Um mês sem a ficha cair

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Hoje faz um mês. Dizem que a ficha um dia vai cair. Mas o que isso significa? Ouvi teu nome completo nas rádios, vi tuas fotos no jornal e até um vídeo em que tu aparece na televisão. Parece mentira! Às vezes cruzo em frente ao teu prédio, achando que vou te abanar no portão e receber um convite: “E aí, bugrinho, quando é que vamos fazer um churras?!“. No último protesto parei na esquina, com uma garrafa de cerveja na mão, acendi um cigarro em tua homenagem e fiquei te esperando passar. Não vieste! Cheguei a ouvir tua voz perfeitamente gritando junto com todo mundo: “Fora Temer! Fora Temer!“.

Não te culpo pela ingenuidade. A vítima nunca é a culpada! Nem sinto raiva de quem te arrancou à força do mundo. Aliás, consigo te imaginar sentado na mesa de um bar, às risadas (e ouço a tua gargalhada), contando como foi que escapaste dessa enrascada. Seu louquinho! Por isso, não brado pela pena de morte – sei que tu também era contrário a ela. Queria que o M.S.M (25 anos) – conforme a polícia divulgou – entendesse a bobagem que ele fez. Que se arrependesse de ter nos privado de conviver mais um pouco contigo. Quem sabe ele próprio, se tivesse ficado mais algumas horas, dias, semanas e meses ao teu lado, iria aprender como a vida merece ser plenamente vivida. Este é o ensinamento que me passaste, mesmo sem querer. Deu vontade de ir à praia? Vamos! Está de folga no final de semana? Vamos ao Uruguai! Ou ao Rio de Janeiro! E nem adianta marcar hora, porque tu sempre chegaste atrasado. Dorminhoco! Sou uma pessoa melhor graças ao tempo em que pude conviver contigo. Uma pessoa mais tolerante, feliz, com a mente aberta…

Não adianta! Por mais que eu tente imaginar como seria o último mês contigo ainda presente, penso que estarias menos alegre. Aconteceram algumas coisas por aqui que tu não concordas. O cerco está se fechando! As pessoas estão cada vez menos parecidas contigo – menos ingênuas, mais intolerantes, odiosas, caretas… Falei para tua mãe e repito: não pertencias a este mundo! E como era bom quando tu me convidava para entrar neste teu mundo diferente, nem que fosse por algumas horas. Uma cervejinha gelada no congelador, uma música de fundo no radinho ao lado da cama, a televisão no mudo e a porta da sacada aberta para entrar um vento. Assim te imagino descansando para sempre. Mas se quiseres reaparecer e contar que tudo foi mentira, fique à vontade: tem Comitê Latino-Americano nesse final de semana!

 

 

 

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Empresários pagadores de propina ou povo trabalhador?

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Foto: Alan Santos/PR

Imagina que louco seria se, num país onde se “descobriu” que grandes empresários pagavam propina e cobravam favores de políticos (e onde também se “descobriu” que o presidente se reunia às escondidas, à noite, com um destes grandes empresários), o presidente da República – com vários pedidos de impeachment -, juntasse os líderes das bancadas partidárias, pedindo pra acelerar votações na Câmara dos Deputados?

Agora imagine que, coincidentemente, até estourar o último escândalo de corrupção, a principal meta deste presidente era votar as reformas previdenciária e trabalhista. E que o presidente da Comissão da reforma da Previdência, indicado pelo partido do presidente, é o mesmo deputado que foi à Ordem dos Advogados defender o tal presidente de um pedido de impeachment.

Considerando tudo isso, eu faria uma única pergunta: as reformas trabalhista e previdenciária interessam realmente ao povo trabalhador ou aos empresários que financiam estes políticos?

Atenção! A implosão de Temer não pode ser a implosão da democracia

bazar.jpgNão há motivos para festejar. A bomba que caiu sobre Brasília neste 17 de maio de 2017 é motivo de preocupação para todos nós, coxinhas, mortadelas ou o que seja. Não quero dizer com isso que devamos ignorar a crise política e manter Michel Temer na presidência da República pelo bem da recuperação econômica – como já sugeriram alguns anteriormente. O mais novo escândalo (agora com direito à gravação) merece ser tratado com rigor, sim: saída imediata do presidente, seja por renúncia ou por impeachment. Mas e aí, o que será feito depois? É preciso atenção! O momento delicado que vive o Brasil é um prato cheio para quem odeia a democracia. Não faltarão adeptos do velho pensamento mágico: “ah, se os militares estivessem no poder…“. De fato, se os militares estivessem no poder, a imprensa jamais teria publicado a notícia desta noite. Não por que a corrupção estivesse findada. Não! Simplesmente porque estaríamos todos de olhos vendados e com mordaças sobre a boca (talvez literalmente!). Ou você acha que as empreiteiras agiram licitamente na construção de obras faraônicas, como a Rodovia Transamazônica, nas décadas de 60 e 70?

