticas de todos outros postulantes. Prova disso é que muitos dos partidos que o apoiaram e fizeram parte de sua base de governo, desembarcaram de maneira desesperada e até votaram contra o chamamento de um plebiscito para a privatização de estatais. O “gringo” não é mais a terceira via. É vidraça!

-EDUARDO LEITE (PSDB)
É, sem dúvidas, o candidato mais forte ao Piratini. Num cenário muito semelhante ao que elegeu seu correligionário Nelson Marchezan Jr à prefeitura de Porto Alegre, pode criticar as ações da atual gestão do PMDB e ainda assim bater no PT – além do mais, parece ter um discurso mais conciliador e menos raivoso que o prefeito da Capital. É o político perfeito aos olhos do senso comum: jovem, bonito e bem articulado, teve a experiência de administrar Pelotas e pode argumentar que é contra a reeleição (já que abriu mão de um novo mandato na sua cidade, indicando e fazendo de sua vice a sucessora). Adepto da ideia liberal, é o nome perfeito também para o mercado financeiro, podendo enfim dar andamento ao projeto de privatizações (entre elas, até mesmo do Banrisul) iniciada pelo governo Sartori. Não me surpreenderia se vencesse ainda em primeiro turno.

-MIGUEL ROSSETTO (PT)
Larga com os votos do eleitorado fixo dos petistas, mas deve ter dificuldade em ultrapassar esta margem. Isso acontece por sua fala técnica, que lhe rendeu cargos administrativos, como vice-governador de Olívio Dutra e ministro de Dilma Rousseff e Lula. Prova da falta de carisma está na derrota de 2006, quando tentou chegar ao Senado. Com a imagem do PT chamuscada, e a disputa contra seu ex-companheiro de partido – o agora pedetista Jairo Jorge -, esses números podem ser ainda inferiores. Briga para chegar ao segundo turno, mas dificilmente vencerá.

-JAIRO JORGE (PDT)
Com um discurso apaziguador, de conciliar o que já foi feito de melhor por todos os partidos até aqui, o ex-prefeito de Canoas pode almejar um espaço no segundo turno buscando votos de centro e centro-esquerda. A estrategia é boa, pois não corre o risco de se tornar antipático batendo demais em Sartori, e nem critica a gestão anterior (de Tarso Genro, do PT). Nem poderia pegar pesado com seu ex-partido – até porque, tentará conquistar alguns de seus antigos eleitores. A experiência administrativa também pode ser um trunfo a ser apresentado. Porém, o teto está justamente no seu passado: o PT. Com a rejeição enorme dos gaúchos ao partido, terá de se desvincilhar dos escândalos de corrupção nacional que levaram ao impeachment de Dilma e à prisão de Lula.

-LUIS CARLOS HEINZE (PP)
Ex-prefeito de São Borja, foi eleito deputado federal cinco vezes seguidas. Agora terá a missão de levar seu sucesso segmentado (comprovado por ter sido o deputado mais votado no Estado em 2014) a outras regiões do Rio Grande do Sul, demonstrando conhecimento em pautas que não digam respeito somente à bancada ruralista – da qual faz parte em Brasília. Até agora ganhou os holofotes estaduais de maneira negativa, depois de uma declaração dada em 2013, em que incluiu quilombolas, índios, gays e lésbicas à definição de “tudo que não presta.” Tal afirmação já lhe faz largar com grande rejeição junto à esquerda – de quem dificilmente ganharia votos mesmo. O desafio, no entanto, será conquistar parte da direita e, quem sabe, chegar ao segundo turno. Sinceramente, não acredito.

-ROBERTO ROBAINA (PSOL) e MATEUS BANDEIRA (NOVO)
Estão em lados diametralmente opostos no espectro político, mas têm o mesmo objetivo. Com chances praticamente nulas de alcançar o segundo turno, tentarão divulgar suas siglas a um número maior de gaúchos. Robaina, que é vereador porto-alegrense, concorrerá pela terceira vez ao Piratini para, assim como nos outros pleitos (2006 e 2014), bater no projeto de privatizações, questionar isenções fiscais a grandes empresários e o sucateamento do serviço público. Já Bandeira, que é ex-presidente do Banrisul e foi secretário do governo Yeda Crusius (PSDB), terá missão exatamente oposta: enaltecer a importância do enxugamento da máquina pública, da desburocratização a pequenos empreendedores e outras marcas do liberalismo. No fundo, ambos querem apenas marcar território.