Pela legislação nacional, com um possível afastamento do presidente, Rodrigo Maia (do DEM, presidente da Câmara dos Deputados, e pertencente à base governista de Temer) assumiria a cadeira e convocaria eleições indiretas. Ou seja, deputados e senadores escolheriam o novo presidente. Não eu ou você! Mais ou menos como colocar um grupo de raposas a cuidar da porta do galinheiro. Por exemplo, o que os impediria de um grande conchavo, como os já feitos atualmente? Ou pior: mudar as regras do jogo e esta pessoa eleita ficar por mais 4 anos, adiando o pleito agendado para 2018. Mas enfim, se é para ser inconstitucional, digamos que a melhor saída seja eleições gerais e diretas. Pois bem, neste caso, as últimas eleições municipais já deram pequenas amostras do que pode vir pela frente: uma grande desilusão com a classe política e a famosa frase de que são todos “farinha do mesmo saco“.

Dos consagrados, Aécio Neves (PSDB) é carta fora do baralho até no próprio partido depois de também ter sido gravado. Para Lula (PT), seria questão de tempo até o próximo pedido de impeachment. Marina Silva (REDE) mudaria de opinião quantas vezes sob a batuta dos líderes religiosos? E então voltemos aos saudosistas verde-oliva: aqui entra Jair Bolsonaro (hoje PSC). O “mito” dos preconceituosos e truculentos – que parece engraçado quando retratado por programas humorísticos – tem sérios problemas em lidar com o contraditório. Seria este o apaziguador da democracia brasileira? Óbvio que não! Aí entram os “outsiders“, aqueles fora do bojo político. Alguém que você nem imagina, talvez alguém que você nem conhece, pode ser o novo presidente da República daqui alguns meses. Esta pessoa pode estar sentada ao seu lado agora. Ou apresentando o programa de TV que você sabe que existe, mas nem assiste. Pode ter dado entrevistas durante o programa esportivo do final de semana e até feito um gol importante de repente. Pode ter sido cirurgião plástico, juiz federal ou palhaço de circo. Por isso, não se pode nem brindar a queda iminente de Michel Temer. Tempos difíceis ainda estão por vir!

Brasil, a pátria de luvas de boxe

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Por muito tempo se pensou o seguinte: “ah, se o brasileiro se importasse tanto com político como se importa com futebol, o país não estava desse jeito“. Ledo engano! De uns tempos para cá, os botecos deixaram o Fla-Flu de lado para discutir se Lula sabia ou não da corrupção na Petrobrás. No ponto de táxi, o assunto não é mais o gol perdido pelo atacante, mas a mais nova delação premiada. Ninguém mais critica tanto o juiz que validou um gol com a mão, mas espuma ao ler sobre a última decisão do STF. Arrisco dizer que, desde a reabertura política, o brasileiro nunca se preocupou tanto com política como agora. Acontece que a maneira com que se acompanha o noticiário político é idêntica a como acompanhava o noticiário esportivo: como mero torcedor, cego de raiva ou paixão, sedento pela vitória a qualquer custo. E sei do que estou falando! Como cronista esportivo, sofro cada vez que tento fazer uma análise, tecer uma crítica/elogio a algum jogador, técnico ou clube de futebol. Mesmo que me poste de maneira respeitosa, soa como ofensa ao ouvido do torcedor. Por quê? Porque ele não assiste/lê/ouve, ele digere com o estômago.

Nelson Rodrigues estava errado. O Brasil não é e nunca foi a pátria de chuteiras, mas a pátria das luvas de boxe. Não porque gosta mais deste esporte que do outro, mas porque prefere o embate em si – seja sobre o que for. E tal pensamento não se resume somente ao brasileiro médio. Há jornalistas que também gostam de ver o circo pegar fogo, da discussão rasa. E cito a profissão de jornalista pressupondo que são pessoas com ensino superior completo, portanto capazes de escrever e interpretar textos que fujam do senso comum. Outro engano! Nosso esporte preferido nos impede de colocarmos a razão à frente da emoção, e nos impele a este maniqueísmo pobre que separa um em cada canto do ringue. Exatamente como fizeram na última semana as capas das revistas Veja e IstoÉ (duas das maiores do país). Queria eu ter a segurança de muitos brasileiros e me posicionar contrário/a favor de Lula/Sérgio Moro. Não consigo ver tão somente uma perseguição política na investigação sobre desvios de dinheiro público e influência de poder no mandato do ex-presidente, assim como não consigo aplaudir as ações do juiz que ultrapassam a linha constitucional – como vazamento seletivo de conversas telefônicas. Isso me faz alguém medroso, que fica em cima do muro? É, no mundo raso do futebol costuma se chamar de “muraldino” aquele que não se posiciona sobre um determinado assunto. Logo, como o debate político ganhou ares futebolísticos, virei “muraldino” por não escolher nenhum dos lados.

Mas, como já escrevi antes, o próprio papel da imprensa está enviesado. Como sou jornalista, sei: a isenção é uma mentira. Isso, porém, não quer dizer que vou me comportar como um torcedor de clube de futebol ou como um filiado a partido político. Posso tranquilamente gostar de ver um time jogar em uma determinada temporada por causa de tal metodologia de trabalho, assim como acabo votando em um determinado candidato pela conjuntura ou projetos apresentados. Entretanto, no papel de repórter, não tomo partido. Apenas ouço as partes. Como comentarista, aí sim, devo me posicionar (sem cegueira ou raiva). O problema está no conceito editorial. Como puderam as duas revistas acima citadas colocarem um pré-candidato à presidência prestes a lutar contra um juiz federal? Para facilitar o processo, te convoco a imaginar o seguinte cenário. Teremos a final de um campeonato no final de semana, e o caderno de esportes de um determinado jornal traz o ídolo de um dos times desafiando o árbitro do jogo. Algo como: “D’Alessandro versus Leandro Vuaden” ou “Danrlei contra Carlos Simon“. E o representante do outro time, o outro finalista, está aonde? Este deveria ser o enfoque! Enfim, seria louco (para não dizer parcial) até para os padrões do jornalismo esportivo ver uma capa dessas. Mas, como o futebol já é passado, vamos fazê-lo com a política. E que se rale o noticiário e a análise fria das informações. Queremos mesmo é urrar do lado de fora do ringue até que um dos boxeadores desabe na lona!

A dívida que eu não paguei no Rio de Janeiro

 

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Resolvi passar parte das minhas férias no Rio de Janeiro. Paguei tudo à vista – desde as passagens compradas com meses de antecedência, quanto a reserva do hotel, quanto a bebida ou os almoços que consumi durante esses dias de estadia. O que não consegui pagar foi a dívida que a cidade tem (o Brasil tem, de um modo geral). E talvez nunca se pague por isso: o povo negro segue em condições subumanas e a distância de tratamento e de condições de vida é abissal.

Como turista, visitei a Praça Mauá e o Porto Maravilha, no Centro Histórico do Rio, que foram revitalizados para receber os Jogos Olímpicos em 2016. Eis que fui saber que este mesmo local, que hoje ostenta a frase “RIO_TEAMO“, serviu como porta de entrada para os negros que eram trazidos à força da África e vendidos como escravos na então capital federal brasileira. Foi o maior porto negreiro das Américas! Isso já serviria para deixar qualquer consciência pesada – mesmo de não cariocas, como eu. Contudo, basta seguir caminhando pela cidade para concluir que 1888 só fez cócegas na realidade nacional. A escravidão ainda deixa suas marcas expostas, em uma dívida gigantesca que, para ser paga, será preciso zerar a conta praticamente. Onde a meritocracia demorará a chegar. Segundo o censo do IBGE de 2010, 48% da população do Rio de Janeiro (capital) é de negros ou miscigenados. Na zona sul, nos bairros de Copacabana, Leme, Ipanema, Leblon, etc, esta conta cai para 17%. Ou seja, eles estão concentrados na zona norte e, principalmente, na região dos morros. Literalmente, foram marginalizados – estão à margem da sociedade (ou do Centro, das zonas onde o dinheiro se concentra). Acontece que, mesmo que alforriados há mais de um século, os negros não são aceitos de imediato no meio social. Ainda são quem mais é abordado pela polícia, quem mais rende olhares de desconfiança na praia, quem mais tem de trabalhar e ao mesmo tempo quem menos recebe.