Por que o brasileiro tem fixação por PIB?

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Não sou ciumento. Aceito que você saia lendo outros blogs por aí. Mas já aviso de antemão: poucos serão tão sinceros quanto eu. Admito que não tenho conhecimento de causa sobre vários dos temas que abordo aqui. Sou transparente. Não tenho a pretensão de ser o dono da verdade. O que escrevo é somente a manifestação da minha opinião de momento. E um assunto vem me intrigando nos últimos tempos: por que o brasileiro vive apreensivo com o PIB do país? Para quem não sabe do que se trata, fui pesquisar: Produto Interno Bruto é a soma, em valores monetários, de todos os bens de um determinado local. Vou tentar explicar de maneira tosca o que eu entendi: se eu ganho R$ 10.000 por mês, e a pessoa que divide o apartamento comigo ganha R$ 800, nosso PIB mensal é de R$ 10,8 mil e nossa “renda per capita” seria de R$ 5,4 mil (quem sabe não seria um dos maiores do meu condomínio!). Sendo isso, proponho imaginar que eu não tenha uma boa relação com o  outro inquilino e não dividimos os bens – apenas residimos no mesmo espaço! Então, como ganho maior salário, compro mais variedades de comida, roupas de marca, pago TV a cabo e internet, mas não empresto nada. Consequentemente, nosso clima ficaria pesado. Enquanto eu engordo e dou risada trocando o canal no controle remoto, meu “vizinho” de quarto raciona bolacha água e sal diariamente. Não duvido que, passando fome, ele não mexa escondido na minha parte da geladeira – ou só por inveja roube meus tênis da moda. E se ele pegar uma gripe forte e não tiver dinheiro para pagar remédios: ajudo-o com a conta da farmácia ou espero que se cure sozinho, arriscando que eu seja contaminado pelo vírus? Digamos que não seria uma boa maneira de viver. Logo, este tal de PIB não representa exatamente que nossa casa seja das mais prósperas no prédio. Não quero mais ser iludido por este tal de PIB!

Descobri um cálculo melhor para representar uma vida em sociedade: o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Criado em 1990 para medir o padrão de vida dos países, ele leva em consideração a expectativa de vida da população, taxa de alfabetização, números econômicos, entre outros. Assim, voltando à minha vizinhança, aquele casal que mora no mesmo corredor que eu, que o marido recebe R$ 3.000 por mês e a esposa R$ 2.500, tem a possibilidade de viver mais em harmonia. Se dependesse do PIB, eles estariam atrás de nós, com uma renda per capita de R$ 2,75 mil – bem atrás dos meus R$ 5,4 mil. Porém, eles dois conseguem sair juntos para almoçar fora quase que diariamente (com cada um pagando a sua conta), fazem cursos interessantes nas horas vagas e dificilmente discutem – bem diferente de mim e do meu companheiro de residência. Para mim, a conclusão é fácil: a distribuição de renda é mais importante do que o montante total. Ou seja, quanto menor a desigualdade entre os pares, mais salutar será o ambiente social. Mas qual seria o nosso IDH então?

Agora eu mesmo me peguei: não sei calcular o IDH da minha casa. Mas, como minha intenção era questionar essa fixação maluca do brasileiro no PIB, posso fazer um comparativo com os números divulgados pela ONU do IDH mundial. Conforme o ranking do site ‘Tranding Economics‘, o Brasil é o 9º quando se trata de PIB (excluindo União Europeia e Zona do Euro da lista e considerando apenas países). Porém, no site do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), ocupa a 75ª posição em IDH. Já os Estados Unidos, primeiríssimo lugar em PIB, aparece atrás de sete nações no IDH. Enquanto isso, a Noruega, referência no IDH, é 30ª no PIB. Aliás, pelo PIB, a superpopulosa Índia e o México (mesmo com seus cartéis de drogas) aparecem na frente da Suíça e Dinamarca, por exemplo. Ou então, pelo PIB, a Nova Zelândia – para onde muitos brasileiros tem se transferido a fim de buscar uma vida melhor – seria considerada inferior a Vietnã, Bangladesh ou Venezuela. Quer morar em algum destes três lugares? Por isso, você que critica a crise econômica do país e usa o PIB como exemplo, não mande mais seus rivais do debate para Cuba. O país, apesar de viver sob a mão de ferro da ideologia de Fidel Castro, aparece em 67º (melhor posicionado que o Brasil no IDH).