Dei-me conta disso quando, dando continuidade às minhas férias, deitado nas areias do Leblon, percebi que eu era uma das pessoas de tom de pele mais escuro naquele perímetro. Enquanto que, o cálculo se invertia quando observava os vendedores ambulantes, ou o pessoal das barraquinhas de aluguel de cadeiras e guarda-sol. Acontece que, mesmo depois de 1888, o negro ainda é quem ocupa o lugar de serviçal. Ainda é quem, em pleno feriado, caminha no sol para que o branco se divirta na beira do mar. Ainda perambula nas ruas sem ter o que comer. E, quando pede esmola, é enxovalhado. Mas se, por fome, ataca, é preso ou morto. No restaurante, vi babás negras almoçando com os filhos brancos dos patrões – tal qual amas de leite. No hotel, quando a porta do elevador se abriu, foi um negro quem pediu para segurar minha mala enquanto eu rumava para fechar a conta no guichê. Mas essa conta eu não vou conseguir pagar. É uma realidade triste e que talvez não mude tão cedo – ainda mais se você continuar fazendo de conta que não acontece, empurrando essa dívida para outras gerações pagarem.

Como foi bom nós dois!

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Talvez eu não tenha a mesma habilidade da Milly Lacombe em comparar o término de um relacionamento com a morte de uma estrela. Mesmo assim, precisava externar (e tentar mostrar para nós mesmos) o quanto a concepção de casamento está errada. O “viveram felizes para sempre” é o que nos fode. Não somos os príncipes e princesas da Disney. Ninguém é. Somos apenas as crianças que cresceram lendo estes livros. E os leitores sofrem, se apaixonam, caem no marasmo e sentem vontade de se apaixonar de novo. Quem disse que nosso relacionamento deu errado? Demos foi muito certo! Curtimo-nos durante sete anos. Sete! Número cabalístico, ainda por cima. E como escreveu Vinícius de Moraes – que viveu ao pé da letra tudo isso nos seus tantos amores -, fomos eternos enquanto duramos.

Quando olho para trás, lembro do quanto me fizeste evoluir como homem e ser humano. Dos ‘papos-cabeça’ que tivemos nas mesas dos bares – nem sempre concordando um com o outro. Aliás, debater contigo foi meu melhor exercício para aceitar o quanto o outro pode ser diferente. E algumas vezes até me convenceste a ser um pouco mais como tu. Quero levar comigo a recordação dos grandes porres, das comilanças, dos filmes que tu dormiste no meio, das gargalhadas sem sentido, das semanas intensas de sexo, das aventuras pelo mundo, dos amigos que conquistamos, dos inimigos que praguejamos. Teus medos foram meus, minhas raivas foram tuas, minhas camisas te serviram como pijama e as tuas saias foram minha fantasia de Carnaval. E pensar que começamos pelo avesso, né?! Conhecemo-nos prometendo que era proibido se apaixonar – quando eu cheguei no primeiro encontro carregando cerveja e tu me esperavas com vinho, parecia que seria fácil. Mas eu fui fisgado pelo teu gosto musical e ouvi tu balbuciando que me amavas durante o sono. Fiquei feliz por não estar sozinho nesse sentimento e meses depois fomos morar juntos. A pior escolha! Ali quase nos matamos. Brigávamos tanto, eu era tão ciumento e tínhamos um contrato de aluguel a cumprir. Mudamos de casa, adotamos um casal de cachorros na rua, fizemos planos de ter um filho (ou filha), estourei a champagne da tua formatura, me orgulhei da profissional que te tornasse e sei que tens orgulho de mim também. Quando pensaram que éramos o “casal 20”, nos reinventamos! Saíste de casa para morar sozinha, eu concordei e nosso fogo reacendeu! Voltamos a namorar. Permitimo-nos tantas coisas e nos conhecíamos barbaramente. Quando pensaste em outra pessoa, eu descobri quem era porque também achava-o bonito. Quando foi minha vez de querer alguém, tu também descobriste. Estávamos quase um no cérebro do outro, tamanha nossa cumplicidade. Esse foi o nosso fim? Não, só fez parte do processo lindo que nos tornou quase uma pessoa só.