Listo abaixo o TOP 20 dos dois rankings, onde você pode se divertir comparando as colocações das nações. Ou ainda, pode participar de uma brincadeira que eu vou propor agora. Veja em quantos países você gostaria de morar e trabalhar se tivesse que ir embora do Brasil. O lado que apresentar um maior número de lugares, vence. E aí, você terá a resposta sobre qual é a melhor referência: PIB ou IDH. Ok?

 

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Eu entendi os pedidos por intervenção militar e me somo a eles

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Os últimos anos trouxeram um incrível ‘boom‘ de protestos em que se pede uma intervenção militar. Pois justamente nesta tarde eu os entendi. Na verdade, não quer dizer que o desejo é pura e simplesmente colocar à força um general do Exército na presidência. Isso ainda sim não bastaria se o comportamento não fosse exatamente igual aos antecessores da “Revolução de 1964” – como alguns chamam. Ou melhor: não é preciso fazer tudo igualzinho. Desta vez, por exemplo, não precisaria torturar, estuprar e assassinar presos políticos. Afinal, chamaria muito a atenção deste pessoal que “gosta de Direitos Humanos“! Mas uma coisa não poderia faltar: a censura. De nada adiantará um jipe estacionado no Palácio do Planalto se notícias continuarem pipocando livres por aí.

Não aguento mais ligar o rádio e ouvir denúncias de político grampeado, ou que teve e-mails divulgados pela Polícia Federal, combinando de que forma iam recompensar aquele dinheiro lavado que entrou na conta bancária. Ligo a televisão e vejo reconstituição de bala perdida que matou criança, policiais trocando tiros à luz do dia com traficantes e um viciado roubando o celular de um trabalhador no ônibus. Quero acabar com isso! Abro o jornal para limpar o cocô do cachorro e leio que aumentou o dólar, o gás de cozinha, a gasolina, o preço do tomate… Chega! É insuportável perceber que estamos atolados até o pescoço e que, talvez, demore anos para dissolver essas más administrações. Ou pior, dói duvidar que isso é possível. Logo, desisto! Quero uma intervenção militar capaz de silenciar todas essas rádios, jornais e canais de televisão que me deixam indignado e desesperançado! E, de quebra, que coloquem censores também nas escolas (como antigamente) – para impedir que crianças sejam ensinadas a ter senso crítico e virem aqueles adultos chatos que te param na rua e querem falar sobre política. Não aguento mais saber das mazelas da sociedade! Quero sentar no sofá da minha sala e respirar aliviado enquanto assisto anestesiado uma novela, um filme de super-herói e uns programas de auditório. Perdi a esperança na democracia. Não importa o partido, são todos iguais: PT, PSDB, PMDB ou PQP. Nenhum deles acabou com os problemas do Brasil! Por isso, quero a volta dos militares ao poder. Eles, os homens de farda, pelo menos escondiam as notícias da população dando um bom ‘cala-te, boca’ nesses jornalistas enxeridos.

E vou também começar a adotar esse modelo para a minha vida. Já comecei faltando nas reuniões de condomínio. Quando a conta da luz chegar pelo correio, não vou abrir. Se algum amigo quiser me abrir os olhos para o que acontece ao meu redor, vou bater boca e dar as costas. Não vejo a hora de ter uma delegacia para denunciar este tipo de gente! Amanhã mesmo vou estocar comida na geladeira e nos armários. Quando chegar em casa, vou tomar um Rivotril, deitar na cama e ligar o som. Só quero coisas que aliviem minha dor existencial. Quero que me injetem morfina mesmo que eu não precise. Problemas? Não me pertencem mais. Os militares vão resolver para mim. E se não resolverem, que pelo menos deem o jeito de que eu não saiba mais de nada. Se fizerem isso por mim, eu juro, vou tocar o Hino Nacional a todo volume num ato psicótico de ufanismo. Ah, e claro, prometo fazer propaganda do regime militar para as minhas próximas gerações: “Vocês não sabem como era bom naquela época em que não havia corrupção, não havia assalto e a educação era maravilhosa!“. Gente, vou me somar ao próximo protesto em frente a um quartel e gritar por intervenção militar já! Acho que vai dar certo.