Então como podemos acabar? Simplesmente porque todas as coisas acabam. Lembra do que a Cássia Eller cantou: “que o pra sempre sempre acaba“? Eu não conseguiria viver ao teu lado sendo uma sombra do que fomos. Seria desrespeito com nós mesmos. É como manter um girassol morto no canto da sala só porque um dia ele foi bonito. Dá pena, mas o ciclo da vida é esse: brotamos, florescemos e caímos por terra. E sabe o que é mais incrível? Eu ainda te amo. Vou seguir comemorando tuas conquistas, sorrindo com tua felicidade e sofrendo quando chorares. Nossa saúde mental é que vai dizer o quanto seremos próximos a partir de agora. E é desse jeito que tem que ser. Quantos casais seguem juntos até a morte e não têm a metade do que nós temos? Cruzam pela casa como desconhecidos, se insultam, não trocam carinhos. Eu não queria ficar assim, acomodado numa relação doente, mas cheia de charme para quem vê de fora. Agora dói, eu sei, mas um dia sentaremos para rir disso tudo e concluir sem tristeza: como foi bom nós dois! Não é que quase chegamos lá, nós chegamos e sobrevivemos para contar a história.

Nacionalismo xenófobo é tendência mundial

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Antigamente, ao me deparar nos livros de história com a figura de Hitler e o nazismo na Alemanha, sempre me questionava: como os alemães deixaram que isso acontecesse? Causa-me espanto como um povo civilizado pode referendar um governo que se guia pelo ódio a uma raça diferente da sua. Devo não ser o único com esta reflexão. Mas hoje, aprofundando-me na leitura, entendo que aquele não foi um fato isolado. Primeiro houve o fascismo de Mussolini na Itália. Depois, veio Salazar em Portugal. Por fim, após Hitler se tornar chanceler alemão, veio Franco na Espanha. Todos eles extremamente nacionalistas e xenófobos. Convenhamos, algo não muito diferente do que começa a se viver no mundo atualmente.

O que é a xenofobia? Vem do grego: xénos (estrangeiro) + phóbos (medo). A eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, por exemplo, já foi guiada por essa corrente – suas principais promessas são deportar os muçulmanos e construir um muro na fronteira com o México. Ou seja, medo (ou aversão) ao estrangeiro. Nesta quarta-feira, foi a vez dos holandeses ouvirem o “canto da sereia”. Geert Wilders, do Partido da Liberdade (??), apresentou-se com ideias contrárias à imigração principalmente de muçulmanos aos Países Baixos. Liderava as pesquisas, mas na eleição que renovou as cadeiras do Parlamento, acabou sendo derrotado pelo Volkspartij voor Vrijheid en Democratie (VVD), ou Partido Popular para a Liberdade e Democracia, do atual premeiro-ministro. O curioso é que este não é necessariamente um partido de esquerda. Não, é um partido conservador liberal que, só subiu nas pesquisas até alcançar a vitória após ações do premiê Mark Rutte, que criou uma crise internacional com a Turquia após barrar ministros turcos de participarem de comícios em Roterdã. Ou seja, deu à população o que ela queria: a aversão a estrangeiros. É óbvio que não houve uma vitória neste caso.

E assim deverá seguir na Alemanha, onde Frauke Petry (do Alternative für Deutschland – Alternativa para a Alemanha) defende ideias semelhantes: fechamento das fronteiras e restrição à entrada de muçulmanos. Igualmente na França, onde Marine Le Pen (da Front National – Frente Nacional) concorrerá à presidência. A ordem para barrá-los é expressa: absorver parte de suas ideias para cair no gosto popular. No Brasil, ainda não sofremos com o temor pelo terrorismo, portanto nossas “causas” são outras. Mesmo assim, não é difícil ver semelhanças entre os discursos acima citados com os de Jair Bolsonaro, Levy Fidelix e outros fanáticos que já deixaram há tempos de ser uma caricatura engraçada. Surfam na crista da onda mundial, isso sim. Que os livros de história nos perdoem!

Goleiro Bruno e a espetacularização do ex-presidiário ao invés da ressocialização

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O roteiro é digno de Anthony Burgess e poderia ser uma continuidade da sua maior obra: ‘A Clockwork Orange’ (Laranja Mecânica, em português). Nem seria tão bem filmado por Stanley Kubrick como a vida real apresentou. A contratação do goleiro Bruno, ex-Flamengo, pelo clube mineiro Boa Esporte, é o espetáculo do grotesco. Não há nada de ressocialização ali. Para quem não lembra, Bruno foi condenado a 22 anos e 3 meses por ter mandado matar Eliza Samudio, mãe de seu filho – homicídio triplamente qualificado, sequestro e cárcere privado. No entanto, recorreu e, a partir da decisão do ministro do STF, Marco Aurélio Mello, ganhou habeas corpus para aguardar em liberdade o julgamento em segunda instância. A história por si só já seria absurda, eis que aparecem vários clubes interessados em contratá-lo.

Sou um defensor da ressocialização de presos. Acredito que, na maioria dos casos (com exceção à psicopatia), o ex-presidiário tem de ser reinserido na sociedade, ter direito a um emprego e não sofrer preconceito por seu passado pregresso. Desde que, obviamente, esteja arrependido do que fez e passe por um acompanhamento psicológico. Contudo, no caso de Bruno, sua contratação agora serve apenas como marketing ao clube – uma promoção de imagem grotesca, diga-se de passagem! Sim, pois não podemos acreditar que um clube de futebol realmente leva a sério a contratação de um atleta que há 7 anos não pratica esportes. Logo, Bruno deixou de ser um atleta. Se a intenção do presidente do clube era estender a mão e ajudar o ser humano, faria sem alardes. Poderia inclusive contratá-lo como preparador de goleiros, quem sabe. Não quero a prisão perpétua e nem a morte de Bruno. Nem sei qual sua escolaridade, mas no caso de não haver curso técnico ou superior como na maioria dos jogadores brasileiros, existem tantas outras funções que ele poderia exercer inicialmente no mundo do futebol: segurança, roupeiro, faxineiro, cortador de grama, etc. Não a de goleiro, que deixou de praticar há sete anos! Portanto, para o clube, anunciá-lo com pompas é uma maneira de usar em benefício próprio o holofote que Bruno já teria por si só. Além disso, possibilita que ele mantenha o status de ídolo, batendo “selfies” com desmiolados pelo país afora. Convenhamos, grotesco e vergonhoso!

O caso do goleiro Bruno é a prova viva de que o Brasil é um país machista. A postura da imprensa esportiva, na sua maioria formada por homens, também decepciona. É impossível tratar com normalidade que um cidadão que responde por assassinato de uma mulher seja encarado como atleta – mesmo que não pratique futebol profissionalmente há quase uma década. Dos programas de TV sensacionalistas, nem posso reclamar. Eles já se alimentam do fútil e grotesco normalmente, interessando-se muito mais pelo que Bruno vai almoçar ou vestir no seu retorno às ruas do que no desenrolar jurídico do caso e o que ele tem a dizer sobre o desaparecimento de sua ex-amante. Aliás, não sobraram comentários incriminando Eliza desde o ocorrido, em 2010: “ela também não era santa!“, “era Maria Chuteira!“, “fez até filme pornô!“, “ela extorquiu dinheiro dele!“. Nada disso justifica. Já ao Bruno, o pensamento é amenizador. Foi um bom goleiro, então pouco importa o que ele fez desde que seja útil ao futebol. Afinal de contas, “quem nunca saiu na mão com a sua mulher?” (como indagou o próprio em entrevista coletiva nos tempos de Flamengo).

Homem, não dê parabéns às mulheres. Junte-se a elas!

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Você daria parabéns a alguém que protesta? Pode até se compadecer da reivindicação, concordar com sua luta, mas dar parabéns é algo meio sem nexo, não? Por isso, não dê parabéns às mulheres neste e nos próximos dias 8 de março. Na verdade, a data é simbólica. O Dia Internacional da Mulher já foi 19 de março na Alemanha, Áustria, Dinamarca e Suíça – isso quando instituída a data após reunião ocorrida em Copenhague, em 1910. Portanto, o dia específico pouco importa! O que interessa é a ideia.

Originário dos protestos por melhores condições de trabalho e direito ao voto feminino, o Dia Internacional da Mulher também deu origem à Revolução Russa em 1917, que derrubou o czar Nicolau II, último imperador da Rússia, e instituiria o governo soviético. Por isso, tem sua raiz nos partidos comunistas e socialistas. No Brasil, não é diferente. Não à toa, passeatas foram organizadas pelas principais ruas das cidades (entre elas, Porto Alegre) neste 8 de março. O que me surpreende é que o enfoque jornalístico a estas manifestações ainda esteja viciado ao boletim de trânsito. Ok, é informação importante a quem trafega pela Capital, mas e o simbolismo da data? Cadê o resto, e mais importante: a pauta reivindicada? Se a origem do Dia Internacional da Mulher é o protesto, por que recriminá-lo? Por isso, repito: não dê parabéns às mulheres. Junte-se a elas! Apoie-as!