Orson Welles e a cobertura jornalística da greve dos caminhoneiros

Filas quilométricas de carros ao redor de postos de gasolina. Prateleiras esvaziando nos supermercados. Muita gente aglomerada em paradas de ônibus. Estas cenas tomaram conta da televisão brasileira nos últimos dias. Cenas que até então só eram transmitidas na editoria internacional, para relatar a aproximação de um furacão nos Estados Unidos ou para falar da crise econômica da Venezuela. Com relação à primeira descrição, entende-se como reflexo de defesa humana contra um fenômeno da natureza. Com relação ao segundo cenário, sempre senti a falta de mais explicações sobre as causas que levaram a população venezuelana aquele desespero todo. No imaginário comum, o resumo é raso: culpa do governo comunista bolivariano. Ok, mas alguém sabe exatamente o porquê da crise econômica da Venezuela, relacionado aos embargos internacionais e a queda do barril do petróleo? Sinecramente, gostaria de saber mais. Mas aqui, no Brasil, só recebemos o recorte sobre as consequências, como se não houvesse causas.

Neste momento em que a TV mostra o caos instaurado no nosso país, sinto falta do mesmo. Entendo como papel da imprensa brasileira mostrar os reflexos da greve dos caminhoneiros: paralisações nas estradas, falta de combustível nos postos, diminuição de produtos nos supermercados, mudanças nos horários do transporte público, etc. Mas isso não é todo o papel! Os veículos de comunicação também devem aprofundar o debate, mostrando à população a causa da greve, o porquê da alta nos combustíveis, explicar de que forma as ações político-econômicas do governo Temer fizeram o preço do combustível ser alterado tanto nos últimos meses. Sendo autocrítico com minha classe (jornalística), vejo pouca análise e muito alarmismo. Inevitável não lembrar de quando Orson Welles leu “A Guerra dos Mundos” no rádio e centenas de estadunidenses saíram às ruas, desesperadas pelo fato de a Terra estar sendo invadida por marcianos. A diferença é que os brasileiros não correm dos ETs, mas para estocar alimentos e combustível.

Minha bronca não é de agora. Reclamo dos meus colegas de profissão que usam o noticiário para resumir a greve de professores contrários ao parcelamento de salários em pais insatisfeitos com as escolas fechadas e paralisação das aulas. Ou ainda aos informativos que tratam de um protesto por moradia em simples boletins de trânsito engarrafado. Estamos acostumados a tratar e ver a notícia sempre pelo viés do reflexo, poucas vezes analisando a causa. Isso explica o quão rasos os debates se tornaram, costumeiramente carimbando um protestante como “vagabundo” que atrapalha o direito de ir e vir – sem querer entender o motivo que o levou a estar ali se manifestando contra algo e ignorando o artigo 5° da Constituição Federal, que permite o direito ao protesto. Por desconhecimento ou falta de interesse, se recorre ao pedido de intervenção policial e/ou militar para acabar com a “baderna”. Eis que chegamos ao momento atual, onde caminhoneiros insatisfeitos com a alta do preço do combustível fecham rodovias, tendo entre eles simpatizantes do retorno da ditadura militar. Inocentemente incoerentes, qual a surpresa terão caso Temer realmente use a força do Estado para fazê-los rodar novamente? E digamos que isso realmente aconteça, o que vai passar na TV: flashes ao vivo da guerra civil nas rodovias, com enquetes pedindo o posicionamento da classe média brasileira, se concorda com a reivindicação dos caminhoneiros (afinal de contas ela também está sendo afetada pela alta do combustível) ou segue defendendo que a polícia acabe com mais outra “baderna”, que desta vez paralisou o país? E assim seguiremos o ciclo vicioso da mídia nacional, ao melhor estilo Orson Welles: muita consequência e pouca causa. Fujam para as colinas!

O machismo grenalizado

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Quem não é do Rio Grande do Sul talvez não entenda – ou talvez entenda se trocar os clubes daqui pelos de sua região. Aqui, todas as causas estão abaixo do futebol. Racismo, machismo, homofobia, xenofobia, preconceitos em geral… Nada mais indigna um gaúcho do que supor que seu time (ou alguém ligado a ele) esteja sendo vítima de uma jutiça seletiva. Eis a chamada “grenalização”. Debochamos diariamente de homossexuais, mas se alguém chama um jogador do meu clube de “viado” (assim mesmo, com i), eu denuncio aos quatro ventos que há um caso de homofobia ocorrendo. Somos todos contrários ao racismo, mas se um cara que torce para o mesmo time que eu chamar um jogador rival de “macaco”, certamente ele teve um motivo plausível. Afinal de contas, por que diabos aquele goleiro demorou para chutar o tiro de meta? Ou por que aquele zagueiro falhou bisonhamente na hora do gol deles? O mesmo se passa com o machismo. Esse “mimimi”, coisa de feminista lésbica e esquerdopata, vira motivo pra eu reivindicar a demissão de um jornalista – desde que esse cara não torça para meu clube. Se ele for meu companheiro de arquibancada, relembro outros casos de machismo explícito que nunca deram em nada para absolvê-lo.

Este último exemplo ocorreu recentemente no rádio pampeano. Tenho apreço pela inteligência e capacidade de comunicação do historiador Eduardo Bueno, o “Peninha”. Já comprei alguns de seus livros, vejo seus vídeos no YouTube e o considero um monstro no que faz! Recentemente, conheci-o pessoalmente no Mundial de Clubes em que o Grêmio participou. Vi um fanático torcedor, muitas vezes inconveniente em nome de sua paixão. Mas quem sou eu para julgar qual tamanho deve ter sua paixão, né? Enfim, não tenho procuração para atacá-lo ou defendê-lo. No episódio com a jornalista Eduarda Streb, a Duda, penso que ele fez uma brincadeira ao dizer “volta para a cozinha”. Quis justamente fazer uma caricatura de um velho machistão que perdia o argumento contra uma mulher em um debate futebolístico. Porém, este tiro saiu pela culatra. Nem todos sabem que se trata de uma brincadeira. O machistão imitado por ele, sorri ao ouvir e pensar que a frase referenda o seu comportamento diário. A menina que sonha em ser jornalista esportiva toma um pontapé no queixo porque vê surgir a barreira invisível que lhe afasta do mundo futebolístico – aquele universo frequentado por brigões e beberrões. Portanto, foi uma brincadeira machista, de mau gosto e que reforça preconceitos. Com ou sem pedido de desculpas, o estrago estava feito. Duda chorou.

O choro dela tem motivo. As mulheres são minoria no futebol, no jornalismo, no mercado de trabalho… mas ao mesmo tempo, são maioria na sociedade brasileira. Felizmente, essa realidade vem mudando nos últimos anos, mas ainda é injusta. Por isso, mandar uma jornalista voltar para a cozinha, para cuidar do lar, é dizer que ela não é capacitada para estar no estúdio de rádio por conta de seu gênero. É tão ofensivo quanto dizer que um negro não está capacitado para discutir política, já que os negros são minoria nas prefeituras, câmaras municipais, assembleias, no Congresso ou Senado – como se o fato de não estarem lá fosse culpa da melanina, e não da própria sociedade que lhe nega espaços justamente pelo tom da pele.
Mas nós, gaúchos, não nos importamos com esses preconceitos quando acontecem no âmbito futebolístico. O gremista fanático como Peninha viu nele um injustiçado, já que tantas outras barbaridades são ditas diariamente nas ondas do rádio, mas só ele foi repreendido. O torcedor do Inter, por sua vez, quer o linchamento digital de Peninha. Afinal, ele é um gremista chato e fez uma colorada chorar. Os poucos que já leram sobre Simone de Beauvoir, que foram picados pelo mosquitinho chamado feminismo, entenderam que se tratou de uma agressão. Tarde demais! Foram tragados pela grenalização e são intimados a responder por que não se indignaram quando, em casos anteriores, um jogador do clube Y foi vítima de racismo, xenofobia ou homofobia. E os casos são muitos realmente! O ambiente do futebol é este: conservador e preconceituoso. E quem luta para combatê-lo é hostilizado, chamado de gremista ou colorado – dependendo da camisa da vítima e do agressor em questão.