De nada adianta homenagear, dar espaço e voz às mulheres somente no dia de hoje. Segundo o IBGE, 51,4% da população brasileira é formada por mulheres. Se são maioria, aonde elas estão que não ocupam mais governos, prefeituras, secretarias e ministérios? Antes que você abra a boca, não, não é por falta de preparação ou capacidade intelectual. Acontece que seguimos com conceitos pré-moldados de que a mulher é sensível, frágil, histérica quando nervosa, subalterna, inferior ao homem – sintetizada na frase preconceituosa do “isso não é lugar para mulher”. O lugar para a mulher é aonde ela quiser: política, futebol, administração de empresas, escolas, hospitais, tribunais, redações jornalísticas e até na cozinha (se assim ela desejar). Isso é o feminismo. Ele que garantiu o direito ao voto, o direito a vagas no mercado de trabalho, a salários equivalentes, etc. Não se trata de uma guerra entre sexos, mas de um grito por igualdade, liberdade, independência e respeito. Mas como disse Simone de Beauvoir: “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.

Menos mal que os fascistas não são ateus

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É melhor ser ateu do que católico hipócrita“, disse o Papa Francisco em discurso na manhã desta quinta-feira, referindo-se a pessoas que vão à missa, dizem-se católicos, mas têm “negócios sujos” e se “aproveitam das pessoas“. Para mim, um ateu assumido, é tão bom ouvir/ler isso vindo de um papa. Digo isso porque, quando resolvi me declarar ateu aos amigos e família, foi inicialmente um choque. “Então és um adorador do diabo!?“, não, pois não acredito nem em deus ou no diabo. “Achei que tu era uma pessoa boa“, sim, continuo sendo, pois a ausência de uma religião não me obriga a sair por aí maltratando pessoas. Pelo contrário! O que vimos e continuamos vendo nos últimos tempos é exatamente o contrário. E é exatamente este o ponto que ainda nos salva: a hipocrisia de quem se diz cristão, mas age como um fascista.

Educado por pai e mãe cristãos, Adolf Hitler não seguia uma Igreja específica, mas acreditava em Deus e até mandou colocar a seguinte frase nas fivelas dos uniformes militares alemães: “Gott mit uns” (Deus está conosco). Na Itália, Benito Mussolini – o pai do fascismo – não só era católico como teve a Igreja ao seu lado para chegar ao poder. Relações semelhantes ocorreram na Espanha de Franco, em Portugal de Salazar – isso sem citar a Marcha com Deus pela Liberdade, que abriu as portas para o golpe militar no Brasil. Portanto, não é de hoje que o fascismo e o cristianismo estranhamente se abraçam. Mas repito: é a nossa sorte.

Cheguemos então aos exemplos modernos de fascistas. Embora moderados em relação aos citados anteriormente, são igualmente propagadores de anti-semitismo ou mensagens de ódio. Donald Trump, novo presidente dos Estados Unidos, é presbiteriano assumido. Ao mesmo tempo em que quer um muro na fronteira com México, quer derrubar a Emenda Johnson – que em 1954 definiu que líderes religiosos estariam proibidos de se manifestar politicamente. No Brasil, seu representante mais próximo é Jair Bolsonaro. Atualmente ligado ao PSC (Partido Social Cristão), promete concorrer à presidência e angaria seguidores com frases do tipo: “bandido bom é bandido morto“. Mas não se furta em questionar a laicidade do Estado brasileiro. Todos eles, segundo à frase do Papa Francisco que abre este texto, são religiosos “hipócritas” então. E pasmem, meus amigos, ainda bem que eles não são ateus. Fossem, não teríamos nenhum argumento para cessar as suas insanidades. Enquanto ainda se dizem cristãos – ou tementes a um deus da compaixão – ainda podemos questioná-los sobre a incoerência de seus atos e a palavra pregada por seus ídolos. Fossem ateus, seguiriam apenas os seus instintos. E aí, seriam apenas fascistas. Puros! Sem hipocrisia mesmo. Não que os ateus sejam maus. Pelo contrário! Os ateus não são é hipócritas. Se fazem o bem, é porque realmente o são. Se fazem o mal…