Sou homem e já fui muito machista. Hoje sou menos, mas ainda sou – e não me orgulho disso, mas admito. Resquícios da minha formação, inserido neste mundo, que me ensinou a repetir comportamentos. Peninha também passou pelo mesmo. E como ele é um cara com inteligência acima da média, espero que tenha se dado conta da mancada que deu e passe a, assim como eu, se autopoliciar. Não merece ser linchado. Para acabar (ou diminuir os preconceitos), o primeiro passo é dar-se conta dos seus próprios preconceitos. O segundo é controlar-se para não repetí-los. O terceiro (e final) é repreender quem o faz – mesmo por brincadeira. Independente da cor da camisa!

2018 pode ser a eleição dos votos em branco, nulos e abstenções

filipe

Causou-me surpresa uma pesquisa eleitoral encomendada pela Band e divulgada nesta terça-feira. Nela, o Ibope apresentou em quem os paulistas votariam. Não foi surpreendente ver o tucano João Dória (PSDB) e o ‘homem do pato amarelo’, Paulo Skaf (MDB), empatados tecnicamente para o governo do Estado de São Paulo, com 24% e 19% – embora seja desanimador. Tampouco fiquei boquiaberto com o fato do petista Eduardo Suplicy aparecer atrás – 32% contra 33% – do apresentador José Luiz Datena (DEM) na corrida ao Senado. O Rio Grande do Sul, onde vivo, também elegeu jornalistas nas duas últimas eleições: Ana Amélia Lemos (PP) e Lasier Martins (PDT). Quanto à presidência, também não causou estranheza ver Lula (PT) liderando com 22%. Muito menos, no cenário sem o ex-presidente, constatar que Jair Bolsonaro (PSL) é o preferido de 16% – à frente de Geraldo Alckmin, com 15%. Então, afinal de contas, o que me causou a tal surpresa?

Acontece que na disputa por todos os quadros, a porcentagem de votos em branco e nulos era maior que a dos candidatos citados. Na pesquisa para o Governo do Estado, foi 37% – 13 a mais que o líder Dória. Para o Senado, 46% – 13 a mais que Datena. E para
presidente, no cenário sem Lula (o mais provável), são 26% – 10 a mais que Bolsonaro. Embora seja uma pesquisa limitada ao território paulista, não deixa de expressar a onda de insatisfação e falta de crédito que atinge a política nacional. Já foi possível perceber este fenômeno já no pleito municipal de 2016, quando os principais candidatos apareceram atrás dos votos brancos, nulos e abstenções somados. Isso aconteceu no Rio de Janeiro (42,54%), Belo Horizonte (43,14%) e Porto Alegre (38,4%), por exemplo, quando os dois candidatos que passaram ao segundo turno apareceram atrás do voto em ninguém. Seria um indício de que em 2018 essa conta pode se tornar ainda maior?

Até hoje, nenhuma eleição presidencial apresentou o maior índice da trinca branco/nulo/abstenção do que o pleito em que Fernando Henrique Cardoso (PSDB) se reelegeu – foram 40,19% do eleitorado brasileiro em 1998. Nos outros anos, o resultado foi o seguinte:
– 1989: 17,76%
– 1994: 36,56%
– 2002: 28,13%
– 2006: 25,16%
– 2010: 26,76%
– 2014: 29,03%

Confirmando-se minha suspeita de que em 2018 bateremos o recorde nacional, será um atestado sobre a enfermidade que assola a democracia brasileira. Não que seja proibido anular o voto, votar em branco ou simplesmente se abster; mas demonstra o descrédito na classe governante, além da raquítica educação política da população brasileira que pensa estar exercendo o ‘voto de protesto’. O desinteresse pelo sufrágio universal é perigoso! Afinal de contas, como já sentenciou o economista britânico Arnold Tonybee, “o maior castigo para aqueles que não se interessam por política é que serão governados pelos que se interessam.